

Confisses de uma Irm de Cinderela

Gregory Maguire












Traduo
Roberto Muggiati









     
     
     
Para Andy Newman
     
     
     
     
     
     
      Se eu pudesse lhe contar, e fazer que cresse, 
      Uma menina num chapu vermelho, uma mulher de azul 
      Lendo uma carta, uma senhora pesando ouro... 
      Se eu pudesse lhe contar isso e fazer que visse, 
      E soubesse, e concordasse que foi assim mesmo 
      Numa cidade perdida atravs do mar dos anos, 
      Acho que seramos por um momento felizes 
      Na grande sabedoria daqueles pequenos quartos...
     
                                Howard Nemerov, "Vermeer",
                                de Trying Conclusions: Old and New Poems 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     

PRLOGO


Histrias pintadas em porcelana
     
     
     
     
C
oxeando para casa sob um cu encarneirado, me deparo com um grupo de crianas. Estavam jogando seus brinquedos ao ar, cada uma contando e interpretando uma histria. 
Uma pea sobre uma garota bonita que era desdenhada por suas meias-irms. Angustiada, a criana se disfarou para ir a um baile. L, a grande reviravolta: conheceu 
um prncipe que a adorou e iniciou um romance com ela. Sua felicidade eclipsava a situao difcil de suas meias-irms, cuja feira era motivo de grande caoada.
     Ouvi sem ser observada, pois os idosos so geralmente invisveis para os jovens.
     Pensei: como tudo isto se parece com alguma histria antiga. Tero estas crianas entreouvido seus avs revirando velhos mexericos sobre mim e a minha famlia, 
e esto os pequeninos transformando um deles numa histria de fadas domstica? Cheia de toques fantsticos: sapatinhos de cristal, uma fada madrinha? Ou esto as 
crianas se vestindo segundo um relato mais antigo, ao qual a saga da minha famlia se assemelha apenas acidentalmente?
     Nas vidas das crianas, abboras podem se transformar em carruagens, camundongos, e ratos em seres humanos. Quando crescemos, aprendemos que  mais comum seres 
humanos se transformarem em ratos.
     Nada na minha infncia foi encantador. A sorte que se debruou sobre nossas vidas foi cortesia do cime, da cobia e do assassinato. E nada na minha infncia 
foi encantado. Ou nada que eu pudesse enxergar na poca. Se a magia estava presente, ela se movia debaixo da pele do mundo, debaixo da capacidade dos olhos humanos 
de a divisarem.
     Alm do mais, que tipo de magia  essa, se no pode ser vista?
     Talvez todas as velhas desdentadas se reconheam vendo crianas brincarem. Mesmo assim, na nossa poca ns, meninas, raramente cabriolvamos nas ruas! No ramos 
mocinhas turbulentas, ns no! - ramos mais como srias novias numa abadia. Posso invocar uma prova muito apropriada. Posso espi-la como se fosse uma pintura, 
atravs do nebuloso aparato da mente...
     ...Num quarto, trs garotas, irms de certo modo, esto debruadas sobre um engradado. A tampa foi retirada e estamos remexendo no contedo. A camada superior 
so galhos de pinheiro espalhados. Embora tenham viajado uma longa distncia, as folhas ainda recendem a um ar da China, origem da carga. Ns sibilamos e recuamos 
- arrghh! Bichos cor de estreo, de algum lugar ao longo da Rota da Seda, se aninharam e se multiplicaram enquanto o navio rolava para o norte atravs da longa estrada 
do mar.
     Mas os bichos no nos interrompem. Esperamos encontrar bulbos para plantar, pois at mesmo ns, meninas, pegamos a febre. Estamos ansiosas por aqueles coraes 
acebolados que nos prometem as flores das tulipas. Seria esse o engradado errado? Debaixo das folhas de pinheiro, apenas um pilha de pesados pratos de porcelana. 
Cada um est embrulhado num pano spero, com mais galhos entremeados. O prato de cima - o primeiro - no sobreviveu intacto  viagem. Quebrou-se em trs pedaos.
     Cada uma de ns pega um pedao. Como as crianas adoram coisas quebradas! E um quebra-cabea  juntar os cacos, especialmente para as jovens, que ainda acreditam 
ser possvel.
     Mos adultas comeam a remover o resto do valioso servio de mesa Ming, como se em nossa impacincia pelos bulbos ns, garotas, tivssemos quebrado o prato 
de cima. Caminhamos para um canto,  luz do dia - pintem a luz do dia da infncia com uma cor de linho creme -, trs garotas  janela. As arestas do disco se atritam 
como giz quando as juntamos. Achamos que a imagem nesse prato conta uma histria, mas suas figuras so obscuras. Aqui a linha azul est borrada, ali  bem definida 
como o plo de um porco. Esta  uma histria de duas pessoas, ou trs, ou quatro? Estudamos o efeito geral.
     Fosse eu um pintor, capaz de preservar um dia da minha vida em tintas a leo e luz, eis o quadro que pintaria: trs meninas pensativas com um prato quebrado. 
Cada pedao contando uma parte da histria. Na verdade, ramos crianas comuns, no to calmas quanto a maioria. Um momento depois estvamos provavelmente brigando 
entre ns, aborrecidas pelos bulbos de tulipa perdidos. Barulhentas como os pequeninos que encontrei hoje. Mas deixem-me lembrar o que escolhi. Coloquem duas das 
meninas na sombra, a que pertencem, e deixem a luz esparramar-se sobre a terceira. Nossa tulipa, nossa Clara.
     Clara era a menina mais bonita, mas sua vida foi a histria mais bonita?
     Caspar ouve meu recital, mas minha voz trmula aprendeu a falar bravamente tarde demais para mudar a histria. Deixem-no fazer disso o que quiser. Caspar sabe 
como manusear o alfabeto a partir de uma pena cheia de tinta. Pode confiar minha histria ao papel, se quiser. Palavras no tm sido minha fora particular. O que 
vi em toda minha vida a no ser pinturas? E quem j ensinou uma criatura como eu a escrever?
     Agora, nesses dias enrugados em que a luz no  to plena quanto costumava ser, o luxo da porcelana importada h muito se foi. Bebemos de tigelas de barro e 
quando trincam as jogamos na pilha do fundo do quintal para ser enterradas pelas folhas de carvalho. Todas as coisas verdes ficaram marrons. Ouo a histria juvenil 
da nossa famlia encenada pelas crianas nas ruas e volto para casa resmungando. Caspar me lembra que Clara, nossa Clara, nossa Cinderela, morreu.
     Diz isso suavemente, exigindo que esta cabea velha se concentre no agora. Mas cabeas velhas so mais aptas a lembrar o passado.
     Existem uma ou duas janelas abrindo para aqueles dias longnquos. Vocs as viram - as janelas das telas em que os pintores trabalham para que possamos olhar 
atravs delas. Embora no possa pintar, posso ver no meu corao: um quadrado de linho que pode lembrar uma tarde de relativa felicidade. Luz cremosa de linho, o 
azul e o marfim da porcelana. Meninas acreditando na promessas de flores.
     No  muito, mas ainda me faz perder o flego. Abenoados os artistas que salvaram essas coisas para ns. No faam pouco da sua memria ou da escolha do tema. 
A imortalidade  uma coisa incerta; no pode ser prometida ou conquistada. Talvez no possa ser sequer identificada pelo que . Supondo que Cinderela voltasse dos 
mortos, ser que reconheceria a si mesma, em qualquer retrato numa parede, numa figura pintada num prato, em qualquer folguedo de criana ou histria ao p da lareira?
     
     
     
     
     
     
     
     
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A FILHA OBSCURA
     
     
     
     
     
Praa do mercado
     
     
     
     
C
om o vento feroz e as mars adversas, o navio de Harwich progride lentamente. O madeirame geme, as velas estalam, enquanto a embarcao sobe cambaleante pelo rio 
marrom e encosta no cais. Chega mais tarde do que o esperado, no final brilhante de uma tarde nublada. Os viajantes descem vacilantes, ansiosos por gua para refrescar 
suas bocas. Entre eles esto uma mulher empertigada e suas duas filhas.
     A mulher est de mau humor porque se sente aterrorizada. Sua ltima moeda foi usada para pagar a passagem. Durante dois dias, s a caridade dos companheiros 
de viagem impediu que ela e as filhas passassem fome. Se  que se pode chamar de caridade - uma casca dura de po, uma fatia fina de queijo velho para roer. E depois 
devolvidas  garganta, graas ao mar ondulante. A me tem de desviar o rosto do espetculo. A vergonha tem um cheiro horrvel.
     E assim me e filhas tropeam, parando um instante para reencontrar o equilbrio no cais. O sol rola para oeste, a luz cai transversalmente, os forasteiros 
pisam em suas prprias sombras. A rua est salpicada de poas de uma tempestade recente.
     A menina mais moa conduz a mais velha. So tmidas e ansiosas. Esto pisando num pas de contos de fadas, conjetura a primeira. Esta nova terra  um lugar 
onde a magia realmente acontece? No sob a capa da escurido, como na Inglaterra, mas  luz do dia? Como  este novo mundo entrelaado?
     - No ande com a cabea no mundo da lua, Iris. No se perca em devaneios. E caminhe em frente - diz a mulher. - No convm chegar  casa do vov depois de escurecer. 
Ele poderia trancar a porta contra ladres e malfeitores, sem ousar abrir as portas e as venezianas at o amanhecer. Ruth, mexa essas pernas preguiosas uma vez 
na vida. A casa do vov fica depois do mercado, pelo menos isso eu lembro que me disseram. Vamos chegar mais perto e perguntar.
     - Mame, Ruth est cansada - diz a filha mais nova -, ela no comeu muito nem dormiu bem. Estamos caminhando to rpido quanto podemos.
     - No pea desculpas,  desperdiar o seu flego. Comporte-se e modere a lngua - diz a me. - Acha que j no tenho preocupao bastante?
     - Claro - concorda a filha mais moa, maquinalmente -,  s que Ruth...
     - Voc no pra de roer o mesmo osso. Deixe Ruth falar por si mesma se ela quiser se queixar.
     Mas Ruth no fala por si mesma. Elas continuam subindo a rua, ao longo de uma suave ladeira, entre casas de tijolos com cumeeiras escalonadas. As pequenas vidraas, 
ainda no fechadas a essa hora, recebem um brilho de fim de tarde. Os degraus foram lavados, as ruas esto limpas de estreo e de folhas e sujeira. Um cheiro de 
assadura vespertina de po e de bolo vem das cozinhas ocultas. Desperta tanto fome como esperana.
     - As tortas crescem nos telhados desta cidade - diz a me. - Isso significa boas-vindas para ns na casa do vov. Certamente. Certamente. O mercado fica por 
aqui?, pois depois dele encontraremos sua casa, ou por ali?
     - Oh, o mercado - grasna uma velha senhora, meio escondida na sombra de um vo de porta -, o que se pode comprar ali e o que se pode vender!
     A filha mais nova se vira rapidamente: essa  a voz de uma maga, uma velha fada a ajud-las?
     - Indique-me o caminho - diz a me, espiando para dentro do vo.
     - Encontre voc seu prprio caminho - diz a velha, e desaparece. Nada ali alm da sombra de sua voz.
     - Avarenta de indicaes, avarenta de caridade tambm?
     A me endireita os ombros.
     - Vejo o campanrio de uma igreja. O mercado deve ser perto dali. Vamos.
     No final de uma viela o mercado se abre para elas. As barracas esto plantadas nas margens de uma ampla praa, uma igreja avolumando-se numa extremidade e um 
edifcio pblico do lado oposto. Casas de pessoas prsperas encostadas ombro a ombro. Todos os prdios sobem eretos - no como o chal de madeira encurvado l na 
Inglaterra, l na nossa terra...
     
O chal agora abandonado... abandonado numa tempestade de golpes nas venezianas, de gritos: "Uma faca na sua garganta! Vai engolir minha faca afiada. Abra!"... Abandonado, 
enquanto me e filhas se safavam atravs de uma janela lateral, um porrete estilhaando a porta.
     
     Scriiii - um grito de alarme que vem do ar. Gaivotas formam arabescos perto da frente da igreja, mantidas afastadas das mesas de peixes por um casal de ces 
zelosos e cansados. O espao pblico  frio do vento ocenico, mas est iluminado de rosa e dourado pelo sol que bate nos tijolos e nas pedras. Tudo poderia acontecer 
aqui, pensa a menina mais moa. Tudo! At mesmo, talvez, alguma coisa boa.
     O mercado: perto do fim do seu dia. Cheirando a verduras murchas, peixe forte, brasa ardente, terra nas razes de nabos e repolhos. O hbito da fome  difcil 
de dominar. As meninas arquejam. Esto famintas.
     Peixes em fileiras cerradas como telhas num telhado, reluzindo em seus prprios leos. Abboras e morangas. Mas - douradas, vermelhas, verdes. Cachos de uvas, 
algumas j se transformando em gelatina sob suas cascas rachadas. Queijos cobertos com cera dura como osso ou presos em redes e vertendo gotas brancas - gatos se 
esparramam debaixo deles como paxs otomanos, de boca aberta.
     - Oh - diz a irm mais jovem quando a mais velha pra e se deslumbra com a abundncia. - Mame, um pedao qualquer de algum resto para ns! Tem de haver.
     O rosto da me fica ainda mais fechado do que de costume.
     - No vou deixar que nos vejam mendigando em nossa primeira tarde aqui - sibila. - Iris, no mostre tanta gula em seus olhos. Sua ganncia a trai.
     - No comemos um pastelo de verdade desde a Inglaterra, mame! Quando vamos comer de novo? Nunca mais?
     - Vimos poucos gestos de caridade para conosco l e no vou pedir caridade aqui - diz a me. - Deixamos a Inglaterra, Iris, escapamos com nossas vidas. Est 
com fome? Coma o ar, beba a luz. A comida vir depois. Levante bem o queixo e conserve o orgulho.
     Mas a fome que Iris sente - uma fome nova para ela -  pela aparncia das coisas, tanto quanto pelo seu gosto. Desde a sbita fuga da Inglaterra...
     
correndo ao longo da trilha sombreada, ofegante com dor no peito, cambaleando para dentro de um barco na escurido - correndo com medo dos duendes nos seus calcanhares. 
Diabretes, gnomos, sorrindo como demnios, famintos para abocanhar seus tornozelos e chupar seu sangue...
     
     E se um duende insinuou-se secretamente no navio em Harwich e segue como um co furtivo, para inferniz-las nessa nova terra, comeando tudo de novo?
     Para no entrar em pnico, Iris diz a si mesma: Veja como as coisas so, veja: ali, ali, ali... Estamos num lugar novo, num outro lugar, mais seguro.
     Ruth pra.  mais velha do que Iris, uma coisa slida, j alm do tamanho adulto normal, mas simples. Um pndulo de cuspe desce e forma uma borla. Iris estende 
a mo e enxuga a boca de Ruth. Ela tem um par de ombros que cairia bem num boi, mas no possui a pacincia bovina. Seus olhos castanhos piscam. Ela investe sobre 
a barraca mais prxima, uma mesa cheia de pras novas salpicadas pelo sol.
     - No, Ruth - diz a me, puxando-a para trs.
     Iris tem uma viso sbita da sua aparncia e da de sua famlia, como inglesas obstinadas: inglesas neste outro mundo europeu, com suas ricas colinas concentradas 
de arquitetura. A encrespada famlia Fisher, flanando como idiotas numa peregrinao. A pontiaguda me, Margarethe, rebocando sua gigantesca primognita. Ruth, arquejando 
os pulmes como um fole, aproximando-se de um gemido de dor. E a prpria Iris, emaciada e feia como um eremita, encolhendo-se para dentro de si mesma da melhor maneira 
que pode.
     Os homens do mercado desviam a cabea para deixar de observar os infortnios de uma mulher. As mulheres do mercado, porm, olham e no cedem nenhum terreno. 
Nenhuma delas oferece uma ma machucada ou uma pra mida para acalmar Ruth ou para minorar o apuro de Margarethe. As mulheres do mercado enfiam suas mos nos bolsos 
dos aventais para apalpar seus pequenos punhados de moedas. No h nenhum hbito de caridade aqui, pelo menos no para a estrangeira feia.
     A forte Ruth est menos dcil do que de costume. Quase consegue escapar dos braos da me. Margarethe, ressentida por ser desafiada, controla-se para manter 
a voz baixa.
     - Ruth! Graas a Deus que estou atrelada a esta besta! Sossegue, menina teimosa, ou vou lhe dar uma surra quando chegarmos  casa do vov. Num lugar estranho 
e com ningum para enxugar suas lgrimas, pois vou impedir Iris de acobert-la!
     Embora lenta, Ruth  uma boa filha. Hoje, porm, a fome a domina. No consegue se livrar dos braos de Margarethe, mas sai chutando e acerta a quina da frouxa 
mesa em que as pras esto empilhadas. A vendedora solta um palavro e mergulha, tarde demais. As pras caem e rolam em crculos desordenados. Outras mulheres riem, 
mas preocupadas, receando que essa garotona desengonada venha a derrubar suas bancadas.
     - Tome cuidado com a sua vaca! - berra a vendedora, escarafunchando sobre suas mos e seus joelhos.
     Margarethe joga uma mo sobre o rosto de Ruth, mas ela est se contorcendo demais. Ela recua, afastando-se da bancada, encostando-se na parede da frente de 
uma casa. O tapa de Margarethe cai fracamente, mais som do que dor. Ela bate em Ruth de novo, mais forte. O balido de Ruth cresce num grito agudo, sua cabea batendo 
nos tijolos da casa.
     Uma janela do andar trreo da casa se abre, bem ao lado de Ruth. Uma voz de soprano se faz ouvir l de dentro. Podia ser de um menino ou de uma menina.  uma 
palavra de exclamao - a criana teria visto Ruth derrubar as pras? Cabeas se viram no mercado, enquanto Ruth procura se aproximar da nova voz e Margarethe a 
agarra com mais fora. Iris se v olhando para a frente, com um olho nas pras, enquanto todos os olhos esto em outra parte. Mais um momento, e ela tambm girou 
a cabea para olhar.
     Ela v uma menina, talvez de doze anos, talvez um pouco mais?  difcil dizer. A criana est meio oculta por um pano que pende da janela, mas uma rstia de 
luz a encobre. A luz dourada do fim de tarde. O mercado todo pra ao ver metade do rosto de uma menina no colarinho engomado, uma mancha de compota de fruta sobre 
a sua face.
     A menina tem cabelos finos como o trigo do inverno; banhados pelo sol, quase di de ver. Embora velha demais para tais bobagens, ela agarra alguma coisa como 
consolo ou brinquedo. Seus olhos semicerrados, quando espia em torno da borda da cortina, parecem o azul do lpis-lazli ou a mais acentuada centurea. Ou, como 
o antigo esmalte que Iris viu certa vez num ornamento de capela, seu brilho se apagou prematuramente. Mas os olhos da menina so cautelosos, ou talvez sem profundidade, 
como se tivessem sido arrancados do avesso por minsculas agulhas e alfinetes.
     Uma voz de mulher por trs da criana, vinda do interior profundo da casa. O mercado est em silncio. Por que os cidados se acham to petrificados?
     - Clara? - diz a voz l dentro.
     Margarethe agarra com fora os antebraos de Ruth. A menina na janela estica o pescoo, vendo Ruth tremer, decifrando suas slabas sem sentido. A menina se 
inclina por sobre o peitoril da janela, um indicador curvado sobre os lbios cheios. Olha para Ruth como um cachorro olharia para uma tartaruga - de perto, sem simpatia.
     - Voc  uma menina perdida? - pergunta a Ruth, e, ento, a Margarethe: - Ela  uma criana trocada ao nascer? Se for, deixe-a ir embora; deixe-a ir e vamos 
ver o que ela vai fazer! Ser que vai voar que nem um corvo?
     - Que tipo de cidade  essa em que os jovens falam tais bobagens aos mais velhos? - grita Margarethe em bom holands, e a garota recua por um momento, sem no 
entanto abandonar o exame minucioso. A curiosidade  grande demais.
     Subitamente Ruth estende a mo atravs da janela aberta e arrebata o brinquedo da menina - um pequeno moinho de madeira, com braos que giram em torno de um 
prego. Ruth coloca a base do moinho na boca, por hbito. Suga como um bezerro novo sugaria uma teta. Um riso sujo  socapa agita a multido. Mas Ruth se acalma com 
a distrao, e Margarethe a agarra pela cintura.
     A menina loura no faz objeo. Inclina-se para a frente, examinando o rosto de Ruth quase como se estivesse olhando num espelho.
     - Sua coisa - diz a menina -, oh, sua coisa, v embora daqui.
     Os espectadores observam cautelosamente. A me da menina grita: "Clara!" e h um corre-corre na sala. A menina  puxada para dentro, a janela batida com fora, 
a cortina fechada.
     Iris se vira. Se tinham a esperana de entrar anonimamente nesse novo lugar, no podiam ter feito trabalho pior. Todo mundo na praa da cidade est observando.
     Margarethe apruma os ombros de novo e, sem dizer nada mais, conduz as filhas para o outro lado da praa do mercado. Quando alcanam as ruas mais adiante, onde 
as sombras j espessaram o dia num comeo de anoitecer, Iris tira dos bolsos as frutas que apanhou no pavimento. As pras so duras e sem suco. As trs viajantes 
as devoram at as sementes, e comem as sementes tambm, e jogam fora os talos depois de os sugarem at ficarem secos.
     A penumbra cede lugar  escurido quando encontram a casa do vov, a sotavento de uma porta da cidade. L ficam sabendo que ele morreu alguns anos antes e que 
aqueles que moram ali no so da famlia e no tm nenhuma obrigao de acolher as estrangeiras famintas.
     
     



Histrias contadas atravs de janelas
     
     
     
     
U
ma noite que elas passam amontoadas no fedor de mijo de um beco nos fundos de uma cervejaria. Os ces as expulsam ao amanhecer. A me e as filhas limpam a lama e 
a palha de suas nicas saias e caminham at a praa do mercado de novo para candidatar-se a uma posio.
     A voz da me  calculada: ora metlica, ora devota. O que causar efeito.
     - Sou Margarethe, Margarethe da famlia ten Broek. Meu av foi Pieter ten Broek, que morou  sombra do Zijlpoort. Uma boa famlia! Voltei para c esperando 
ficar com ela. Mas soube agora que ele e sua mulher morreram, e meus tios tambm foram levados pela varola e outros caprichos de Deus. No conhecem meu rosto, mas 
conhecem o do meu av; ele foi importante nesta cidade. Para honrar o seu nome, eu peo que me amparem, porque no tenho mais ningum a quem recorrer.
     Primeiro, Margarethe faz o seu apelo s portas das lojas do mercado. Far qualquer trabalho de costura em troca de um punhado de cobertores num galpo ou num 
celeiro. Far qualquer trabalho de estbulo, basta darem comida para si e suas filhas desajeitadas. Cuidar de crianas malcriadas e doar leite dos seus seios se 
bebs inapetentes o necessitarem. (Seus seios no parecem aptos  tarefa.)
     Os mercadores jogam alfaces murchas sobre ela.
     Ento Margarethe se volta para as ruas residenciais. Algumas das casas esto mudas, venezianas como tampes de madeira sobre os ouvidos de suas janelas. Margarethe 
fica  espreita em vielas at que as criadas abram as casas dos seus patres. Tagarela com brava familiaridade com as garotas que saem  rua para lavar os degraus.
     - Oh, no queiram saber as agruras que deixamos para trs, na lama abandonada de uma aldeia do interior da Inglaterra. Fedor de pntano na lembrana, eu lhes 
conto agora! Mas minhas origens esto aqui, sou uma de vocs; meu pai partiu quando eu ainda era um beb, para Ely, para March, a fim de ensinar os tolos dos ingleses 
a drenar suas terras de banhados  maneira aperfeioada por ns, holandeses. Ensinou o ofcio ao meu marido, Jack Fisher, que o desempenhou suficientemente bem... 
at as mars altas deste outono. Ento as comportas de terra se romperam e os brejos inundaram e as colheitas se arruinaram alm de qualquer redeno. E os aldeos 
de March e os pantaneiros de ps lerdos e lodosos podiam ver o que ia ser o inverno que se anunciava. Teriam desejado matar um holands! Mas meu pai tinha morrido 
de malria e no havia nenhum holands  mo, ento mataram a coisa mais prxima: um dos seus que havia se casado com uma jovem holandesa. Meu prprio marido, Jack.
     Uma criada joga um balde de gua suja nas pedras do pavimento; Margarethe tem de pular para trs para no levar um banho.
     Uma matrona numa janela, examinando uma mancha num colarinho de renda. 
     Margarethe:
     - Encurralaram meu homem, meu lastimado Jack Fisher, num arvoredo mal-assombrado uma noite da semana passada! Golpearam a cabea do meu Jack com um arpo. Minhas 
filhas e eu samos ocultadas pela escurido na mesma noite, receando por nossas vidas. Os camponeses da Inglaterra so uma raa vingativa e ramos vistas como estrangeiras, 
embora as meninas tivessem nascido l.
     
...os sons na viela, de coragem cheirando a cerveja e raiva cheirando a cerveja, e as meninas bruscamente arrebatadas do seu sono, e os olhos de Margarethe dardejando, 
duros; e sua voz assustada: "Precisamos sair deste lugar! Vamos l, filhas retardadas, de p!, ou este vai ser o seu ltimo sono!"
     
     A matrona desvia os olhos, como se Margarethe no passasse de uma gralha piando sobre o peitoril. A janela se fecha lentamente. Margarethe se desloca para a 
janela de um vizinho sem perder o ritmo do seu recital.
     - Os ingleses tm um medo mrbido dos estrangeiros entre eles! Vocs sabem disso! E embora as meninas tenham um pai ingls, eu as treinei para falar a lngua 
de meu av, Pieter ten Broek, que prestou bons servios a esta cidade, assim me disseram. Achei que precisaramos voltar a nosso solo natal e voltamos. No somos 
vadias ou refugiadas. No somos ciganas sujas. Somos da sua prpria gente. Recebam-nos de volta.
     Iris v que a me no tem jeito para gerar simpatia. Algo na aresta rija do seu maxilar, nas narinas arfantes.
     - Vejam s minhas meninas - diz Margarethe. - Se o estmago delas pode suportar. J no sofri o bastante? Com uma delas tagarelando e cambaleando como um fazendeiro 
bbado em dia de feira - ela encolhe os ombros para Ruth - e a outra - empurra Iris para a frente - chata como uma tbua, uma afronta aos olhos? Por que Deus me 
negou filhos, que poderiam ser um consolo para uma me em desgraa? Se morrermos nas ruas desta cidade, por sua frieza a mo de Deus trar a pestilncia sobre vocs! 
Bom-dia. Ces de uma figa! Iris, cuidado com sua irm.
     Uma mo paralisada empurrou a janela e a fechou sobre Margarethe e suas filhas. Uma prece murmurada contra a praga de Margarethe.
     - Deixem-me contar-lhes o que sei sobre fome e peste - diz Margarethe, molestando um aldeo que tenta passar furtivamente por ela sem ser acostado. - Seus concidados 
nos sugerem os asilos de pobres aqui e prometem que os necessitados podem engordar ali com manteiga e bife. Mas eu vi os pobres brigarem por um co doente, matarem-no 
e queimar sua carne na fogueira, e vomitar tudo em menos de uma hora. Vi a fome colocar pai contra filho e marido contra mulher!
     - Mame, as coisas que a senhora diz! - Iris est espantada com o testemunho da me.
     - Acha que eu invento essas coisas? A fome  uma realidade - diz Margarethe. - No vi crianas mastigando ratos?
     Mas ela suaviza a voz e tenta uma nova abordagem.
     - Tenho muitos dons, minha senhora, conheo ervas e tisanas para dor nas juntas. Sei o que colher e como secar, o que jogar fora e o que reservar. Conheo as 
plantas, as flores, as razes. Conheo - faz uma pausa, julgando o seu prximo pblico de uma velha senhora de queixo entrado -, conheo as palavras sagradas a se 
pronunciar e, quando elas falharem, as palavras profanas. Conheo as magias, conheo os amuletos secretos, conheo as consolaes invisveis...
     A velha, assustada, fecha a veneziana com tanta fora que quase prende a mo aleijada na altura do punho.
     - O que precisamos  uma mesa - diz Iris -, uma mesa que sempre esteja a gemer com o peso da comida que aparece magicamente todo dia...
     - A imaginao no vai nos alimentar, Iris - resmunga Margarethe. - Pelo amor de Deus - grita com raiva -, no existe nenhuma misericrdia nesta aldeia mida? 
Ser que o infortnio que nos expulsou da Inglaterra vai nos alcanar finalmente, quando no tivermos mais fora para continuar fugindo?
     Meio-dia. O sol fazendo o seu melhor, arrastando suas saias douradas atravs de ruas arenosas. Numa viela de fundos, onde os cheiros da cervejaria ficam encurralados 
entre becos e pequenas oficinas, h uma janela que no se fecha. Margarethe pra, a mo apertando as costelas, arquejando, tentando impedir-se de chorar de raiva. 
Completamente perdida, est se esforando por inventar uma nova histria. Ruth brinca com o bonito brinquedo que a menina chamada Clara enfiou em suas mos. Iris 
olha para a janela.
     A sala  alta e arejada, mais estbulo do que salo, um velho depsito de armas, talvez. Iris espia. A sala est desarrumada. Uma mesa abriga panelas, piles 
e pedras de amolar. Uma chaleira com azeite de torcer o nariz borbulha suavemente num fogo brando. Pincis de pintura investem de potes de barro desordenados como 
samambaias de outono. Contra a parede encostam-se painis de madeira soltos, como uma srie de portas, e um ou dois painis esto apoiados em cavaletes no centro 
da sala. Toda superfcie  coberta de cor, campos de nvoa cortados com pinceladas de um brilho irreverente. Todas as cores que Iris j conheceu, do azul noturno 
ao limo mais cido.
     Um homem se vira, mal ouvindo as palavras de Margarethe. Parece irritado por gritarem atravs de sua prpria janela, que foi aberta em busca de ar e luz, no 
para olhos curiosos ou mendigos  solta.
     Iris se inclina mais  frente para olhar. A consolao do cinzento, do verde, a surpresa do cor-de-rosa. A redeno do branco das nuvens em quatro novos painis 
ainda intocados pela imagem.
     - Iris, no seja atrevida com o cavalheiro - murmura Margarethe, preparando a sua mais recente verso de desgraa.
     Iris ignora a me.
     - O que ele est fazendo? - pergunta ela atravs da janela.
     
     
     



Olhando
     
     
     
     
O
 pintor larga sobre a mesa um basto de giz vermelho e sopra levemente nas pontas dos dedos. As dobras de suas roupas esto cobertas de vermelho como se salpicadas 
da poeira de tijolos. Ele caminha at a janela e sacode a cabea.
     - Que tipo de assalto  este? - resmunga.
     - Nenhum assalto, senhor - grita Margarethe, agora que agarrou um ouvinte, vociferando para dentro da casa -, apenas uma me com filhas virgens famintas! De 
que prstimos o cavalheiro necessita? Pode-se mandar uma mulher fazer qualquer coisa. Posso ajudar a esposa cansada de um homem em todas as tarefas domsticas. Mandem-me 
varrer e esfregar, que eu fao. Mandem-me levar um colcho para arejar, buscar gua do poo. Mandem-me matar uma galinha, que eu a depeno e cozinho, mando suas penas 
para o saco como enchimento de travesseiros, suas vsceras  frigideira para fazer companhia s cebolas, seus ossos jogados na terra para ler a sorte.
     - No h nenhuma esposa aqui, seno por que estaria eu vivendo nesta sujeira? Mas cale a boca enquanto eu penso a respeito - diz a ela, virando-se para examinar 
Ruth e Iris.
     Ruth esconde os olhos, mas Iris retribui o olhar. No est em busca do seu pai, no, no; ele morreu h sete dias.
     
Uma voz do lado de fora enquanto a porta  estilhaada: "E o marido foi ferido na cabea, sangrando no seu pntano, e ns vamos pegar sua esposa malvada em seguida, 
e aquelas meninas!"
     
     Fique no momento presente. Olhe para o momento presente. Ela est olhando para um homem que parece ter aproximadamente a idade do seu pai.  tudo.
      um homem de meia-idade, com uma luz nos olhos de venezianas abertas. Iris no se lembra de ter visto coisa parecida antes. Ele cofia os bigodes amarelo-avermelhados 
e passa os dedos atravs de uma barba que precisa de gua quente e das atenes de uma navalha. Sua cabea calva parece esmaltada por ter sido exposta ao sol sem 
o chapu preto favorecido pelos burgueses prsperos. Seus dedos esto manchados de vermelho e violeta. Barba Amarela tem compassos, balanas, ferramentas em seus 
olhos; olha para Iris.  um olhar limpo de emoo humana, pelo menos agora. Olha para ela com alguma espcie de julgamento. Iris baixa os olhos finalmente, vencida 
por sua ateno.
     - Estar em idade de se casar no ms que vem - comea Margarethe. Iris estremece.
     - Silncio - murmura ele, erguendo os dedos para Margarethe.
     E olha um pouco mais.
     - Vamos ver - diz finalmente. - Tem um galpo l atrs onde vocs podem dormir uma semana ou duas, pelo menos at que meu aprendiz volte de suas viagens a meu 
mando. Depois, veremos. Tem trabalho a ser feito se puderem morar aqui em silncio. Voc, me, vai cuidar das necessidades da casa de um solteiro. No vou citar 
ou enumerar as tarefas, mas quero comer, dormir e trabalhar sem parar quando me der vontade. A garota mais velha pode andar sozinha por a? Existe um prado no longe 
da ponte, logo depois de Amsterdamse Poort, onde o novo canal inicia sua jornada at Amsterd. As flores do final do vero crescem ali em abundncia. Ela pode colh-las 
diariamente para meu estdio. As ervas silvestres mais comuns morrem em poucas horas e preciso v-las regularmente. Ela  capaz de fazer isso? Bom. Talvez voc... 
seu nome em uma palavra e nenhuma narrativa...
     - Margarethe - diz ela, e levanta a cabea. - Margarethe Fisher, da boa famlia ten Broek, de Haarlem.
     - Margarethe, se desejar, talvez eu possa ensin-la a moer minerais para mim e mistur-los com leo e ps, para fazer as minhas cores.
     - Sou boa em misturar ervas, pimentas e razes. Minerais e ps no seriam problema para mim.
     - Muito bem. E as meninas, como se chamam...?
     - Minha filha mais velha, Ruth, e a mais esperta, Iris.
     - No so nomes holandeses costumeiros - diz ele, divertido.
     - Nasceram nos brejos de Cambridgeshire. Seu pai ingls no estava inclinado a nomes de santas e mrtires - diz Margarethe -, por isso as escolhas eram poucas. 
Quando vimos como nossa primeira filha era mimada, ns a batizamos de Ruth, que, segundo me dizem, quer dizer arrependimento de nossas prprias falhas. Ento escolhemos 
o nome da filha seguinte como Iris, na esperana de que isso a encorajasse a crescer na beleza como uma flor.
     Olha para Iris e seus lbios se contorcem.
     - Como pode ver, nossas esperanas foram terrivelmente frustradas.
     - Iris  a esperta - diz ele.
     - Esperta o suficiente para o que o senhor precisa...
     Margarethe est com um olhar de malcia? Certamente, no.
     - Para Iris, uma tarefa difcil - diz Barba Amarela. - Gostaria que ela se sentasse numa cadeira na luz do norte durante horas para que possa observ-la. Deve 
ficar sentada sem se mexer, sem falar. Deve manter a boca fechada. Vou desenh-la em giz vermelho no pergaminho, e talvez pint-la, se estiver satisfeito com meus 
desenhos.
     Margarethe no consegue se conter.
     - Por que razo imaginvel gostaria de pintar uma criatura como ela? - Margarethe coloca a mo no ombro de Iris. O gesto  em parte amoroso, em parte uma negociao. 
E por que no, Iris admite, quando mal podemos ter uma casca de po aps a outra?
     - Minhas razes so pessoais - responde o pintor. - Decida e me responda, pois agora no tenho mais tempo para isso. Diga-me sim ou no.
     - Seu nome, antes que entremos por sua porta e aceitemos sua generosa         oferta.
     Mas ele ri. 
     - Meu nome no fecha nenhum negcio, meu nome no aumenta o valor das minhas telas. Meu nome no tem lugar num mundo em que Lucas Cranach e Memling e os florentinos 
exibem suas pinturas! At mesmo em minha prpria poca eu sou annimo, no tanto como o Mestre do Altar de Dordrecht. Aquele esforo  muito admirado, mas no sou 
lembrado como o seu criador. Simplesmente me chame de Mestre e meu orgulho de galo estar satisfeito. Vo entrar ou no?
     As trs se atropelam para dentro da casa. Os cheiros no estdio so levemente ofensivos. Iris sente a pungncia da madeira seivosa, recm-cortada, do leo com 
aroma de resina, um fedor de ovo do enxofre, o suor masculino.
     Ela pra ao ouvir o risinho da me e o arrastar preguioso da irm. Iris olha para os trabalhos assim que seus olhos se acostumam com a luz interior.
     Os painis so delineados em vermelho ou preto. Alguns deles so trabalhados com uma tintura oliva ou spia. Raros foram levados um pouco mais adiante, as formas 
slidas de seres humanos comeando a emergir da massa sombria das preparaes do Mestre. Pedaos de papel, rabiscados com tinta prateada, esto pregados nas bordas 
dos painis - esboos, ela pode ver, do que o trabalho acabado poderia conter.
     Os esboos so principalmente de pessoas sem roupas. Mulheres e homens igualmente.
     Iris agarra a mo da me e aponta sem emitir nenhuma palavra. Margarethe ergue o queixo e estuda a situao. Depois de um tempo, ela diz, numa voz pretensamente 
agradvel:
     - Mestre, minha filha posaria sem roupas para o senhor?
     - Sou um pintor, no um monstro.
     Oito ou nove peas em andamento, ou peas comeadas e abandonadas; Iris no sabe dizer. Figuras que esto nuas nos esboos aparecem vestidas nas obras acabadas.
     Iris olha angustiada para a me. Por trs das costas do Mestre, Margarethe faz uma careta para Iris que significa: Primeiro comemos, depois nos recusamos. Cautela, 
filha! Mas Margarethe segue em frente e observa:
     - Estamos numa capela romana, cheia de dolos. Na Inglaterra, poucos sancionariam mais tal blasfmia. Toda essa beleza pintada serve a algum propsito?
     - Quem pode dizer a que propsito serve a beleza? Mas pelo menos os catlicos romanos costumavam pagar bem pelo trabalho que inspira suas devoes - diz o Mestre, 
caando no meio de uma pilha de pincis um que sirva para a tarefa  mo. - No tempo em que os catlicos romanos eram mais do que meramente tolerados nesta terra.
     - Vejo a Virgem em azul e escarlate, vejo o Cristo como um beb holands gorducho criado comendo queijo. Vejo anjos por toda parte - diz Margarethe com desinteresse.
     - Eu pinto meus demnios, anes e depravados numa sala separada - diz o Mestre, acenando com a mo. - A porta que eu mantenho trancada. No sou supersticioso, 
mas no provoco a ira de Deus mais do que preciso.
     Iris quer perguntar: o senhor pinta diabretes, aleijes, ncubos? Do tipo que corre com uivos inaudveis nos calcanhares das multides, incitando-as ao mal? 
Mas ela no pode falar sobre isso, sua boca no quer colaborar com a sua mente.
     Margarethe comea a arrumar os potes por ordem de tamanho.
     - V cuidar da casa, no mexa nas minhas coisas - diz o Mestre. - Vamos saindo daqui, j! Seja til com pastelo, vassoura e gua fervente! V at o mercado 
e encontre um peixe saudvel para o meu jantar! Saia do meu caminho!
     - E vou pagar com o qu, Mestre? - diz Margarethe.
     - Meu nome - diz ele.
     - O Mestre da Dvida? - diz ela.
     - Schoonmaker - respondeu ele -, mas o Mestre bastar.  bom que baste.
     Margarethe endireita a espinha.
     - Iris, cuide da sua irm - diz ela. - Voc  a esperta. Chega de andar no mundo da lua, chega desses suspiros vaporosos! Mantenha Ruth sob o seu punho. Est 
me ouvindo?
     Iris acena com a cabea.
     - Iris, a confivel - diz Margarethe. - Bem, l vou eu, e esta noite ns vamos comer.
     Iris mantm uma mo no ombro de Ruth at que sua me sai apressadamente de vista. Ento Iris continua a sua inspeo. Como no fala, o Mestre no parece se 
incomodar com que esteja ali. Ao esfregar uma mancha de verde para aplicar-lhe um brilho amarelo, resmunga para a menina, ou para si mesmo. Ela escuta enquanto pensa 
e observa.
     Ele tem uma voz agradvel, sussurrada e rouca.
     - Ento sua me, como o resto do povinho, desaprova a arte sacra! Eu devia fazer minhas malas e me mudar para a Holanda espanhola, onde uma saudvel f catlica 
romana ainda requer um suprimento de imagens religiosas. Mas, no, embora os calvinistas daqui tolerem a presena papista, mesmo fechando os olhos para as capelas 
secretas, o mercado para a arte sacra desapareceu.
     Iris no sabe de nada disso nem se interessa.
     - Mas setenta anos atrs? Cem anos? Imaginem isto. Cada doze quilmetros abrigava um agrupamento de casas com sua prpria pequena igreja e cada igreja ostentava 
uma pintura da Sagrada Famlia. Jesus, Maria e Jos. Os Evangelhos so povoados subitamente e para sempre pelas imagens que os artistas produzem para vocs. Fizemos 
nosso trabalho e Deus colheu a recompensa num aumento das preces. A verdadeira conseqncia da beleza, diga isso  sua me!,  a devoo.
     Iris no tem idia do que ele quer dizer, mas parece que lhe agrada falar. Ela v Joss e Marias e vrios Jesus de todas as idades e humores. Abandonados repetidas 
vezes, por serem imperfeitos, por serem indignos?
     O Mestre prossegue, pontuando suas pausas com carcias do seu pincel.
     - Pintar temas sagrados sempre garantiu uma boa vida para pintores! Embora quais dentre ns no temem ser jogados no inferno ao colocar numa cena sagrada das 
Escrituras algum beb que vemos na rua, uma mulher que amamos, um homem a quem admiramos?
     O Mestre se torna soturno.
     - E, alm de pintar os abenoados - isto num tom amargo, censurando -, como pintor eu catalogo a corrupo do mundo! Com uma honestidade espantosa. Os deformados, 
as aberraes profanas. O Menino-Menina de Roterd? Eu pintei aquela alma amaldioada um ano antes de ser apedrejada at a morte pelos devotos. Pintei as Sete Estaes 
da Peste, incluindo o rosto cinza-esverdeado do cadver no enterrado. Os corcundas, os crnios rachados, a sra. Handelaers com sua horrvel mandbula de jumento. 
O outro lado da revelao! Atravs daquela porta, se voc quisesse ver. Vou abri-la para voc. Todas as provas da nossa necessidade de Deus. - Ele aponta seu pincel 
para a porta e ergue as sobrancelhas numa interrogao.
     Iris no ousa sequer olhar para a porta, muito menos pedir que seja aberta. No quer ver. Envolve os braos magros ao redor do peito magro e pergunta a si mesma 
de novo: onde viemos parar?
     O Mestre volta ao seu quadro.
     - E ainda vou pintar aquela criana trocada ao nascer - diz ele sombriamente. - A beleza oculta de Haarlem. Mais uma testemunha para a estranheza deste mundo.
     Iris se lembra da menina na janela, a menina que deu o brinquedo a Ruth. Ela perguntou se Ruth era uma menina perdida, trocada ao nascer. Seria Haarlem um refgio 
para tais duendes bestiais? Iris ouvira que de tempos em tempos um beb pobre podia ser raptado do seu bero e substitudo por uma criatura podre e doente semelhante 
a ela apenas na aparncia. Dizem que uma criana trocada ao nascer  deficiente de alguma coisa essencial, ou a memria, ou o juzo, ou a misericrdia. Iris deseja 
perguntar ao Mestre sobre a natureza das crianas trocadas ao nascer, e como se identifica uma delas, mas ele interrompe os pensamentos dela com os seus resmungos.
     - E mesmo que eu testemunhe a terrvel condio humana, e sua salvao pela santidade de Jesus, ao que, ao que, ao que neste annus dominus somos ns levados, 
ns, os trabalhadores, os artesos, os cozinheiros de ensopado de linhaa?
     O Mestre joga o pincel para o outro lado da sala.
     - Eles querem flores, flores para o comrcio, beleza para vender como se valesse apenas por sua beleza! Por que os calvinistas sem sonhos no vo simplesmente 
a Constantinopla? Por que no se juntam aos maometanos pagos, que censuram a noo de retratar a divindade em nada mais a no ser azulejos euclidianos em azul e 
ouro? Ou por que eu no vou simplesmente para a Holanda espanhola e me estabeleo por l? Onde posso pintar o que quero e manter a mesa cheia de comida tambm?
     - Por que no vai? - pergunta Iris, espicaada em sua timidez pelo discurso dele.
     - Eu adoro meu lar, e este  o meu lar - grita ele. - Voc no entende isso?
     Iris no responde.  difcil lembrar o que seja um lar, usurpado por aquele pesadelo de tochas, acusaes, por uma fuga numa chata sobre campos inundados por 
gua do mar, enquanto a lua cheia brilhava sobre elas como os olhos de um juiz vingativo. Sua famlia deixara o lar to s pressas - quem realmente sabia sequer 
se Jack Fisher teve um enterro cristo, ou se ainda estava vagando ao sabor das mars, um cadver inchado deitando seu sangue nas safras arruinadas?
     - O que , o que ? - diz o Mestre, partindo na direo de Iris, mas ela se assusta e salta para trs.
     
um demnio menor, farejando o ar da meia-noite, na caa, correndo atrs delas...
     
     - No - diz ela, deixando tudo fora da lembrana -, no, no.
     - Ento, se no quiser falar, v para fora, saia para o ar, chega dessa minha conversa fiada. O que lhe importa a loucura de um homem obcecado? V buscar flores. 
V com sua irm enorme buscar flores. Vamos l, correndo, e tragam uma braada de belas flores silvestres para mim, para que eu possa desperdiar o meu tempo e me 
alimentar.
     Ele olha para Iris e ento examina os pincis, abrindo as cerdas de um deles com o polegar esquerdo limpo. - Tragam-me flores, crianas - diz ele, com mais 
suavidade. - Saiam para o ar livre. Esto parecendo umas velhas antes do tempo.
     
     
     
     
     
     
Campina
     
     
     
     
S
choonmaker - o Mestre - d a Iris uma faca curta. Explica a ela como encontrar a campina. Iris ajuda Ruth a calar de novo seus tamancos de madeira e enfia os ps 
no seu prprio par. E ento as garotas do as mos uma  outra e correm.
     Passam pela cervejaria com seus cheiros ricos e ativos, depois por uma viela que leva a uma das portas da cidade. Saindo pela porta, atravessando um canal ftido, 
subindo um dique, passando por um monte de arbustos, e ali est: a campina. Algumas vacas esto mugindo em companhia. Ruth tem pavor de vacas, por isso ris corre 
at elas, gira os braos como as ps de um moinho e as vacas se afastam sem se sentirem ofendidas.
     As irms esto sozinhas pela primeira vez desde que deixaram seu lar na Inglaterra. No so meninas holandesas, por melhor que Margarethe tenha ensinado a Iris 
as palavras essenciais e a gramtica. Mas no so mais meninas inglesas tambm, uma vez que o lar lhes foi arrebatado. Por isso, neste momento, esto meramente sozinhas, 
mas juntas, to juntas quanto podem estar.
     Antes da morte de Jack Fisher, Iris e Ruth no haviam ido mais longe de March do que  aldeia vizinha, e isso uma nica vez, para uma feira. Que desastre. A 
cerveja rolara com excesso de generosidade e a reticncia que se mascara como caridade crist desaparecera. Os homens tinham deposto suas tigelas de cerveja e escarnecido 
de Ruth com um cajado, dizendo que tinham fome de toucinho, e quanto custaria a porca? Iris arrancou-lhes o cajado e partiu para cima deles e fez o sangue correr, 
ainda que com narinas escorrendo sangue e lbios cortados os homens se juntassem contra as duas em folgana. "A porca e a cachorra! A cachorra e a porca!"
     As irms Fisher nunca mais foram  feira. Nem Iris havia contado exatamente a Margarethe ou a Jack o que aconteceu, pois de que adiantaria? Ruth apenas seria 
mantida ainda mais trancada em casa. Iris sempre achara que aquilo no era justo. Sem discusso, Ruth  uma idiota, mas no  uma porca.
     Mas Iris no pode pensar nessas coisas. Quando as lembranas ameaam voltar, tem de afast-las. Deixou essas coisas para trs. Deixou a Inglaterra para trs, 
e tudo o que ela significa. Todo diabrete amaldioado  deixado para trs, certamente, certamente. Mas elas chegaram realmente  Holanda? Ou o barco se perdeu na 
tempestade? No teriam chegado em vez disso a um lugar enfeitiado? Talvez parea apenas a Holanda e  por isso que o av que deveria tomar conta delas no est 
em sua casa.
     No exagere na sua imaginao, diz a voz de Margarethe na cabea de Iris. Mas Iris no pode se impedir. Os mistrios deste lugar! O que poderia ter sido a Menina-Menino 
de Roterd? Ou a Senhora Maxilar de Jumento? E quanto  criana trocada ao nascer? Se isto no  mais a Inglaterra, talvez no seja a Holanda, tampouco.  o local 
da histria, que comea aqui, na campina das flores tardias do vero, vicejando antes que as tempestades do Atlntico as cubram todas de gua e de inverno.
     Iris faz um sermo para si mesma. Tenha bom senso. Seja boa. Merea a comida que lhe daro esta noite.
     - Tanta variedade - diz ela. - Que tipo de flores voc acha que ele quer?
     Ruth arranca uma margarida e a levanta.
     - Esta  uma, e das boas, sim - diz Iris -, ele quer muitas. Oua, Ruth,  capaz de usar esta faca sem cortar o polegar? Se as arrancar assim, as folhas vo 
ficar amassadas. Faa o seu corte aqui embaixo. Dobre os joelhos, assim est melhor. Sim, esta  boa. No precisa aprovar cada escolha. Todas as flores so boas, 
Ruth. Sim, esta outra  boa tambm.
     Iris se afasta o mais que pode, certificando-se de que Ruth no fique alarmada. Ento se afasta ainda mais. V uma macieira abandonada na beira da campina. 
Embora esteja aleijada pela idade, existem galhos que podem ser usados como uma escada e ela conseguiria pisar da macieira para os ramos da rvore frondosa que cresce 
ao lado. Iris prende a saia escura nos laos do avental e coloca seus preciosos sapatos num ngulo contra o tronco. Comea a subir.
     Ela no pde ver muito do mundo a bordo do navio que havia partido de Harwich. Devido ao medo,  fome,  nusea, tivera de manter a cabea no cho de tbuas 
rangentes. Iris diz para si mesma, eu no podia me postar na proa do navio e traar nossa jornada at este lugar estranho. Mas aqui, na beira, na margem, uma rvore 
idosa  um degrau que leva a uma rvore mais alta, e a partir da...
     Olha numa direo, alm da fralda de trs ou quatro mais campinas est o oceano vasto e cinzento, ondulado com as linhas brancas de gua desejando atritar-se 
ruidosamente contra as dunas. Daqui o mar parece menos monstruoso do que parecera na doca de Harwich. A luz ento era muito pouca e as ondas, bem prximo, tinham 
levantado massas d'gua untuosa, pesada, escura. Hoje o cu est coalhado de nuvens variadas como veleiros, com cascos achatados e velames encapelados, e a gua 
parece acetinada, modificada.
     Olha na outra direo, e ela pode espiar acima e alm da copa folhosa, localizar a foz do Spaarne marrom-azul e acompanhar o rio terra adentro at as muralhas 
da cidade. Pode divisar os edifcios de Haarlem. Suas elegantes chamins, suas fachadas altas imitando degraus e escadas. Ali: o prdio que ela j conhece como o 
Stadhuis, a prefeitura, com a verde montanha do seu telhado. Ali: a Grotekerk - a Catedral de So Bavo -, sua flecha de pedra da cor de po torrado, um ngulo rosado 
e sarapintado  luz desta hora. Uma pequena cpula, aberta aos ventos, est empoleirada no topo como uma cebola suspensa.
     Canais circundam a cidade, juntando-se ao Spaarne nos lados norte e sul. Haarlem, ou que mundo isto pudesse ser,  um jardim fechado, de pedra, vidro e telhados 
vermelhos. Mais alm, para o leste, a ocasional ouderkirk, conforme o Mestre lhe contou - sugere um grupo de casas de fazenda, uma encruzilhada, uma passagem em 
vau. Iris olha  procura de algum gigante a distncia, algum drago botando uma ninhada de ovos. Ela v um rolo de fumaa subindo. Podia ser um drago. Podia ser 
qualquer coisa.
     - Acho que  um drago - diz Iris.
     Ruth j se esqueceu de sua tarefa e fica sentada mastigando os caules das flores.
     Iris no deu muita ateno s flores. Coisas que crescem tm sido a preocupao de sua me: as razes, as ervas por causa de suas folhas e flores, as flores 
por suas sementes, os inmeros pequenos fragmentos de salva, aipo e arruda. Iris passou por cima delas. Mas agora ela v uma variedade de flores silvestres. No 
conhece seus nomes, em ingls ou holands. Depois de poucos momentos no ateli de um artista, ela  capaz de ver apenas flocos de ouro, hastes de vermelho e marrom, 
plumas estreladas de azul, pedestais de branco e tudo isso salpicado contra uma brilhante cortina de amarelo e verde.
     Iris diz para si mesma: vou trazer Margarethe aqui para os benefcios a serem extrados de sementes, caules e folhas. Margarethe  uma maga das plantas e  
capaz de tratar qualquer mal com uma infuso ou um emplastro.
     E l est Margarethe, vindo j a passos largos do mercado, um grande peixe reluzindo debaixo do brao. Iris acha que sua me parece - vista dessa altura - ridcula, 
suas pernas chutando para os lados e seus ombros encurvados. Ela parece aliviada.
     - Eu vejo uma bruxa m e uma vaca que d leite de puro ouro - grita Iris.
     Decide que vai reunir a coragem para olhar as pinturas dos demnios e as figuras sobrenaturais do Mestre. Todos os segredos do mundo so para ser descobertos 
e registrados!
     Um bando de andorinhas a caminho do sul.
     - Aquilo  um grupo de fadas, voando de rvore em rvore? - grita ela, para manter Ruth interessada. - Aquela que vejo seria uma criana trocada ao nascer?
     L embaixo, Ruth sorri e no se d ao trabalho de ouvir, uma planta simples no meio das plantas.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Posando para Schoonmaker
     
     
     
     
E
las acabam conhecendo o seu protetor e suas exploses de clera. Ele acorda como Schoonmaker e se torna, atravs de mal-humorado esforo, o Mestre. As manhs so 
cheias de pragas resmungadas e bnos engolidas. Ele se lava com entusiasmo, sem dar ateno ao pudor de donzelas ou vivas. As Fisher tm de se acocorar na cozinha 
at que ele chame para levarem embora a gua do seu banho. Ento, um camiso de cambraia colocado por sobre a cabea pelo menos, ele ralha com Margarethe por tudo 
que o desagrade: o mingau ralo, o queijo duro, o po acinzentado, a miudeza dos arenques.
     Ruth brinca com o seu moinho, o pequeno objeto agarrado da mo da bela menina na casa da praa do mercado, at que o Mestre ruge por flores. No acontece todo 
dia - nem todas as flores do campo morrem imediatamente, no importa o que ele diga -, mas acontece com muita freqncia.
     Depois das primeiras trs ou quatro viagens, Iris no precisa escoltar Ruth at a campina, embora, se as vacas a assustarem, Ruth volta para casa de mos vazias. 
Iris observa, porm, que o Mestre muitas vezes no olha para as flores que Ruth traz. Ele as enfia num vaso e continua a pintar aquelas que j tem, o tempo todo 
recitando trechos das Escrituras, como para se punir ao lembrar de que paixo sagrada ele  afastado por causa da bobagem das flores.
     Iris mata o tempo no estdio, tentando reunir a coragem e pedir para ver as pinturas na cmara dos horrores trancada. Est curiosa para ver se ele retrata diabretes 
e aleijes ali. Aqui o Mestre pinta flores.
     - Por que est me aborrecendo? - resmunga ele, sem soar muito aborrecido.
     - J viu um drago... ou um ncubo?
     - O protetor que no paga sua dvida  um ncubo... - Que resposta de meia-idade para algum que alega admirar suas prprias pinturas de monstros e miserveis!
     Ela vai lhe pedir amanh a chave do outro quarto. Vai mesmo. Sempre ouviu falar de diabretes e quer ver um - no na vida real (pelo amor de Deus, no), mas 
numa pintura. Isso seria seguro e at mesmo maravilhoso.
     Mas o amanh chega e assim que ela vai pedir - ela vai, ela vai! - ouve-se uma batida na porta.
     - Caspar? - diz o Mestre. - Entre!
     Ningum entra.
     - Iris, abra a porta, os braos de Caspar devem estar carregados de presentes para mim - diz o Mestre com entusiasmo.
     Timidamente, Iris abre a metade superior da porta secionada ao meio. No v nada, mas ouve uma batida na metade inferior.
     - Seja generosa. Abra a porta inteira - diz o Mestre.
     Ela o faz. Uma besta horrvel com uma barba imensa est parada ali, alcanando apenas a altura dos cordes do avental de Iris.  um co falante ou um filhote 
de urso? Grunhe para ela:
     - Afaste-se, o que  que est olhando, sua coisa feia?
     Um ano, um ano de verdade. Iris fica contente que Ruth esteja na campina hoje. Possa ela ficar l em segurana at que essa criatura se retire!
     - Onde est o velho ganso? - rosna a criatura, entrando com mpeto.
     O Mestre no parece impressionado.
     - Quem mandou voc aqui? - disse.
     - Pela metade de um po, vou tirar meus cales e mostrar como o barbeiro fez ccegas nas minhas pernas gangrenadas com suas facas - diz o ano, que aparentemente 
 baixo assim porque no tem pernas. Ele avana, usando os braos para se locomover. Ento repousa sobre dois pequenos cotocos na base da sua plvis. Esto forrados 
por retalhos de couro, presos por correias enlaadas sobre seus ombros.
     - H uma mulher presente - diz o Mestre -, uma menina.
     - Oh,  uma menina? - diz o ano. - Tem um rostinho to bonito. Achei que fosse um macaco adoentado. Ento o senhor  Schoonmaker, no ? Ainda desenha gente 
como eu?
     - Quer que eu lhe pague metade de um po? - diz o Mestre. - O po est caro, e j vi gente como voc antes.
     - Tenho um belo pacote de calombos e ndulos arrastando pelo cho - diz o ano, olhando para o meio das pernas.
     - V embora - diz o Mestre. - Eu me interesso pelas variedades dos decados, por certo, mas neste momento estou ocupado com flores. E no gosto do seu linguajar 
chulo quando h uma menina presente.
     O ano olha para o estudo de flores silvestres do Mestre.
     - Deixou de catalogar figuras bizarras para pintar retratos de... comida de vaca? - diz o ano. - Desgraado, sua reputao vale mais do que isso.
     - Margarethe, traga a sua vassoura - diz o Mestre calmamente. - Um fiapo de plo falante caiu na entrada da porta. Precisa ser varrido, quer ele saiba ou no.
     Iris perde a coragem para inspecionar a galeria das aberraes. Quando Ruth volta, Iris lhe conta do ano enquanto Ruth escolhe as flores por altura e as enfileira 
no peitoril da janela para que o Mestre as inspecione.
     - Maravilhoso - diz ele. - To lindamente arranjadas! - E nem chega a tocar nelas. Elas secam e so levadas pelo vento no dia seguinte.
     
* * *
     - Pronto para desenh-la antes que outro peixe maluco venha nadando por a para me interromper - diz o Mestre finalmente. Iris no est segura de que deseja 
ser desenhada, mas trato  trato.
     Quando o sol se deslocou para o melhor local, o Mestre colocou Iris numa cadeira e ajeitou suas mos sobre o colo. Tira-lhe a touca da cabea. Lgrimas afloram 
a seus olhos. Receia que ele a v despir inteiramente. Seu pobre corpinho de palito no est  altura da misso.
     Ele interpreta erroneamente a preocupao dela.
     - A touca: suja - diz -, e no estou olhando para voc, de qualquer maneira, mas para o formato da sua cabea.
     Leva uma hora fazendo marcas na parede. Ela deve focalizar essas marcas, uma aps outra, enquanto ele volta constantemente para o seu bloco de papis e estuda 
a disposio dos olhos dela. No momento em que est pronto, a luz j mudou. Ele a amaldioa por sua teimosia e joga algumas flores sobre ela, e ela corre para a 
cozinha, escondendo seus olhos - no  culpa sua!
     - Chore um pouco se sentir necessidade.  saudvel mijar no fogo. Mas volte logo l - diz Margarethe, empunhando uma colher como um cassetete.
     - Ele quer desenhar uma esttua de mrmore, no uma pessoa! - chora Iris.
     - Ento seja mrmore para ele, sua tola - diz Margarethe. - Seja bronze, se ele quiser; seja vidro; seja carvalho. Seja o que ele quiser ou vamos passar fome.
     - Ele quer beleza - diz Iris, esfregando o nariz. - Ele tem uma paixo e quer beleza.
     A expresso de Margarethe  vazia. Finalmente, ela diz:
     - Ento, seja bela. Finja.
     Iris d um grito silencioso de exasperao. Tivesse algo para jogar na me, jogaria.
     - Ele no pediu...? - sussurra Margarethe, desenhando peitos no ar com sua mo esquerda.
     Iris sacode a cabea. Agora, estranhamente, est irritada. Claramente, ela no  interessante o suficiente para ser insultada dessa maneira.
     - Acabei de desenhar por hoje, pela estao, para sempre - grita o Mestre da outra sala. Est batendo pernas de um lado para o outro. - Estou tentando decidir 
como acabar com minha vida e vocs duas papagaiando a, isso acaba com a minha concentrao!
     - Imploro o vosso perdo - diz Margarethe numa voz retorcida e apaziguadora. - No desejaria interromper algum pensamento importante.
     Ele ri. Ouve-se o som de um pedao de papel sendo rasgado.
     - Comearemos mais cedo amanh, Iris - diz ele. - No vai me escapar, por mais timidez que possa fingir. Vou fixar seu rosto no papel sem falta. Minha subsistncia 
depende disso e a sua tambm. Enxugue os olhos e pare de choramingar ou vou ter de bater em voc.
     Margarethe ergue as sobrancelhas para Iris. Iris faz um beicinho. Mas a esta altura as duas sabem que o Mestre no  de bater em crianas.
     
     
     Na manh seguinte pe-se ao trabalho de novo e Iris posa para ele. Desenha-lhe o rosto, as mos e os ombros.
     - Deixe sua cabea cair um pouco mais, empine o queixo.
     - Meu pescoo vai doer, a no ser que eu o mantenha reto.
     - Faa o que estou mandando.
     Ela senta-se como um viajante diante de uma fogueira, imaginando algo s suas costas. Algo que deveria ter sido deixado para trs na Inglaterra?, ou algum novo 
monstro, como o ano indecente, a Mulher Jumento, algo mais obscuro, aproximando-se lentamente.
     - Que prudncia complexa em seus olhos! - diz ele.
     Mais tarde:
     - Agora, sem uma palavra de protesto, sem mexer os olhos, as mos, o pescoo, projete seu lbio inferior. No me importa como possa se sentir. Mais. Assim est 
bem.
     Se ele me captar, pensa Iris, ser que vai captar o que est s minhas costas? Aquela coisa que no consigo nomear? Aquela coisa que me faz acordar sobressaltada?
     - Existe realmente uma criana trocada ao nascer pelas fadas em Haarlem? - pergunta.
     - Estou desenhando sua boca. Feche-a!
      a pior tortura que algum podia ter tramado para ela, ter de se sentar to imvel!
     Mas, dia aps dia, ela se senta respeitavelmente, vestida. E agora est contente com isso.
     - Deixe-me ver o que fez comigo - diz ela depois da quinta tarde. O sol que se pe lana uma poeira dourada de luz na tela e ela se sente corajosa.
     - No tem sentido - diz ele. - Eu no captei voc. No estou tentando captar voc. Estou simplesmente usando voc para sugerir uma forma para mim. Existe uma 
sombra no papelo que no  Iris Fisher.  uma menina sem nome, sem esprito, enquanto voc  uma menina anglo-holandesa chamada Iris Fisher.  fcil presumir que 
seja a mesma da pintura, mas no . Probo-a de olhar - diz ele quando ela se aproxima.
     Num tom de advertncia da outra sala, Margarethe:
     - Iris.
     Ela volta atrs.
     - No sei o que estou fazendo aqui - diz.
     - Voc  minha musa este ms - diz o Mestre.
     - No sei o que quer dizer. Fala atravs de enigmas para me perturbar.
     - Voc  uma menina camponesa das charnecas, uma novilha que saiu de um pntano cheio de ervas daninhas. Por que deveria perder meu tempo educando-a? - diz 
o Mestre. - Uma musa  um esprito da antiga religio helnica, uma deusa que visita o homem empenhado no ato de criao e o inspira.
     - No aceitamos deusas de outras religies - diz Margarethe mordazmente.
     - No estou pedindo sua opinio, cozinheira - replica ele com igual mordacidade. - Iris, o amor dessas velhas histrias pags conquistou igualmente patronos 
e pintores. Os florentinos so to propensos a nos mostrarem Io sendo transformada numa vaca, Dafhe num loureiro, Zeus disfarado de touro para raptar Europa, como 
o so a nos mostrar a Madona e o Cristo, So Joo e So Nicolau.
     - No aprovo - diz Margarethe, sem se conter.
     Mas o Mestre diz apenas:
     - Nem eu, mas comrcio  comrcio. Se os ricos vo comprar Vnus, ento pintamos a me de Deus e a chamamos de Vnus.
     - Vergonha! - diz Margarethe.
     - Ns comemos - diz o Mestre.
     - Eu preferiria ficar com fome. - A superioridade moral dos bem-alimentados.
     - Passe fome, ento. Vai sobrar mais para mim.
     Iris no acompanhou muito a discusso, mas est interessada porque aborrece sua me. Um despertar espiritual naquele velho corao encouraado? Difcil demais 
de saber. Iris continua e diz:
     - Aposto que no est me retratando como Vnus ou outro esprito antigo de outra terra.
     Ele se afasta da prancha, a examina com um olho semicerrado. Faz uma carranca.
     - No - diz. - No, Iris, voc est certa em relao a isso.
     - Quero ver.
     - V buscar sua irm na campina.  tarde. Onde esto minhas flores hoje?
     - Deixe-me ver.
     - Saia daqui! - grita, zangado agora.
     Iris sai, embora no saia correndo. Sai com dignidade, cuidadosamente derrubando um pote de p modo no cho de pedra. Ele amaldioa sua falta de jeito. Ela 
no responde.
     Ainda est emburrada quando chega  campina. Algo est acontecendo aqui que ela no gosta. O Mestre  um homem generoso em muitos aspectos, mas a deixa com 
raiva. Ele a est prendendo na sua prancha de papelo, mas tambm a est prendendo na sala, mantendo-a numa caixa, distante dele. Ela pode no ser bonita, mas ele 
a est fazendo pequena.
     Margarethe no pode ajudar muito. No que diz respeito ao Mestre, Margarethe  pouco mais do que um aborrecimento; mesmo Iris, que a ama, pode ver isso. Margarethe 
 uma das irritaes do mundo, uma mosca negra no traseiro de uma vaca. No, cabe a Iris ser paciente e se comportar, ou a famlia vai se ver de volta s ruas de 
novo. E agora que viu o ano sem pernas, ouviu falar da Menina-Menino de Roterd, quem sabe que viles bizarros se ocultam mais para dentro do pas? Podia no ser 
um castelo encantado e uma madrinha de voz aucarada. Podiam ser ncubos maiores e diabretes menores, imensos abelhes com garras. Ou talvez at um deus feroz disfarado 
de touro, para raptar meninas pobres e fazer o que todo mundo sabe muito bem que os touros fazem.
     - Vamos dar a ele a sua monstruosidade - diz Iris subitamente. Ruth ergue os olhos das ltimas margaridas que est esfrangalhando. - Ele quer catalogar todas 
as aberraes do mundo? Vamos arranja-las para ele, Ruth!
     Ruth gosta deste tom de bravura, que no foi muito ouvido desde que deixaram a Inglaterra. Iris roda pela campina, rindo, pensando. Atira-se  velha macieira 
e arranca um galho morto e quebra os ramos ressecados.
     - Chifres - diz Iris - para a Menina-Veado da Campina!
     Elas se do as mos e correm para casa. Margarethe est no poo ou na praa do mercado, fora de casa em algum lugar. O Mestre est ocupado no segundo estdio 
- na galeria dos erros de Deus -, por isso  fcil para Iris deslizar na sala e tirar com o dedo um pouco de tinta de cor pardacenta da longa prancha que serve de 
paleta.
     No galpo ao final da cozinha, ela pinta o rosto de Ruth.
     - Voc  uma bela Menina-Veado - cantarola, para impedir que Ruth retire a tinta com a mo. -  capaz de fazer o som de uma besta? - Ela j conhece a resposta. 
Ruth contribui com um mugido apaixonado.
     - Est bem perto - diz Iris.
     Ruth com suas mos rechonchudas e joelhos fortes. Iris encontra uma corda comprida na cozinha e amarra o conjunto de chifres de veado formado pela galharia 
da macieira na cabea de Ruth. Iris coloca um pedao de sacaria marrom malcheirosa nas costas de Ruth. A pele do veado. Ento Iris se ajoelha por trs da irm, bem 
encostada nela, como o touro Zeus montando numa vaca. Amarra as extremidades da sacaria para mostrar que so uma criatura de duas cabeas, coberta pela mesma pelagem.
     - Agora, Ruth - diz Iris -, vamos a furta-passo at o estdio e teremos nosso retrato pintado. Vamos fazer o Mestre rir e ele me perdoar pelos aborrecimentos 
que lhe dou!
     Elas caminham pesada e ruidosamente atravs do ptio, Ruth mugindo para anunciar sua chegada. Silncio no estdio enquanto transpem a soleira da porta. Quando 
a Menina-Veado rasteja em torno de uma pintura encostada numa banqueta, elas vem que o Mestre voltou do segundo estdio. Ele fica sentado com a boca aberta. Olha 
para elas. No est sozinho.
     O visitante  um homem mais jovem, com uma barba rala surgindo no queixo e nada da corpulncia que comprova o sucesso dos grandes homens. Est empoleirado numa 
banqueta, mergulhando um pedao de po num caldo de leite e cebolas.
     - Oh, um bicho de estimao domstico! - grita, e d um salto, derrubando a banqueta, derramando seu caldo, colidindo com os joelhos do Mestre.
     - Estava esperando as brilhantes filhas de minha governanta - diz o Mestre. - Em vez disso, deixe-me apresentar-lhe um animal da floresta.
     Ruth muge, deliciada, incapaz de ouvir condescendncia na voz do Mestre. Iris est mortificada, mas corajosamente continua.
     - Somos a Menina-Veado da Campina - diz Iris. - Somos feias o suficiente para poder servir ao senhor agora?
     - O disfarce  impecvel - diz o Mestre secamente. - Jamais a teria conhecido no fosse sua voz suave e melodiosa. - A contragosto, ele comea a rir. - Iris, 
voc possui alguma esperteza. Mas esto atrasadas, filhas, e preocuparam sua me. Ela saiu  sua procura. Vocs me preocuparam tambm. Tem jantar na cozinha. Vejam 
agora, este  o nosso Caspar, o irresponsvel Caspar, que voltou de Haia. O tolo Caspar, incapaz de conseguir uma nica encomenda nessa viagem, embora levasse cartas 
de recomendao assinadas por mecenas em todas as cortes da Europa.
     - Eu mesmo escrevi as cartas - diz Caspar, gabando-se. - Quem  Iris e quem  Ruth?
     - Esta  Ruth, a mais velha - diz Iris, desatando a sacaria, sentindo-se tola -, e eu sou Iris, a mais moa.
     Ruth no fica na sala para ser observada por um novo membro da casa. Sai meio a galope, os chifres oscilando, e desaparece na cozinha, censurando a si mesma 
com mugidos.
     - Ruth  tmida, como eu - diz Caspar. - Um trao to atraente. Mas voc, voc  uma figura rara, Iris. Foi voc que inventou esta fantasia? Vai ser divertido 
ter uma companheira aqui!
     - No estou mantendo um salo para a prtica da conversa - diz o Mestre. - Lembrem-se disso. Caspar est aqui para aprender o ofcio do esboo, mas  um tolo 
irremedivel, embora um tanto atraente  maneira de um pnei. Galopa bonito um dia e se sai bem, e ficamos todos aliviados.  desprovido de qualquer talento, ou 
Hals, ou Van Schooten, ou meu atual rival, Bollongier, o teriam contratado. Caspar  quase to intil quanto vocs, garotas. Isso deveria fazer com que se sentissem 
em boa companhia. Espero que estejam contentes.
     Iris estuda o recm-chegado brevemente, com cautela. Caspar tem um sorriso irresistvel. Parece acostumado ao rabugento Mestre. Caspar no se ofende com os 
comentrios irnicos. Morde os cantos da boca. Seu lbio brilha com plos louros novos. A contragosto, Iris sente uma sbita vontade de acariciar o bigode nascente 
com o dedo, do jeito que gosta de acariciar as orelhas do gato da cozinha quando ele se senta  luz do sol perto da porta.
     - Fale - diz Caspar, rodando a mo para o alto  maneira de um gentil-homem dando boas-vindas.
     - Silncio - diz o Mestre.
     - Mingau - diz Margarethe da cozinha, de volta da sua busca. - Agora - acrescenta.
     O Mestre no falou que as Fisher poderiam ficar at que seu aprendiz voltasse? Mas agora o Mestre no faz nenhuma sugesto de que devessem fazer as malas e 
ir embora. Acostumou-se a elas. Muito justo.
     Iris vira-se para ir embora. Caspar est aqui simplesmente de visita? Neste caso, ser uma longa visita? Iris acredita que sente prazer com a idia da sua chegada, 
mas nisso, como em quase tudo o mais, ela no tem certeza.
     - A Menina-Veado da Campina - diz Caspar quando ela passa por ele na cozinha. - Que parte voc ? Menina ou Veado? - Partida dele, a observao no  um insulto, 
faz com que ela ria  socapa e no responda.
     
     
     
     
     
    Menina com flores silvestres
     
     
     
     
C
om a chegada do aprendiz de Schoonmaker, Iris, se no chega a se tornar mais feliz, fica um pouco menos constrangida, porque Caspar parece no notar a sua triste 
aparncia. Na verdade, Iris sabe que a imensa Ruth no  o insulto  forma humana que, com seu brao murcho e o cuspe escorrendo, pode parecer, mas tambm sabe que 
no  uma prova de uma presena divina num mundo corrupto.
     O melhor a que tem podido aspirar, a maior parte dos seus dias,  que no a notem.
     Toda manh o Mestre desenha Iris, e ento comea a pint-la, estudos rpidos que no lhe permite ver. Incorpora quaisquer flores silvestres que Ruth traga.
     - Que importa a forma ou a cor - resmunga -, quando o que se deseja  o frescor da florao?
     Passa para telas maiores. Quando tem uma forma que admira, comea a trabalhar mais lentamente, diluindo suas cores com leo para mant-las midas e maleveis 
s vezes por dias. Mas toda tarde quando a luz muda - ele  capaz de sentir isso no instante, por uma sagacidade que Iris no consegue penetrar - ele arremessa seus 
pincis e expulsa Iris da sala.
     s vezes Caspar se deixa ficar nas sombras do estdio. Atravs dele Iris pega o hbito de observar como o Mestre trabalha. Como ele acaricia uma superfcie 
com o mais suave dos pincis de cerdas alargadas.
     - Um rubor para enfatizar a luz refletida - murmura.
     Iris no pode ver - no lhe  permitido olhar para a imagem -, mas Caspar prende o flego e diz:
     - Aquela linha amarela estridente e recortada... uma evidente impreciso, mas to reveladora!
     O Mestre faz uma careta, mas Iris sabe que ele est contente.
     Embora embarace Iris pensar a respeito, de um canto Caspar ocasionalmente tenta desenh-la tambm. Esconde o seu trabalho de Iris e do Mestre. Uma manh o Mestre 
se farta dessa timidez.
     - Como vou ensin-lo se no posso ver os seus erros? - o Mestre reclama.
     - Ensine-me atravs de seus prprios erros - replica Caspar.
     - E que erros podiam ser? - O tom  to ameaador que Iris rompe a sua pose e inclina-se para ver a carranca do Mestre.
     - Neste estdio pintou Deus e Seus companheiros - diz Caspar -, e na sala ao lado retratou os degenerados. Suas duas obsesses. Portanto o que espera alcanar 
dessa vez, pintando no meio do espectro moral...? - Ele aponta com a cabea para Iris e para a tela que Iris est impedida de ver. - Admiro sua renncia, seu sacrifcio, 
abandonar seus grandes temas pelo mundano...
     Est alfinetando o Mestre, embora Iris no tenha o esprito para reconhecer como o faz.
     - Deus me guarde! - diz o Mestre. - Os abusos que tenho de aturar, daqueles que comem na minha prpria mesa e aquecem os seus costados na minha prpria lareira! 
- Apanha uma pesada capa de um cabide. - Estou trancado aqui com animais e idiotas - diz ele -, enquanto a tagarelice de crianas e uma governanta tola envenenam 
o ar. Saiam do meu caminho.
     Ele deixa a casa pela primeira vez desde que as Fisher haviam chegado. Margarethe, ouvindo da cozinha, vai at a porta e o observa afastar-se a passos largos 
pela viela.
     No  um homem velho. Caminha rapidamente e com propsito, batendo com o cajado de abrunheiro nas pedras arredondadas do calamento. Os ces recuam, as crianas 
ficam imveis e as mulheres da viela cumprimentam mudamente com a cabea, mostrando devota reprovao.
     - Oh, Caspar - diz Margarethe -, vamos ser todos jogados na rua e ento o que vai acontecer?
     - Bobagem - diz Caspar jovialmente. - Ele no caminha o bastante. Fica mal-humorado. Vai estar melhor quando voltar. Isso  parte do meu trabalho, no percebem? 
Tenho de aborrec-lo bastante para mant-lo envolvido com o mundo. De outro modo, ele trancaria as venezianas e se esconderia dentro das suas pinturas e nunca mais 
sairia.  uma provao constante para ele, este hbito de mau humor e de bile negra, e refugiar-se do mundo por causa disso.
     - Ele pede isso a voc? - indaga Margarethe.
     - O que ele pede e o que precisa so freqentemente coisas separadas - diz Caspar.
     - Quem o designou para decidir a diferena?
     - O amor me designou - diz Caspar, surpreso com a pergunta. - Voc  me, sabe o que o amor exige a favor de sua famlia.
     Margarethe diz, pomposamente:
     - Obedincia e silncio.
     - Caridade e umas cacetadas nos ombros de tempos em tempos - diz Caspar.
     Tendo sado o Mestre, Margarethe se permite sentar-se ao sol no degrau ao lado de Iris. Iris recebe uma gamela de ervilhas de fim de vero para debulhar. Margarethe 
lava lentilhas. Ruth traz o seu brinquedo. Agacha-se na posio desairosa assumida por crianas pequenas para brincar ou por pessoas que aliviam os intestinos numa 
fossa.
     - Bem, ele vai levar horas para voltar - diz Caspar para Iris. Saiu para ver seus colegas, seus camaradas.
     - Ele no tem amigos alm de ns, eu pensava - diz Iris.
     - Podia ter um vasto crculo de amigos se lhes desse tanta ateno quanto d a suas pinturas - diz Caspar, demonstrando conhecimento. Ele gosta de tornar pblicas 
suas opinies. - Schoonmaker  benquisto pelos melhores artistas da cidade. Mas se mantm  parte, envergonhado de que seu trabalho seja menos conceituado do que 
o dos outros.
     - Diga-me - fala Iris, com coragem de abordar um assunto agora que o Mestre est fora -, diga-me: existe em Haarlem alguma criana trocada pelas fadas ao nascer?
     - s vezes, o mexerico  mais forte do que o Evangelho - diz Caspar. - Dizem que sim. Clara, a filha do homem que encomendou o trabalho atual do Mestre.
     - Clara! - diz Iris. -  o nome da criana que deu a Ruth o pequeno moinho. Ela no  uma criana possuda.
     - No me pergunte a verdade, pois gatos deitam-se ao sol e ces deitam-se  sombra e eu me deito sempre e onde possa me safar. - Ri maliciosamente. - Ela  
uma criana escondida dos olhos curiosos de Haarlem, por isso poucos podem provar ou negar. Mas os boateiros querem que o seja. E o Mestre juraria no tribunal se 
isso lhe garantisse uma comisso decente.
     - Fala com liberdade exagerada das preocupaes do seu Mestre - diz Margarethe severamente. Caspar ri. - Estou falando srio - prossegue ela. - Voc  um empregado 
aqui, como ns. Que licena lhe permite vociferar tal opinio contra ele?
     - A juventude - diz Caspar, apontando um dedo para si mesmo.
     Margarethe morde o lbio.
     - A juventude  uma condio a ser superada o mais rpido possvel.
     So preo um para o outro, Caspar e Margarethe. Iris est assombrada.
     - Vamos - diz Caspar. Ele pula e segura a mo de Iris. - Quer ver as pinturas que fez de voc?
     - Eu probo isso! - grita Margarethe.
     - Ora, o que h de mau nisso? - diz Caspar.
     Iris fica surpresa e amolada pelo toque de Caspar e, s para se desvencilhar dele, pe-se de p num pulo como concordando. Entrega a gamela a Ruth, que coloca 
o moinho dentro dela, afundado at o pequeno pescoo de madeira nas ervilhas cor de esmeralda.
     - Iris, quer colocar em risco nossa posio aqui? - pergunta Margarethe.
     Iris no pode responder  me. Caspar segura Iris de novo com um toque muito leve. Caminhando para trs, ele a puxa para o estdio.
     - Por que no poderamos aprender estudando o trabalho do Mestre?  para isso que estamos aqui, no ? - diz Caspar.
     - Estou aqui para ficar em silncio e ajudar - diz Iris, a bem da verdade -, no para aprender.
     - Nenhum mestre restringe o aprendizado, ou no  um mestre - diz Caspar. Por fim, ele larga a mo de Iris; ela fica imensamente desapontada. Um vazio sbito. 
Ridculo!
     Caspar gira painis pesados dos seus cuidadosos ngulos, secando aqui, ali; encontra o que est procurando e o empurra para fora at um facho de sol evanescente 
que cai num canto da sala.
     - Um estudo de... - diz Caspar. Fica sem palavras, ento.
     Iris coloca a mo na boca. Margarethe no conseguiu manter sua postura de superioridade. Por interesse ou por uma tendncia maternal de proteger a filha, ela 
os seguira at a outra sala.
     - Oh - diz Iris -, oh.
     -  uma boa semelhana - decide Margarethe.
     -  severo - admite Caspar.
     -  severo e verdadeiro - diz Margarethe. - Iris tem uma aparncia sem graa. Penosamente sem graa. No exagere suas virtudes fsicas, Caspar, acaba no lhe 
fazendo bem. Ela deve aceitar isso como o resto de ns.
     Iris na tela foi bem pintada, com toda a certeza, at ela mesma pode ver. As cores so mgicas. Um campo de preto iluminado por topzio, contra o qual uma figura 
humana e ramagens de flores silvestres brilham numa luz inflexvel. A menina  um estudo sobre a falta de graa humana. Sim, pra  beira do grotesco; aquilo seria 
Ruth, ou pior. Mas os olhos so chapados, carecendo de inteligncia; os lbios cerrados, traindo ressentimento; a testa vincada, o queixo entrado, o nariz grande. 
 inteiramente Iris, ou a Iris que ela pode intuir ao divisar sua prpria imagem num espelho, numa poa d'gua ou numa vidraa. Mas no  a Iris cuja mo quase latejou 
com uma vida prpria aterrorizada quando Caspar a agarrou. No  a Iris que cuida de Ruth quando sua me se cansou.  outra Iris, uma Iris menor, imobilizada na 
tela graas a marfim, oliva e umbra borrada.
     - V o que ele est fazendo? - diz Caspar.
     - Ora, enxugue seus olhos, assim voc fica ainda pior - diz Margarethe rudemente e enfia um trapo na mo da filha mais moa.
     - V os seus esforos, voc entende? - diz Caspar.
     Ruth entra, apontando para a tela com surpresa. At ela enxerga a semelhana. Oh, os agentes profanos do inferno!
     - Ele retirou e acachapou tudo o que  atraente em voc - diz Caspar. -  como uma mentira que possui semelhana suficiente com a verdade para convencer por 
um breve momento. Mas voc no deve aceitar isso como a Bblia. Ele usou a... a gramtica de suas feies para soletrar uma frase. Sabe o que ela diz?
     Iris no consegue falar.
     - Diz que depois de tudo o que passamos - grunhe Margarethe -, temos sorte por estar comendo todo dia e dormindo em segurana sob um telhado. Temos sorte por 
no estarmos sendo caadas por algum ente maligno do inferno cuspindo enxofre.  tudo o que diz. Vamos, meninas.
     - Nada diz - insiste Caspar -, nada diz sobre sorte, nada sobre Iris, nada sobre meninas. Diz apenas uma coisa. Diz: as flores no so bonitas?
     Iris no tem certeza de que pode ouvir a horrvel pintura dizer algo do gnero.
     - No v? - diz Caspar. - Aqui est uma braada de flores silvestres colhidas na campina e aqui est uma menina camponesa parada para tomar flego. No so 
a mesma coisa. So sobre valores simples, que so naturais, no artificiais ou cultivados...
     - Voc embaraa todo mundo, fique quieto - diz Margarethe. - Est tornando a coisa pior. Caspar, que bem fez a ns?
     - Ela gosta de olhar - diz Caspar. - No sabe ento que sua filha gosta de olhar?
     - Ela mal pode olhar, de seus olhos esto jorrando lgrimas tolas.
     Margarethe no se mexe para abraar a filha. Iris sabe que esse no  o jeito de sua me. Mas a voz de Margarethe  fria na defesa da filha e por um momento 
traz calor.
     - Pare com esta bobagem - diz Caspar. - Voc  uma aprendiz tanto quanto eu, Iris. No olhe para si mesma na tela. Olhe para a pintura do Mestre. No importa 
se consiga encomendas das famlias com ttulo de nobreza da Europa. Ele  um gnio, embora ningum saiba disso alm de ns nesta sala. Olhe para a pintura: aqui 
est a sua sorte. Voc  parte de uma pequena obra-prima. Voc vai viver para sempre.
     Fixada para sempre como uma magricela de bochechas chapadas!
     Iris corre para fora da sala e fica de p do outro lado da porta aberta, seus flancos arfando como se fossem explodir.
     Margarethe no vai atrs dela. Fala para Caspar:
     - Voc desobedeceu a uma regra da casa do Mestre. Vou aconselh-lo a romper seu vnculo com voc. Voc prejudicou suas intenes, como se no bastasse o dano 
causado ao esprito da minha filha.
     - Ora, cale-se - diz Caspar. - Voc no tem o poder de recomendar nada a ele, e ele no tem o poder de romper seu vnculo comigo, ainda que quisesse. Quanto 
a Iris, ela vai me agradecer um dia, pois o olho precisa de educao, e ela tem um bom olho. Voc  ainda mais tola ao ser cega para isto.
     - E um "olho", como chama, achar um marido para uma garota to feia? - diz Margarethe. - Quando chegar a hora, um "olho" a ajudar a ser feliz nas tarefas 
do lar e da mesa, do poo e do jardim, da cama e das sepulturas de seus filhos? Voc, com todos os seus ares,  ainda jovem o bastante para ser quase inteiramente 
estpido.
     - Um olho a ajudar a amar melhor o mundo, e no  por isso que vivemos?
     - E quem vai am-la? - indaga Margarethe. - Acho que no vai ser voc, jovem Caspar.
     Ela o venceu. Iris, fora de vista, sabe disso, porque de repente ele silencia. Margarethe resmunga sob o seu flego a respeito do retrato de Iris com ramagens 
eriadas de flores em ouro e ametista.
     - Maldade crua, mas honestidade crua - admite ela.
     Ruth  quem se arrasta para fora da sala, seguindo o rastro de soluos abafados, para consolar sua irm levando consigo seu bonito brinquedo, o moinho. O moinho 
no consola Iris, mas ela roda os braos mesmo assim, condenada a se deixar agradar, em funo da tola Ruth.
     
     
     
     
     
     
Meia-porta
     
     
     
     
A
 estratgia de Caspar para melhorar o nimo do Mestre funcionou. Na manh seguinte Schoonmaker est em tima forma. Desperta as meninas e Margarethe com uma cano 
cmica, e Caspar tropea para fora da cama, com os olhos turvos e os cabelos revoltos, grogue e agradecido ao mesmo tempo.
     - Hilaridade a esta hora? No chega a ser coisa de holands - diz Caspar. - Isto aqui no pode ser a Holanda. Onde estamos ns, em Pdua, Roma, Marselha?
     Iris esfrega os olhos e pensa de novo. Sim, onde estamos? Onde, no mundo ou fora dele?
     - Vistam suas roupas, lave seu rosto, voc - diz o Mestre -, e Iris, nada de posar hoje. Leve sua irm  campina, agora...
     - Elas no comeram nada - diz Margarethe. - Faz frio na campina a esta hora. Tem geada na viela e at as pombas nos beirais esto com a garganta gelada...
     - ...que levem po com elas e fiquem por l at serem chamadas. Podem brincar de correr para esquentar. Estou esperando uma importante companhia esta manh. 
No vai haver nenhuma sesso de pintura hoje.
     - No vou posar para o senhor de novo - diz Iris numa voz fraquinha.
     - Amanh ser tempo o bastante - diz o Mestre.
     - Nunca mais - diz Iris, mais alto. Caspar ruboriza e enfia a cabea numa camisa limpa e fica ali, como uma tartaruga enfiada no seu casco.
     - Que tipo de revoluo  esta? - diz o Mestre, mal ouvindo. - Margarethe, vou precisar de sua, ajuda nas minhas ablues. Sabe aparar uma barba?
     - D-me uma navalha e exponha a sua garganta e vamos descobrir - diz Margarethe.
     - Todo mundo to alegre esta manh - diz o Mestre apressadamente. - Bem, no importa. Minha prpria triste figura vai ter de servir. Est tagarelando sobre 
o qu, Iris?
     - Eu vi como pinta o meu rosto - diz Iris. Ela pesou bem as palavras e se esfora para pronunci-las numa voz calma. - V a mim com humor e desdm. Fez-me parecer 
uma idiota. J me vejo como idiota em meus prprios olhos. No vou me prestar a parecer uma idiota para o mundo.
     - Ento romperam minha lei e espiaram minhas pinturas no momento em que virei as costas? - A voz do Mestre  suave como um trovo distante.
     - Foi sugesto de Caspar - diz Margarethe, fuzilando o jovem com um olhar. Ele se contorce em sua camisa comicamente.
     - Oh, Caspar - diz o Mestre, desprezo e pouco-caso misturados. - A gente no espera nada melhor dele. Caspar, saia de dentro desta camisa, seu asno. Terei sua 
cabea numa bandeja  hora do almoo se no parar com seus jogos. Iris, tenho mais a fazer hoje do que beijar lgrimas de sentimentos feridos. Vamos embora, meninas, 
embora, embora! Um mecenas est a caminho e o cho precisa ser varrido, Margarethe, e as pinturas arrumadas para serem vistas  melhor luz do dia.
     Iris  posta de lado, seus corajosos pensamentos falados mas no ouvidos. O Mestre tem outras preocupaes na cabea.
     - Ns devamos fugir - diz Iris ferozmente para Ruth. Elas se do as mos e deixam o barulho da agressiva limpeza da casa para trs. Ao longo da viela uma velha 
senhora aleijada vem claudicando com a ajuda de duas bengalas. Suas costas so quase duplicadas por ndulos e as mos calejadas so atadas s bengalas para que no 
as derrube.
     - Estou procurando aquele sujeito pintor - guincha a velha para Iris -, aquele que gosta de velhas aleijadas e azedas como eu. Sou a Rainha das Ciganas de Queixo 
Barbudo e posso soprar anis de fumaa pelo rabo. Onde est ele? Me diga, ou ento vou amaldio-la para o fundo de um poo, onde s ter sapos para ouvir sua confisso.
     Ruth, que  a mais tmida das pessoas, fica atrs de Iris, sem dvida assustada pela papada da velha que parece um po, com sua tnue penugem de barba branca 
igual a cerdas de porco. Mas Iris no se assusta. Por algum motivo, pensa na velha escondida nas sombras do cais naquele primeiro dia. Aquela que disse a Margarethe: 
"Encontre voc mesma o seu caminho!"
     - Vou mostrar-lhe onde mora o Mestre - responde Iris -, se fizer uma mgica para jogar ele no fundo de um poo!
     - Vou transform-lo numa lesma e esmag-lo com meu sapato - diz a velha prazerosamente. - Depois que ele me pintar e me pagar. A imortalidade chama, portanto 
quem sou eu para ficar a sombra? Diga onde posso encontr-lo.
     - Se prometer - diz Iris. A velha olha com malcia. Ora, vamos l, ento. -  a casa logo ali adiante, com o janelo e a meia-porta.
     - Rainha das Ciganas, Galinha das Frangas Tradas, Dama dos Danados, Porca das Crias Desmamadas, Parteira das Crianas Possudas, Me Abadessa das Putas, das 
quais voc nunca ser uma, sua coisa feia. Melhor ir logo para um convento e poupar trabalho. Abenoada seja, filha, e abra caminho. Quando eu sair andando, no 
posso mais parar.
     A velha segue em frente, mais como um inseto de pernas espraiadas roando a superfcie de um lago do que como uma rainha. Parteira das Crianas Possudas, pensa 
Iris. Pode nos contar ento sobre a criana trocada ao nascer de Haarlem?
     Iris quer ir atrs dela. Gostaria de ver uma maldio lanada sobre o Mestre. V-lo reduzido a uma lesma! Ela no ousa. Em vez disso, pega Ruth pelas mos e 
as duas partem rapidamente. Iris murmura:
     - Devamos voltar ao cais e encontrar o barco em que viemos e retornar  Inglaterra. No nos sentimos bem aqui entre pintores malucos. Odeio esta casa de loucos. 
Odeio ele. Por que algum desejaria ver tal pintura? Acha que o mecenas vem para ver aquela pintura em especial? Tire os dedos da boca, voc est horrenda.
     A campina ainda est cheia das mesmas flores tardias, embora agora elas estejam ficando marrons, comidas por insetos, definhando, Iris mal pode se sentar aqui, 
porque sente que est imitando a pintura: jovem feia cercada pelas flores mais banais.
     Assim que Ruth se instala, feliz da vida, com po para roer, Iris escala os galhos da macieira, como fizera antes, e galga a segunda rvore que proporciona 
uma vista das muralhas da cidade. Observa a casa do Mestre, para ver que tipo de hspede teria a idia de visit-lo. No h sinal da Rainha das Ciganas de Queixo 
Barbudo. Provavelmente foi expulsa com um tamanco de madeira plantado no seu traseiro fumacento. O Mestre no est disposto a aceitar interferncias hoje.
     Iris no precisa esperar muito. Quase antes que o resto de Haarlem esteja acordado e mergulhado em seus afazeres, um cavalheiro chega a passos largos do melhor 
bairro e percorre a viela que conduz  casa do Mestre. Usa uma cartola com uma fivela to bem polida que reluz at mesmo a distncia e veste uma capa com um corte 
mais do que generoso. Um colarinho de renda pousa sobre seus ombros como as spalas de uma rosa, aninhando seu semblante corado.  um rosto inteligente, aguado 
ainda mais por um cavanhaque bem-aparado e pelos floreios de um bigode. Ao lado dele, pensa Iris com prazer, o Mestre parece um msero comedor de batatas.
     O cavalheiro pra diante da porta da casa do Mestre por um momento, contemplando a situao. Talvez bata  porta. A porta se abre por inteiro e l est Caspar, 
to bem vestido como Iris jamais o vira. Iris no chegou a uma concluso sobre os seus sentimentos em relao a Caspar depois de ontem. Preferiria no o desprezar, 
mas de certo modo ele parece em choque com o Mestre  custa dela. Como ela conta pouco nesta casa!
     Caspar introduz o hspede na casa e a metade inferior da porta se fecha para impedir a entrada de gatos vadios, porcos e anes grosseiros.
     Iris diz a Ruth: 
     - Por que devamos ser mandadas ao pasto como um par de cabritas desobedientes?
     Ruth simplesmente mastiga o seu po.
     - Dei o que tinha que dar, querendo ou no. Por que no poderia saber o que foi feito de mim? - diz Iris. - Quem  ele para nos despachar assim?
     Ruth cai para trs sobre a grama, desfrutando o sol no seu rosto.
     - No coma deitada, pode se engasgar, e sabe disso - diz Iris. - Ruth, sente-se.
     Ruth fica sentada, irrequieta.
     - Vou voltar para apanhar voc. Se as vacas vierem  s gritar para elas. Voc sabe gritar quando quer - diz Iris. - Vai ficar bem?
     Ruth encolhe os ombros.
     Iris sai.  s uma questo de momentos, agora que est familiarizada com o terreno, antes que retarde o passo e caminhe na ponta dos ps aproximando-se da casa, 
curvada para no ser vista. Ela rasteja at a porta.  um dia quente para o meio do outono, ou talvez o Mestre queira tanta luz ambiente quanto puder; a metade superior 
da porta ainda est aberta. Iris se agacha contra a metade inferior, seus braos enlaando os joelhos, escutando. O estdio da frente fica logo a seguir e o Mestre 
est divulgando seus pensamentos numa voz pblica. Bravata, pensa Iris, mas no chega a disfarar o seu medo.
     Ela fica contente com o embarao dele. Ainda assim, preferiria que fosse uma lesma morta no assoalho.
     Ela escuta e tenta entender a ocasio. Aparentemente o visitante est olhando as pinturas; o Mestre e Caspar esto colocando uma pintura aps outra sob a melhor 
luz. H Anunciaes e Lamentaes e Natividades; h santos, So Baslio, So Nicolau e So Joo Batista.
     - E padroeiros, em seus aspectos mais santificados - diz o Mestre. - Posso fazer mulheres com vus, fao rendas como neste estudo de Catarina de Clves, e prolas 
do mais fino lustro. Observe o tom da pele, cereja sobre uma fina base de azul-oliva, uma conquista tanto em moagem como aplicao que no  do conhecimento comum 
entre meus pares...
     - O jovem Van Rijn de Amsterd tem tons de carne superiores - murmura o hspede-, e seu tratamento da luz, mesmo para um jovem,  notvel. Ele pinta a luz da 
prpria santidade. No se pode imaginar como faz isso. Por graa de Deus, talvez.
     - Deus trabalha com o pigmento e o verniz, assim como o resto de ns - diz o Mestre, com o suspiro mais generoso que consegue dar. Que possamos todos ns aspirar 
s realizaes que Rembrandt van Rijn empreende. Enquanto isso, vamos nos ater s questes  mo. Agora, Caspar, mostre a heer Van den Meer os estudos de flores 
que ele pediu. Deixe minha governanta segurar aquele frasco para o senhor... Margarethe! Por favor... e aqui... est confortvel, sente-se no banco... aqui... Caspar, 
um pouco neste ngulo... assim. Voil.
     - Obrigado - diz heer Van den Meer num tom evasivo.
     - Exatamente - diz o Mestre com bravura.
     - Mal podemos prestar ateno s flores - diz heer Van den Meer. - Quem  a criana infeliz?  uma composio da sua imaginao maldosa?
     - Ela  to esperta quanto sem graa - diz o Mestre. - Quem pode saber como Deus escolhe os Seus caminhos neste mundo?
     - Acho que nunca houve uma menina to feia na Holanda.
     - Ela  antes da Inglaterra. So desgraciosas por l.
     - Inglaterra, voc disse? E como veio posar para voc?
     - Meu peito explode de caridade para os desafortunados - suspira o Mestre. - Um corao to grande.  a minha maldio. Uma encomenda do senhor me ajudaria 
a mant-la alimentada.
     - Procure mant-la fora das ruas e estaria nos prestando um servio - murmura heer Van den Meer.
     H uma risadinha oca e Iris ouve sua me dizer suavemente.
     - Est tudo em ordem, cavalheiros?
     Faz-se um silncio.
     - Claro. Tambm fico impressionado com as peas florais de Hans Bollongier - diz o visitante. - Foi o trabalho dele que me deu a idia...
     O Mestre diz apressadamente:
     - Oua, meu bom senhor, no se deixe distrair pela novidade da menina. So as pinturas da flora que desejava ver. Confrontei as flores mais comuns com os rostos 
mais comuns, para que possa julgar o meu toque, minha paleta, minha habilidade de arranjo. A beleza brilha mesmo em meio ao material mais tosco, se as formas forem 
bem arranjadas. Para no colocar pensamentos na sua cabea, naturalmente.
     - Naturalmente - diz Van den Meer.
     Outro silncio. Iris morre de vontade de espiar por sobre a beirada da meia-porta, mas no ousa. Por que o Mestre no mostra ao seu patrono sua galeria secreta 
de aberraes, anes e outras criaturas mgicas?
     - A criana conhece o holands to bem como o ingls? - diz Van den Meer.
     - Est aqui para olhar as pinturas! - diz o Mestre. - Ela conhece, senhor, conhece, sim - interrompe Margarethe. - Sou sua me.
     - E eu estou aqui para olhar as pinturas - diz Van den Meer. - Muito bem. Esta pintura est seca o bastante para ser removida numa carroa?  uma bela pintura, 
sabe, muito bela. Gosto do que vejo. No se deve combater tanto as mars da mudana, a vida no tem de ser to dura. Existem fortunas a serem feitas, existe uma 
lenta recuperao das interminveis guerras com a Espanha a ser alcanada, existe um lugar para todos ns nos bons tempos  nossa frente, mas no se deve encarar 
com tanta falta de dignidade as coisas do passado. Sim, traga a pintura  minha casa amanh se o tempo estiver bom. Sim - diz Van den Meer -, traga a pintura e traga 
a criana tambm.
     H uma pausa.
     - Por que a criana? - diz o Mestre. -  uma criatura muito tristonha. Pretende avaliar minhas habilidades montando o tema e o retrato num palco lado a lado? 
Ela no far isso.
     - Ela far o que lhe mandarem... - intervm Margarethe.
     - Ela no o far porque eu a mandarei no fazer - diz o Mestre com firmeza.
     Mas Van den Meer apenas ri.
     - Nada quero da aparncia da menina, quem quereria? - diz ele. - Mas se  esperta e fala holands e ingls, poderia ser til em minha casa. No se preocupe. 
Aqueles que dispem de dinheiro vo olhar para a sua pintura e no vo se interessar pela modelo. Mas, j que est vindo, traga a menina  minha casa, bem-arrumada 
e corts, e veremos o que vai acontecer. Poder resolver um problema domstico e manter minha boa mulher feliz. Enquanto isso, tenho pouco mais a dizer. Executou 
bem a sua tarefa e espero que esteja engajado na prxima etapa da nossa empreitada. Aqui est o dinheiro da quantia que combinamos. Vire a pintura para a parede 
agora; ningum deveria ter de olhar aquilo mais tempo do que o necessrio.
     Ri, mas nenhum dos outros se junta a ele. H o som de uma tela sendo erguida.
     - E voc, meu rapaz - diz Van den Meer, preparando-se para sair -, como se sente aqui, vivendo na vizinhana de um talento to brilhante?
     - Fico cegado, senhor - diz Caspar. - Uma mudana de tempos em tempos me faria bem. Se existem alguns pequenos trabalhos para fazer em sua casa...
     - No preciso de um rapaz - diz Van den Meer -, voc no serviria. Amanh, ento.
     Iris sai correndo para trazer Ruth de volta, seus sapatos nas pedras soando uma espcie de alarme. Por mais vazia e enevoada que fosse sua infncia, por mais 
zangada que esteja com o Mestre, por mais inseguros que sejam seus sentimentos por Caspar, a idia de resolver os problemas domsticos de algum parece subitamente 
uma perspectiva muito mais sombria. Onde est a Rainha das Ciganas do Queixo Barbudo quando voc precisa dela? Eu seria uma criana possuda se pudesse, pensa Iris; 
me transformem num linguado, num pardal, num rato silvestre. Melhor ainda, me transformem numa insensvel cadeira com um assento de palhinha furado, um cravo na 
ferradura de um cavalo! Me transformem numa triste e pesada Ruth! Qualquer coisa ou qualquer pessoa que seja estpida demais para poder pensar sobre si mesma.  
o interminvel pensar sobre si mesma que provoca tanta vergonha no corao.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
A casa de Van den Meer
     
     
     
     
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o vejo por que devia ir. No quero ser exibida como uma aberrao.
     - H todas as razes para voc ir.
     - Por qu?
     - No h razo para voc conhecer as razes. No seja insolente.
     Iris tem os cabelos escovados, o avental amarrado, as mos examinadas em busca de alguma sujeira. Contorce-se tanto quanto ousa, e Margarethe a esbofeteia quando 
passa dos limites. As faces de Iris ardem, mas ela no chora. Margarethe, como envergonhada, afasta-se para a mesa de trabalho baixa junto  da cozinha.
     - Agora embrulhe este pedao de bolo num pano e o oferea de presente a quem a receber e agradea a todos eles, em ingls e em holands, por sua generosidade.
     - No sei de que generosidade est falando.
     Iris no vira a cabea, mas olha para a me obliquamente, como um pssaro.
     - O que a faz pensar que eu reconheceria uma generosidade se a visse?
     - Criana ingrata! - grita Margarethe. Aproxima-se da filha com descrena. - Sabe o que significa alimentar uma famlia e sem nenhum marido, pai, irmo ou filho 
vivos a quem recorrer? Tem alguma idia de como estamos prximo de nos entregar  misericrdia da Igreja ou dos pais da cidade? Ter de ir de casa em casa implorando 
trabalho... para voc, coisa estpida e desmiolada,  uma brincadeira. Para mim,  a minha vida, uma coisa horrenda. Deus atormenta as mes do mundo com preocupao, 
da Sua prpria doce Maria at a mais insignificante mulher de pescador do porto!
     - No me importa! - diz Iris.
     Margarethe prende o flego e cerra os olhos.
     - Voc  jovem demais para saber como as mulheres devem colaborar ou perecer - sibila. - Por que deveria ocultar esse conhecimento de voc, que bem isso faz 
para voc ou para mim? Se no est disposta a se comportar e a merecer uma moeda sempre que possvel, seja l o que este Van den Meer deseja de voc, no posso responder 
pela quantidade de comida que ir para o prato de Ruth toda noite.
     Iris morde o lbio e aperta as mos pequenas.
     - V l e seja esperta, pois voc foi feita assim. Torne-se uma ajuda para sua me e sua irm e evite, criana, levar em considerao seus prprios pensamentos 
tolos. No h tempo neste mundo para desperdiar com coisas assim. Est me ouvindo? Eu perguntei, est me ouvindo?
     - Meus ouvidos ouvem a senhora - diz Iris.
     - Saia daqui ento e faa o que lhe pedem.
     Iris espera no degrau. Ruth rasteja e coloca sua cabea no colo de Iris. Iris acaricia os cabelos de Ruth, que esto terrivelmente necessitados de uma escovada. 
Por fora do hbito, Iris procura piolhos e pensa em bater no rosto de Ruth para puni-la por ser to lerda de pensamento e intil.
     Embora odeie Ruth - ela a odeia -, Iris no deseja ver sua irm mais velha passar fome.
     Sua me, bem...  outra histria. Como seria agradvel ver Margarethe atada ao tronco e chicoteada por cidados virtuosos. Dos quais Iris seria a primeira voluntria.
     Contornando a quina da casa vm o Mestre e Caspar, carregando a tela ofensiva. Alugaram uma carroa de um vizinho. Atrapalham-se como aldees, calculando mal 
a altura do degrau e a profundidade da carroa. Iris se imagina encontrando uma faca na cozinha e correndo para cortar a tela em tiras. Mas ela no destri a obra 
do Mestre, uma vez que tanta coisa est em jogo. A ameaa de Margarethe  eficaz.
     Finalmente, o burro zurrando de impacincia, a carga  seguramente coberta com um pano. O Mestre, Caspar e Iris acenam um adeus a Ruth, que enfia o dedo no 
nariz.
     No caminho todo atravs da cidade Iris fica perto de Caspar. Perdoou-lhe o seu papel ao tentar lev-la a ver a pintura. Como podia a sua triste aparncia ser 
culpa de Caspar? Alm disso, com tanta mais coisa para temer, ela no pode se dar ao luxo de distanciar-se do seu bom humor. Vejam como ele saracoteia. Cabea empinada, 
cabelos jogados pela brisa do mar como a crina de um cavalo, olhos dardejando  esquerda,  direita, pousando em Iris para se certificar de que ela est bem, afastando-se 
para observar um cata-vento, uma chamin caiada, um garoto amistoso sorrindo de uma janela.
     O Mestre mantm a cabea baixa e o colarinho erguido. Iris suspeita que isso no  tanto para se guardar do vento, pois o tempo ainda no est implacvel, mas 
para se proteger dos olhares dos vizinhos de Haarlem. Ou talvez esteja se guardando contra o fato de que so poucos os olhares voltados para ele, poucos se importam 
se est vindo ou se est indo.
     Entram no Grotemarkt. Como  bem ordenado este mundo mgico atravs do qual meninas feias podem se arrastar! Iris ouve um repique, uma srie quase musical de 
batidas leves, como um relgio soando as horas.  um homem sentado nas pedras redondas do calamento, as pernas estendidas para fora de cada lado, colocando as pedras 
no seu lugar com um martelo. E  aquilo um eco, ressoando da magnfica fachada do Stadhuis? No,  outro homem na mesma tarefa na outra extremidade da praa do mercado. 
Cada pequena parte deste mundo deve ser martelada e encaixada no seu lugar. O mundo inteiro  um imenso relgio .batendo para contar a histria de Deus dos encantos 
e dos castigos.
     Chegam ao seu destino.  uma casa de frente para o Grotemarkt, aquela mesma casa diante da qual Ruth se encostou naquele primeiro dia - a casa da criana estranha. 
A chamada criana-duende.
     Van den Meer deve ser um homem de recursos. O edifcio espadado tem um jardim murado ao seu lado. De tijolos de cor vermelho-ameixa interrompidos por pedras 
laterais cinzentas, a casa se avoluma em dois andares inteiros, com uma cumeeira escalonada apertando dois stos abreviados. Nesta hora de fim de tarde, o sol no 
bate na frente da casa e as janelas que do para a praa do mercado so como painis de gua negra. O prdio parece imponente e, o que seria, cauteloso? Como uma 
casa de segredos, como uma gaiola de fumaa.
     No, pensa Iris,  algo em relao quelas janelas escuras... ali, na mais alta, seria aquilo um rosto desaparecendo? Como se no desejando ser visto pelo grupo 
que est chegando? Seria a menina obscura? Por que tudo oculta o seu verdadeiro rosto aqui?
     O Mestre no notou. No pra sequer para procurar o caminho at o ptio da cozinha. Passa as rdeas do burro para Caspar e caminha at a porta, que est quase 
no mesmo nvel das pedras do pavimento. Bate vivamente.
     - Sim, sim, queira entrar - diz uma voz de homem, parecendo ocupada, irritada. - Vou mandar o cavalario pegar o burro e ele pode chamar alguns homens para 
carregar o estudo das flores.
     - Caspar vai ajudar a garantir que a pintura no seja derrubada durante a remoo - responde o Mestre.
     Oh, ser derrubada durante a remoo, pensa Iris.
     - E deixe a menina entrar. Vamos, no desperdice meu tempo. Pode entrar. Como se chama?
     A no ser pelo Mestre, Iris no est habituada a falar diretamente com um cavalheiro. Ela desvia os olhos para os degraus e quase caminha sobre a ombreira da 
porta. Quando lhe diz seu nome, ela apenas murmura, e o Mestre tem de repeti-lo.
     - Bem, eu sou heer Van den Meer. Ainda no tenho tempo para tratar com voc. Pode sentar-se quieta enquanto uma companhia de cavalheiros conversa? Ou precisa 
correr e brincar do lado de fora?
     Ela no pode pensar no que seria mais horrvel, por isso no responde.
     - Bem, entre e sente-se, ento - diz Van den Meer. - Atravesse at o salo.
     Entram no aposento mais suntuoso que Iris j viu. Cadeiras e guarda-louas bem entalhados e oleados encostam-se em paredes forradas de pano decorado. Sobre 
uma prateleira h uma sucesso de tigelas de prata; outra prateleira ostenta uma abundncia de canecas. Na sombra ou na luz, tudo  decorado: vasos, molduras de 
quadros, castiais, porcelanas. No centro da sala h uma mesa coberta Por um rico tapete de um tipo que Iris nunca viu antes. Em losangos, listras, arabescos, crtulas. 
Verde-salva, creme, trs tonalidades de vermelho e aquele azul!
     Os dedos de Iris esto limpos. Ela gostaria de pass-los atravs da lanugem e ver se a sensao  diferente de uma cor para outra.
     Van den Meer aponta para uma pequena cadeira num canto e Iris se senta nela. Ela esqueceu de entregar-lhe o bolo que Margarethe mandou de presente.
     Caspar e alguns empregados trazem a pintura e a encostam contra um aparador. Iris tenta desfocar os olhos para que possa desfrutar o esplendor da sala sem ter 
de olhar para o seu retrato. Existem outras pinturas para ver. Uma em particular, sobre uma espcie de arca envernizada, mostra uma bela jovem, vestida em seda amarela 
e preta. O enchimento das saias lembra a Iris um abelho. Uma mulher loura em sedas e ornamentos cintilantes combina com este tipo de casa, no uma menina feia com 
flores-do-campo.
     Van den Meer deixa o Mestre e Caspar sozinhos por alguns minutos, Iris pode ouvi-lo berrando instrues ao pessoal da cozinha para que uma refeio seja servida 
dentro de uma hora: uma bandeja de lagostas e uma tigela de limes, algumas verduras, na gua, para remover a areia, um jarro de cerveja e um jarro d'gua e uma 
pilha de guardanapos de linho passados na hora para que os convidados possam limpar suas mos sujas. Tudo deve ser bem apresentado, e poderiam mandar uma criana 
da cozinha para abanar um leque sobre o peixe, afastando as moscas e o gato?
     A criana da cozinha se foi, informam-lhe, com aquela cozinheira imprestvel que se queixava da peste e foi embora para Roterd.
     - Tenho uma menina no salo, ela deve servir - diz Van den Meer, e Iris sabe que est se referindo a ela.
     Os convidados chegam. Uma dzia de homens barbudos, corpulentos e prsperos, em babados, rendas e nas meias mais frescas. Muitos deles acenam com chapus de 
plumas ondulantes enquanto se cumprimentam. Van den Meer leva cada cavalheiro at o Mestre, fazendo apresentaes em tons ao mesmo tempo graves e joviais. Cada cavalheiro 
 levado a passear diante da pintura da Menina Feia com Flores Silvestres. Cada cavalheiro comenta. No demora e h muito barulho para que Iris possa ouvir os comentrios 
sobre a donzela comicamente sem graa. Ela fica contente com isso.
     Contente tambm porque nem o Mestre nem Van den Meer chamaram a ateno sobre ela, sentada no canto. Caspar puxa uma banqueta e empoleira-se perto dela.
     - Est petrificada? - diz ele.
     Ela no responde.
     - So empresrios - diz ele. - No entendem nada de arte, a no ser como a comprar. So como ursos que vieram das flores orientais. Pense neles como bestas 
rosnantes e sem educao que algum mgico vestiu de rendas e cintures.
     Ela tem de abafar um risinho e lgrimas pousam em seus olhos, somente porque Caspar se interessa o bastante para conversar com ela.
     Caspar olha para ela, ergue as sobrancelhas e continua.
     - Na verdade, os convidados so de fato ursos - diz Caspar. - Van den Meer  o seu prncipe regente. Olhe para suas mos. No so mos, realmente, so apenas 
patas cujos plos algum cortou. V como  desajeitado?
     Ela olha. Certamente ele s est brincando... Mas, sim, Van den Meer  desajeitado, batendo nas costas do seu novo convidado!
     - Os ursos esto gordos demais depois de um vero se forrando de morangos e amoras nos campos e trutas nas corredeiras. No conseguem nem dobrar a cintura! 
Veja como mal conseguem se curvar para cumprimentar um ao outro.
     Iris tem de enfiar a junta dos dedos na boca para se impedir de rir alto.
     - Eu conheci a Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo - comea ela.
     Mas agora Van den Meer levanta a voz e chama a ateno da sala. Caspar no  um membro desta confraria tanto quanto Iris. Coloca a mo no colo e escuta.
     Iris escuta tambm. Isso no  o holands de cozinha que Margarethe lhe ensinou. Est salpicado de palavras de outras terras, Frana, Frsia, talvez, e certamente 
uma observao ou outra em ingls. Algumas palavras na lngua dos ursos? Os cavalheiros parecem no ter problema em ouvir e entender.
     Van den Meer no fala imediatamente sobre o Mestre ou sua pintura da Menina Feia com Flores Silvestres. Fala, em vez disso, sobre flores em geral e o apetite 
nativo por belas floraes. Iris j ouviu falar de tulipas antes, mas no sabe se viu alguma, por isso imagina uma braada de flores silvestres rendilhadas do tipo 
que o Mestre passou as ltimas semanas pintando. Mas Van den Meer fala como se seus amigos cavalheiros tenham um firme conhecimento da tulipa - trazida de Viena, 
no foi, ou da distante Constantinopla? - e, seguramente, eles acenam a cabea diante de suas palavras. Este  um artigo a respeito do qual todos os ursos podem 
concordar em admirar.
     No entanto, quando Van den Meer agita um pequeno sino de bronze que est sobre a mesa, Iris se pergunta se alguns daqueles homens estavam fingindo o seu conhecimento 
de tulipas, pois ficam boquiabertos ao verem uma garota entrar na sala balanando um pequeno balde de flores frescas sobre uma bandeja de prata.
     A boca de Iris tambm se abre. No pode se impedir.
     As flores so brilhantes e intensamente coloridas, de um tom marrom-vermelho listrado de branco. Mais ricas do que pano, to ricas quanto a luz. So seis flores 
de altura variada, sobre caules esguios e verdes com folhas amplas e reclinadas. S h uma flor no topo de cada planta.
     Mas a menina que as leva  igualmente admirvel. To loura a ponto de ser quase branca, cabelos cintilando como manteiga nova ou queijo de cabra.  a criana 
que falou com Ruth pela janela. Aquela que perguntou se Ruth era uma criana trocada ao nascer, aquela que Caspar disse que era considerada uma criana-duende. Parece 
uma criana humana. Apenas perfeita. Um espcime perfeito.
     O que ela havia dito para Ruth? Sua coisa, v embora daqui.
     - Ah, minha Clara - diz Van den Meer, com o insuportvel sorriso de pai orgulhoso no rosto. - Vejam como ela reala esta mais recente florao...
     Clara acha a bandeja pesada demais e seu pai a ajuda a pous-la sobre a mesa no centro da sala. Os investidores - pois  o que so, Iris est tomando conhecimento 
- inclinam-se para a frente e falam em tons abafados sobre as flores. No h um aroma extico, aparentemente, para atrair admiradores. So as cores das flores e 
a sua aparncia estatuesca que contam. Cada homem presente quer ter uma parte do prximo carregamento de algum porto que Iris nunca ouviu mencionado antes.
     - Seus apetites - diz Van den Meer orgulhosamente - so justamente como os apetites de seus concidados, de seus amigos e vizinhos, dos comerciantes mais joviais 
aos mais austeros homens de f. Temos garantia de um retorno saudvel para o nosso investimento se juntarmos nossos recursos e financiarmos o custo de um carregamento 
de bulbos de tulipa do Oriente. E quanto ao nosso amigo pintor aqui, Mestre Schoonmaker, agora que j vimos o que ele  capaz de fazer com material comum - Van den 
Meer indica a pintura do Mestre a um lado da sala, eclipsada agora pelas tulipas, cujas flores so taas altaneiras de luz cor de sangue e prola -, nosso amigo 
poder encampar um tema mais digno dos seus talentos e criar para ns uma pintura que possamos exibir em alguma ocasio formal. Podemos despertar interesse por esta 
nova variedade de tulipa para nossa recompensa financeira. Teremos uma vantagem sobre os outros comerciantes de tulipas, possuindo um produto superior e encorajando 
comentrios sobre ele.
     Os olhos de Clara piscam, uma s vez, para Iris. Mas Clara no se aproxima, o que permite a Iris observ-la a distncia. Clara no  bem a criana que parecia 
atravs da janela. Parece ter poucos anos por causa do vestido juvenil, da maneira tmida. Mas deve ter aproximadamente a mesma idade de Iris, mais para uma jovem 
mulher do que para uma criana balbuciante. Iris nota as mos limpas de Clara, seus suaves dedos rosados, suas unhas perfeitas. Como menina ainda jovem, Clara coloca 
um polegar na boca. Van den Meer gentilmente estende a mo e puxa o polegar. Ele nunca interrompe seus comentrios.
     Afinal, os negcios no passam disto? Algumas observaes sobre custos, alguns clculos, uma preocupao com carregamentos rivais, um rpido acordo em princpio? 
Antes que outro quarto de hora tenha se passado, Van den Meer est conduzindo seus amigos investidores fora do salo at uma sala de jantar um pouco abaixo. Quando 
o salo est quase vazio, ele se vira para o Mestre e diz:
     - E ento, sente-se confortvel?
     O Mestre est estudando as cores das tulipas. No fala.
     - Naturalmente - diz Van den Meer -, no h espao para voc morar aqui. Nem minha mulher permitiria. E no posso mandar minha filha at o seu estdio. Ela 
praticamente no sai de casa. Mas pode transportar seu material para este salo e fazer com a beleza de Clara e das tulipas o que conseguiu fazer com material mais 
precrio. Convenceu-nos do seu inestimvel talento. E ser bem pago.
     Deliberadamente o Mestre diz:
     - Eu havia pensado, isto , eu esperava receber uma encomenda para um retrato da companhia de guardas cvicos  qual pertence.
     - Uma coisa leva  outra, nada acontece de uma s vez - diz Van den Meer. - No posso me ausentar de meus convidados muito tempo. Estamos de acordo ou devo 
mandar chamar Bollongier? Mora a uma pequena caminhada deste salo.
     - No falamos sequer sobre as bases do pagamento - diz o Mestre.
     -  s dinheiro - diz Van den Meer -, e voc no  um artista necessitado de dinheiro? Caso no o seja, existem outros na guilda de So Lucas vidos pelo trabalho. 
Vai aceitar a tarefa ou no?
     O Mestre, buscando algum tempo para pensar, diz:
     - Mas por que me pediu para trazer Iris at aqui? O que ela representou nessa negociao? Achei que seus amigos poderiam julgar a minha habilidade comparando 
o modelo e o que fiz com ela. Esperava que, se aprovassem o meu trabalho...
     - Oh, a sua menina - diz Van den Meer -, bem, a menina. No  uma questo sria. Mas minha mulher est preocupada com a educao de nossa filha. Minha pequena 
Clara vive to enclausurada, ela precisa de uma companheira, e poderia ocupar sua cabea e seu tempo em aprender o ingls. Ela j est mais do que capacitada em 
francs e tem um pequeno domnio do latim tambm. S desejamos para ela o melhor. Olhe s, quer ver beleza - diz Van den Meer, um pai orgulhoso -, olhe para ela. 
J botou os olhos numa figura mais agradvel? Ela vai se tornar uma bela mulher.
     Sua apreciao da filha faz os olhos de Iris arderem.
     - Iris tem uma me e uma irm - diz o Mestre. - Comem como cavalos.
     - Traga-as tambm - diz Van den Meer casualmente. - Esquece-se de que posso pagar por aquilo que quero. Precisamos manter a  esposa feliz, no  verdade? No 
 sempre assim?
     O Mestre sai a passos largos do salo sem responder. Caspar encolhe os ombros na direo de Iris e ento segue o seu mentor. A porta da rua bate com fora atrs 
deles. A batida  a opinio em voz alta do Mestre sobre a sugesto de Van den Meer.
     Iris no est segura do que se espera dela. Est sozinha no salo com Clara e seu pai. Clara abaixa o olhar para o cho de ladrilhos. Seu rosto est fechado, 
morde o lbio inferior com dentes ocultos. No se d a pena de olhar para Iris de novo.
     - Papai - diz ela -, posso ir agora?
     - Comprei uma nova amiga para voc - diz Van den Meer. - Mas antes disso ela  esperada na sala de jantar para ajudar os convidados. Vamos, voc, como se chama?
     Iris estende o bolo para ele e lembra-se de que deveria curvar-se numa mesura, mas no confia em seus joelhos.
     
     
     
     
     
2
A CASA ASSOLADA POR DIABRETES





O quartinho do lado de fora
     
     
     
     
M
uito a temer, nesta casa rgida, mas muito a admirar tambm. E Iris adora olhar. O que h de melhor na casa de Van den Meer so suas peles e vidraas, e como cada 
coisa rara aceita a luz do dia ou da vela ou se encolhe diante dela. Iris fica a pensar: ser que observar as pinturas do Mestre desenvolveu nela o seu gosto por 
superfcies e texturas?
     Veja a tigela sobre a mesa polida. Uma tigela do Oriente, Van den Meer disse a ela. Mas no  apenas uma coisa, uma tigela. Repare em todos os efeitos que a 
compem: bem no fundo, um rendilhado de fraturas capilares prpura-cinza. Coberta por uma camada de banho de casca de ovo, atravs da qual linhas pintadas em azul 
formam flores de crisntemo rosadas. As flores esto suspensas a alguma fina distncia do -  falta de uma palavra melhor - brilho. Dentro da curvatura da tigela, 
um reflexo: uma Iris distorcida, borrada demais para ser percebida como feia.
     Se ela olhar mais intensamente, vai captar algo mgico no seu ombro? Algo intenso e potente vindo por trs, insinuando-se atravs da obscuridade altamente polida 
dos sales ricos?
     
Foi Margarethe quern disse: "O diabo pode mandar um co de caa peludo para nos farejar at o Alm, mas no temos escolha! Venham, meninas, venham" - Margarethe 
havia anunciado seu torturador - quando fugiam da Inglaterra -, ela o havia chamado para cima delas, preocupara-se em traz-lo  vida...
     
     Mas no. Veja. Veja.
     Ela presta ateno. As variedades de tapetes turcos, nas mesas e paredes. As bordas e os retngulos acentuados de linho branco. Os msculos anelados dos castiais, 
seus reflexos acetinados e bulbosos. A pele, a madeira marchetada, as lembranas de locais distantes: Veneza, Constantinopla, Arbia, Catai.
     As salas de Schoonmaker eram desordenadas e cheias de energia. Estes aposentos de Van den Meer so comportados. A sua ordem - sua limpeza impecvel, por exemplo 
-  uma questo no s de orgulho, mas de clareza mental e de organizao. Uma cadeira fora do lugar?, ningum na casa pode pensar direito. Flores deixadas num vaso 
at que surja um fedor de gua podre?, voc pensaria que os belicosos espanhis estavam atacando as portas da cidade de novo.
     
     
     Algumas horas depois da festa, Caspar chegara na casa de Van den Meer em busca de Iris; ele a levou de volta ao estdio para apanhar suas coisas. L ela encontrou 
Margarethe discutindo com o Mestre, e Ruth chorando. Schoonmaker no queria que elas fossem, mas no podia ou no queria pagar para que ficassem.
     - Tem o seu rapaz, use-o da melhor forma que puder - diz Margarethe com sarcasmo, como se trocando um significado secreto ao qual Iris no pode ter acesso. 
- E por que no? Pediu-nos trs coisas, e estas coisas lhe demos: ajuda domstica, uma entrega de flores silvestres todo dia e um rosto para pintar. Somos gratas 
por sua hospitalidade, mas no lhe somos devedoras.
     - Quando aquela peculiar garota Van den Meer se cansar de sua nova companheira, ou aprender todo o ingls de que precisar, voc e suas filhas estaro no olho 
da rua - diz o Mestre soturnamente.
     - Aguarde - disse Margarethe. Mostrava no rosto aquela expresso comum a gatos que travam conhecimentos com filhotes de pssaros. - Aguarde e veja o que vai 
acontecer, Luykas Schoonmaker.
     Iris e Ruth se viraram para ver se o Mestre reagiria diante dessa informalidade de um nome de batismo. Que direito tinha sua me? Mesmo Caspar pareceu surpreso.
     Mas Luykas Schoonmaker apontou para as meninas Fisher e disse:
     - Ruth no sabe de nada para apreciar como est sendo tratada, mas Iris, sim. Ela vai ser desrespeitada l. No vai levar adiante o talento para desenhar que 
possui.
     - E como sabe que ela possui tal talento, e de que vai lhe servir se o possuir? - grasnou Margarethe. - Ela no  uma dama de lazer para pintar cenas de jardins 
ensolarados ao seu bel-prazer! J a viu sequer pegar num carvo?
     - Ela tem observado desenhos, ainda que a um custo para si - disse o Mestre. - Sua mo agarra um toco imaginrio de carvo enquanto eu trabalho com o meu carvo 
numa folha. No h nada nela alm de uma possibilidade, mas isso  bastante raro.
     - Est to preso aos seus preconceitos como aos seus desenhos superelaborados - disse Margarethe. - Faz o mundo parecer uma histria, como se qualquer coisa 
pudesse acontecer. Como a maioria dos homens,  cego para com o seu destino.
     - No v, Margarethe - disse o Mestre.
     - Pague-nos um salrio para ficarmos e ns ficaremos - disse Margarethe, o queixo empinado.
     O Mestre olhou para ela como se estivesse se oferecendo para dormir com ele por uma quantia. Foi um olhar de nojo, mas amor e necessidade estavam includos 
nele tambm. Margarethe encarou seu olhos com a mesma intensidade e continuou.
     - Meninas, peguem seus aventais no cabide e seus tamancos do peitoril da janela. Se entendo corretamente, Luykas, com a sua nova encomenda de trabalho, vai 
ser um visitante regular na casa de Van den Meer. Vamos desfrutar de sua amizade l, se assim o desejarmos.
     E ento, com Caspar a acompanh-las, atravessaram as ruas de Haarlem no crepsculo. Sua instalao no lar dos Van den Meer foi menos ruidosa, mas no menos 
rpida. E Iris dormiu naquela noite nas pedras da lareira, inquietamente, sentindo o edifcio erguendo-se acima de si em fortes ossos de tijolos. Lembrou-se do rosto 
numa janela do andar superior, desaparecendo. Esta  uma casa mgica, pensou enquanto mergulhava no sono, e pensa o mesmo ao acordar ali pela primeira vez.
     
     
     A famlia  pequena. Cornelius van den Meer  um patriarca caloroso, mas distante, e delega  mulher, Henrika, a responsabilidade de organizar a casa. Num prdio 
pblico alm do Stathuis, Van den Meer e seus scios conduzem um negcio de investimentos e maquinaria mercante. Quando volta para casa, cheirando a fumaa de cachimbo, 
com um bom humor ruidoso por causa da cerveja e da companhia agradvel dos seus pares, ele dorme. Iris o espia, sentado no jardim ensolarado, a cabea encostada 
no muro e a boca aberta. Ele  mais velho do que a mulher. Sua barba  metade prateada e metade castanha, e as tmporas e o alto da cabea, ralo de cabelos, esto 
inteiramente grisalhos. Sua mulher no o deixa sentar-se no banco da frente da casa. Em plena vista dos crentes a caminho dos cultos ou dos famintos comprando sua 
comida para a noite? Ela acha que parece vulgar, e diz isso a ele.
     Henrika acredita em boas maneiras. Os ossos da ma do seu rosto so destacados e arredondados, seus pulsos, seu odor de flor so enfeitiadores. Mas  principalmente 
sua colorao que Iris admira, rubores entre o rosa e o cobre e jorros brancos debaixo de uma pele impecvel. Quando Henrika se aproxima da porta de um quarto  
com ps silenciosos, como se fazer um assoalho ranger equivalesse a chamar mais ateno do que ela merece.
     No entanto, isso  apenas um pequeno drama, um embuste, pois, embora o passo de Henrika seja silencioso, no deixa de ser pesado. Margarethe, na privacidade 
do lar,  rpida em assinalar para Iris que o retrato de Henrika, no o do seu marido, ocupa o espao principal na sala de recepo. A dama em seda amarela e preta, 
um abelho zumbindo para si mesma. A rainha da colmia familiar. Como se ela mesma no soubesse disso! Henrika tem prazer em relatar a provenincia de cada pea 
de mobilirio, de cada item de decorao. A casa, toda e inteira, foi parte do dote de Henrika.
     - Se o casamento se dissolver, ela tem o direito de apelar para a lei e reclamar todas as suas posses - diz Margarethe, incrdula. - A riqueza deste casamento 
repousa no que ela herdou do pai. Seu marido trouxe  unio apenas um jeito para os negcios e bom humor.
     - O que a senhora no fica sabendo em trs ou quatro dias! - diz Iris, bocejando. - Como pode saber disso? Ela  fechada demais para confiar na senhora.
     - Schoonmaker viveu em Haarlem toda a sua vida. Ele sabe de todo, embora finja que se entedia com esse tipo de coisa - diz Margarethe. - Ele me contou que  
Henrika quem controla o dinheiro-- Ela retorce o lbio inferior numa expresso de relutante aprovao ao poder de Henrika. - V como Cornelius e Henrika discordam 
em relao  filha, Clara? O homem dominante deve se virar para responder a cada queixa que Henrika faz.
     - Oh, Clara - diz Iris. - Clara - diz ela de novo, mordendo o lbio, pois  Iris quem tem a preocupao maior agora.  tarefa de Iris travar amizade com a criana 
distante e desconfiada, ganhar sua confiana, ensinar-lhe ingls, variar seus dias. E no teve um bom comeo.
     Se Clara  de fato uma criana-duende, nenhuma palavra a respeito  dita por seus pais. Ela  considerada uma criana difcil - soturna, fechada e comum. Carregar 
as tulipas at a sala de estar para mostrar aos ursos-investidores visitantes deve ter sido uma provao para ela, pois agora no aparece para conhecer os novos 
membros da casa. Na verdade, Iris v muito poucos sinais da existncia de Clara na casa, inicialmente, embora oua alguns: um passo suave, o som de um prato derrubado 
ou jogado quebrando-se no cho, um grito de alarme como uma criana pequena emitiria em meio a um pesadelo. Ainda a criana obscura, mesmo quando Iris est vivendo 
sob o mesmo teto.
     Depois de vrios dias em que Clara simplesmente se recusou a aparecer, Henrika traz Iris  porta do quarto de Clara e chama sua filha:
     - Por favor, querida, quero que conhea sua nova amiga.
     - No. - O som sai como um pequeno grito sufocado, como se ainda no meio do dia Clara estivesse enfiada debaixo das cobertas. Ela no vai sair do seu quarto.
     No dia seguinte, Iris diz em voz alta.
     - Estou muito solitria.
     Respira fundo no sombrio corredor do andar de cima e encosta o peito contra a porta de Clara. Tenta fazer sua voz atravessar uma brecha entre as tbuas.
     - Voc foi boa com a minha irm uma vez. Deixou-a pegar o seu pequeno brinquedo. Por isso quero falar com voc.
     - V embora.
     O sorriso de Henrika para Iris  breve, mas clemente.
     - Ela  uma criana diferente e tenho pacincia com suas esquisitices - confidencia. - Voc precisa ter pacincia tambm.
     - Mas como posso ensinar-lhe ingls se no chego nem mesmo a v-la?
     - Ela vai aparecer. V ajudar sua me. Se eu puder convenc-la a sair com a promessa de algo especial, virei  sua procura.
     - O que ela deseja mais do que tudo?
     Henrika morde o lbio.
     - Ela quer ficar sozinha e brincar sozinha.
     Bem, pensa Iris, nesse caso no vou ser a coisa mais bem-vinda a entrar em sua vida. Mas no h muito que Iris possa fazer a respeito, ento ela desce para 
o andar trreo. Margarethe diz:
     - Se no consegue arrancar Clara do seu quarto, leve Ruth para algum exerccio fora de casa. Este boi da sua irm est batendo nas coisas de novo, o que significa 
que no est esticando as pernas como devia.
     Elas passeiam para cima e para baixo pelas ruas. Haarlem est se tornando um lugar fcil para se sentirem em casa. Na rua seguinte  igreja de So Bavo, as 
mulheres carregam cestas de pano nas costas. Homens empurram carrinhos de mo com barriletes de cerveja. As venezianas, abaixadas durante o dia, servem como prateleiras 
para a exibio de mercadorias. Iris e Ruth inspecionam os itens, um passatempo que no custa nada e incomoda os lojistas. Mas, se os holandeses acham Ruth grotesca 
como os ingleses achavam, guardam a opresso para si mesmos. S algumas crianas correm atrs e escarnecem dela.
     H sempre So Bavo como refgio se a algazarra das ruas ficar frentica demais para Ruth. Iris no tem sentimentos acentuados em relao a igrejas, a favor 
ou contra, mas se lembra do que o Mestre lhe contou sobre So Bavo. Construda como catedral catlica, est agora nas mos dos protestantes. No mau tempo serve como 
uma espcie de parque pblico coberto onde homens, mulheres e ces vo se livrar do molhado. As pessoas caminham para se exercitar, para conversar e para ver as 
decoraes colocadas contra paredes caiadas, ris ouve tudo - ela imagina trazer Clara aqui um dia e dizer tudo isso em ingls para ela. Veja! A janela de vitral 
na parede oeste da igreja e como um painel foi removido porque celebrava gloriosamente demais um bispo catlico de algum tempo atrs. As lousas no cho para lembrar 
os mortos. As pastilhas em forma de losango, montadas sobre pilastras, para lembrar os mortos. Os mortos, os mortos, sempre conosco!
     No h memorial para o seu pai, naturalmente, nem aqui nem em lugar algum; no houve sequer preces resmungadas em sua memria...
     Para notar outra coisa rapidamente - ela no pode deixar de notar, tendo ouvido o Mestre todas estas semanas -, h muito pouco em matria de pintura religiosa. 
Nem um crucifixo  vista. Nem uma Virgem que se possa ver. Nem mesmo nos cantos mais obscuros. No admira que o Mestre se sinta to intil. Por um momento ris imagina 
como ele deve sofrer, pois ela est se sentindo intil tambm, caminhando dentro de uma igreja em vez de desempenhar a tarefa pela qual ela, sua me e sua irm esto 
recebendo comida e alojamento.
     Ruth nada sabe da histria do Evangelho, at onde Iris tem conhecimento. Sua ateno, na verdade,  despertada por coisas vistas, mais do que por coisas ouvidas.
     - Veja! - diz Iris subitamente. - A Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo!
      aquela velha paralitica com as bengalas, a mulher-aranha arrastando-se ao longo da sombra da abside. Mas, quando se aproximam, ela sumiu. Deslizou por uma 
porta lateral? Ou disparou em forma de aranha subindo por uma pilastra de So Bavo, onde se agacha, bebendo as notcias dos segredos murmurados pelas pessoas?
     Iris no est acostumada a fazer amizade com meninas de sua prpria idade. Ter Ruth na famlia sempre significou que outras crianas ficavam a distncia. Mas 
talvez Iris possa cativar Clara com o apelo do sobrenatural, especialmente se Clara for uma criana sobrenatural, uma criatura trocada e deixada para trs por bruxas 
quando roubaram e levaram a verdadeira Clara-beb.

* * *
     
     No dia seguinte, Iris emposta sua voz para que chegue escada acima e diz:
     - Ruth, est lembrada de ontem, quando vimos a Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo? E como ela se transformou numa aranha e fugiu de ns?
     S leva um minuto para obter efeito. Clara aparece no alto das escadas.
     Iris olha para o corredor do andar de cima, que, com seu forro de nogueira, parece, mesmo ao meio-dia, quase crepuscular. Est atnita e um pouco assustada. 
Clara  quase um fantasma, uma coisa movedia com uma mo estendida contra a parede, uma luminosidade difusa na obscuridade, como uma vela numa floresta  meia-noite. 
 uma viso assombrosa, com sua pele imaculada e seus cabelos de trigo seco. Ela vem  frente, seus olhos esto pesados e esquivos e seu lbio inferior se projeta 
de um modo que s pode significar problema.
     - Desa, tem leite e po e um pouco de fruta com mel.  hora de conhecer Iris - diz Henrika calmamente atravs da porta aberta do seu escritrio particular. 
 sua mesa, na luz acinzentada do meio da manh, ela se debrua sobre um livro contbil, uma pena cheia de tinta numa das mos, contando rpido com as pontas dos 
dedos na outra.
     - Ruth, a velha rainha tinha pernas como as de uma aranha, mas eram imensas como o aro de uma roda de carroa, no eram? - diz Iris.
     Clara se aventura escada abaixo, prxima da parede, mas mesmo parecendo assustada ela se locomove com uma certa postura.
     - Tome o seu caf-da-manh, vamos sair depois que voc se vestir - diz Iris para Clara com um ar indiferente de mando que no chega a sentir. Clara senta-se 
numa cadeira e apanha um pouco de po. Seu pai sorri e acena com a cabea para ela.
     - Oh, Iris, mas vocs no vo sair - grita Henrika da sua mesa de trabalho. Seus dedos esto manchados de tinta e ela pragueja numa maneira aceitvel para donas 
de casa bem-educadas.
     - Quero lev-la a So Bavo - diz ris. - Poderamos encontrar a Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo ou o ano com os braos de um macaco.
     - Clara no sai - diz Henrika. - Bem, s no jardim murado para tomar um pouco de ar, naturalmente.
     Ela aparece agora na porta, fitando Iris com um olhar severo.
     - Faz trs anos que no sai de casa. No desde que uma criada, certa vez, espalhou um boato: uma criana-duende nascera da filha de um soprador de vidro. Clara 
me importunou tanto para ir dar uma olhada nela! Venceu-me pelo cansao e, finalmente, cobrindo-a com um capuz e com uma capa, concordei em lev-la at l e traz-la 
de volta.
     - Uma criana-duende? - diz Iris. Como pode Henrika dizer tal coisa to abertamente?
     - Quando chegamos l, a coisa tinha morrido e os corvos haviam levado embora seu corpo.
     - Oh - diz Iris. Talvez Henrika no conhea o rumor que cerca sua filha Clara. - O que os corvos fizeram com o corpo da criana-duende?
     - Deixaram-no cair no Haarlemsmeer, onde todas as crianas sem alma nadam at o Dia do Juzo Final.
     - Mas ouvi falar que gostariam de dragar o Haarlemsmeer - diz Margarethe, trazendo queijo da cozinha e colocando-o onde Clara pudesse alcan-lo. - O que vai 
acontecer a todos os bebs sem alma afogados ento?
     - Suspeito que vo ser canalizados para o mar - diz Henrika calmamente. - No sei realmente. Minha cabea est voltada para os nmeros.
     - Podamos sair  procura de uma criana-duende, suponho - diz Iris habilmente, espiando Clara para ver se algum interesse foi despertado. Clara parece curiosa, 
mas cautelosa.
     Mas Henrika segura a pena como um dedo, sacudindo-a para Iris.
     - Isso  inteiramente proibido. Vocs podem sair para o jardim ou ir a qualquer quarto da casa se baterem  porta antes. Mas no pode levar Clara alm da porta 
da frente ou do porto lateral. Nem poder trepar pela parede como um moleque de rua e saltar de qualquer janela. No pode escalar pela chamin, nem fuar nos pores. 
Entendeu o que eu disse?
     - Somos prisioneiras? - diz Iris.
     - Clara no est preparada para o mundo. Ela treme muito e sente calafrios. Visitem o jardim e os galpes nos fundos. Clara sabe onde tem a permisso de ir.
     At agora Van den Meer estava banhando seu rosto no vapor do seu boerenkoffie, que combina os aromas da cerveja aquecida, do acar e da noz-moscada com o cheiro 
de colcho da sua barba. Mas ele inclina o queixo paralelamente  mesa e diz, como se fosse o captulo seguinte num debate em andamento:
     - Lembram-se de terem ouvido falar que em Delft o clero baniu bonecos de po de mel na festa de Sinter Klaas? E as crianas se rebelaram. Correram gritando 
pelas ruas e se recusavam a cumprir os seus deveres. As crianas vo acabar se rebelando, minha querida.
     Henrika pousa as mos dos lados do corpo e abaixa os olhos. Num tom de desculpas, dirigindo-se ao tampo da mesa, ela responde:
     - Estou falando com Iris, no estou falando com voc.
     Van den Meer acena afavelmente com a cabea e no fala mais. Mas Iris v a verdade na observao de Margarethe: embora Henrika adote uma atitude de grande deferncia, 
ela no aquiesce para com ningum, menos ainda com o marido.
     Quando Clara, que parecia prestar pouca ateno, acaba de beliscar a comida, Iris diz:
     - Vou buscar minha irm e vamos l fora no jardim. Ns a esperamos l. Saia quando tiver se vestido.
     Iris encontra Ruth. Iris detesta usar sua irm assim, mas a enorme Ruth pode ser uma atrao maior do que ela. Afinal, foi a rixa de Margarethe com Ruth que 
levou Clara a debruar-se pela janela e examinar minuciosamente a menina-boi. Talvez, desapontada por nunca ter visto uma criana-duende, Clara tenha visto na uivante 
filha mais velha das Fisher a melhor substituta: uma criatura grotesca.
     Os fundos da casa do para um terreno de bom tamanho, murado por tijolos e com portes, e esses portes de ferro, trancados. De um lado, uma rea de cozinha 
para lavar e preparar os alimentos e para o cultivo de ervas e legumes. Do outro lado, diante do salo, um pequeno jardim desenhado ao estilo italiano, com caminhos 
de seixos e plantas bem ordenadas, e pilastras em intervalos regulares encimadas por bolas de granito. Depois do ptio da cozinha e do jardim formal h um imenso 
galpo e alm dele um terreiro de fazenda onde so criadas galinhas e uma vaca, e talvez outros animais tambm. A porta do galpo, que d para o ptio da cozinha, 
at agora se manteve trancada.
     Iris afunda na grama do jardim. A hera sobe por duas paredes, fazendo um sussurro verde quando o vento a trespassa. Ruth desaba ao seu lado e geme de suave 
fome, pois adora po de mel e sua simples meno a deixou com gua na boca.
     - Nada de po de mel - diz Iris com firmeza.
     Quando Clara emerge, ela parece sonsa, mas menos truculenta. Provavelmente lembrou-se de que, afinal, esta  a sua casa.  o seu mundo. Ela caminha silenciosamente 
atravs da grama at onde as irms Fisher a esperam. Um gato, quase cor de limo, a acompanha.
     Iris decide que o problema de ensinar ingls a Clara pode esperar. Deita-se com a cabea sobre a grama e no olha para Clara, mas diz:
     - Por que queria tanto ver a criana-duende?
     - Conte-me sobre a Rainha das Ciganas - diz Clara. - Ela  a Rainha das Crianas-Duendes tambm?
     - Qual o seu interesse por crianas-duendes?
     - Voc no sabe? Eu sou uma criana-duende - diz Clara.
     - Ouvi dizerem isso. Mas, naturalmente, voc no  - diz Iris. - As crianas-duendes no podem falar e correr como as pessoas.
     - Talvez crianas-duendes na Inglaterra no faam isso - diz Clara calmamente. - Crianas-duendes aqui podem fazer isso.
     Iris pensa no rosto na janela superior no primeiro dia. Era Clara nas sombras, ou Henrika de vu, ou o prprio Van den Meer, barbudo e cheio de sobrancelhas, 
ou algum mais?
     Ou algo mais?
     
"O prprio demo vai mandar um co de caa bem peludo para nos apagar com uma farejada!"...
     
     Iris segue em frente, para se afastar dessa idia. Um diabrete aqui, sabendo de todas as coisas, alojado desde a sua chegada,  sua espera?
     - J viu uma criana-duende? Quer dizer, alm de si mesma? - diz ela.
     Clara encolhe os ombros. Seus olhos pousam sobre Ruth e depois se desviam.
     - Ruth  uma menina grande, um pouco estpida, apenas isso - diz Iris. - No  uma criana-duende.
     - Como  que voc sabe com certeza? - diz Clara. - Ela no  mais velha do que voc?
     - Sim.
     - Bem, ela teria sido trocada antes que voc tivesse nascido.
     - Bobagem.
     - Pergunte  sua me.
     - No.  tolice.
     - Pergunte ao seu pai.
     O vento sopra na hera por momentos enquanto Iris observa. Olhos semicerrados, Clara ento diz:
     - O qu?
     Iris no responde.
     Clara se arrasta um pouco mais para perto. Estuda Iris, como uma criana pequena estudaria um inseto antes de esmag-lo com uma pedra.
     - Onde est seu pai? Ele  um duende? Voou para longe?
     No h carinho de ternura em suas palavras, mas uma certa brutalidade sem refinamento. Mas quando Iris no diz nada, Clara suspira e prossegue, aborrecida.
     - Bem, ento me conte outra coisa. Conte-me sobre voc. Voc no  uma criana-duende, apenas uma menina. Quase no me encontro com meninas. Por que se chama 
Iris?
     -  uma espcie de flor - responde Iris, com raiva de si mesma por causa das lgrimas.
     - Oh - diz Clara com uma voz superior. - Flores. Conheo flores. Tudo o que ouvimos falar  em flores de tulipa. Temos uma poro de flores crescendo debaixo 
de um telhado de vidro atrs dos galpes e, em algum lugar ao sul da cidade, uma plantao bem-cuidada na regio dos plderes, as terras baixas conquistadas ao mar. 
Vamos dar uma olhada nos galpes?
     - Mais tarde - diz Iris. - Contei-lhe sobre o meu nome. Agora me diga por que voc acha que  uma criana-duende.
     - Porque este  todo o mundo que possuo. O mundo l fora  um veneno para uma criana-duende, eu morreria. Por isso sou mantida, para minha prpria sade e 
para o meu bem, simplesmente aqui: na bonita casa-priso, com este pequeno quartinho do lado de fora colado a ela.
     Subitamente Clara ergue suas saias at os joelhos e corre de um lado para o outro no espao protegido. Toca em cada uma das trs paredes do jardim que as enjaulam.
     - O que me pertence? Estas coisas me pertencem: o canto dos pssaros, embora nem sempre se possa v-los. Garras, o gato, quando quer ficar comigo. s vezes 
no quer. Veja, o cu achatado que paira sobre as paredes do jardim como um telhado de chumbo. Algumas lesmas. Os mesmos arbustos de sempre. Logo vai haver folhas 
mortas o bastante para se fazer uma fogueira e ento a fumaa ser uma corda subindo ao cu. Estas coisas me pertencem. So tudo o que eu tenho.
     - Tem uma tlia - diz Iris.
     - Onde?
     - Voc pode enxergar apenas a copa da rvore. Deve estar crescendo do outro lado da parede do seu jardim.
     - Um pssaro nela. Um tentilho verde.  meu. E  tudo. - Clara estala os lbios, raivosa. - Pelo menos no  um corvo.
     - Um tentilho verde numa tlia - diz Iris. -  um tentilho mgico?
     Clara olha desconfiada para Iris, como se com medo de ser considerada crdula. A pergunta seguinte de Clara  em parte sarcstica e em parte esperanosa.
     - Voc realmente conheceu uma Rainha das Ciganas?
     Iris sente-se um pouco culpada. Nem toda velha coxa  um anjo antigo. Velhas so simplesmente velhas. Iris encolhe os ombros, evasiva.
     Clara reage com impertinncia, como para provar que no se importa.
     - Vamos dar uma olhada nas tulipas. Temos muitas delas, para cultivar, para mostrar, para vender. Como no me deixam sair alm destas paredes, posso ir ao galpo 
e olhar, e os jardineiros no se importam.
     - Minha me talvez se importe.
     Clara d de ombros.
     - Mas minha me no se importa e a casa  dela, no da sua me. No faz mal que sua me se importe. Venha, Iris. Venha, voc tambm, Ruth.
     Ruth prefere ficar onde est.
     O galpo das tulipas fica depois do herbrio, alcanado atravs da porta da cozinha. Montado  altura dos ombros com tbuas cruas, est aberto aos elementos 
em cerca de meio metro na parte superior. As tbuas do telhado no so fixadas com pregos. Algumas tbuas podem ser deslocadas para que no tempo quente o sol entre, 
enquanto as paredes do galpo protegem as plantas da pior ao do vento.
     As plantas esto arranjadas em tabuleiros de terracota com fundos porosos. Os tabuleiros ficam sobre mesas toscas e o solo do cho da sementeira  mido. As 
plantas surgem em fileiras, os bulbos tendo aparentemente sido plantados em intervalos de duas a trs semanas. Aqui esto os tabuleiros mais novos, onde nada aparece 
atravs da terra marrom-avermelhada. Mais adiante, tabuleiros em que as plantas se elevam em brotos, tabuleiros em que as plantas esto mais altas e desenvolveram 
um boto e algumas folhas. Finalmente, prximo de onde Iris e Clara esto, as flores comeam a mostrar alguma cor e a abrir suas ptalas.
     Iris no sabe at que ponto Clara compreende o mundo, mas ela participa da preocupao da sua famlia por flores. Existem muitas variedades de tulipas, diz 
a Iris numa voz professoral, e novas modalidades esto sendo importadas do Oriente todos os meses. A plantao da famlia nos arredores da cidade  imensa, mas mesmo 
dentro desse pequeno viveiro existem oito variedades em plena florao, ou quase, sem contar algumas fileiras que j perderam o vio. Talvez 120 flores agora? Algumas 
so inteiramente vermelhas, rosadas e alaranjadas, um estudo em cores vivas; muitas so listradas de vermelho e branco. Iris no gosta do caule deselegante da tulipa, 
que parece grosso e desgracioso, mas as flores tm botes pesados, algo como as rosas, e talvez aqueles caules precisem ser fortes como hastes de taquara.
     Um jardineiro entra por uma porta dos fundos e faz um comentrio que Iris no consegue ouvir, mas cujo tom ela entende. Jardineiros no gostam de meninas brincando 
no galpo. Iris comea a se afastar, dizendo:
     - Venha, venha, Clara, vamos voltar ao nosso pequeno jardim, onde podemos correr sem o risco de danificar essas coisas.
     Clara no fala no incio. Iris no sabe o que lhe passa pela cabea. Ento Clara diz:
     - No so os mais belos tesouros? Cada uma desabrocha e fica mais vermelha do que rubis, mais fina do que diamantes e mais valiosa, assim nos dizem; e antes 
que voc possa vir aqui de novo para olhar, as ptalas comearam a cair e as folhas a amarelecer. Veja, elas fenecem, elas decaem. No so mais maravilhosas porque 
vivem um tempo to curto?
     - Como bebs-duendes? - diz Iris, lamentando as palavras assim que lhe saem da boca. Mais vigorosamente, ela diz: - Vamos falar sobre isso fora daqui.
     - Semper Augustus, Vice-Rei e amarelo-vermelho de Leiden, eu os conheo melhor do que aos meus versculos das Escrituras - diz Clara num tom cantante. - As 
corolas brancas, o almirante de Maans, o general Bois. A Cabea do Papa! Florescem e fenecem no espao de um ms. Aqui papai tenta forar os bulbos, para atrair 
investidores, mas nos campos dos plderes elas s crescem uma vez por ano e florescem no incio da primavera, para nunca mais voltar.
     Clara suspira. Fica parada, uma coisinha jovem com um pensamento adulto grave na mente, enquanto Iris recua.  quase um pensamento sombrio, embora Iris no 
possa nome-lo ao certo. Um sbito facho de luz chega atravs de uma abertura nas nuvens, penetrando entre duas tbuas do telhado que foram puxadas de lado. Os cabelos 
de Clara se inflamam, fogo branco; subitamente ris no consegue v-la, apenas um fulgor de luz, uma criana dentro de um jardim interno. Por um instante Iris acredita 
que Clara  realmente uma criana-duende.
     
     
     
     
     
Pequenos leos
     
     
     
     
T
elas, blocos de madeira, pranchas envernizadas. Montes de p branco, azul, vermelho e ocre. Feixes de pincis em vasos de argila trincados. O cheiro, intoxicante 
e ruim, de leos e terebintinas, e de minerais em suas pequenas pilhas. Caspar, para o Mestre e para si mesmo, separa os ingredientes, mi, peneira, umedece e os 
sela em pequenos potes com tampas lacradas. A pintura chegou  austera casa de tijolos no lado oeste do Grotemarkt.
     Iris observa. Leva um longo tempo para que o Mestre componha sua pintura. Ele coloca Clara aqui, coloca Clara ali. Ele a faz ficar sentada, a faz ficar de p. 
Uma mo na sua cintura, uma mo nos cordes da touca, uma mo sobre a mesa, uma mo no queixo. Deveria ela usar um avental e um gorro, ou as jias raras de sua me? 
Esta pose no est requintada demais? Esta outra tmida demais, esta feminina demais?
     - Nenhuma posio isolada capta toda a sua graa - diz o Mestre defensivamente quando, depois de uma semana a distncia, Van den Meer vem dar uma olhada.
     - Isto deve ser a sua obra-prima - diz Van den Meer. - Mas se esperar um ano para decidir sobre uma postura para o seu modelo, o mercado das tulipas pode ter 
arrefecido e no terei o dinheiro para lhe pagar.
     Naquele dia o Mestre decide.
      uma pose convencional, o Mestre diz a Iris. Clara est de p a uma pequena distncia de uma janela  esquerda. Um buqu de tulipas est aninhado em sua mo 
esquerda, que tomba numa curva suave sobre uma mesa bem mobiliada. Ela segura um bulbo de tulipa com a mo esquerda e a estuda como se em transe diante do mistrio 
de que floraes to imperiais possam ser geradas a partir de um bulbo to humilde. A luz do sol, veja, vai cair num ngulo de meio-dia e vai pousar apenas na margem 
do rosto de Clara e sobre uma tulipa cada do buqu. O resto da forma de Clara ser feito em cores mais suaves, destacadas pela sombra do aposento, por seu dispendioso 
espelho com moldura escura, sua cmoda, seus azulejos arranjados ao redor do canto da lareira.
     Mas e a cor das tulipas? Van den Meer se preocupa com isso. Quer que o Mestre use a cor e o formato exatos da tulipa que vai ser embarcada numa grande carga 
no ms seguinte e no estar disponvel para cultivo e subseqente florao at a primavera, pelo menos. Que cor e que formato so esses?
     -  vermelha - diz Van den Meer vagamente - com uma faixa branca, tem uma espcie de aparncia de bufo.
     - Vermelha - diz o Mestre devastador -, vermelha? E como  essa faixa branca, exatamente? Vou pintar um modelo que eu veja ou no vou pintar de todo.
     Van den Meer faz uma carranca e reclama, enquanto Iris se encolhe com os braos enlaando o corpo. Ela ouve sobre como  difcil fundar uma empreitada comercial 
dessas e os riscos financeiros dela decorrentes, especialmente pelos teceles de Haarlem, que esto envolvidos este ano. O Mestre no d muita ateno. Calmamente, 
continua a esboar a forma de Clara na sala elegante, esfregando na tela um trapo cheirando a leo de linhaa, para corrigir um erro.
     - Naturalmente - diz Van den Meer, olhando para fora pela janela e cofiando a barba, quase como falando consigo mesmo - eu poderia sempre, neste prazo j atrasado, 
solicitar a ajuda do seu rival Bollongier.
     - Seu miservel, miservel miservel miservel - diz o Mestre. - Se eu voltar a pintar meu catlogo dos erros de Deus, vou pintar voc a seguir, seu bruto. 
A pior falha no plano de Deus: o marido dominado pela mulher. O inatural na natureza...
     Sob o olhar de Van den Meer, o Mestre pra. Suspira. Concorda em pintar qualquer variedade desgraada de tulipa listrada que Van den Meer exija, contanto que 
plantas mltiplas sejam foradas a florescer para que o Mestre as examine durante os estudos preliminares e a pintura final. Van den Meer concorda.
     
     
     Depois de uma semana, Clara se recusa a posar mais para os esboos. E Henrika parece disposta a permitir esta drstica mudana de planos. Mas, talvez envergonhado 
pelo comentrio grosseiro do Mestre sobre ele, Van den Meer faz p firme e leva Henrika de lado para o seu pequeno escritrio. Ouvem-se palavras duras de ambos os 
lados e, mesmo com a porta fechada, todo mundo no andar trreo pode ouvir sobre florins e mais florins, riscos e recompensas.
     Iris ouve tudo. Quando Clara est fazendo beicinho no andar de cima naquela noite, Iris murmura para Henrika:
     - Por que Clara no quer posar para os esboos?
     Henrika parece aborrecida com a observao. Van den Meer diz:
     - Clara insiste em que o Mestre  rude e no quer falar com ela, s olhar para ela.
     -  tedioso posar - diz Iris. - Se quiserem, eu posso participar e distra-la com histrias contadas em ingls. Ela pode ouvir enquanto posa.
     Van den Meer diz:
     - Uma oferta caridosa. Ento, est se afeioando  nossa Clara?
     Iris no colocaria dessa maneira. Ela pensa: estou me afeioando a estas boas refeies. Mas a verdade  que, embora Clara seja voluntariosa e tmida ao mesmo 
tempo, pretensiosa enquanto ainda chupa o polegar, Iris sente-se obrigada a ter pena da menina pelo menos. Nunca poder ir alm da casa ou das paredes do jardim!
     Clara gosta de histrias, por isso concorda em voltar. Iris elabora episdios fantasiosos de sua prpria criao, povoados por animais falantes, aberraes 
e diabretes domsticos, fadas e santos, e o ocasional objeto mgico, escova de cabelos, panela ou ferradura. Iris freqentemente entretece suas histrias em torno 
de uma pobre menina inculta que tem medo de se perder de casa, mas  constantemente ludibriada a afastar-se, ou expulsa, ou alijada por causa de um terremoto, ou 
soprada janela afora por uma grande ventania. Clara acaba sorrindo, pelo menos.
     Henrika est quieta e se finge de ocupada, mas Iris nota que, quando Caspar e o Mestre esto na casa, Henrika nunca fica a menos de um aposento de distncia 
de Clara. Henrika paira como uma abelha sobre uma flor, pensa Iris. Ento se lembra da pintura de Henrika em suas sedas pretas e amarelas de abelho.
     
     
     Quando no est assistindo o Mestre, Caspar faz rpidos estudos seus. So esboos em leo, menos do que pinturas completas. Caspar tem um talento para a linha, 
mas um olho no muito bom para a cor, e por enquanto vai bosquejando cenas domsticas sobre pranchas. Usando contornos avermelhados, ele deita camadas de ocre, realadas 
por branco quando a base est seca. Estuda cenas de trabalho domstico com uma certa alegria exacerbada. Embora ris fique encantada com os pequenos leos de Caspar, 
ela no se deixa retratar, no depois da Menina Feia com Flores Silvestres. Nunca mais. Mas Ruth no tem orgulho. Ruth no compe suas feies para exclu-lo.
     Um pequeno desenho de Ruth. A menina grande est sentada quase com elegncia numa banqueta na cozinha. Aperta a caarola preta entre os joelhos. Segura uma 
colher com as duas mos, ao modo verdadeiro de Ruth, mexendo com toda a fora da metade superior do corpo. Seu dorso encurvado de ombros moles  descrito com fidelidade 
mas sem desprezo.
     Margarethe, olhando por cima do ombro de ris para o esboo, observa com acidez:
     - Voc diria que a caarola est cheia de cimento de calcrio do jeito como Ruth parece aplicar tanta fora naquela colher!
     - Mas ela  assim mesmo - diz Iris, maravilhada.
     - Acredito que eu a tinha mandado agitar uma sopa respeitvel - diz Margarethe. - A pintura implica uma incompetncia na cozinha. Jogue-a fora.
     Mas ela s est provocando. Iris se pergunta: ser que Margarethe est contente porque Caspar teve a caridade de pintar Ruth sem corrigir suas feies? Ser 
que Margarethe sente por sua filha mais velha algo que raramente mostra? Bem,  claro que ela deve gostar, seno por que se daria a tanto trabalho para levar suas 
filhas para o outro lado do mar?
     A prpria Ruth cacareja e bate palmas ao ver os esboos de Caspar. No parece confusa em relao  natureza da imagem na prancha e sorri com seus dentes separados 
ao se ver mexendo na caarola do jantar. Sorri para Caspar e d uma guinada at a cozinha e traz uma tira de peixe salgado como um presente, que ele aceita com uma 
mesura. O retrato de Margarethe por Caspar  igualmente benigno. Aqui est ela no herbrio, no ato de se levantar: um joelho ainda no cho, um p plantado em seu 
tamanco de madeira lamacento. Tem uma cesta de plantas simples pendurada num antebrao, articulada, Iris v, por linhas rabiscadas e descontnuas, paralelas numa 
extremidade para os caules, e entrelaada na outra para sugerir todo tipo de sementes, folhas e flores secas. O deleite, porm, est na expresso de Margarethe. 
Quase traz lgrimas aos olhos de Iris. Sua me como uma trabalhadora, em paz por um momento, pois no h nada adorvel ou desagradvel em ervas, elas se comportam 
e no a aborrecem.
     Iris examina este estudo deliciada. A casa bem regulada se avoluma para o alto, tijolo, hera, venezianas e cumeeiras. S ao olhar pela terceira vez ela percebe 
que Caspar pintou uma cabea de Henrika, olhando para baixo com um ar severo de uma janela superior. Henrika nunca  vista com uma carranca dessas e, no entanto, 
trata-se visivelmente dela.
     - Sua cabea est grande demais para a moldura da janela - diz Iris querendo ajudar.
     - Sim - diz Caspar.
     Ela fica embaraada. Tentou criticar o esboo e ele recusou sua estpida opinio. Segue em frente, mais generosa.
     - Caspar, o que voc pode fazer! Um retrato de mame e Henrika!
     - Nada disso - diz ele -, estou meramente ilustrando o velho adgio: dois ces e um osso raramente se do bem.
     Iris curva-se para olhar de novo. Foi isso que ela viu no dia em que chegou a esta casa? Teria sido Henrika espiando pela janela naquele dia?
     Ou seria este coalho escuro no esboo de Caspar, numa janela ainda mais acima, o ltimo retngulo de vidro debaixo da viga do telhado, na verdade uma criatura 
encurvada de algum tipo, apertando os olhos? Seria apenas escurido garatujada, rabiscada, ou ela consegue divisar feies pequeninas e um olhar de esguelha?
     - Desenhou um diabrete nesta casa? - diz Iris, erguendo os olhos.
     - Eu no sabia que voc podia v-lo tambm - diz ele, mas ento no fala mais nada.
     
     
     
     
     
A obra-prima
     
     


A
 pintura de Clara vai ficando cada vez mais parecida com ela e, assim, cada vez mais bonita. Embora Iris nunca tenha invadido a galeria dos erros de Deus, o estdio 
trancado do Mestre no outro lado da cidade, ela tem certeza de que nenhuma pintura na casa do Mestre pode ser nem de longe to forte como esta.  verdade, santos 
so inevitavelmente bonitos. Todos os retratos que o Mestre fez da sagrada populaa foram coroados de luz, seus olhos loucos de viso. E os brutos do Mestre devem 
ser to desgraados quanto os santos so sagrados. As margens extremas da possibilidade humana.
     Mas Clara  meramente esplndida. Esplndida como ser humano. No apenas uma mistura pungente de louros, rubores cor de cereja e sombras ocre-azuis, mas uma 
menina de verdade, com uma hesitao etrea que parece participar da sua beleza como tudo o mais. As tulipas que enlanguescem no arco do seu brao esquerdo erguem 
o olhar para ela como um beb um dia poderia faz-lo.
     Iris estuda a pintura no final da tarde quando o Mestre denunciou a luz por ser instvel, como o faz diariamente, e foi embora. Caspar, que ainda mora com o 
Mestre mas come melhor na cozinha dos Van den Meer, traz Iris para ver.
     - Ele teria preferido uma encomenda para pintar os guardas cvicos. Mas sempre quis pintar esta criana perfeita lendria. Pode dizer o que ele fez? - diz Caspar. 
- V como ele intensificou o laranja nesta dobra de tapete, de modo que o azul dos olhos dela agora piscam em trs diferentes maneiras para voc em vez de duas?
     - No vejo - diz Iris. - Mas vejo que est mais maravilhoso - e ela pensa que o Mestre pintou uma expresso mais bondosa nos olhos de Clara do que  estritamente 
justificado.
     - V a composio, uma srie de caixas, olhe s, nove delas de tamanhos diferentes, aqui, ali e ali. - Caspar aponta para elas. - E rompidas em dois lugares 
apenas por esta grande curva que, uma vez que est sombreada, apenas sugere uma surpresa, e ento esta tulipa em plena luz, aqui? V como parece que vai cair da 
mesa?
     - Eu quero apanh-la - diz Iris, rindo. - Quero salv-la.
     - Ele provoca, e agrada, e faz voc olhar e lentamente voc vem a perceber que esta no  apenas uma criana qualquer, mas um desabrochar to perfeito como 
o de uma tulipa.
     - Ela est olhando para o bulbo - diz Iris. - No nota que a tulipa est para cair da mesa. Isto no deixa voc inquieto?
     - Ela est notando uma coisa e no nota a outra, tudo acontecendo ao mesmo tempo - diz Caspar. Ele abafa uma risadinha; est justamente percebendo a sagacidade 
da composio do Mestre. - Veja, e tambm isto:  sobre incios e trminos, pois aqui numa mo est o horrendo bulbo, to bem iluminado quanto a tulipa sobre a mesa. 
Ele soube como nos agarrar de novo e de novo! H tantas coisas para se ver! E no s a tcnica dos seus pincis, que me deixa perplexo e me faz pensar que nunca 
vou aprender.
     - Voc aprende muito e  capaz de ver muito - diz Iris. - Lembre-se daquele esboo que fez de minha me no herbrio com Henrika na casa atrs dela. Voc captou 
tanto ali como o Mestre captou aqui. Apenas o que voc captou no  to bonito de se ver.
     Caspar lana um olhar de soslaio para ela.
     - Voc  to observadora como um pintor, ento, se  capaz de perceber isso - diz ele numa voz confiante. Iris treme diante do cumprimento como se sofresse 
um sbito calafrio.
     Outra coisa que Iris nota na pintura que o Mestre fez de Clara com as tulipas  que sua perfeio crescente no o deixa exultante, mas bastante abatido. No 
quer falar com Iris a respeito, na verdade tem pouco uso para ela, agora que ganhou sua encomenda de trabalho. Mas resmunga consigo mesmo. Iris sabe disso. Quando 
ela e Clara se cansam do ingls e resvalam para um estado sonolento, Iris gosta de ouvir o Mestre lamuriar-se, mesmo quando adora o seu trabalho. Logo chega o dia 
em que ele no precisa mais de Clara, a no ser de vez em quando, para avaliar tons de pele em relao a um tecido ou ao fundo. Apesar disso, ele reclama ainda mais.
     Sua preocupao parece revolver em torno de como a pintura est progredindo. Ele sabe que  sublime. No sabe se vai preencher a funo que Cornelius van den 
Meer e seus camaradas requerem dela - motivar o pblico espectador para um apetite ainda mais vigoroso para o tipo exato de bulbos de tulipa que esto importando 
de Viena e do Oriente -, mas ele no se importa mais com isso. Ele canta no para Clara, e sim para a pintura de Clara, para as sombras azuis-marrons atrs da janela 
aberta, para os brilhos na salva de prata sobre a estante da lareira, para as dobras do avental, para a touca e para a toalha de linho sobre a mesa. Inquieta-se 
sobre as cintilaes nos pingentes de diamantes, os brilhos espelhados das trs fieiras de prolas. Ele canta e depois assobia entre os dentes como se estivesse 
sentindo dores.
     Toca a tela com pinceladas cada vez mais gentis e hesitantes.
     - Vou arruin-la ainda - diz uma vez, e Iris, ouvindo, pensa: Arruinar quem? Arruinar voc, pintura requintada? Arruinar a si mesmo, Mestre Luykas Schoonmaker? 
Arruinar voc, Clara van den Meer, menina de verdade no umbral da infncia?
     Ento trabalha cada vez mais lentamente, como se o menor toque de um pincel pudesse subitamente transformar sua obra-prima num objeto de chacota. Recua cada 
vez mais da tela, estudando-a durante longos perodos. Aproxima-se da pintura como um menino de fazenda se aproximaria de um touro, gentilmente, desejando que no 
precise ser terminado. Leva as complicadas jias para o seu estdio, para fazer novos estudos, e conseguir reproduzir fielmente os ricos brilhos.
     Iris detecta outro lado de sua infelicidade tambm. Parece que, quanto mais maravilhosa se torna sua pintura, menos oportunidade existe de que o Mestre chegue 
a super-la. Quanto mais perfeito  cada detalhe suculento, mais devastador. Ele chora em cima de sua pintura. Parece um velho ou, pensa Iris, o velho que logo vai 
ser. Seria isso meramente o contraste com Clara, to fresca, to jovem, to bonita na tela? No. A pintura em si o est envelhecendo, pois ele est lutando, como 
se nunca mais venha a ter coragem de novo de tentar amar o mundo em leo e verniz, tela e luz.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Arruda, salva, tomilho e tmpera
     
     
     
     
C
hega o dia em que a pintura est pronta, faltando apenas as carcias do verniz necessrias para proteg-la das devastaes dos sculos. Os vernizes no podem ser 
todos colocados ao mesmo tempo; alguns s podem ser aplicados depois que a pintura secou h meses. Espanta Iris que o Mestre possa pensar que a pintura venha a sobreviver 
alm do seu tempo de vida, mas quando ela brinca a esse respeito ele retruca:
     - E o que a faz pensar que a beleza deveria ficar dentro ou fora de moda como... como a mania de comer com garfos ou uma obsesso pela msica do virginal... 
ou uma louca adorao por tulipas, na verdade? As geraes futuras vo olhar para esta criana e no ficaro elas atnitas com a sua perfeio?
     - Ficaro atnitas com a maneira como Schoonmaker captou a sua perfeio - entoa Caspar, e desta vez no  uma farpa, e sim um cumprimento.
     - E por que no? - diz o Mestre, incapaz de ficar humilde agora. Ele no tem energia.
     - Eu suspeito - diz Margarethe, passando com uma mo cheia de razes - que vo achar que adulou a criana. - Ela diz isso com uma medida de... do qu? Algo 
que Iris no sabe nomear.
     Henrika e Cornelius Van den Meer planejam uma festa para seus amigos de Haarlem e de Amsterd, para aqueles que empataram somas de capital nos carregamentos 
de tulipa e tambm para aqueles cujas lnguas so gaiatas e cujas bolsas so polpudas. Leva um nmero de dias para arranjar, para tomar emprestados bancos dos vizinhos, 
para limpar a casa inteira da frente at os fundos, do sto at os pores. Margarethe comea a ficar emburrada com Henrika e, de tempos em tempos, discordar, acentuada 
e at mesmo ruidosamente, sobre mtodos de organizao domstica.
     Iris ajuda e abre gavetas, revista cantos do sto procurando algo mgico ali, uma garra de drago, o esqueleto de um bicho-papo, um fragmento da Santa Cruz 
com o qual operar milagres. No encontra nada. Mas no consegue se livrar da sensao de que a casa oculta algo dela. O local alto e estreito  assombrado, de certa 
forma, possudo por algo aterrador e potente, algo disfaradamente encantado. Ela roda por todo canto, tentando encontr-lo nas margens dos muitos espelhos da casa. 
O que quer que seja - diabrete ou qualquer outro ente -,  esperto.
     
     
     Quando o dia da festa chega afinal, chega tambm o primeiro tempo frio realmente cortante do outono. Pelo fim da tarde, Iris e Ruth varrem folhas mortas de 
tlias dos caminhos no jardim. Isto , Ruth finge que varre primeiro e Iris vem depois para fazer o servio de verdade. A idia de um banquete deixa as irms atordoadas. 
Van den Meer disse que elas podem sentar-se na cozinha e observar da porta, contanto que no faam barulho e que se retirem para seus catres no sto se Henrika 
as mandar.
     - Vai ser  noite, crios sero acesos e haver msica - diz Iris tanto para si mesma como para Ruth. - E vamos estar limpas e ajeitadas, embora ningum v 
nos ver.
     Margarethe lavou seus melhores aventais e tentou um trabalho de agulha meio desajeitado nos bolsos. Espetou o dedo, praguejou e continuou, por mais cansada 
que estivesse ou a vela derretesse, e Iris e Ruth esto excitadas com a idia de vestirem roupas embelezadas para uma festa.
     Clara, porm, est aborrecida. Van den Meer disse que no podia sentar-se na cozinha com Iris e Ruth. Clara tem de se vestir como um adulto e jantar com o resto 
dos convidados. Clara apela para Henrika, esperando que ela intervenha como de costume. Mas o rosto de Henrika se torna estranhamente aflito e ela no deseja sequer 
discutir o assunto.
     Ento Clara fica mal-humorada na cozinha enquanto as irms Fisher executam suas tarefas.
     - No  justo - diz Clara. - No quero ser comentada e observada como uma nova esttua da Frana ou um vaso de bronze da Prsia. Quero ficar na cozinha com 
vocs.
     - Os percalos de ser filha de pais ricos - diz Margarethe presunosamente. - Sofra.
     - O qu? - diz Clara.
     Iris gira a cabea diante da impacincia no tom de Clara, mas Margarethe est ocupada demais para notar o perigo.
     - A criana-duende tem de se transformar de novo, dessa vez num adulto - diz Margarethe, to duramente como se Clara fosse sua prpria filha. - Viva com o que 
a vida lhe traz, minha jovem, ou fique jovem e estpida para sempre...
     Clara pula como um gato que teve seu rabo pisado. Uma coisa  brincar de ser criana-duende, outra  ser provocada a respeito dessa condio! Ainda mais por 
um adulto.
     Erguendo os punhos bem prximo de cada lado dos ouvidos, Clara comea a gritar. Margarethe ergue os olhos com um ar de culpa. Clara grita que no vai se vestir 
para agradar sua me ou seu pai, que no vai falar educadamente com os convidados e que no vai sair da cozinha. E, alm do mais, espera que a pintura da Jovem com 
Tulipas v explodir em chamas. E odeia sua me e seu pai.
     Iris e Ruth ficam geladas, sem saber o que fazer.
     Margarethe comea a bater leite para tentar bloquear o barulho, Iris sente-se culpada: histrias em excesso sobre meninas pobres e tmidas que aprendem a ter 
coraes bravios?
     - Silncio, Clara - diz Iris -, ou vai acordar o diabrete!
     Com seu passo macio, Henrika chega. Insiste em que no h mais nada a se discutir e que Clara est sendo m. Clara aparentemente tenciona continuar m, pois 
no pra de gritar. No at que Ruth explode em lgrimas e mergulha de joelhos na barra da saia de Clara e enlaa seus braos desajeitados nos quadris da menina.
     - V embora, seu ogro feio - diz Clara, num ingls passvel, Iris observa. Mas Ruth no possui a faculdade da vergonha e no se mexe, e finalmente Clara cai 
nos seus braos, miando.
     - Nenhuma filha minha gritou como um gato do inferno - observa Margarethe para a batedeira de manteiga.
     - Agora chega, Clara - diz Henrika, mas est claro que ela fala a Margarethe.
     Clara corre at o jardim murado e Ruth se arrasta atrs dela. Deixam a porta aberta. Clara joga cascalho nos pssaros. Ruth corre as mos atravs da hera. O 
ar na cozinha fica mido, embora nada tenha mudado no tempo. O vento ainda est encrespado, o ar marinho revigorante. Mais alm, gralhas ainda crocitam e brigam 
pelas sementes de tulipa. A luz ainda projeta seu amarelo plido sobre as lajes cinzentas atravs da porta aberta.
     Henrika d as costas a Margarethe. Por hbito, Iris olha no espelho esperando captar a viso de algum endiabrado esprito domstico, mas em vez disso v o canto 
do rosto de Henrika. Henrika est vexada: zangada e ansiosa. A bela testa est vincada e ela aperta o lbio inferior entre os dentes, pensando.
     - Uma boa dose de camomila vai faz-la sossegar - diz Margarethe com um ar indiferente.
     - No queira me ensinar a cuidar de minha prpria filha - diz Henrika numa voz fria e sai rapidamente da cozinha.
     - Eu estava tentando ajudar - diz Margarethe atrs dela, com exagerada polidez.
     - Mame - diz Iris -, no est cuidando da sua lngua.
     - Quem  voc para me mandar cuidar da minha lngua? - diz Margarethe, langorosa.
     - O que deu na senhora? Sempre disse que poderamos ser jogadas para fora daqui se no soubssemos nos comportar. H outras que podem fazer o trabalho que fazemos!
     Margarethe coloca de lado a batedeira de manteiga. Desdobra um pano para revelar um par de lebres mortas com as orelhas amarradas.
     - Existem poucas certezas em nossas vidas, claramente, mas no vamos ser jogadas fora por causa de uma observao sincera de momento - diz Margarethe.
     - Isso no  do seu feitio - diz ris. -  a senhora quem se preocupa em agosto se a primavera vai chegar mais cedo em maro seguinte.
     Margarethe acena para Iris se aproximar e sussurra:
     - No reparou que a abelha-rainha Henrika est grvida?
     Embora Iris se considere esperta, ela no reparou nisso.
     - Oh, ainda  cedo, mas no momento Henrika no pode suportar a cara da comida na panela ou no espeto. No pode se dar ao luxo de me despedir agora. J estou 
muito bem enfronhada nas rotinas da sua casa e esta festa  muito importante.
     Iris no responde. No gosta de ver sua me bajulando, mas ver a me impertinente  igualmente perturbador.
     - Ela  nossa anfitri e nossa protetora - diz Iris finalmente. - No pode gostar dela?
     - Gostar dela? E o que h nela para se gostar? Que seu pai se deu muito bem nos negcios? Que ela tem pretenses intelectuais? Que mima sua filha e a sufoca 
numa infncia fora do comum? Que no faz bem algum  menina? A menina  imprestvel, ou no consegue enxergar isso?
     - Ento a senhora nota a infelicidade de Clara, pelo menos - diz Iris.
     - Veja a coisa desta maneira - diz Margarethe. - Se Ruth  presa de suas aflies, forada a manquejar e a mugir atravs dos dias da sua existncia, Clara est 
engaiolada tambm. Esperam que seja de uma docilidade interminvel. Quem sabe por qu... porque  to atraente? Estamos todos dentro de nossa prpria priso, suponho, 
mas a de Clara  tornada ainda pior para ela pelos medos e presses da sua me. E talvez pela fraqueza do seu pai.
     - E qual  a forma da priso da senhora? - diz Iris.
     Margarethe esfrega o nariz e diz:
     - Sempre houve uma janela. Voc pode suportar qualquer tipo de priso se for capaz de apreender uma janela no escuro. Seu pai foi aquela janela para mim. Quando 
morreu, a janela se fechou. Oh, eu sei, voc sofre diante da meno de Jack Fisher, mas, mesmo assim...
     - E vai seguir o resto da vida sem outra janela em alguma parte da escurido?
     - Voc que a procure - diz Margarethe, subitamente impaciente com toda esta conversa fiada. - Estou ocupada agora, tenho de esfolar estas lebres.
     Iris senta-se ao lado da me e observa.
     - Diga-me o que fazer, eu precisaria saber a respeito - diz ela.
     - Para que fosse parar na cozinha de algum burgus quando tivesse a minha idade, preparando comida para convidados que no vo ver seu rosto ou perguntar seu 
nome - diz Margarethe. - Por que eu lhe ensinaria alguma coisa disso?
     - Porque sou feia - diz Iris - e preciso saber essas coisas para que possa tomar conta de mim mesma um dia.
     Margarethe corre suas mos sobre as lebres como se estivesse tentando se impedir de rasg-las com seus dedos. Respira pesadamente. Ento diz:
     - Veja bem, minha querida, olhe cuidadosamente.
     Me e filha batalham sobre a carcaa, removendo extremidades indesejveis, ossos, rgos. Margarethe mostra a Iris como esfolar a pele do crnio, como manipular 
a carne de modo que no se descole do osso cedo demais, como esfregar pitadas de salva, tomilho e estrago, como transformar um animal morto numa refeio suntuosa. 
Depois de algum tempo Henrika chega de novo  cozinha. Todas trabalham lado a lado sem se falar, selecionando as frutas mais perfeitas, removendo o po do forno 
lateral, ocupando-se com as codornas compradas h pouco, pois se aproxima a hora em que a Jovem com Tulipas vai ser apresentada aos mercadores famintos.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Recepo
     
     
     
     
A
s velas so acesas, as mesas cobertas com toalhas e Henrika sentou-se ao virginal.
     - Que belo quadro - diz Margarethe para Van den Meer, mas ele no ouve o amargor na voz dela e meramente responde:
     - Oh, sim, ela no est bonita?
     Duas donzelas de uma casa da mesma rua vieram ajudar no servio, para que Margarethe possa ficar  porta e supervisionar tanto a cozinha como o salo de jantar 
ao mesmo tempo. Caspar foi contratado para recolher capas, bastes e chapus. Iris e Ruth trazem banquetas at a porta e sentam-se ali, perguntando-se por Clara, 
at que se ouve uma batida na porta e o primeiro dos burgueses chega.
     Quase imediatamente um segundo convidado bate  porta, com sua mulher atrs, e Caspar fica atarefado e Iris tem de ajudar. Henrika pra no virginal, como surpreendida 
pelos visitantes. Toca a mesma melodia cada vez at ser interrompida pelos novos visitantes que chegam.
     O Mestre aparece. Seu casaco novo com detalhes de debrum no consegue disfarar sua impacincia. D uma volta pelo salo, cumprimentando aqueles que conhece, 
resmungando saudaes acanhadas a estranhos. Quase imediatamente escapa para a cozinha, onde se desvencilha do casaco novo e senta-se na banqueta que Iris vagou. 
Segura a mo de Ruth por um instante.
     -  um belo bando - diz o Mestre a Margarethe, que, em meio a preparativos de ltimo minuto, leva um momento para dar um sorriso zombeteiro.
     - Faises recheados e paves perfumados, cheios de ares. So apenas comerciantes, no pertencem  nobreza - diz ela.
     - Admiram os talentosos e consideram-se cultos. Sabe que alguns deles investiram nas colnias da Nova Holanda do outro lado do imenso Atlntico?
     - Tm uma paixo fora do comum por pinturas, estes holandeses - diz Margarethe, como se nesta instncia ela se compreenda como sendo inteira e seguramente inglesa.
     - E por que no deveriam? - pergunta o Mestre. - A maravilhosa Reforma arrancou cones e ornamentos das igrejas. O que restou para o olho faminto admirar? Meus 
compatriotas holandeses se satisfazem com cenas tediosas de grupos folgazes. Cenas de campinas, de bosques, o dia-a-dia do agricultor. Vistas da cidade por este 
ou aquele aspecto. Ou vises da cmica raa dos desesperadamente pobres.
     - Se a sua pintura receber aprovao - diz Margarethe -, tome nota: vai pintar todos eles. Vai passar o seu tempo olhando para as bochechas rotundas e as papadas 
de todo mundo com florins suficientes para pagar-lhe por seus retratos.
     - No precisa me lembrar - diz ele. - Meus possveis patronos esto naquela sala de recepo neste exato momento.
     - No h falta de assunto, Luykas, nem de moeda com que lhe pagar para que os pinte.
     - No faltam pintores nesta parte da Holanda tambm.
     Ela coloca um par de salmes escaldados numa salva e trabalha com os dedos sobre eles para devolv-los  forma correta.
     - Ento tem pensamentos conflitantes? Como a maioria de ns. Quer o trabalho e a reputao e tambm quer desprezar seus mecenas por se recusarem a pagar por 
temas religiosos. Assim pode ser infeliz, acontea o que acontecer a seguir. Aqui, garota, isto est pronto, no deixe o peixe escorregar e cair no cho. Ruth, mexa 
os ps.
     - Voc  uma mulher esperta, Margarethe - diz o Mestre. - Se eu for honrado e notado esta noite, como Van den Meer sugere que vou ser, voc pensaria na possibilidade 
de voltar  minha casa e trabalhar para mim?
     - Eu penso em muitas coisas, tolas e profundas, toda noite quando coloco a cabea entre minhas duas filhas para repousar.
     - Pois bem, acrescente esta proposta  sua lista.
     Van den Meer est  porta.
     - Schoonmaker, vamos at a sala ao lado mostrar-lhes o seu trabalho - diz ele -, e c est voc tagarelando aos legumes como um garoto da sopa? Venha c e prepare-se, 
 sua idade avanada, para fazer a sua carreira e para fazer a minha tambm.
     Van den Meer chama Clara. Quando ela no aparece, ele diz a Margarethe:
     - V busc-la, por favor. Est l em cima e tem de descer imediatamente.
     - Sou a princesa das panelas e do fogo hoje, no sou a bab - diz Margarethe. - V o senhor mesmo.
     - Embora eu esteja atrapalhado pela ocasio - ele replica formalmente -, no sou insensvel ao insulto, Margarethe Fisher.
     Margarethe ruboriza. Foi longe demais. Ela diz em voz baixa.
     - Iris, faa o que  necessrio, agora, em meu lugar.
     Iris se lana pelas escadas dos fundos da casa. Sobe at o pequeno quarto de Clara. As cortinas da cama de dossel esto fechadas. No h nenhuma vela acesa 
no quarto e sombras marcam as arestas dos mveis.
     - Clara? - diz Iris. - Est a dentro?
     Um farfalhar de roupas de cama. Tem algo ali.
     - Clara? - A voz de Iris  baixa, medrosa. - Vamos, abra as cortinas. No me assuste assim.
     O puxo da cortina. O oscilar de uma respirao laboriosa. Iris puxa o pano para o lado.
     - Ora, vamos, qual  o problema? - diz Iris. Olha para dentro da cama e tenta sorrir. A figura se recolhe, mergulhando mais nas sombras.
     - Eu os odeio - diz Clara.
     - Mas por que os odeia? O que foi que lhe fizeram?
     - Andam pelo mundo com passos muito grandes - diz ela finalmente.
     Iris se pergunta se ela quer dizer que eles podem sair  vontade pelo mundo sem a superviso que oprime toda criana, Clara mais do que a maioria. Mas este 
 o jeito das pessoas adultas. No chega a parecer um motivo para odi-las.
     - Se voc for, e sorrir - diz ris -, e responder quando se dirigirem a voc, pode diverti-los e gratificar seus pais. Ento, quando as suas atenes se desviarem, 
pois os adultos nunca pensam numa coisa por muito tempo, voc pode ir embora. Eles nunca iro notar.
     - Eles j me tiveram uma vez - diz a menina.
     - Na pintura do Mestre - diz ris. - Eu sei, eu sei. Mas voc  suficientemente bonita para ser vista em carne e osso. No  capaz de se sentir feliz por isso?
     - Meu pai vai vender suas flores - diz Clara. - Ficaremos muito mais ricos do que j somos. Fui fixada naquela tela para vender flores.
     - E que importncia tem isso? - diz Iris. Teve a inteno de ser bondosa, mas est perdendo a pacincia. - Quando fui fixada na tela pelo Mestre, as pessoas 
riram! Existem coisas piores no mundo do que ser uma alegria para se ver e uma utilidade para seu pai e sua me.
     - Como saberia disso? - diz Clara, comeando a parecer perturbada. - Seu pai est morto.
     - Nada disso - diz Iris, que est aprendendo. - Nada disso!
     - Pai morto, vermes na sua boca, larvas nos seus olhos...
     - Saia da sua cama - diz Iris -, seu pequeno traste de Sat, saia. Se no o fizer, minha me, minha irm e eu seremos jogadas na rua por no sermos de nenhuma 
utilidade. E, sim, meu pai est morto, e no podemos nos dar ao luxo de perder nossa posio aqui. Por isso, se no quiser descer as escadas por seus pais, ou em 
nome do seu futuro, ento faa isso por mim. Quer que eu seja mandada de volta  Inglaterra para morrer de fome l?
      um lance de xadrez desajeitado, mas funciona. Clara joga seus braos ao redor de Iris.
     - No volte para a Inglaterra - diz ela. - Aprender ingls com voc  a nica alegria que eu tenho.
     Mas o aperto que d em Iris  duro e forte. A menina tem braos como barras de ferro.
     Iris prossegue, tentando no se desvencilhar do abrao de Clara.
     - Voc entenderia a alegria de uma despensa cheia se tivesse um dia de viver sem uma, e a alegria de um pai vivo se seu pai estivesse morto. No vamos falar 
disso agora. Venha. Seja corajosa como uma menina em uma de minhas histrias.
     Ento Iris puxa Clara pelos degraus dos fundos e desce at a cozinha. Margarethe ajeita as roupas de Clara e belisca suas bochechas. Van den Meer d um sorriso 
vago, murmurando:
     - Venha comigo, meu patinho. Estamos justamente indo dar uma olhada no seu futuro.
     Clara se vira e olha uma ltima vez para Iris. Seus olhos esto quase vazios. Seu belo lbio superior se contrai, duas vezes.
     
     
     
     
     
     
Virginal
     
     
     
     
Q
uando o ltimo convidado se retirou, Clara estava morta para o mundo, Iris mal conseguia ficar acordada. Ruth rastejou para baixo da mesa da cozinha e ronca ali 
 sua maneira desajeitada, o moinho de brinquedo cado de suas mos.
     - Foi a vez que fiquei acordada at mais tarde... o mundo est to quieto - diz Iris, espiando pela porta. - Vejam, as estrelas quase batem umas nas outras, 
de tantas que so.
     O Mestre pede o seu casaco. Est bbado e deprimido por ter sido to celebrado. Seu aprendiz, porm, se sente atordoado de alvio.
     - Foi uma boa noite, ento, Caspar? - diz Iris enquanto Caspar apia o Mestre e passa um brao por baixo do seu.
     - O retrato de Clara excitou todo mundo.  o reinicio da sua carreira - diz Caspar. - Se no se sufocar enquanto dorme esta noite,  um homem feito. Sua me 
deveria levar em conta a sugesto dele para voltar  sua casa. Ele vai poder arcar com isso.
     Iris no sabe o que pensar. Est dividida: o prazer de ficar perto do ato da pintura ou o benefcio de um horrio de refeies mais garantido na casa bem-organizada 
de Henrika? Ela responde a Caspar meramente com um encolher de ombros feliz.
     Ele se inclina e coloca sua mo carinhosamente na testa dela:
     - Voc  uma boa menina - diz.
     Ento ele e o Mestre partem, ruidosamente, em ruas que esto escorregadias, cobertas por um fino borrifo soprado pelo mar da meia-noite.
     A porta se fecha e Iris se desloca para o salo. Cornelius, Henrika e Margarethe esto em vrios locais do aposento, de costas um para o outro: Henrika ao virginal, 
Cornelius diante da pintura e Margarethe perto da mesa entulhada com as sementes e hastes das frutas e as cascas dos queijos que encerraram a refeio.
     Embora os adultos estejam parados e olhando para trs direes diferentes, esto voltados um para o outro tambm, de uma certa forma que Iris no consegue apreender 
- oh, ela est cansada! Mas nota que as mos de Margarethe na mesa esto lentas, no de exausto, e sim devido a um esforo deliberado para se demorar.
     - Tivemos o nosso triunfo esta noite, todos ns - diz Van den Meer. Henrika curva a cabea para o virginal. Margarethe acena com a cabea, mas no responde.
     -  o comeo do nosso sucesso, sabem o que isso significa? - diz Van den Meer. - Estvamos certos ao agir lentamente e ter a certeza de que ele se encontrava 
 altura do trabalho, aquele Schoonmaker. Nossa cautela o espicaou. Ele ultrapassou todo esforo at esta data. No ser conhecido como o Mestre do Retbulo de 
Dordrecht. Ser conhecido como Schoonmaker, e a Jovem com Tulipas ser admirada e vista por gente de terras distantes. Logo encontraremos a maneira certa de mostr-la. 
Pessoas to distantes como cidados de Florena e Roma a admiraro, e admiraro nossa Clara... e no nos faltaro tambm futuros investidores.
     - Odeio a idia de a pintura ser mostrada - diz Henrika. Van den Meer no responde e sua mulher continua num tom mais quieto: - Ela nunca vai ser mais bonita 
do que foi esta noite. Ao ouvir isso, Van den Meer vira-se e toma uma taa de vinho do Porto.
     - Que quer dizer? Est triste com o crescimento da criana? - Ela sacode a cabea, e ele diz: - Tem o beb novo para fazer voc feliz e Clara emerge para a 
sua estao adulta.  tempo disso acontecer.
     -  apenas isso, agora - diz Henrika. - A beleza de Clara  anunciada. Sua reputao a preceder, mesmo nesta rua.
     - Voc no conseguiria escond-la debaixo de xales para sempre - diz ele. - Passaram-se todos esses anos at que concordasse em ter outro filho e, se o tivesse 
feito antes, Henrika, poderia ter encontrado uma maneira de liberar Clara de suas garras antes disso. Vamos esperar que ela possa se aprumar e ir em frente.
     Henrika parece furiosamente triste. Van den Meer continua numa voz mais bondosa.
     - Ela se sentir  vontade em qualquer salo da Terra, ser bemvinda na Frana e na Inglaterra. Ser um crdito para a sua famlia e a minha. No h nada que 
possa fazer contra isso.
     Henrika vira o rosto. Nas ltimas luzes da vela, Iris pode ver lgrimas brilhando.
     - Ns fizemos a coisa certa, marido? - pergunta.
     - Mulher, ns triunfamos, cada um de ns - diz Van den Meer. - Nada se perdeu esta noite, e tudo foi ganho. Schoonmaker parte com encontros marcados para cinco 
visitas ao seu estdio de comerciantes ricos o bastante para lhe pagarem belamente por seu trabalho. Ns elevamos o nosso status aqui...
     - Voc elevou o seu status - diz ela baixinho, lembrando-lhe que o sangue dela j  puro demais para ser ainda mais purificado.
     Ele passa por cima do comentrio dela, continuando:
     - ...e ns impressionamos nossos colegas com nossa capacidade de chamar a ateno sobre nosso prprio estoque de tulipas. Garantimos o resto do nosso investimento. 
Apresentamos nossa filha e lanamos sua reputao como uma figura de renome. Trabalhamos duro para isso e no h nada para se desalentar. A conversa foi animada, 
o vinho agradvel, a comida farta e deliciosa...
     - Obrigada - diz Margarethe.
     Van den Meer e sua mulher olham ambos para ela.
     - Voc  de fato responsvel - diz Henrika, sem nenhuma ironia na voz; est cansada demais para tagarelar. - Somos agradecidos a voc por suas habilidades.
     - E  sua filha por ter conquistado a amizade de Clara, encorajando-a a se apresentar - diz Van den Meer.
     - Ento este seria o momento adequado para abord-lo e pedir um modesto estipndio? - diz Margarethe.
     -  tarde e no discuto tais questes depois de comer e beber to generosamente - diz Van den Meer.
     - Alm do mais - diz Henrika -, esta bela noitada custou  casa mais do que podamos arcar. E o novo beb est a caminho e voc sabe o que isso representa. 
No lhe basta ter um lugar para dormir e comida garantida?
     - ... gratificante - diz Margarethe. - Mas minhas filhas so um pouco mais velhas do que a sua Clara e no possuem as vantagens dela. Falando com franqueza, 
com sua triste aparncia so pedras penduradas no meu pescoo e tenho de pensar nelas.
     Iris se encolhe nas sombras. No gosta de ouvir tais palavras.
     - De qualquer maneira - diz Van den Meer -, no vamos empanar esta agradvel noite com tal discusso. Em outra ocasio, Margarethe, amanh ou depois de amanh, 
procure-me no meu escritrio e estudaremos a questo. No fao nenhum comentrio, favor nem contra.
     - Mas esta noite recebi uma oferta de emprego em outro lugar - diz Margarethe.
     - No de um dos nossos convidados! - diz Henrika.
     - Amanh  tempo suficiente, Henrika - diz Van den Meer.
     - No  coisa que se possa suportar - diz Henrika. Ela se apruma e segura a barriga.
     - Foi de um de seus convidados - diz Margarethe.
     - Quem? - diz Henrika, num arroubo.
     - Henrika - fala Van den Meer em tom de advertncia.
     - Foi do Mestre. Ele acredita que depois desta noite estar numa posio melhor para poder me contratar como ajudante. Pediu a minha volta.
     - V, ento, se  o que quer - diz Henrika com um ar de desdm. - A ingratido!
     - Vamos discutir este assunto pela manh - diz Van den Meer. - Margarethe, no est fazendo o melhor para si mesma.
     - No peo o melhor para mim mesma, s um pouco melhor do que nada - diz Margarethe. - O senhor obteve um grande sucesso esta noite e vai ter mais nos meses 
que viro. Estar mais preparado para remunerar uma pequena equipe. Viu como sou capaz de servir, e hei de servir.
     - Protesto contra isso, Cornelius - diz Henrika.
     - Voc est cansada demais para protestar e est grvida - diz o marido. - Tomarei a deciso que tem de ser tomada e no o farei esta noite. Quantas vezes preciso 
lhes dizer isso? Vamos, todos, as luzes devem ser apagadas, as venezianas trancadas e a comida protegida dos camundongos e ento vamos dormir. Nossas vidas recomeam 
pela manh, como sempre deve acontecer.
     - Quem toma a deciso que tem de ser tomada? - pergunta Henrika ao soprar a vela. Iris recua na escurido, envergonhada pela petulncia de sua me, mas tambm 
sentindo orgulho dela.
     
     
     
     
Ervas
     
     
     
      
?O
 rosto de Clara est encompridando - diz Margarethe. - Se ainda nutre alguma iluso de que seja uma criana-duende, Iris, note que Clara est crescendo. Crianas-duendes 
morrem cedo.
     - Algumas crianas-duendes vivem at ficar velhas e alquebradas - diz Iris. - Vi um velho maluco sem dentes e com bochechas to lisas como um melo. Ria alto 
e tolamente como qualquer criana-duende.
     - Tome cuidado com seu pensamento fantasioso! - diz Margarethe. - Ele a desencaminha em momentos de distrao e ento o diabo vai peg-la ainda. Clara no  
uma criana-duende mais do que Ruth.
     Iris no responde. Sabe que, embora Ruth seja enorme, estpida e desarticulada,  ela mesma e sempre vai ser. Iris nunca poder saber isso de Clara, portanto 
a suspeita de uma transformao mgica sempre persistir e no poder ser desmentida.
     Os meses de inverno passam como num moinho em sua marcha glacial. Margarethe e suas filhas no voltaram  casa do Mestre no lado pobre da cidade. A gravidez 
de Henrika est muito difcil. Ela no se sente bem. Queixa-se de males misteriosos, em relao aos quais as parteiras estalam a lngua em confuso. Estaria Henrika 
grvida de gmeos, talvez? Houve uma mudana na sua dieta? A preocupao de Cornelius van den Meer com os negcios est se tornando contagiosa? Segundo os rumores, 
uma crise fiscal na casa dos Van den Meer seria devastadora. Muito do dote de Henrika foi adiantado como garantia de emprstimos de negcios e seria perdido.
     Os mexericos tambm dizem que existe um demnio domstico vivendo entre os caibros do telhado do sto e que s desce depois que escurece para roer as entranhas 
de Henrika e arruinar a sua sade.
     Henrika passa cada vez mais tempo na cama. Van den Meer cuida dela com amorosa afeio quando seu trabalho permite. Existe preocupao - o fato no pode ser 
escondido - em relao a um navio desaparecido que no chegou ao porto com a esperada carga. Van den Meer e seus colegas discordam quanto a enviar um investigador 
para reconstituir a rota e buscar notcias. Notcias, boas ou ms, acabaro chegando, mas no seria mais esperto saber de um desastre mais cedo e assim se preparar 
para ele? Quanto mais longa a espera, mais fortes as tempestades do inverno se tornaro.
     Margarethe  uma ddiva para a casa. Certo, Henrika se queixa do jeito ingls da comida que Margarethe traz e s vezes at enfia com uma colher na boca de Henrika. 
Salgada demais, temperada demais, estrangeira demais!
     - Sempre uma reclamao - diz Margarethe calmamente. - Coma,  para a sua sade. Ela sabe que a abelha-rainha da casa tem pouca escolha a no ser se mostrar 
agradecida  chefe assalariada dos afazeres domsticos.
     
     
     Na parte inicial do inverno, Margarethe pendura as ltimas ervas em barbantes pela cozinha e semana a semana, por pedido especial de Henrika, mantm um cozido 
no fogo. A casa dos Van den Meer  muito maior do que qualquer outra em que Margarethe tenha morado e ela supervisiona a despensa de frios, a adega de vinhos e quaisquer 
questes distantes da vida nos celeiros que os empregados nas dependncias externas soturnamente trazem at ela.
     Assim, Margarethe se atarefando com os assuntos da casa,  um tempo de liberdade para as meninas. Margarethe no tem nenhum interesse em mandar suas filhas 
 escola - bem, Ruth  incapaz de aprender e ris  necessria para cuidar de Ruth! - e Van den Meer se habituou a deixar a superviso de Clara entregue a sua mulher. 
Toda manh, depois do desjejum e de completadas as ablues e executadas pequenas tarefas caseiras, Iris e Ruth saem em seus tamancos para caminhar sem destino por 
Haarlem e ver o que h para ser visto.
     Diariamente Iris e Ruth fazem sua primeira parada no estdio do Mestre, onde Caspar interrompe seu trabalho de passar gesso nos painis e de esticar telas, 
moer pigmentos e aplicar vernizes. Diariamente ele esquenta leite numa panela e acrescenta flocos de semente de cacau amarga, gotas de mel e colheres de manteiga. 
Diariamente o Mestre ruge para elas por perturbarem sua paz e arruinarem sua oportunidade de adquirir uma reputao. Como vai conseguir terminar todas as encomendas 
que est recebendo, como, como, como? Mas agora as meninas s riem  socapa dele.
     Ruth tem pouco interesse pela pintura. Preferiria ficar na cozinha e fazer companhia a Caspar. Ele s vezes entalha rostos em batatas Para faz-la rir. Mas 
Iris entra no estdio e fica a uma distncia segura, pois suas roupas freqentemente esto gotejando gua da chuva. Ela v as inevitveis marcas iniciais em marrom 
na tela transformarem-se nos contornos de seres humanos. V os tons da carne se consolidarem. V o volume surgir da planura. Ouve o Mestre praguejar contra os seus 
prprios erros numa linguagem tal que Caspar rola os olhos e s vezes coloca as mos sobre os ouvidos de Iris.
     O Mestre geme com aflio agradecida. Cada pequeno animal domstico tem de ser celebrado em tinta! At a prpria Sagrada Famlia est sendo substituda por 
um pecaminoso amor-prprio: retratos mostrando como todo mundo ficou rico!
     - Mas eu preciso comer, no posso viver s da palavra de Deus, no importa o que diga a Escritura. Preciso de po tambm - diz ele. - Desgraado estmago humano, 
este gordo traidor dos meus ideais. Caspar! Outro retrato de madame Ruim-de-Rosto, feito para parecer madame Adorvel-de-se-Olhar. No estou mais dizendo a verdade 
com a minha arte, estou mentindo. Mas preciso. De que outro modo poderia pagar este suntuoso chocolate que vocs, garotas, bebem toda manh da minha vida? E vo 
deixar um pouco para mim ou vou tomar este fluido diluidor por acidente e emborcar para um fim insensvel?
     Ele trabalha rapidamente, com confiana crescente. Caspar est aprendendo rpido tambm e tornando-se um genuno aprendiz. Quando o Mestre parte em grande velocidade 
para a privada ao ar livre na viela, Iris e Caspar gozam de uma pequena intimidade.
     Um dia Caspar estende a mo como para acariciar os cabelos de Iris, mas pra de repente.
     - Quer pegar um giz e tentar sozinha? - diz ele.
     - Claro que quero, mas nunca vou ser uma aprendiz, ento por que enganar a mim mesma?
     - Quando eu for o Mestre, poder ser minha aprendiz - diz Caspar.
     Ela ri atrevidamente. Ouve rolarem de modo pouco familiar suas prprias slabas de chacota; pra diante de sua estranheza. E ento tem de rir mais  solta.
     Se Clara est crescendo, Iris tambm.
     Quando as meninas deixam o estdio, s vezes elas erram atravs do Amsterdamse Poort at a campina onde Ruth colhia flores silvestres. De manh a campina ainda 
est embranquecida pela geada e Ruth parece intrigada ao notar que as flores que costumava colher agora no passam de caules marrons quebradios. Ainda assim, a 
campina  uma espcie de refgio para elas. Um dia, brevemente, o frio poder congelar todos os canais e, ento, que feriado! Melhor do que a kermis, Caspar promete, 
embora elas no tenham idia do que seja a kermis. Carnaval, ele explica, antes da dura estao da Quaresma. Oh, Iris pergunta, existe estao pior do que esta? 
Mas ela pode dizer tal coisa agora porque no est to infeliz quanto era antes.
* * *
     
     Com Henrika to freqentemente fechada atrs das cortinas da cama, Clara fica aptica e maante. Alegra-se quando as meninas voltam a casa. Diante do fogo um 
dia, mordiscando pedacinhos de presunto aromatizado com cravo, Iris diz a Clara:
     - Se viesse conosco no se sentiria to aborrecida aqui.
     - No posso ir alm dos limites da casa, voc sabe disso - diz Clara. - Mame no permite.
     - Ela nunca ia ficar sabendo! No est andando pelo assoalho l em cima, espiando pelas janelas! - diz Iris. - Est deitada de costas!
     - Entendo - diz Clara -, mas, de qualquer maneira, poderia me criar problemas.
     - Quem? - diz Iris, pensando no diabrete.
     - Asas negras l em cima. - Mas Clara muda de assunto, acrescentando bruscamente: - Antes de vocs chegarem aqui, havia uma mulher de Flandres para me ensinar 
a fazer renda. Antes dela, uma mulher de Paris que falava comigo em francs. Houve um homem que me ensinava a dedilhar as teclas do virginal e um homem para me treinar 
nos versculos da Escritura. Mame traz o mundo para mim.  tudo o que posso saber.
     - No  sua me que a prende aqui, no na verdade - diz Iris. - Vejo no seu rosto.  voc mesma.
     - Por que fala isso? - diz Clara, erguendo o queixo com uma meno de bravura.
     - Voc fica  janela e olha de um lado ao outro da rua, mas no  capaz de dar um passo sequer alm da porta - diz Iris. Est provocando Clara, mas no se importa 
desta vez. - Voc  uma covarde.
     - No sou covarde.
     - Ento venha comigo agora mesmo.
     - No vou.
     Iris no quer ser malvada, mas detesta a mesmice de tudo.
     - Sei o que podemos fazer - diz ela subitamente. - Ruth e eu podemos coloc-la no carrinho de mo. Ns a transportamos at o porto dos fundos. No iremos  
praa do mercado, mas para as margens do canal. Pode ficar de olhos fechados e no se preocupar com nada e ento poder abri-los e ter sido carregada por mgica 
atravs das paredes da priso do seu mundo. No vai ser voc que vai caminhar para fora de casa. Voc nem vai ver. Ns  que vamos lev-la para fora.
     - Parece uma coisa tola - diz Clara.
     - Vamos tentar. Por que no? - diz Iris.
     - No vo me jogar no canal?
     - Prometo - diz Iris. - Isto , prometo tentar no jogar.
     Clara abre a boca. Mas ela j sabe como Iris gosta de provocar e subitamente diz:
     - Est bem. Eu gostaria de ver o canal. Mal consigo me lembrar dele.
     
     
     O carrinho de mo est num canto do ptio da cozinha. No fundo dele esto alguns velhos sacos marrons. Clara e Iris arrancam os torres de terra e o carrinho 
se eleva. Iris olha para cima, com alguma culpa, para ver se sua aventura no vai ser observada. No h nenhuma mancha escura na janela mais alta, s o cu correndo 
sobre o telhado com sua queda ngreme, um estonteante azul de comeo de inverno com faixas de inocentes nuvens finas. Nada de desfavorvel.
     Clara senta-se no carrinho de mo como uma princesa num palanquim.
     - No - diz Iris -, deite-se, como se estivesse morta.
     - No quero estar morta - diz Clara.
     - No vai estar de verdade - diz Iris. - Finja.
     Clara comea a se mostrar relutante, mas faz o que Iris manda.
     - Vou cobri-la com estes sacos - diz Iris. - Ento, mesmo que sua me ou qualquer outra coisa esteja olhando pela janela, no vai conseguir v-la.
     Clara senta-se de novo.
     - Outra coisa? Que quer dizer com isto?
     Mas ela se deixa ser rebaixada de novo no carrinho.
     - Est tudo certo - diz Iris. - Vai ser divertido.
     - Divertido? - diz Clara. Sua voz est abafada.
     - Sabe que vai ser - diz Iris, mandona.
     - No me sacoleje - diz Clara. - No me coloque num lugar.
     - No vamos coloc-la em lugar algum. - Iris mostra a Ruth como segurar um guidom do carrinho de mo. Ruth  forte e segura os dois. Iris ento d a volta e 
diz: - Eu bem que podia seguir em cima. Estou esmagando voc?
     - Est me esmagando!
     - Desculpe-me, mas no consigo ouvi-la - diz Iris - com todos estes sacos no seu rosto...
     - Voc est me esmagando!
     - Vamos em frente, Ruth...
     No chegam nem a atravessar o porto com o carrinho quando Clara se senta, o rosto vermelho e roxo.
     - No me esmague! Eu no vou! - e ela empurra Iris com uma fora gerada por uma raiva fora do comum. Ruth fica parada, boquiaberta, os braos cados do lado 
do corpo.
     - Iris - grita Margarethe de uma janela do andar de cima. - O que est fazendo? - Sua voz  calma mas baixa, insistente. - Entre imediatamente e me espere no 
p da escada.
     No  uma voz a ser desobedecida.
     Esperando castigo, elas deixam o carrinho de mo a meio caminho do porto e arrastam-se para dentro da casa. Os passos sem pressa de Margarethe so ouvidos 
no andar de cima. Os passos atravessam o corredor - h um gemido, ento um gemido mais alto - e agora o som dos passos na escada dos fundos e Margarethe aparece 
na cozinha.
     - A esto vocs - diz ela numa voz calma. - Iris, preciso que voc corra e chame a parteira. Receio que Henrika esteja sentindo dores mais fortes e cedo demais 
no estgio normal das coisas.
     - Mas no sei onde mora a parteira! - diz Iris.
     - Use o seu crebro e pergunte a algum. No posso deixar a me com problemas sozinha. - Margarethe est de p com rara calma, sem correr para cuidar de Henrika. 
- E pode tambm dar um pulo no Grotemarkt e perguntar se algum viu heer Van den Meer.
     Mas Iris est estendendo o brao para tocar Clara no ombro, pois ocorreu-lhes que Margarethe est levando roupa de cama nos braos. Sangue coagulado, listras 
marrom-tijolo, e sangue fresco, mais vermelho do que quaisquer tulipas que Cornelius van den Meer fez florescer em seus viveiros.
     - V, Iris, no me obrigue a mand-la de novo - diz Margarethe, jogando a roupa de cama num canto e virando-se para subir de novo as escadas. 
     A casa, com suas vidas encerradas entre tijolos, parece subitamente silenciada e severa como uma capela. Iris pode sentir todo o edifcio agachando-se ao seu 
redor e acima dela, quase respirando, esperando, esttico, pausado. O que mais est trancado aqui alm da famlia Van den Meer? Que coisa rastejou para fora de um 
mundo aquoso espelhado, to estritamente organizado como o original que ele reflete, para corroer to terrivelmente Henrika que ela sangra mais vermelho do que qualquer 
tinta?
     Iris governa seus pensamentos conturbados, com esforo, e ento parte e vai fazer o que lhe mandaram.
     
     
     
     
3
A MENINA DAS CINZAS





Flores para os mortos
     
     
     
     
N
o decorrer da semana, Henrika piora. Nada ajuda, nem tudo o que Margarethe possa fazer com suas ervas, nem o pastor com os seus salmos, ou o cirurgio com a sangria. 
No sbado a nica coisa a fazer  rezar para que um corte atravs do abdome possa salvar a criana l dentro. Mas isso acaba se revelando uma falsa esperana.
     Me e beb so colocados num nico caixo, um dia depois de uma tempestade de neve. O sol ilumina um mundo de arestas vtreas. Os contornos do cemitrio atrs 
da igreja esto amontoados de neve. Os homens lacrimosos ficam prximo da sepultura que foi difcil cavar em solo to gelado. O pregador entoa palavras que se perdem 
no vento.
     Clara teve de ser ameaada de uma surra para juntar-se aos acompanhantes do enterro e sair de casa. No cemitrio ela fica distante da sepultura, com as outras 
mulheres. As esposas - todas com os olhos exauridos de lgrimas - murmuram que  um agrupamento considervel, levando em conta o mau tempo. Vamos levar as velhas 
avs de volta s suas lareiras antes que seus pulmes no resistam! Iris no reconhece muitas dessas pessoas. Mas ela v a Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo, 
embrulhada em xales de cores sombrias, parada mais alm do cemitrio. Iris poderia jurar que a velha com pernas de bengalas est observando, embora as plpebras 
enrugadas estejam fechadas. Iris desvia a cabea, fingindo rezar. Quando olha de novo, a rainha desapareceu.
     Depois do ltimo amm sombrio, Iris se vira para Clara. A cabea da menina est coberta, seu rosto protegido pela gola de pele preta, e o vento fustiga mechas 
de seus cabelos plidos em ouro branco sobre a testa. Est assustada por se achar fora de casa, assustada por tudo, mas quem no estaria na sua situao?
     Um homem entroncado se aproxima. Caminha com gravidade at Clara e ergue o queixo dela na sua mo.
     - Que legado de beleza sua me deixa ao mundo - murmura, cortesmente. As plpebras de Clara se retesam e ela recua; suas mos balanam atrs de si, buscando 
Iris, que atende saltando  frente e segurando-lhe a mo. Mas ento Clara  chamada para o lado do pai e vai at l.
     Iris segue  margem do pequeno grupo que acompanha Van den Meer de volta para sua casa. Ela reflete sobre um novo pensamento, poderoso como um pas estrangeiro, 
poderoso como mgica...
     Comea com isto: Henrika est morta. Suas mos esto enfiadas num regalo de arminho como se ela pudesse se proteger do frio l embaixo no solo negro. Seus cabelos 
louros esto limpos, seus olhos bem fechados, e um odor pior que o de flores podres acompanhou sua remoo para o seio da terra. Henrika foi boa para com Iris e 
Ruth de certa forma. Henrika brigou com Margarethe, mas no a jogou para fora de casa. E Henrika est morta...
     ...e Iris est viva.  assim que o pensamento evolui e  um pensamento perturbador e culpado, mas Iris se sente viva: sente sua pele formigar. Enquanto Margarethe 
enfeita sua filha para receber na porta pessoas que vm trazer suas condolncias, ris sente tudo. Como os cabelos puxam o seu escalpo quando Margarethe passa uma 
escova na sua cabea. Iris sente os pulsos nas mangas do seu gibo, sente o pulso direito subir e descer dentro do seu tnel de pano como um badalo dentro de um 
sino! Sente todo o seu corpo dentro de suas roupas. Ocorre-lhe que  capaz de sentir a pele de pano de sua angua roar contra a pele de suas ndegas e isso a faz 
enrubescer to intensamente que Margarethe pergunta:
     - Que bobagem est chocando na sua cabea feia neste dia mais terrvel?
     Ela fica imvel e no responde.
     Durante toda a tarde depois do enterro vizinhos vm visitar. Iris fica sentada com as mos no colo, quieta como uma pedra, e pode sentir o sangue subindo pela 
coluna do pescoo, em espirais. Pode sentir seus seios crescendo debaixo da camisa. Pode sentir os mamilos endurecerem no frio e relaxarem no calor. Pode sentir 
seus pensamentos se organizando. Tenta sentir o diabrete domstico, aquela ameaa invisvel, mas deve ter sido assustado pela comoo dos visitantes. Parece dissolvido. 
A casa  apenas uma casa, gerando nada mais estranho do que frio e poeira. Mesmo os camundongos que geralmente escarafuncham pelas paredes caram em silncio, por 
respeito aos mortos.
     Membros distantes da famlia chegam da sua distncia. Tudo  estranho e novo. Tudo parece mais rico, mais esquisito.  como se fosse concedida a Iris a vida 
dos sentimentos de Henrika, uma vez que Henrika claramente no a necessitava mais. Estive sempre aqui, pensa ris, ou acabei de nascer. Por que olvidei todas as 
minhas antigas memrias, da infncia nos brejos, de papai? Por que no presto ateno?
     Mas devo prestar ateno agora, ela pensa, porque existiria outra acolha? Talvez quando eu morrer minha alma voe ao encontro de Deus, mas quando a hora chegar 
no vou ter o uso de minhas mos espertas nem o fardo de um rosto feio: mos e rosto sero plantados como bulbos no solo, enquanto apenas a flor do esprito emergir 
em algum outro lugar. Ento deixem minhas mos e meu rosto encontrarem o seu caminho neste mundo, deixem meus olhos famintos enxergarem, minha lngua provar. Ela 
prova a umidade que escorre de cada lado do meu nariz. O mundo  sal. Todo o mundo  sal e todo campo  cultivado no sal, e nada pode crescer, mas eu devo sentir 
tudo, notar tudo...
     ...por que, por que, pergunta a si mesma, mas a nsia de sentir e notar  mais urgente do que a nsia de responder a perguntas. A comoo dentro dela se eleva 
a um clamor e mal pode se manter no banco do lado do vestbulo.
     Note, note; deixe o ato de notar tomar o lugar do grito.
     Note Margarethe, fazendo o ato de caridade para o atordoado Van den Meer. Note como ela  modesta em seu prstimo, a touca respeitosamente puxada para a frente 
a fim de ocultar o seu rosto. No entanto, note como ela est aqui com uma bandeja  esquerda de Van den Meer, insistindo em que ele beba o sherry dourado que ela 
capturou em pequenos clices como fantasmas de peixes. Note como Van den Meer pestaneja das profundezas do seu luto e aceita a consolao de Margarethe, embora no 
parea v-la.
     Note Ruth, e como ela fica fora disto. Como pode ris no ter imaginado antes que Ruth, mesmo sendo lenta de lngua, no teria de ser necessariamente lenta 
de sentimento? Ruth numa banqueta baixa, ainda mais mergulhada nas sombras, seu olhar errante perseguindo para cima e para baixo um pedao de parede de gesso sem 
adorno. Note Ruth, com suas mos se retorcendo sobre os joelhos, como se por meio da fora pudesse ajeitar suas pernas adequadamente e faz-las funcionar como pernas. 
Ruth com seus cabelos castanhos que ningum se deu ao trabalho de escovar, e um franzido no meio da testa como uma depresso numa batata. O que sabe Ruth de morte, 
pensa Iris, e tambm o que sei eu?
     Note Clara, a menina do momento, apanhada em toda esta ateno e detestando-a. O choque da dor s consegue obliterar parcialmente o gnio irritadio de Clara. 
Quando pode escapar de um parente enfadonho, ela se eclipsa. Iris v Clara abaixar o seu olhar e preparar-se para dar numa tia-av que cochila um pontap na canela. 
Mas Clara sente os olhos de Iris sobre ela e mantm ambos os ps no cho.
     Note o Mestre e Caspar, e como esto aborrecidos, apesar de sua vitalidade masculina. O Mestre tremendo com algum tipo de pnico. A morte de Henrika desperta 
nele a necessidade de verdades, das histrias clssicas das Escrituras. Sua morte  o memento mori de que o tempo tambm deve apanh-lo no seu crime: pintar interiores 
com belas filhas ou esposas de comerciantes, nada digno nelas a no ser sua exatido - ele abandonou tanto a sua inspirao sagrada como a fbula acauteladora. Olhe 
como coa a testa com uma mo paralisada ainda no inteiramente limpa de tinta! Algumas escamas de pele se soltam. Ele no ouve o vizinho tagarela. Est mergulhado 
fundo demais em si mesmo.
     Note Caspar.
     Caspar, uma bno de ser humano, com sua expresso to aberta como um espelho convexo. Como ele segue o Mestre, apoiando seu cotovelo esquerdo, murmurando 
o nome de algum no seu ouvido direito, amaciando o caminho atravs das correntes sociais para o seu professor e empregador. Caspar, o bom aprendiz, Caspar, o amigo 
confivel, e tambm...
     Caspar, o belo homem.
     Oh, Caspar, pensa Iris. Oh, bem.
     Ela o observa quando consegue suportar v-lo de novo. 
     Ele  to - qual  a palavra? -, to certo. To bem formado. Os ombros de bom tamanho, o peito capaz. E ento a cintura adelgaada, o traseiro confortvel, 
as panturrilhas bem torneadas, as coxas, os ps enrgicos. E o rosto, aninhado em todos aqueles cabelos acetinados. O nariz rombudo insolente, os lbios crestados 
pelo vento, as sobrancelhas sempre oblquas, desemparelhadas. Um rosto com caridade e zombaria exibidos em igual medida. Olhe para ele, agora cuidando de Clara, 
com toda a afeio de um adulador! Que outro homem da sua idade se preocuparia com o bem-estar de uma menina? Est acariciando o rosto dela com a mo, est brincando 
com os cabelos dela. Clara no sorri para ele - como poderia, neste dia, o dia do enterro de sua me? -, mas olha para ele e fala baixinho, e ningum mais, nem mesmo 
Iris, conseguiu arrancar uma palavra dela hoje.
     Iris se levanta. Tem de se segurar na borda da cadeira. Precisa fazer com que Caspar fale com ela, ou ento vai morrer. Vo abrir a sepultura de Henrika e jogar 
o corpo morto de Iris junto ao dela a no ser que fale com Caspar imediatamente e o faa olhar para ela e not-la de certa forma. Se no for notada vai desaparecer 
da sala e talvez nunca mais voltar. Vai evaporar como a nvoa da manh. Vai sumir como o diabrete da casa parece ter sumido.
     Ela flutua pela sala.  como um esprito sem alma perdido nas profundezas do Haarlemsmeer.
     - Voc tem o poder de encantar nossa pobre Clara - diz Iris para Caspar.
     Ele olha para ela.
     - Encantar no  a palavra, eu acho - diz ele, mas estremece para Iris, o mximo de um sorriso que consegue dar levando em conta as condies do dia. Um sorriso, 
mesmo assim. E ento tudo fica bem.
     - Iris - diz Margarethe -, precisam de voc na cozinha agora.
     - Estou falando com Caspar - diz Iris.
     - Iris - diz sua me, num tom que no pode ser ignorado. Ento Iris se afasta de Caspar, mas no sem antes segurar sua mo por um momento. - Iris! - insiste 
Margarethe.
     Na cozinha, h muito a ser feito. Iris no est familiarizada com os costumes funerrios de Haarlem, mas hoje a abstinncia calvinista, nunca inteiramente encampada 
pelos Van den Meer, est sendo totalmente ignorada. H tigelas de ostras ensopadas em vinagre e algumas lebres no espeto e uma quantidade de frios a serem usados 
de vrias maneiras. Margarethe, tendo feito sua silenciosa procisso pelo salo, volta com ps rpidos at a cozinha e ali distribui as tarefas para duas garotas 
contratadas e suas prprias filhas. Caspar aparece na porta  procura de um barril d'gua e  designado para escovar batatas antes de saber o que aconteceu.
     - Esta  uma festa suntuosa para se preparar no ltimo minuto - diz ele, observando Margarethe no centro do redemoinho.
     - As pessoas s morrem no ltimo minuto - diz Margarethe mordazmente, mas Iris, a esperta Iris!, sabe que sua me quer dizer mais do que isso. E Caspar tambm 
sabe.
     - Estas batatas poderiam ter sido lavadas na noite passada - diz Caspar. - Voc no  desleixada em questes domsticas, Margarethe. Por que essa pressa fora 
do comum?
     - So batatas que foram encomendadas h pouco - diz Margarethe -, esta manh, se quer saber. E tambm o po que est para queimar, se eu no, neste exato momento... 
Ruth, tire sua carcaa desajeitada daquela banqueta, no v que preciso ter acesso ao forno...?
     - Afinal o que  tudo isto? - diz Caspar.
     - No ltimo minuto - diz Margarethe - Van den Meer nos deu conhecimento de que esperava que seus colegas escoltassem investidores potenciais  sua casa para 
lamentarem a perda da sua querida esposa. No viu que o retrato da Jovem com Tulipas ganhou o lugar de honra no salo?
     - Ele retirou o retrato de Henrika? - diz Caspar.
     - Achei que um pintor seria mais observador - diz Margarethe de esguelha. - As beterrabas, Iris, no se esquea delas.
     Com a casa cheia de convidados, Iris no notou a troca dos quadros tambm.
     - Mas seguramente eles vo esperar ver Henrika em cima do aparador! - diz Iris. - Esta  a sua casa e aquela pintura  o melhor sinal da sua memria! No  
hora de pescar investimentos!
     - Voc no sabe nada a respeito disso, e por que deveria, menina boba - diz Margarethe, e arrefece um pouco e acrescenta -, assim como eu tambm no. Mas eu 
deveria pensar que o melhor sinal da memria de uma me  a sua bela filha. Alm do mais, Cornelius me diz que h ainda mais dinheiro a ser ganho no mercado das 
tulipas este ano, devido a uma temporada favorvel na Bolsa de Amsterd. Cornelius e seus scios precisam se proteger contra a perda potencial do seu carregamento 
de bulbos. No tinham conseguido ainda expor o quadro numa situao que garantisse discusso e atrasse investidores. A tmida Henrika se mostrara inquieta em relao 
 pintura da Jovem com Tulipas e mudara de opinio quanto a permitir o seu uso para um ganho comercial. Por isso  apenas sensato tirar proveito desta triste mas 
necessria reunio...
     -  uma coisa vil e corrupta - diz Caspar.
     - Um pai deve tomar conta de sua filha - diz Margarethe. - Voc  um rapaz tolo e no conhece as regras do mundo. Henrika no teria esperado menos do que isso 
de Cornelius.
     - E uma me deve tomar conta de suas filhas tambm - diz Caspar, mas carrancudo, jogando uma batata na lareira.
     - Est se referindo a mim? Eu deveria dizer que sim. H uma peste em Utrecht, eu soube - diz Margarethe -, de novo. De novo, veja bem. Este  um pas prspero 
e  uma bela ocasio para se viver, para todos aqueles que vo sobrar para contar a histria, Caspar. No serei jogada na rua para ver minhas filhas passarem fome, 
definharem com a varola ou ver o sangue escorrer de suas entranhas. E quem  voc para falar? Toma conta de si mesmo, eu notei, de qualquer jeito que estiver  
mo, graas ao Mestre.
     - Sou pago por servios prestados - diz Caspar com desdm. - Eu tenho uma profisso.
     - Ah,  assim que chamam isso, uma profisso - diz Margarethe. - Acredito que seja bom na sua "profisso".
     - Mame - diz Iris. Ela no capta a inteno do sentido, mas fica ofendida pelo tom.
     - Deixe-a me acusar de baixa moralidade - diz Caspar com amargor. -  s na culpa que ela encontra fora para fazer tais alegaes contra os outros.
     - Existe trabalho demais a ser feito para perdermos tempo com conversa. Se no pode ajudar, ento v embora - diz Margarethe.
     Iris olha. Caspar recusa-se a ir embora.
     - Estou preocupado com o bem-estar de suas filhas, embora no pelo seu - diz ele. - Fico para ajud-las.
     - Ento deixe as meninas ficarem sentadas em suas banquetas fazendo suas tarefas sem essa falao toda - diz Margarethe, mas com um aceno da sua colher ela 
inclui Caspar entre as meninas. Iris espera v-lo pular de raiva, mas ele cala a boca e meramente trabalha ainda com mais afinco.
     A tarde toda h um corre-corre e pouca conversa entre o pessoal da cozinha, exceto para saber qual  a tarefa seguinte. Os lampies so acesos  medida que 
se aproxima o cair da tarde e bandeja aps bandeja de iguarias segue at os convivas e bandejas vazias so devolvidas.
     Ao anoitecer, Clara tropea para dentro da cozinha e se instala perto do fogo.
     - Se vai estorvar,  melhor ento que d alguma ajuda - diz Margarethe.
     - Estou cansada - diz Clara. - Fiquei de p o dia inteiro, em silncio a no ser quando algum velho horrendo me dirigia a palavra para dizer que sou mais bonita 
do que a minha pintura. - Ela espia as chamas e faz uma carranca.
     - Oh, aposto que isso deixa o Mestre cheio de orgulho - diz Caspar, abafando um riso.
     - O Mestre saiu horas atrs - diz Clara. - No notou?
     - Deve ter ficado ofendido ao ver sua pintura pendurada para tal ocasio - diz Caspar.
     - No sei do que est falando - diz Clara.
     Antes que Caspar possa explicar, Margarethe diz:
     - Clara, mexa na caarola enquanto est sentada aqui, me poupe um trabalho extra.
     - No sei como fazer isso - diz Clara -, e estou cansada demais.
     - No  preciso tomar aula nenhuma para mexer na caarola diz Margarethe. -  s pegar a colher e mexer.
     - No sou menina de cozinha - diz Clara. - Nunca mexi caarolas antes.
     - No me deixe zangada - diz Margarethe. - Estou com os dedos quase nos ossos de tanto trabalhar para ajudar seu pobre pai atarantado e enquanto estiver na 
cozinha voc estar no meu domnio. Se eu a mando mexer a caarola, filha, ento vai mexer a caarola, ainda que eu tenha de lhe bater na cabea para que isso acontea.
     Caspar e Iris trocam olhares. Clara senta-se ereta.
     - Esta  a minha casa - diz ela. - No vou mexer a caarola para voc nem para ningum.
     - Margarethe - diz Caspar numa voz que nada trai do antagonismo anterior -, Margarethe, a me da menina foi enterrada esta manh. Caridade, Margarethe.
     - A caridade funciona em duas mos - diz Margarethe. Ela apanha uma cavilha lisa que vinha usando para enrolar pastelaria. - Clara? Vai mexer a caarola?
     - No vou - diz Clara.
     
     
     
     
     
     
Peste e quarentena
     
     
     
     
A
 onda de frio continua. Os dias so de uma alva mesmice cobertos por uma capa de nuvens que nunca varia. Iris, quando sai para cumprir tarefas da casa, observa os 
imperturbveis holandeses em suas atividades, manobrando suas carroas em ruas que congelam em sulcos glaciais toda noite. Os holandeses esto abotoados e enfaixados 
contra o inverno, to esticos e cticos quanto suas vacas. Se acreditam em diabretes e demnios, dentro das paredes de casa ou fora da cidade, no traem tal f. 
Sentindo-se mais velha e ao mesmo tempo mais nova nesses dias, Iris pensa em si mesma afinal como inglesa e holandesa - inglesa em sua esperana de ter um vislumbre 
do mundo mgico vivendo lado a lado com este, holandesa em sua impacincia com a apatia de Clara, Iris admite: Clara est comeando a ficar chorosa. De qualquer 
modo, mesmo chorando manh, tarde e noite, seu pai no lhe d mais ateno e isso s parece irritar Margarethe. 
     - Nas ruas de Amsterd, Clara, as carcaas so deixadas na rua para ser levadas ao cemitrio - diz Margarethe um dia. - A peste vem e vai como uma besta imunda 
na noite e at Haarlem tem conhecido seus danos. Preciso lev-la num passeio para ver a obra do Diabo a fim de faz-la parar com essa choradeira? Meu prprio marido 
foi despachado com um golpe no crnio e nem essa idiota da Ruth soluou como voc. E Iris fez o que lhe mandaram, secou os olhos e seguiu em frente. Por que no 
pode fazer o mesmo? 
     - Porque no tenho uma me para me mandar fazer isso - diz Clara, enxugando os olhos e o nariz. - Ela no est aqui para me dizer isso que esto me mandando 
fazer!
     - Bem, eu estou aqui - diz Margarethe -, e vou ter de fazer isso.
     Clara parece alarmada e raivosa diante de tal idia. Mas, Iris observa, a raiva de qualquer maneira tem o efeito de parar as lgrimas de Clara.
     Os comentrios de Margarethe sobre a peste no so ociosos. Aqueles que trabalham nos galpes das tulipas ficam na porta da cozinha  espera de que Margarethe 
distribua queijo, po e arenque em salmoura. Em troca, Margarethe recolhe notcias sobre as ltimas vtimas da peste. 
     - No deveramos nos mostrar mal-agradecidos por nossa casa e comida aqui - diz s filhas. - Fssemos jogadas na rua de novo, para buscar alojamento e comida 
em algum lugar vil, sem dvida ficaramos no caminho do contgio. Deus quis nos colocar aqui e devemos agradecer a Ele por sua Providncia. 
     - Deus levou Henrika e o seu beb para que pudssemos ficar seguras? - indaga Iris. 
     - Abaixe essa voz - diz Margarethe. - Deus poderia estar a ouvir tal dvida e nos castigaria a todas. 
     - Mas eu no vejo claro nessa questo - diz Iris. - Deus estraga outras vidas boas para salvar nossas vidas lamentveis? 
      -Vou chicote-la at que entenda, se for preciso - diz Margarethe. 
     Iris curva a cabea como se subitamente cheia de iluminao. A perspectiva de Margarethe tornar-se crente a alarma. 
     
     
     Os dias de inverno se arrastam. Chega a festa de So Nicolau. Por instruo de Clara, todas as meninas colocam seus tamancos de madeira na lareira. Margarethe 
funga: 
     - Voc acha que Sinter Klaas e seu ajudante coberto de fuligem, Zwarte Piet, vo saber que duas meninas inglesas feias e desajeitadas moram aqui? Eu no sonharia 
com presentes se fosse vocs. 
     - Mame no cu ter contado sobre Iris e Ruth - diz Clara, confiante. 
     - Ento vamos ficar sabendo - diz Margarethe. 
     E pela manh uma pequena seleo de doces, nozes e brinquedos  encontrada alojada dentro de cada tamanco de madeira. 
     - Mas eu no recebi mais do que voc - diz Clara a Iris com petulncia. 
     - Nem eu mais do que voc - diz Iris. - Sinter Klaas tem uma mo justa. 
     - Mas sou a filha do dono da casa e vocs so empregadas - diz. Clara. 
     - Oh - diz Iris, apanhada desprevenida. O que dizer? - Bem, j que somos todas amigas debaixo deste teto, quem recebesse uma poro maior estaria obrigada por 
amizade a partilhar com as outras. Por isso foi conveniente que os favores j tenham vindo sabiamente divididos. 
     Clara faz um ar desconsolado, mas cala a boca. 
     
     
     Chega o Natal e ento a Epifania. 
     - Agora vamos escolher um rei - diz Clara. - Ser quem descobrir um gro de feijo dentro do bolo do caf-da-manh. 
     Ela  a felizarda, mas sua cara cai quando Ruth descobre um feijo na sua poro tambm e o mesmo ocorre com Iris. 
     -  a festa dos Driekoningen - observa Margarethe. - Todos os trs reis so honrados aqui.
     Ruth senta-se ereta, orgulhosa de ser um rei. Iris e Clara brigam para ver quem vai ter o rosto enegrecido como Melquior. Mas no tem importncia, pois Clara 
de qualquer modo no vai sair de casa, portanto Iris e Ruth saem trotando para juntar-se a outras crianas no Grotemarkt em suas estranhas canes sobre Herodes 
e os Reis Magos. Clara  um Melquior que faz beicinho na janela da frente. 
     
     
     As semanas do meio do inverno so interminveis. As manhs ficam trancadas na geada e no nevoeiro, s vezes at com cortinas de neve. Durante muitos dias seguidos, 
as meninas tm de ficar dentro de casa. Embora Clara provoque e zombe das irms Fisher, ela se sente bem na sua companhia. Mas Iris e Ruth ficam impacientes. Quando 
o tempo abre, elas passam longos dias no estdio, deixando Clara para trs. 
     Sem a vigilncia de Henrika quanto  sua educao, Clara cresce entediada.
     Margarethe escrupulosamente a ignora e faz meno de mandar as garotas executarem pequenas tarefas na rua cada vez com mais freqncia. 
     Um dia Iris est colocando o casaco no vestbulo quando ouve Margarethe observando para Clara: 
     - No  minha funo cuidar da sua recreao. E trabalho de casa no  divertido. Admito isso para voc, mas ajuda a passar as horas. Mas voc se coloca acima 
do trabalho domstico, no ? E por enquanto eu deixo a coisa ficar assim mesmo. 
     Iris adianta-se na ponta dos ps e v Margarethe varrendo ostensivamente com uma vassoura os ps de Clara e dizendo: 
     - Que ps tenros e delicados voc tem, maravilhosos demais para servir de apoio enquanto faz algum esforo e ajuda a ns, trabalhadoras. 
     Chega o dia em que Clara resmunga para a caneca de estanho na mesa do caf-da-manh: 
     - Vou acompanh-la amanh nas suas tarefas se quiser. 
     Se existisse realmente um diabrete domstico - de qualquer origem, holands ou ingls -, deve ter desaparecido h muito tempo, pois agora seria a ocasio de 
chacoalhar seus ossos, morder seus dentes, soltar chamas pelas narinas, gritar de surpresa. Nada disso. Iris nada nota alm de um silncio frio e espesso. Prende 
o flego. Ruth vira-se e olha para Clara. Van den Meer faz uma pausa em seu caf-da-manh, segurando no ar um pedao de po. Suas sobrancelhas se levantam. 
     - Venha conosco se quiser. No faz nenhuma diferena para mim, nenhuma mesmo - diz Margarethe. - No fui eu quem lhe imps essa quarentena. 
     Mas Iris sente um tremor de satisfao percorrendo os ombros de sua me. 
     Na manh seguinte, assim que pode se afastar do calor da lareira, Margarethe se envolve numa capa. Clara, mordendo as unhas, fica de prontido. A ltima vez 
que saiu de casa foi no enterro da me, quando estava sem voz de tristeza. E antes disso foi h muitos anos... 
     Partem para o centro da cidade, um quarteto, Clara agarrando a mo de Ruth e olhando para c e para l. As intenes de Margarethe so modestas: umas cebolas 
aqui, um pouco de renda ali, um novo castial do ferreiro. 
     - Caminhamos atrs da senhora como patinhos - diz Iris, feliz. - Embora Ruth tenha dificuldade de nos acompanhar. Venha, Ruth, use suas pernas grandes e fortes. 
Clara, veja aquele cachorro correndo atrs do ganso! 
     - No - diz Clara em transe -, o ganso  que est correndo atrs do cachorro. 
     - Uma mulher pode andar na rua em Haarlem e cuidar dos seus afazeres - diz Margarethe com satisfao. - Na Inglaterra uma mulher raramente tem essa liberdade. 
Ela  mantida em quarentena da sociedade do lado de fora da sua porta ou da sua fazenda. Clara, no mexa com o seu colarinho. 
     Margarethe falou em voz alta. Trs senhoras de Haarlem viram-se e vem Clara obedecer. 
     - Isto  que  uma menina obediente - diz Margarethe. 
     Iris fica um passo para trs e pensa sobre isso. Estaria Margarethe desfilando como me substituta de Clara? Estaria encenando um espetculo, por toda a cidade, 
dos seus cuidados por uma criana rf? 
     Ela estuda Margarethe enquanto esperam na porta da tabacaria, onde sua me quer comprar uma mistura agradvel para o cachimbo de Van den Meer. Se Iris fosse 
pintar Margarethe, o que ela notaria? 
     H a testa pesada, ligeiramente protuberante, como um pedao de massa de po que caiu para a frente. Sobrancelhas firmemente dispostas, unidas no ato de observar 
o comerciante cortar o tabaco segundo as especificaes corretas. A mo de Margarethe est soldada ao seu quadril, um gesto tanto de pacincia como de intratabilidade. 
Seus lbios esto cerrados, o lbio inferior voltado para dentro para ser mordido pelos dentes em momentos de leve aflio. E, Iris percebe, tais momentos so freqentes. 
Margarethe vive uma existncia de concesses. No conta com nenhuma certeza e negocia cada frase em seu proveito. 
     Como  estimada, mesmo em sua severidade, sua frieza. 
     H outro lado em Margarethe a ser visto mais tarde neste dia, pois o caminho que pegam para casa saindo das lojas as leva a um asilo para idosos. Criadas e 
empregados esto carregando vrios corpos pela porta afora para aguardarem a carroa de coveiro.
     - Alerta de peste - diz o regente irritado quando v Margarethe parar e olhar. - Salve-se e d aos sofredores uma oportunidade de descansar em paz longe da 
sua curiosidade! 
     - Os mortos esto mortos - diz Margarethe corajosamente. 
     - Alguns aqui so cadveres, outros ainda no - replica o regente, - Estamos transportando alguns at o Leprozenhuis fora da cidade. Se quiser juntar-se a eles 
e aos outros leprosos, suba na carroa. 
     - Deus salve suas almas, e a sua - grita Margarethe, e resmunga algumas linhas do primeiro salmo que lhe vem  cabea, murmura-as sem convico e sem preciso. 
     - Isto  o que nos persegue - diz Margarethe enquanto as meninas se apressam atrs dela. - Esta  a obra do Diabo. No h nada a esperar a no ser a larga foice 
do ceifeiro que vir cort-la. Simplesmente pule quando ela passar e talvez consiga se livrar at a prxima ceifada. Se no pular, no vai se salvar.
     Ruth pula de ansiedade, como se imaginasse ver a foice passando naquele exato momento. 
     - Crianas-duendes - diz Clara num tom agourento sobre os invlidos e os cadveres. 
     - At que altura a senhora pula? - pergunta Iris  me. 
     - Olhe s para mim - diz Margarethe. - Eu pulei dos brejos da Inglaterra para o umbral do asilo de pobres de Haarlem e ento pulei de novo. Observe-me e vai 
aprender o que h para ser aprendido. D-me espao para lanar meu arpo, e que venha o resto. 
     Iris observa. Dia aps dia ela observa. Observa o gelo se formar no lago dos patos viela abaixo. Observa Margarethe cantar enquanto prepara o suculento cozido 
de legumes e ameixas secas. Observa Clara alternadamente ficar emburrada e amistosa em relao a Margarethe Observa o rosto de Van den Meer se alongar enquanto, 
a cada semana que passa, o carregamento de bulbos no chega. 
     Ento observa enquanto Margarethe espera, e espera, e escolhe o momento certo para pular de novo.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
O moinho de lugar nenhum
     
     
     
     
O
s trs dias que antecedem o incio da Quaresma, Clara diz a elas, se chamam Vastenavond. No parece nada certo banquetear-se como glutes quando Henrika foi enterrada 
to recentemente. Alm do mais, a prtica da expiao da Quaresma nunca foi popular na casa dos Fisher antes. Mas Margarethe se entrega aos preparativos com energia, 
fazendo um cozido com carneiro, limo, legumes e gengibre. 
     - Vamos levar nossas obrigaes religiosas a srio - diz ela, apontando um colhero para Van den Meer e as trs meninas. 
     - Eu acho que deveramos faz-lo - diz Van den Meer. Ele est meditabundo, talvez por causa do luto, ou talvez - Iris detesta admitir - com medo da runa financeira. 
- Ficou bom este hutsepot, Margarethe. To bom quanto Henrika sabia fazer. 
     - No acho que esteja to bom assim - diz Clara intrepidamente, deixando cair sua colher. 
     - Agora, se est querendo agir da maneira certa - diz Van den Meer -, preparando-se para a Quaresma, Margarethe, acho que gostaria de fazer uma visita  Casa 
de Correo. Zelosa que  em relao s moedas, voc gostaria de l na ocasio da quermesse, e a entrada  grtis.
     Margarethe se empertiga.
     - J sou correta o suficiente - diz ela.
     - Oh, estou seguro disso! - Ele no quis ser rude, pensa Iris. Ser? - L voc poder ver as prostitutas e os presos tomando suas lies de Bblia, sendo reintegrados 
 dignidade crist s expensas da cidade.  um divertimento e tanto.
     - J tenho muito trabalho organizando a sua casa para me divertir visitando prises - diz rispidamente. - Ou cervejarias, igualmente.
     - Voc faz um bom trabalho - diz ele, sentindo-se um pouco aoitado. - Cobre-me de muitas gentilezas, e  minha filha.
     - Imagino que sim. E no fale de prostitutas nesta casa.
     -  a minha casa, Margarethe - lembra a ela.
     - De fato. - Ela lhe d o troco: - Herdou-a de sua mulher, no foi?
     - Voc est excitada com o carnaval - diz ele num tom sombrio.
     Ela se emenda.
     - Eu deveria ter dito: por favor, no fale de prostitutas na frente das minhas filhas.
     - No falarei - diz ele, ainda atingido. - Mas quem sabe o que os outros na rua vo dizer sobre este arranjo?
     A raiva dela  to intensa que Iris imagina que o telhado possa explodir. Margarethe corre para a porta. Vem-na escorregar no gelo que cobre as ruas, o vento 
desfraldando sua capa preta em imensas asas de corvo. Mas enquanto as meninas continuam mastigando o resto do seu po, Margarethe volta de repente. Seu rosto est 
rosado e at bonito por causa do intenso frio.
     - Oh, venham ver - grita, toda a fria esquecida. - Os canais e o rio congelaram finalmente e a cidade inteira saiu de casa e est na grande estrada de gelo!
      o dia mais feliz at agora. At Clara fica contagiada pela excitao, e Van den Meer lembra que existem sapatos com lminas em alguma parte nos galpes. Depois 
de algum tempo, dois pares de patins so encontrados. O couro de um apodreceu e, no segundo par, uma das lminas se soltou. Mas os ps de Ruth so grandes demais 
para entrarem neles, de qualquer maneira, e ento Iris e Clara apanham cada uma um nico p de patim e as meninas e Margarethe saem correndo para o Spaarne. 
     O mundo se transformou. O cu est imensamente cinzento como de costume, e baixo, mas isso s intensifica a sensao de magia e de estranheza. Alguns botes 
pequenos foram congelados na gua e as crianas partem na corrida e deslizam at os barcos e colidem com os seus lados. Ces latem em todas as direes. Toda Haarlem 
saiu para o gelo. Margarethe no resiste e cutuca Iris e diz:
     - Veja, os ricos tm patins e casacos quentes e l est uma carruagem convertida num bote de deslizar no gelo! Eles podem desfrutar dessa anomalia e sentir 
nela um novo prazer. E os pobres sofrem ainda mais duramente. O calor  raro e a comida ausente. No se pode viver muito tempo no gelo e na neve.
     - E ns somos ricos ou pobres? - pergunta Iris.
     - Voc tem um patim seu? Diga-me - fala Margarethe. - Equilibre-se com muito cuidado, minha querida. Com muito cuidado mesmo. 
     Chega de lies objetivas, quando a atmosfera do carnaval se espalha sobre a pista do imenso salo de baile gelado da cidade! Iris parte velozmente, deixando 
Margarethe na tentativa de equilibrar Ruth, para quem o solo normalmente j  muito problemtico, e o gelo  mais traioeiro do que divertido. Iris enlaa o brao 
da tmida Clara e l vo elas. Cristais de gelo se formam na umidade em suas narinas e nos cantos dos olhos.
     - Veja, um jogo - diz Iris -, aqueles meninos e homens com bastes e uma bola... 
     - Kolf - diz Clara. 
     Cavalos no gelo. rvores s margens do Spaarne, elevando-se como pilares espigados. Criancinhas que comeam a andar de traseiro no cho, chorando. Senhoras 
elegantes rodopiando sobre patins to livremente quanto quaisquer dos jovens. Ali adiante um pregador, com um ar amargo, como se estivesse fazendo meramente este 
caminho para chegar ao seu local de prece o mais rapidamente possvel. Homens grisalhos dos campos abrindo buracos no gelo e soltando linhas, na esperana de peixe. 
Esposas mexericando, com filhotes a reboque. Um velho gordo cai sobre o traseiro diante delas e peida explosivamente. Num outro canto, algum equipou um barco com 
velas e est tentando fazer com que deslize, mas o vento no  forte o suficiente e h muitas donzelas airosas a bordo fazendo peso. Um professor recita versculos 
da Bblia para os seus alunos, enquanto todos se arrastam, sem patins, mas bem suavemente sobre tamancos de madeira. At onde o olhar pode alcanar ao longo da curva 
do rio, pequeninas manchas de pessoas, em preto, cinza e vermelho. Algum cometeu o erro de empurrar uma vaca para o gelo e ela tomba e fica no cho esparramada 
berrando. Um porco escapou e trota com despacho, cuidando da sua prpria vida e de vez em quando guinchando de prazer e fome. 
     Ento, da sombra de uma faia, sai manquejando a Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo. 
     - Veja! - diz Iris, e antes que Clara possa protestar esto deslizando at ela. - A senhora nunca transformou o Mestre Schoonmaker numa lesma! - grita Iris 
jovialmente. 
     - Eh? Que  isto? - O traste velho est surdo debaixo de uma multido de cachecis e maldizendo suas bengalas. - Deixe ele mesmo se transformar numa lesma. 
A maioria das pessoas faz isso. 
     - Mas ia lanar um feitio sobre ele! 
     - Para que se aborrecer com isso? Cabe a voc mesma se modificar. Nos dias de hoje j  bem difcil uma velha garota torta como eu ficar de p. - Mas ela d 
uma espiada e sorri, divertindo-se tanto como os demais. - No conheo vocs, garotas, conheo? 
     - Por onde andam as ciganas de queixo barbudo hoje? 
     - Voc  uma alma tonta! Ora, no lugar delas, naturalmente, como todos ns. Sua bela amiga  uma criatura quieta. Sua lngua congelou? 
     - Ela  tmida diante das pessoas.
     A velha faz uma cara de chacota. 
     - Ento vou embora para deix-la  vontade. A beleza tem conseqncia, mas eu sou feia como o pecado e por isso no me importo. Adeus! - E com surpreendente 
velocidade ruma direto atravs do rio. As duas bengalas parecem patas como sempre e as extremidades de vrios cachecis, roando o gelo, do a idia de ainda mais 
patas. 
     - Uma rainha autntica deveria ser gloriosa - diz Clara, desapontada. - Ela dificilmente parece uma rainha! 
     - Ela dificilmente est viva - concorda Iris, o que faz ambas rirem. Caem uma em cima da outra, transformando-se numa Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo de 
duas cabeas e pernas cambaleantes. E a vem Caspar, correndo para elas, seu rosto quase roxo. 
     
     - Onde est o Mestre ento? Voc o deixou bem para trs? - diz Iris, deliciada por encontr-lo. 
     - Tem trabalho para fazer. Que lhe importa se o rio congelou ou se transformou em mel ou esvaziou na seca? - responde Caspar. - Est pintando, maldizendo o 
frio, pintando, roendo seu po, pintando. Precisa perguntar? Corra at o outro lado da cidade! 
     - Espere! S temos dois patins para dividir entre ns - diz Iris, mas elas partem, rindo demais, sem conseguir qualquer empuxo. Clara to jubilosa como Iris, 
e ambas livres de Margarethe e de Ruth. Envergonhadas demais para admitir como  maravilhoso no ter de se aborrecer com Ruth, pelo menos uma vez, mas hoje no  
um dia para se arrepender. H Quaresma suficiente  frente para isso. 
     Elas seguem juntas e vo correndo. Tudo mudou. O gelo aprisionou cada ramo e canio, cada arco de sara e cada espigo de cerca. As multides esto em sua maioria 
atrs delas agora, mas as amigas ainda podem ouvir uma onda de "Ohh!" enquanto o sol irrompe por um momento, enchendo de diamantes a paisagem. 
      esplendor demais. O sol se enfia de novo debaixo de suas cobertas de nuvem.  o comeo da tarde, mas frio como o crepsculo. 
     - No deveramos voltar? - diz Caspar. - Gastamos tanta energia at aqui que vamos ficar cansados na volta. 
     - S at a prxima curva - diz Iris. - Quem sabe quando vamos poder passear no gelo assim de novo? 
      agradvel estar fora de casa tambm e, se Margarethe est sendo santa, a Quaresma pode vir a ser uma temporada mais sinistra do que de costume. 
     Passaram alm do lugar onde o canal se encontra com o Spaarne e deslocam-se silenciosamente- entre os campos abertos. Aqui e ali uma casa de fazenda distante, 
com a usual sujeira do velho ninho de cegonha e finos rolos de fumaa saindo das chamins. Algum gado mugindo fora de vista. Os pssaros os acompanham por um tempo, 
mas depois desaparecem, como se pudessem sentir um frio mais inclemente se aproximando e partissem para casa. 
     - Aqui  a curva - diz Caspar. - Agora vamos, vamos voltar. 
     - No, aquela curva - diz Iris. 
     - Aquela curva  uma curva diferente. Apareceu assim que passamos esta curva aqui - diz ele. - No posso ficar mais. O Mestre vai precisar de mim para acender 
o fogo da lareira. 
     - Ele precisa de voc para se aquecer? Precisa muito de voc - diz Iris, afetando o tom irnico com que sua me discute o aprendizado de Caspar. Ela o atingiu. 
Ele agita a cabea e faz uma carranca. 
     - Precisa, de verdade, e eu o estou prejudicando ao patinar to longe com vocs - diz ele. - Vou voltar agora, mesmo que vocs no venham.
     Iris no quis provocar nenhuma discusso, mas est to contente longe de Ruth e Margarethe que se limita a dizer:
     - Pois bem, v, se for preciso. No estamos presas s suas obrigaes.
     - Talvez devssemos voltar - diz Clara. Solta no mundo, sente-se menos segura de si e tambm menos m, percebeu Iris. Dessa vez, Iris no se impede de usar 
a vantagem que tem sobre Clara, isto , o privilgio da coragem. 
     - Vou at a prxima curva do rio - diz Iris - e vou encontrar o caminho de volta sozinha se for preciso. 
     No se despede de Caspar, mas segue em frente. Orgulhosa como um gavio! Seu p esquerdo d o impulso e o p direito desliza e ela j dominou a arte do equilbrio. 
Em poucos minutos ouve a voz de Clara atrs de si. Vira-se e espera.
     Chegam  prxima curva e depois  seguinte. 
     - Estaremos em Amsterd antes da noite cair - diz Iris num tom de aprovao. 
     - Preciso parar e descansar - diz Clara -, e preciso levantar as saias e fazer pipi.
     A paisagem  to plana que parece quase vazia. Lembra a Iris subitamente como se sentiu ao chegar a Haarlem. Quando, quatro ou cinco meses atrs? Como se nada 
restasse do passado, apenas um lenol branco. Na distncia, talvez porque o vento esteja levantando alguma poeira de neve do cho, os campos se fundem com o cu. 
A nica coisa slida na paisagem alm delas  um moinho num campo prximo, no to longe da margem do rio. 
     - Venha, vamos chegar l - diz Iris -, e se conseguirmos abrir uma porta voc vai poder se agachar em algum canto. Est muito frio para fazer aqui fora. 
     Clara no est disposta a discutir, treme com o esforo para prender a bexiga. Elas sobem a margem baixa do rio e rompem o caminho atravs do campo sem se dar 
ao trabalho de retirar os patins.  um velho moinho abandonado. Restam apenas trs ou quatro ps e uma delas est arriada como o membro inerme de um enforcado. Pingentes 
de gelo fazem a outra p parecer drapeada de uma franja branca. 
     - O gelo pode cort-la ao meio - diz Iris. - Tome cuidado com ele. Este lugar no parece uma criatura grande e feroz, com uma cabea rombuda, ou talvez sem 
cabea, e aqueles braos estendidos? 
     Um gigante nos campos, crescendo  medida que se aproximam; nenhuma surpresa, mas ameaador nesta imensido vazia e branca... 
     Ela tenta abrir a porta. Est trancada, mas a madeira apodreceu e com um pequeno grito de protesto, o peso de duas meninas saudveis contra ela, a fechadura 
cede e elas cambaleiam para dentro. Clara corre a um canto e se alivia. O mijo provoca um vapor no cho poeirento, empoando sobre antigas incrustaes de coc de 
passarinho. 
     Antigo e no to antigo. Algumas asas batem no escuro sobre suas cabeas. 
     - Morcegos - diz Iris. - Ou talvez corujas. 
     - Espritos - diz Clara.
     - Espritos... - diz Iris, zombeteira. - Duendes, talvez, mas no espritos. Os espritos locais no esto presos no gelo no Haarlemsmeer hoje? No podem sair.
     - Espritos. J estive aqui antes, eu sei. O corvo enredado no alto. 
     - Que corvo, que enredo? Quer dizer alguma histria que eu lhe contei ou a grande histria da sua casa? Voc no esteve aqui antes, nunca esteve em nenhum outro 
lugar antes. No vai  catedral, no vai  escola. Como podia ter estado aqui neste moinho de lugar nenhum? 
     - Estive - diz Clara. - Me lembro agora. Lembro-me da forma. 
     - Todos os moinhos tm a mesma forma. 
     - No, no tm. Me lembro daquelas vigas subindo como um ngulo, v? E esta maquinaria. E aquelas engrenagens! Lembro o barulho que fazem. To alto! To alto 
que quando o vento move as ps ningum l fora pode ouvir algum do lado de dentro. 
     - Todos os moinhos devem ter o mesmo tipo de maquinaria - diz Iris com pacincia. - Faz frio aqui, vamos indo embora?
     - Tem uma porta de alapo no andar bem abaixo desta viga - diz Clara. - Eu me lembro.
     - No tem alapo nenhum. O cho  de pedra. - Iris chuta a sujeira. - Est vendo?
     Clara fica de joelhos.
     - No. Veja. - Ela enfia as unhas, e palha velha e entulho saem em torres mofados. - Estou lhe dizendo o que sei e no est me ouvindo. H um espao aqui embaixo. 
Colocaram-me aqui e me alimentaram. Est vendo o gancho? - Aponta para a viga acima, da qual um gancho enferrujado se projeta. - Para que eu no me machucasse, colocaram-me 
numa cesta e puseram a corda atravs daquele gancho e me fizeram descer suavemente.
     Ela retirou sujeira suficiente para provar o que est dizendo. O piso de madeira, e ali, ali est a fresta de uma porta de alapo. 
     - Quem a colocou aqui? - pergunta Iris. - Quando?
     - Eles colocaram - diz Clara.
     - Mas quem? Seu pai e sua me? 
     - No, no - diz Clara zangada. - Os outros. Os espritos. O homem-corvo, os outros. 
     - No sei do que est falando. 
     - Quando me tornei uma criana-duende - diz ela. - No sabe nada? 
     - Quando voc se tornou uma criana-duende? O que aconteceu com voc? - diz Iris. Ela examina o rosto de Clara na escurido e se aproxima. O ambiente inteiro 
subitamente assume um cheiro intenso de coc de pssaro, um odor novo e poderoso. Iris  arrebatada por uma espcie de terror, quase uma sensao prazerosa, mas 
se assusta com a recitao monotnica que Clara faz desses fatos impossveis, Iris diz: - Clara, o que aconteceu com voc? 
     - H muito tempo. - Clara olha para Iris de um jeito estranho, contundente, como se no tendo certeza de que ris no  um esprito, de que no a atraiu at 
aqui para enfi-la pela porta de alapo de novo. - Aconteceu comigo h muito tempo e me tornei uma criana-duende. O homem-corvo me transformou.  tudo. 
     Sua expresso  familiar. Ela est terrivelmente assustada e algo mais. 
     - Venha - diz Iris -, vamos embora deste lugar, se voc est tendo ou no um pesadelo, vamos sair deste lugar. 
     Mas Clara demora a se mexer e Iris precisa lhe dar um puxo. Uma vez do lado de fora, elas encontram o vento mais cortante, as nuvens mais baixas e a temperatura 
caindo ainda mais. 
     - No fale, vamos seguir em frente, e chocolate e manteiga em casa vo nos aquecer! - diz Iris to jovialmente quanto pode. 
     Caspar, aos diabos, estava certo.  muito longe. Iris se preocupa at que tenham tomado a direo errada. Mas finalmente as flechas amontoadas dos prdios de 
Haarlem aparecem, e o que restou das multides ainda chafurdando no gelo, principalmente crianas e pobres. Todo mundo mais se cansou. 
     Do os ltimos passos at a casa num estupor de exausto. O rosto de Clara agora mudou; est vazio e distante No tem o olhar penetrante que tinha no invlucro 
viscoso do moinho. Ela no toma chocolate, apenas sobe as escadas para a cama e, embora Iris ficasse contente em ouvir at mesmo o som de choro, s ouve silncio 
l em cima. Depois, quando est pegando no sono, Iris se lembra de quando viu aquele olhar no rosto de Clara antes. Foi o olhar que tinha quando fitou Ruth da janela 
e disse para ela: 
     - V embora daqui. 
     Era aquele olhar de algum que estava sendo apunhalado por dentro.
     
     
     
     
     
     
     
Convites
     
     
     
     
?
 o dia final da quermesse - diz Margarethe -, e a comida magra comea amanh. Por isso hoje nos banqueteamos. Iris olha para Clara para ver se est contente, mas 
depois da tarde no moinho pouca coisa a tem contentado. Sentada numa arca, ela se curva com os ombros cados, evitando o olhar de todo mundo. Iris sente-se triste 
por Clara, de um modo que nunca sentiu antes, porque Iris v que os temores de Clara so genunos, no teatrais, embora as razes para esses temores sejam mais misteriosas 
do que nunca. 
     - Panquecas, Clara - diz Iris vivamente. Clara no responde. 
     Margarethe debrua-se sobre um panelo de trs pernas, mexendo massa mole que vai escorrer numa frigideira achatada com um cabo comprido. Algumas mas so 
trazidas da despensa. Ruth deveria descasc-las, mas ela se esquece o tempo todo e fica mordiscando as mas. Van den Meer est no salo recuperando-se de um longo 
dia na cervejaria. Repousa na meia-luz, estudando o retrato de sua filha com as tulipas. 
     - Iris, tem algum  porta - diz Margarethe -, e minhas mos esto molhadas. Veja quem . 
     Iris deixa entrar um dos amigos de Van den Meer, que tem uma aparncia ttrica.  Van Stolk, ou Handelaers, ou Maes? Ela no sabe distinguir todos esses homens 
de rostos sorumbticos. E este parece mais soturno do que a maioria. Iris corre para trazer mais velas, a fim de iluminar o salo. Ela teme pelo pior. 
     Mas, quando volta, o homem ergueu as sobrancelhas e ganhou brilho no olhar e com o punho est socando Van den Meer no ombro. O amigo s fingira pessimismo. 
As notcias so realmente timas: um navio, recm-chegado a um porto da Frana, espalhou o rumor de que o navio h muito aguardado com um carregamento de tulipas 
no se perdeu de modo algum. Simplesmente teve um mastro rompido e precisou ancorar num porto do sul da Frana, onde mais vicissitudes contriburam para manter a 
embarcao incapacitada de navegar durante muitas semanas seguidas. Tais crises so normais na vida de um capito dos mares e em breve espera-se que ele anuncie 
a partida, com destino  Holanda. Os bulbos de tulipa foram bem armazenados; com sorte, no sofrero nenhum dano na sua viagem prolongada. Tudo est em ordem e, 
como a Quaresma est para comear - em questo de horas -, comemorao  permitida. 
     Iris traz as novas  cozinha, e Margarethe avalia a situao imediatamente. Tira o avental e o pendura num cabide na despensa. Belisca as bochechas e enfia 
alguns fiapos de cabelos com firmeza debaixo da touca. 
     - Iris - diz ela -, olhe as panquecas. Afaste o cachorro da salsicha naquela panela. No deixe Ruth se sentar perto demais com as costas para o fogo ou ela 
vai ter urticria. Deixe Clara ficar quinze minutos aqui e ento a mande com trs copos de gim. Depois v para a cama e mande as garotas para a cama tambm. Entendeu 
o que eu disse? 
     - O que est fazendo? - diz Iris. 
     - Pulando - diz Margarethe.
     Iris faz o que a me mandou. Ao se deitar no catre, ouve o convidado sair. Durante um longo tempo, no ouve nada mais, apenas, uma vez, um riso abafado na sala 
da frente. Pelo menos, acha que  um riso abafado. No consegue se lembrar de ter ouvido sua me rir assim antes.
     
     
     De manh, Margarethe est no seu posto preparando o modesto caf-da-manh da Quaresma. Ficou noiva de Van den Meer na noite anterior, diz a elas. 
     - Ele vai ter de ser o seu padrasto - diz ela -, uma vez que precisa de mim para ser a madrasta de Clara. 
     Ruth encolhe os ombros. No fica claro que tenha entendido a notcia. Mas Iris, sim. Espera at que Clara e Ruth saiam para fazer sua toalete matutina. Iris 
encara a me de frente na cozinha. 
     - Podia ter-se casado com o Mestre - diz ela  me. 
     - Ele no tinha as perspectivas corretas - diz Margarethe. 
     - Ele tem talento - diz Iris. 
     - Talento no compra po - diz Margarethe. 
     - Claro que sim! - diz Iris. - Veja s! Vive, respira e trabalha! Ele come! 
     - Nem mais uma palavra sua - diz Margarethe. -  uma criana boba e no sabe que sacrifcios fiz para proteger voc e sua irm. E se eu casse morta da peste 
na semana que vem? Para onde vocs iriam se voltar? Responda-me, sua menina sabida. 
     - Eu iria direto para aquele que se preocupa conosco - diz Iris. - O Mestre e, por falar nisso, Caspar tambm. 
     - O Mestre se preocupa com sua arte, nada mais, e quanto a Caspar, os cuidados dele se movem inteiramente em outra direo - diz Margarethe. - Preciso soletrar 
a natureza desse pecado particular? No posso. Hoje  o comeo da Quaresma, e isso no  adequado a minhas necessidades espirituais. Voc vai ver muito em breve. 
So ambos uns tolos. Dariam abrigo a voc pela noite, como  dever de um cristo, e a alimentariam com po e mingau. Ento, ao cabo de uma semana, a despachariam 
para o asilo de pobres ou achariam uma desculpa para mand-la de volta  Inglaterra. No, minha menina, voc nada sabe sobre como ns, mulheres, somos aprisionadas 
em nossas vidas, mas existem maneiras de determinar a pena que devemos cumprir. Voc vai viver para me agradecer. 
     -  uma coisa to a sangue-frio - diz Iris. 
     - Estar morta  mais a sangue-frio - diz Margarethe. - Agora me avise quando tiver acabado de dar vazo ao seu enfado. Preciso trabalhar rapidamente para acertar 
os detalhes, para amarrar melhor o comprometimento dele a esta idia. Voc vai ter de esfregar o alpendre esta manh e depois polir os ferrolhos e as maanetas da 
porta da frente. Devemos mostrar imediatamente que h uma nova limpeza pertinente a esta mudana de situao. No sou uma simplria, sei que pequenos gestos encerram 
grandes significados. Os vizinhos desta rua so uns mexeriqueiros ferozes, sempre sussurrando a meu respeito. Vou dar-lhes respeitabilidade. No suportam o fato 
de que eu esteja aqui nesta bela casa. No suportam ver o sol brilhando na gua, seriam capazes de regatear o milho de uma galinha. 
     
     
     O casamento  arranjado mais rapidamente do que Iris imaginava possvel. Caspar suspeita que o perodo de luto est chegando a um fim e que as lnguas dos vizinhos 
possam desandar a falar. Van den Meer depende do comrcio local para a aquisio dos seus bulbos de tulipas. No pode se dar ao luxo de escandalizar os vizinhos 
ou aqueles que encontra na Grotekerk de So Bavo vivendo em flagrante delito com uma governanta solteira, ainda que viva, uma megera e alm do mais to sem graa 
quanto uma abbora. 
     Nas semanas que conduzem ao casamento, Iris  mantida dentro de casa mais freqentemente do que de costume. Tanta coisa a fazer! 
     Ela tem de cuidar das tarefas da cozinha para que sua me possa negociar com as autoridades da Igreja, com os fornecedores de carnes e vinhos, com Van Antum, 
o vendedor de roupas que deve fazer um vestido novo para a cerimnia. Iris preferiria largar os panos de limpeza e correr s ruas, na direo do estdio do Mestre. 
Fica cansada das queixas resmungadas por Ruth, que raramente consegue interpretar, e dos miados ocasionais de Clara pedindo ateno.
     - Por que no sai com Margarethe se est aborrecida? - replica Iris um dia.
     - J vi o mundo de novo, e uma vez  o bastante - diz Clara. Como se soubesse que isso  uma tolice, ela segue em frente: - Alm do mais, minha saia est arrastando 
pelo cho. Precisa ser consertada, Iris. 
     - Ento a barra de sua saia descosturou? Cus, no sabe trabalhar com linha e agulha? Que foi que sua me lhe ensinou? 
     - Ensinou-me a buscar ajuda quando precisasse. Ensinou-me que as pessoas seriam bondosas e viriam  minha ajuda. 
     - As pessoas admiram-na por sua beleza, mas mais cedo ou mais tarde vo saber que nunca pegou numa linha e agulha - diz Iris. - Mesmo uma bela flor precisa 
aprender a trabalhar, voc sabe. 
     -Voc tagarela e minha saia continua rasgada - diz Clara. 
     - Sou s um pouco mais velha do que voc! - diz Iris. - Por que me atormenta? 
     -  mais velha do que eu em experincia - diz Clara, com uma certa tristeza. - No pedi para que fosse minha meia-irm mais do que voc mesma pediu, lembre-se 
disso. 
     Iris percebe que no est sendo generosa. Irms - meias-irms, irms pela metade ou irms inteiras -, irms devem apoiar umas s outras. No foi assim que sua 
me a criou? Ruth nunca pode fazer as coisas sozinha, ento Iris deve fazer por ela, e agora Iris deve fazer por Clara tambm. 
     Mas Iris no vai consertar a barra da saia a no ser que Clara prometa tentar enfiar a linha na agulha e depois praticar a costura que Iris vai lhe mostrar. 
Clara protesta, faz beicinho, caoa do jeito mando de Iris, tenta espet-la com uma agulha, mas no fim aprende a consertar uma barra de saia e parece se sentir 
um pouco mais feliz por causa disso. 
     
     
     Chega o dia da vspera do casamento, e Margarethe est fazendo a prova final das roupas. Iris pede para ter alguns minutos para si mesma e Margarethe se recusa. 
H muita coisa a fazer. Mas Van den Meer soube por Margarethe que ela no convidou Luykas Schoonmaker para a festa. 
     - Foi por medo do que as pessoas possam comentar? - pergunta ele. - Porque voc foi governanta na casa dele antes de vir para c? No h nada a fazer em relao 
a isso.  o mesmo que fechar o poo depois que o bezerro se afogou. Todo mundo j sabe a respeito. Schoonmaker  o pintor da Jovem com Tulipas e as pessoas vo ver 
aquela pintura de novo. Ele deveria estar aqui. Mande Iris  sua casa para convid-lo. 
     - E Caspar tambm? - diz Iris.
     Van den Meer olha para ela como se nunca a tivesse visto antes. 
     - Claro que no - diz ele. - Por que o convidaramos? 
     - Tem peste l fora - diz Margarethe. - Hesito em permitir que Iris... 
     - Margarethe - diz Van den Meer. 
     Ela cede ento, demonstrando submisso conjugal, contanto que Iris prometa no se aproximar do asilo de pobres ou do canal, ou de qualquer outro local onde 
haja ameaa de peste. 
     Iris promete. Sai em silncio sem alertar Ruth de suas intenes. No incio Iris caminha com dignidade, cabea baixa, mos enfiadas no lao da cintura do seu 
vestido para mant-las aquecidas. Mas, assim que dobrou a esquina e est fora de vista da alta casa de Van den Meer, liberta as mos para correr mais facilmente. 
 o paraso botar os ps nas pedras redondas do calamento, quebrar lminas de gelo que se formaram nas depresses da rua, espalhar a gua fria que se juntou nas 
poas.  o paraso saber que ainda  possvel correr, embora ela no saiba do que est correndo, nem por qu. 
     O Mestre mal parece surpreso em v-la. 
     - Ento o grande dia vai chegar, amanh - diz ele. - Eu gostaria de comparecer.
     - E vai comparecer - diz Iris. - Vim aqui para dizer que ser bem-vindo. 
     - E Caspar? - pergunta o Mestre. 
     - No foi convidado.  um aprendiz, dizem que no ficaria bem - fala Iris. - Onde est ele? 
     - Saiu para trazer suprimentos. No se preocupe, vai voltar. Sei que gosta mais dele e que tem de me aturar, e finge que veio realmente falar comigo.  triste 
para voc.
     Mas o Mestre sorri ao dizer isso e Iris no se d nem ao trabalho de fingir que ficou chocada. Ela est crescendo, percebe.
     Talvez o Mestre saiba o que est sentindo, pois continua num tom mais srio. 
     - Voc ter alguma melhoria de vida com este belo casamento que sua me soube arranjar para si mesma? - diz ele. - Sei que ela vai ficar mais segura do que 
jamais eu a deixaria, mas como vai ser para voc? Ela permitir que venha ao estdio? 
     - No sei como melhorar a minha sorte, a no ser que consiga uma pesada mantilha espanhola e esconda o meu rosto feio dos bons cidados de Haarlem por trs 
do vu - diz Iris. 
     - Caoar de si mesma  uma coisa ainda mais feia do que qualquer rosto humano, Iris. Ningum pode fingir que voc seja uma garota bonita, mas  esperta e  
bondosa. No traia esses impulsos em si mesma. No ridicularize a ausncia de beleza fsica que, de todo modo, acaba desertando aqueles que a possuem e os torna 
tristes. Estou falando sobre como vai passar seus dias agora que sua me se casou numa situao melhor. Vai ser liberada das tarefas de empregada? Vai poder ser 
uma donzela ociosa? 
     - No quero tanto descanso assim - diz Iris. - Parece-me que os holandeses no so muito afeitos ao descanso e, nesse aspecto, me sinto muito holandesa. 
     - Tenho observado. Agora sente-se por um minuto e oua o que vou dizer. Quero saber se gostaria de vir aqui e se tornar uma aprendiz neste estdio. 
     
     Iris estava examinando o esboo sobre uma superfcie pintada em gesso. Sente o sangue subir-lhe ao rosto e seu olhar baixa ao cho por um momento. 
     - O Mestre no faria coisa to terrvel! - diz ela, mal ousando sentir esperana. 
     - Muitas esposas talentosas de Haarlem colocam seus dedos geis na criao de trabalhos de agulha ou de pintura sobre vidro - diz o Mestre. - No  um passo 
to ousado partir da agulha para o pincel. 
     - O senhor no tem nenhuma idia das minhas habilidades. 
     - Sei que voc  capaz de olhar. Sei que sabe como olhar. 
     Ela se dispe ento a virar-se e olhar para ele. Colocou o pincel na margem de uma prancha. Uma mancha de verde terroso  pincelada ao longo de uma bochecha. 
Ele parece paciente, cansado e caridoso. Sorri para ela. 
     - Nunca desenhei uma linha em minha vida - diz Iris numa voz mida.
     - Houve um momento em minha vida em que o mesmo valia para mim - replica o Mestre.
     - O que as pessoas vo dizer? 
     - Que ao lado de sua me esperta voc estava subindo no mundo. Alguns zombariam de voc e outros a saudariam. Pensar no que as outras pessoas possam dizer no 
chega a ser uma boa razo para agir ou desistir. Voc tem sua prpria vida para viver, Iris, e no fim a nica opinio que conta alguma coisa  aquela concedida por 
Deus. 
     - Mas uma mulher pintando! 
     - Haarlem aprendeu a tolerar Judith Leyster, que trabalhou no estdio de Franz Hals at recentemente. Agora ela tem seus prprios aprendizes. Talvez preferisse 
ir aprender com ela. - Ele no est provocando, est falando a ela como um bom amigo. 
     - Mas - ( Quaresma, afinal, e no pode deixar de fazer a pergunta) - acha realmente que Deus sorri para uma donzela ousada o bastante para pintar? 
     - Pode negar isso? Se pode, ento com que autoridade?
     Iris comea a sorrir diante do ridculo da situao. 
     - Est brincando comigo, Mestre! E no pela primeira vez. Tomou emprestado meu rosto para provar seu talento para Van den Meer e fez da minha aparncia uma 
troa. Agora est fazendo uma troa de um desejo secreto que eu possuo. 
     - Uma pintura est no olho de quem a v - diz o Mestre. - Voc poderia olhar para a pintura de Iris com as flores silvestres e perguntar a si mesma isto: o 
Mestre me viu com repugnncia ou me viu com minha prpria beleza? 
     Mas a idia de Iris possuir qualquer beleza prpria  demais e ela cai na gargalhada, ri at que as lgrimas lhe assomam aos olhos e tem de esconder o rosto 
com o avental. 
     - No tem pressa - diz o Mestre, voltando ao seu trabalho. - No preciso de uma resposta em breve. Mas vinha esperando que voc mesma me fizesse esta pergunta 
e est se mostrando obtusa e lenta em relao a isso. E - ele acrescenta - no estou sendo inteiramente desinteressado. Voc poderia ser uma grande ajuda para mim, 
especialmente se ocorrer que, como suspeito, tenha um pequeno talento para esse tipo de trabalho. A pintura da Jovem com Tulipas fez para a minha reputao o que 
muitas tentativas com temas sacros e profanos no fizeram. Haarlem agora lembra que eu existo e minhas encomendas de trabalho vm aumentando. Logo vou ter mais trabalho 
do que posso dar conta, a no ser que tenha um assistente para me ajudar e ajudar a Caspar. 
     Como respondendo a uma deixa, Caspar retorna da sua expedio, os braos cheios de rolos de tela, legumes, uma botija de cerveja e uma galinha recm-sangrada 
para a panela. 
     - Bem, Iris! Voc voltou s e salva dos campos gelados. Patinou at Moscvia? - Sorri para ela e sacode os cabelos para longe dos olhos. - Entendo que amanh 
eu e voc teremos de ser apresentados de novo. Iris van den Meer, ainda no havia tido o prazer! 
     - Como vai o senhor? - diz ris. - Vai precisar de ajuda para depenar aquela galinha, meu bom senhor. 
     - Se ficar at que ela tenha sido cozida, ser bem-vinda para mordiscar da sua carcaa. Vamos deixar o velho com o seu trabalho - diz Caspar -, e poder me 
contar tudo o que se passa no seu corao a respeito do casamento de amanh. Suspeito que o nosso Van den Meer vai realmente explorar a bruxa. Se investir algum 
dinheiro para uma festa, vai receber em retorno mais boa vontade e mais investidores. Venha trocar uns mexericos comigo. 
     O Mestre reassume uma expresso dignificada no rosto, e Iris acompanha Caspar at a cozinha. Agora que Margarethe no reside mais na casa, o lugar est uma 
confuso geral - conchas de ostras no cho, restos de abbora, uma poro de feijes secos num canto e fezes de camundongos por toda parte. 
     - O Mestre quer que eu venha trabalhar como aprendiz - fala Iris -, mas acho que ele e voc precisam de mais ajuda no departamento domstico. 
     - Ele lhe falou a respeito, ento? - diz Caspar. - Oh, Iris, venha! Diga que vem. No pode morar aqui, naturalmente; no seria adequado. Mas pode vir durante 
o dia, tantas vezes quantas quiser, e comear a pegar um pouco do trabalho dele. No vamos lhe pedir para colocar a cozinha em ordem. Na verdade, no vamos deixar. 
Nunca ter permisso de colocar o p na cozinha. No  esta a questo. Eu poderia manter este lugar limpo se isso fosse importante. 
     - No h nenhuma residncia em Haarlem que aprovaria esta proposta - diz Iris. 
     - Aprovao  uma coisa valorizada demais - diz Caspar, papagueando seu professor. - Aprovao e desaprovao, ambas s satisfazem queles que as impem mais 
do que queles que as recebem. No me importo com aprovao e no me importo de ir levando sem ela. 
     
     Joga a galinha sobre a mesa e vira-se, com sbita exultao, e segura os pulsos de Iris em suas mos. 
     - Diga que vem - fala. - Vai ser divertido. Seria como uma irm para mim aqui. Ele  capaz de ser velho e infeliz quando o trabalho vai mal, ou velho e pomposo 
quando vai bem, mas de qualquer maneira vai ser sempre velho, e mais velho a cada minuto. Precisa de voc por sua ajuda, mas eu preciso de voc por sua companhia. 
Tente de qualquer maneira. Tente, Iris. Diga que vai tentar. 
     Ela se v apanhada ento, apanhada em suas mos, como um pssaro que pousou num peitoril de janela, procurando uma migalha Embora s segure os seus pulsos, 
eles parecem, neste momento, a nica parte do seu ser que est verdadeiramente viva. Ela est latejando ao longo dos antebraos e suas mos esto amortecidas. Seus 
pulsos doem com intensidade. A pele nas palmas das mos dele  macia e quente, a coisa mais quente que ela j sentiu; suas palmas so como almofadas, seus dedos 
so juntas ornadas de inteno. Se ele apertar as mos, os pulsos dela vo se romper e sua vida se esvair do corao atravs das veias abertas. 
     - No posso - diz ela subitamente -, no posso de modo algum, nunca vou poder, no. 
     - Claro que pode! - diz ele. 
     - No posso, no posso, no est vendo? - diz ela, e se vira e foge. Deixa o estdio para trs e corre em direo do seu pequeno futuro e do casamento de sua 
me. No pode passar anos, meses, semanas ali com Caspar; no pode passar um dia, uma hora. No pode suportar outro minuto. Caspar no v como ela arde por ele. 
Ela corre para deix-lo para trs. No se vira ao som de sua voz  porta. Ouve, em vez disso, a batida dos seus tamancos de madeira nas pedras redondas, uma pontuao 
ruidosa, sua nica resposta  sugesto adorvel, impossvel: No no, no no, no no.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Uma luz brilhante numa mesa cheia
     
     
     
     
O
 casamento. O pregador  um pouco pomposo e atormentado por um resfriado. Seus espirros ruidosos distraem a ateno da noiva e do noivo. Mas ento, pensa Iris, que 
importa, pois mesmo em seu garbo nupcial Margarethe vale a pena ser admirada? Seu maxilar est levemente recuado e os dentes superiores se projetam numa mordida. 
Sua pele foi esfregada, sem dvida, mas ainda que ela nunca mais atravesse um portal ensolarado em sua vida, ainda  irremediavelmente marrom como um ovo. Seu rosto 
 duro, at mesmo numa celebrao, at mesmo num momento de triunfo. 
     Quanto a Van den Meer - ou Papai Cornelius, como se espera que Iris passe a cham-lo -, parece mais deprimido do que outra coisa. Talvez Caspar esteja certo, 
e o casamento de Van den Meer com sua governanta seja um terrvel erro. Embora a estirpe de Margarethe, duas geraes atrs, seja solidamente burguesa, e a memria 
do seu av ainda acalentada em Haarlem... L est Van den Meer, o empresrio,  porta de sua casa, cumprimentando os convidados que vieram para se banquetear, e 
o queixo cado no peito como se no viesse dormindo bem h dias. Estaria meramente atendendo  moralidade atravs desse casamento? Ou existe algum sentimento genuno 
por Margarethe?  difcil dizer. 
     Assim como foi a festa matrimonial, comeam as semanas do seu casamento: uma celebrao no mais frio dos tempos, a primavera apenas uma esperana remota. Margarethe 
assume a sua cama conjugal sem nenhum comentrio para as filhas. Isso deixa mais espao para Ruth e Iris junto  lareira; podem ficar mais aquecidas. Mas em outras 
maneiras mais, alm dessa, elas ficam distanciadas de Margarethe. Sua me decidiu que pode supervisionar o trabalho de casa e desempenhar muitas das tarefas ela 
mesma, mas uma cozinheira  necessria para preparar as refeies e manter a cozinha em ordem. No demora, e ela contrata uma garota sem graa da Frsia cujas nicas 
virtudes, at onde Iris pode perceber, so uma aplicao incansvel a qualquer tarefa que lhe  atribuda e uma timidez que a impede de fazer objees. Seu nome 
 Rebekka e ela no se lava com freqncia. Cheira a batatas velhas. 
     Iris  designada para ser a ajudante de Rebekka de tempos em tempos, uma situao que ela abomina. Rebekka  to desprovida de expresso! Alm do mais, no 
tem opinio sobre os diabretes, drages e gigantes do mundo.  verdade que se mostra bondosa para com Ruth, de uma maneira ausente, mas trata Clara e Iris como lamentveis 
acessrios entre seus apetrechos de cozinha. No olha para pinturas nem pensa sobre elas. Se tem lembranas de seu lar na Frsia, no se d ao trabalho de as compartilhar. 
     -  muito fechada - diz Iris. 
     - Admita: ela  to grossa como uma caarola preta - diz Clara amargamente. -  uma tola e cheira mal. 
     - Palavras ferinas! Voc critica todo mundo - observa Iris. 
     - Oh, no todo mundo - diz Clara de uma maneira precipitada. - S todo mundo que est vivo, bem como a maioria das pessoas que esto mortas. Sinto-me bastante 
neutra em relao a qualquer pessoa que ainda no tenha nascido. 
     - No gosto desse tipo de conversa. Desde o dia em que fomos ao moinho, voc tem estado hostil. Sua companhia  desagradvel. 
     - No devia ter-me levado at l. Era longe demais para patinar - diz Clara. 
     - No sabia que ia ficar mal-humorada e estranha por causa disso. Onde est mame? 
     - Quer dizer Margarethe? 
     - Sabe a quem me refiro. Mame. 
     - Ela e Rebekka foram ao mercado comprar peixe e cebolas. No  minha mame. - Clara planta as mos nos quadris. 
     -  quase isso e nenhuma outra se qualifica melhor - diz Iris. - No seja dura com ela ou vai descobrir como ela pode ser dura com voc. 
     - Voc est apaixonada por Caspar - diz Clara ociosamente. Apanha uma ma e inspeciona a sua maciez marrom. - Acha que sou uma idiota porque sou mais jovem 
do que voc. Mas no sou to estpida como Ruth. Posso lhe dizer isso. 
     - Tem muito mais bobagem na sua cabea do que eu imaginava! - diz Iris. - Crianas-duendes, espritos e teorias sobre romance! - Seu corao martela no peito. 
Aquilo a faz ficar de p como uma mulher crescida, esfregando o avental para baixo com as mos como se no suportasse a perda de tempo em mexerico intil. - No 
tem nada realmente melhor para fazer? 
     - No tenho nada melhor para fazer - diz Clara. Sua voz comea a se alar. - Quando foi que tive alguma coisa para fazer? Sou bonita demais para fazer outra 
coisa alm de ser admirada! Mame me poupou da lama e da poeira, mame me afastou das pessoas comuns da rua, embora nossa famlia seja da robusta raa dos mercadores 
e nenhuma espcie de realeza. Agora Margarethe me protege da peste. Eu apreciaria a peste como uma mudana de rotina!
     - Sshhh, isso  um pecado feio! - diz Iris. - E os cadveres que vimos na rua esto apreciando sua mudana de rotina? Clara! Se est to faminta de atividade, 
pegue a p e tire as cinzas da lareira. 
     - Sou paparicada e adulada como uma flor, vou ser plantada no jardim de algum homem rico para que possa me admirar! - grita Clara. - Papai me acalenta por motivos 
estpidos! Tudo o que  feito nesta casa repousa sobre mim! Por que acha que meu pai se casou com sua me? Para que no houvesse nenhuma mcula em minha reputao 
por ele ter uma velha harpia viva na sua casa! 
     - Voc  maligna - fala Iris com a voz entrecortada. - Como pode dizer tais coisas! 
     - Posso dizer muita coisa - fala Clara. 
     -  o que parece - diz Margarethe chegando na porta. Rebekka se oculta atrs dela. 
     Clara estava sentada numa banqueta. Ao ouvir as palavras de Margarethe, levanta-se lentamente e a encara. Clara mantm as mos do lado do corpo num gesto formal. 
No pede desculpas. No pestaneja. 
     - No sei se devo me sentir ofendida ou divertida - diz Margarethe. - Rebekka, coloque o peixe numa bacia d'gua por enquanto e v cuidar dos assoalhos e das 
camas no andar de cima. No est batendo nas roupas de cama muito bem; os percevejos esto vicejando. 
     Rebekka, que parece desinteressada da tenso na cozinha, faz o que lhe mandam com o peixe e ento desaparece pela escada dos fundos. Esse tempo todo Clara est 
em posio de sentido, e Iris, com um temor crescente, descobre que se sente responsvel pelo impasse entre sua me e a nova meia-irm.
     - Iris - diz Margarethe -, v procurar Ruth. Ela precisa de ajuda para se lavar de novo, eu acho. Est padecendo do mal das mulheres e se preocupa com isso. 
     - Mame - diz Iris numa voz cuidadosa -, no leve as palavras de Clara a srio. Ela ainda est sofrendo e aprendendo a ser uma filha numa nova famlia. 
     - Conheo Clara bem - diz Margarethe. - Conheo o seu tipo e sei como ela se desvia do seu tipo. Voc no tem nada a temer de mim, Iris, nem Clara. - Ela sorri 
de uma maneira truncada. - Tudo o que interfere com a harmonia em casa  uma ateno insuficiente para com o Quarto Mandamento.
     - Mas eu honro meu pai e minha me - diz Clara. - Honro a memria de minha me e o que ela me deu. E voc no  minha me.
     - O mandamento pede que voc me obedea como obedecia a ela - diz Margarethe. - No posso exigir o seu corao, Clara, e no desejo isso. Mas seu comportamento 
deve refletir sua compreenso do meu lugar nesta casa. No tolerarei seu abuso. Est entendido? 
     - Eu entendo - diz Clara - que no vai toler-lo. 
     - E vai orientar o seu comportamento de acordo com o seu entendimento?
     - Eu entendo - diz a menina - que no vai tolerar abuso. Meu comportamento  uma coisa que muda de hora a hora, de dia a dia. Vamos ter de ver, no ? Pois 
existem coisas que eu no tolerarei tambm. - Ela comea a se afastar da cadeira.
     Margarethe no bate em Clara por insolncia nem a consola com um abrao. Simplesmente diz num tom calmo: 
     - Rebekka est se sentindo mal hoje e acabei de saber que vamos ter convidados para o jantar. Seu pai convidou Mestre Schoonmaker e seu aprendiz. Vamos precisar 
preparar o salo para os convidados. Vou requerer a sua ajuda.
     - Requeira o que quiser - diz Clara, e deixa o aposento.
     Margarethe respira pesadamente, mas s por um momento. Ento, ignorando Iris, comea a arranjar os implementos para uma tarde de cozinha.
     - Mame - diz Iris -, deve sentir como Clara ainda est infeliz com a morte da me. 
     - Eu vejo como voc ficou abalada com a morte do seu pai, minha boa filha - diz Margarethe. - Voc  o meu padro para julgar o comportamento de Clara, Iris. 
     - Eu sou mais velha - diz Iris. 
     - Quase nada - diz Margarethe. - E no teve ningum com quem pudesse aprender. Ruth poderia dar-lhe um exemplo? 
     - Bem - disse Iris, surpreendendo-se de certo modo -, na verdade Ruth me deu um exemplo. Ruth foi muito corajosa quando papai morreu. E ns todas escapamos, 
daquele jeito, como pssaros negros voando  noite... 
     - Ruth no sabe ser corajosa ou covarde mais do que um pedao de po - diz Margarethe rispidamente. - No a mandei ir v-la? Me deixe em paz.
     No galpo, debaixo de uma mesa de ferramentas e vasos, Ruth est deitada com as mos entre as pernas.
     - Ora, venha - diz Iris -, no  to terrvel assim, Ruth! Venha comigo e vou ajud-la a lavar-se e envolv-la num pano limpo. E pensa consigo mesma: no h 
um fim para o que temos de suportar, at mesmo ns, cujas vidas esto relativamente a salvo? 
     Quando termina de ajudar a irm, sobe furtivamente as escadas dos fundos para encontrar Clara e a consolar. A menina est sentada numa cadeira de espaldar reto 
olhando pela janela para a rua l embaixo. 
     - Ela pode ser a esposa do meu pai - diz Clara com uma clareza fria em sua voz -, mas no  a dona desta famlia. No da famlia a que perteno. Lamento que 
papai no tenha deixado isto claro para ela.  um erro. 
     - Voc no  suficientemente velha para ser a dona da casa do seu pai! - diz Iris com franqueza. - E pense em todo o trabalho que cairia sobre os seus ombros 
se fosse! 
     - Estou comeando a pensar que apreciaria a responsabilidade de um bom dia de trabalho - diz Clara. - Que mais tenho eu? No quero sair de novo, nunca mais. 
Mas tambm no quero morrer de tdio. 
     - Tenha cuidado com o que exige da vida - diz Iris. - Se o que quer  trabalhar, ento desa comigo e me ajude a arrumar a mesa para os convidados. 
     - Faa voc mesma - diz Clara. - Estou ocupada me aborrecendo.
     - E aborrecimento  coisa que voc sabe fazer muito bem - diz Iris, um tanto maldosamente. Deixa a menina sozinha. Iris pensa:  meu papel na vida promover 
a paz entre todas as partes? E por que deveria ser assim? 
     A comoo na cozinha oportunamente desvia os problemas. H pes a ser retirados do forno, frutas a ser escolhidas, queijos a ser liberados de suas cascas e 
taas a ser retiradas do guarda-louas. S quando se ouve uma batida na porta ela percebe que vinha evitando o fato mais bvio: Caspar vem para jantar, assim como 
o Mestre.
     - No posso atender  porta, meus cabelos esto saindo da touca - diz ela.
     - V e esquea os cabelos. Quem vai se preocupar com os seus cabelos? - diz Margarethe. 
     - Rebekka, v voc - diz Iris, mas Rebekka est sentada diante do fogo com mais do que a sua costumeira apatia e no presta ateno a Iris.
     - Faa o que mandei - diz Margarethe para a filha, bruscamente, quando a batida  porta se repete.
     Ento Iris vai e escolta Caspar e o Mestre at o salo principal, onde Van den Meer est sentado inalando o fumo apagado no fornilho do seu cachimbo. 
     - Cidreira, macis e alecrim - diz Van den Meer ao Mestre. - No sustento que possa cur-lo de vermes, mas delicia as narinas. Prove um pouco. 
     - Vim para trabalhar - diz o Mestre -, se est lembrado. Uma hora de esboos enquanto sua famlia come.
     Caspar fala de lado para Iris: 
     - Voc est para desaparecer na cozinha, mas no faa isso. No precisa faz-lo agora. Esta  sua casa. Voc mora aqui. No pode sentar-se e conversar comigo 
um pouquinho? 
     - Nossa cozinheira est passando mal - diz Iris, observando o cho como se fosse um lago congelado prestes a romper-se debaixo dos seus ps. - Preciso ajudar 
mame com os preparativos. Vamos ter tempo de sobra para conversar quando o trabalho estiver terminado. 
     - Ento vou aceitar um pouco de tabaco, senhor - diz Caspar a Van den Meer.
     - No o ofereci a voc, rapaz - diz o anfitrio, e Iris nota o rosto de Caspar cair enquanto deixa a sala para voltar ao trabalho do lado de sua me.
     - Esto aqui como convidados de Papai Cornelius ou como artistas? - diz Iris.
     - O Mestre pediu um favor - diz Margarethe. - Est trabalhando numa encomenda para uma famlia de Amsterd, pelo que sei, para pint-los agrupados em casa. 
Quer mostrar-lhes alguns esboos de uma famlia  mesa e veio estudar-nos e desenhar-nos enquanto comemos nossa refeio. Penso que Schoonmaker deveria comprar os 
suprimentos para esta refeio, j que vai se beneficiar de nos ver comendo. Papai Cornelius discorda. Papai Cornelius ficar arruinado se no cuidar de cada centavo. 
     Margarethe deposita o peixe reluzente numa prancha envernizada e indica a Iris que deveria lev-lo  mesa. 
     - Agora - continua sua me - devemos desempenhar o papel da famlia feliz para honrar o pedido que nos faz Papai Cornelius. Clara - chama -, Ruth, venham  
mesa, para que possamos dar graas e provar nosso merecimento a Deus e recebermos estas bnos. 
     Ruth junta-se aos outros na mesa. Clara se recusa. 
     - Iris - diz Margarethe numa voz um tanto pblica -, por favor avise a sua nova meia-irm que ela deve vir para a mesa imediatamente. 
     - Mame - diz Iris ao voltar -, ela diz que no tem fome e que no vem. 
     - Iris - diz Margarethe, sorrindo enquanto serve os convidados -, queira dizer a sua nova meia-irm que, se no vier imediatamente, ela no vai comer esta noite 
e no vai comer amanh tambm. 
     - Margarethe - diz Van den Meer -, isso  necessrio?
     Mas Margarethe o fuzila com um olhar. 
     - Vou comportar-me como achar apropriado. Pediu-me para faz-lo e confiou-me a autoridade - diz Margarethe. - Iris, faa o que mandei. 
     Iris volta com uma Clara sorumbtica e corada. 
     - Sente-se  minha esquerda, onde posso t-la  mo se precisar corrigi-la - diz Margarethe. 
     - Meu lugar  ao lado do meu pai - diz Clara. 
     - Seu lugar  onde eu digo - fala Margarethe. 
     - Deixe a menina colocar o traseiro onde quiser - diz o Mestre, tomando um grande gole de cerveja preta, mas Margarethe lana um olhar glacial e ele silencia. 
     - Papai - diz Clara. - Papai. 
     Cornelius van den Meer ergue o olhar para o teto. Estuda os candelabros enquanto diz: 
     - Meu imprio de negcios exige de mim que lide com investidores exigentes, ratos e esquilos que roem os bulbos de nossas flores, a inconstncia do pblico 
comprador, a ameaa de hostilidades aceleradas com a Espanha. As querelas de uma mesa de jantar no so minha preocupao e agradeo a Deus por isso. Desposei uma 
mulher para organizar os afazeres dentro destas paredes e, Clara, voc vai obedecer a ela ou vai obedecer a ela;  tudo o que tenho a dizer. 
     Clara ocupa o assento  esquerda de Margarethe. Seu doce rosto parece vazio e tenso. Margarethe se levanta e movimenta-se ao redor da mesa, praguejando levemente 
que Rebekka parece muito indisposta para desempenhar seus deveres. Com orgulho maldisfarado, Margarethe serve na melhor porcelana chinesa Ming. Leva pores de 
comida aos convidados e ao seu marido. Coloca ento dois pratos cheios diante de Ruth e de Iris. 
     - Mas eu no quero comer isto - diz o Mestre, beliscando um pedao de comida e pondo-se de p de novo. - Estou aqui meramente para fazer esboos com um giz 
vermelho. Passe isto adiante. 
     - Ainda no tenho um prato - diz Clara. - Vou ficar com este. 
     - Voc vai se sentar quando for mandada e comer quando eu lhe der permisso - diz Margarethe. Oferece seu sorriso mais doce ao Mestre. - Deixe seu prato onde 
est. Certamente v como a luz da vela cai belamente sobre ele; poder desenhar com mais preciso nesta luz brilhante. 
     - Precisa menos para ser desenhado do que para ser comido - diz o Mestre com uma jovialidade forada. - Passe o prato para Clara, por mim est bem. 
     - Aqui no h suficiente? Eu no preciso comer - diz Caspar, erguendo seu prato e passando-o adiante.
     - Vocs todos esto decididos a me sabotar? - diz Margarethe. Levanta-se e bate na mesa com um colhero de prata. - Eu sou a me aqui! E nenhum de vocs est 
disposto a reconhecer a minha posio? 
     No silncio, Iris v que at Papai Cornelius parece ligeiramente alarmado, um alarme que ele consegue disfarar quando seus olhos se encontram brevemente com 
os de Iris. 
     - Fazemos o que voc manda - diz Van den Meer com uma voz fraca mas firme - ou no comemos nesta mesa. 
     - Bem, aparentemente no estou comendo nesta mesa, de qualquer modo, ento o que isso significa para mim? - diz Clara. 
     - No vou desenhar aqui se minha presena vai deixar algum com fome - diz o Mestre. 
     No fica muito claro o que vai acontecer a seguir; o salo caiu no silncio. Iris olha de uma pessoa para outra, e Ruth esconde o rosto no avental. Clara senta-se 
ereta e no  mais uma criana, mas um jovem adulto, com o desprezo exacerbado que esse tipo de criatura tem para com a autoridade. Seu lbio inferior pra de tremer 
e suas sobrancelhas se juntam. Parece que vai levantar-se da mesa e jogar algo sobre Margarethe. 
     Antes que possa faz-lo, um som da cozinha leva todas as cabeas a se virarem. Margarethe no se mexe e Iris est intrigada demais pela dinmica da discusso 
para deixar o seu banco. Ento  Ruth quem segue em seus passos incertos e cautelosos at a porta da cozinha para ver o que criou tamanha confuso. 
     Parando, Ruth volta  mesa. Um pnico branco tomou conta do seu rosto. Ela treme e, para espanto de todos, assume uma expresso no rosto que todos podem ler. 
Agarra seu prprio pescoo e esbugalha os olhos. O gargarejo em sua garganta pouco educada completa a mensagem. Rebekka est doente, doente ou foi golpeada, ou est 
desmaiada, ou morta.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Vento e mar
     
     
     
     
? O
 diabrete de novo! - diz Iris; ela no pode se conter. 
Mas na comoo ningum lhe d ouvidos, e ela reprime a nsia de repetir o alerta, caso um diabinho dentuo de plos ruivos esteja agachado debaixo da arca ou esgueirando-se 
por entre as cinzas,  escuta. A fria no rosto de Margarethe  tempestade interior e sobre o telhado e contra as janelas o vento se levantou. A casa est sitiada. 
Margarethe empurra Ruth para o lado e olha mais de perto Rebekka. 
     - V buscar o mdico, Caspar - rosna. - E vocs, meninas, saiam, fora daqui. Todas vocs.
     Caspar est na porta, enrolando sua capa at o queixo, quando h uma batida forte. Ele se assusta e tambm Iris e Ruth, que esto com ele nas sombras do vestbulo, 
mexericando e preocupando-se com Rebekka. Caspar comea a abrir a porta lentamente, espiando por trs dela para ver quem poderia estar chegando a esta hora. Mas 
o vento golpeia quando ele abre a tranca e a porta  arremessada para dentro com um rudo. 
     - Vento forte,  apenas isso - diz Caspar para Ruth, que se encosta na parede como se mais espritos estivessem l fora no escuro galopando em seus corcis 
espectrais no ar barulhento. Galhos estalam e no viveiro ouve-se o rudo talvez de uma mesa tombando subitamente, ou seria mais maldade em ao? E ali, na porta, 
um homem corpulento numa capa verde pesada, uma mo no ar prestes a bater na porta de novo.
     - Traz este vento com o senhor, cavalheiro? - grita Caspar no que at Iris pode ver que  uma voz de falsa coragem. Mas  um gesto bondoso destinado a consolar 
Ruth, cujos olhos a esta altura esto despejando lgrimas at o queixo, que ela segura em seus punhos crispados. 
     - No use palavras jocosas comigo - grunhe o forasteiro. Sua voz  spera e desafinada, como se estivesse rouco de tanto gritar ao vento. - Deixe o canalha 
do Van den Meer vir ouvir as notcias ele mesmo, quero s ver a sua cara.
     - No  hora para isso - diz Caspar, aprumando-se, ofendido com o tom do forasteiro. - Ele est ocupado por uma crise domstica. 
     - Chame o homem ou vou empurrar voc e traz-lo eu mesmo - diz o estranho. Sem pensar, Iris coloca sua mo no ombro de Caspar, uma quieta desculpa pela rudeza 
do homem, e ela sente o aprendiz tremer. 
     Que ela seja capaz de fazer tremer um jovem rapaz!
     Mas o jovem rapaz, o seu jovem rapaz, Caspar, no  preo para o visitante, que usa seu peito largo para empurr-lo de lado como um touro demoliria um co importuno. 
     - Van den Meer - grasna o visitante -, h notcias das dunas e das ruas. Venha ouvi-las de mim antes de ouvi-las de outros! 
      Clara quem aparece primeiro, no para encontrar um estranho; ela estava subindo as escadas correndo para fora da cozinha. Ao som da voz do estranho, ela pra 
na porta. O homem olha para ela com interesse. Subitamente Iris o reconhece: o estranho bondoso no cemitrio que apoiou o queixo de Clara na sua mo. 
     Ele abaixa a cabea e grita de novo: 
     - Van den Meer!
     Clara no sobe os degraus no vestbulo. Ela se vira e volta para cozinha e sai pela porta dos fundos no vento e na noite, a caminho do viveiro, provavelmente. 
Van den Meer deixa cair um trapo ensangentado na soleira da porta da cozinha.
     - No foi buscar o mdico ainda, est maluco? - grita para Caspar. - O que est esperando, seu retardado?
     Ruth estremece, como sempre, quando esta palavra  usada.
     Iris diz, numa voz que no usou anteriormente para Papai Cornelius.
     - Ele est atendendo a quem bateu na porta. No o critique por demonstrar cortesia... 
     - Iris - geme Caspar -, por favor!
     E com isso ele se lana na escurido e desaparece de vista. 
     - Que novo dissabor  este, ento, Nicolaes van Stolk? - diz Van den Meer.
     - Pegue sua capa e coloque sapatos resistentes se quiser ver sua fortuna crescer ou sumir diante de seus olhos - diz Van Stolk, irritado -, pois ao mesmo tempo 
que uma tempestade com ventos atravessa o oceano, jogando baleias e espalhando cardumes de arenque como flocos de areia das dunas, na verdade jogando as prprias 
dunas aos ares e formulando de novo aquela margem nada substancial que impede o dilvio de No de punir os especuladores... 
     - Deus prometeu no nos punir de novo com o dilvio, lembre-se das suas Escrituras - diz Van den Meer duramente. - Pena que quando Ele estava ocupado em afogar 
espcies inteis no tenha includo os mexeriqueiros de lngua florida entre eles. Diga-me o que tem a dizer, voc que ama as notcias mais funestas. E depois pode 
ir embora. 
     - No est me ouvindo - diz Van Stolk. - Os mares esto encrespados e os ventos com fora de vendaval e a maioria da populao de Haarlem est nas areias  
espreita de baleias... 
     - Que me importam as baleias? - diz Van den Meer ofegante. - Tenho uma empregada que est botando sangue do estmago e pode ser a peste... 
     - A peste - diz Iris -, no!... 
     - ...seus concidados esto de viglia e divisaram finalmente o navio que traz o seu carregamento fazendo pequenos progressos na tempestade. O navio, Van den 
Meer. Metade deles investiu na sua mercadoria, so investidores principais ou ento teriam vendido suas aes para almas mais cobiosas. Muitos dos seus amigos e 
vizinhos esto entre eles e tm mais a perder num carregamento naufragado at mesmo do que voc. Voc que se refestela na gordura da fortuna de outros. O mnimo 
que pode oferecer, seu aproveitador,  unir-se aos ansiosos e ficar de olho na sua mercadoria sobre as guas e ver como a mo de Deus trata aquele que prospera com 
a cobia dos outros... 
     - Pare com a sua pregao - diz Van den Meer. - Irei l porque  meu dever, mas se ficar perto de mim tagarelando eu vou afog-lo na primeira onda que se apresentar.
     O Mestre aparece na porta da cozinha para ver qual  a confuso. 
     - Seguramente - diz ele -, no vai sair quando sua cozinheira est perdendo sangue... 
     -  uma empregada nova - diz Van den Meer -, e, como Margarethe se casou comigo a fim de ter uma casa para administrar, isso faz parte da tarefa. No permitirei... 
- diz ele, e repete numa voz mais forte. - No permitirei que dois visitantes me passem sermo, um de cada lado do meu prprio vestbulo! 
     Van den Meer e Van Stolk saem cambaleando na noite tempestuosa, na qual, apesar das nuvens e dos ventos crescentes, uma rstia de luz vespertina ainda se arrasta 
atravs do cu. O Mestre volta  cozinha, onde Margarethe pode ser ouvida fervendo um caldeiro d'gua e pedindo que cortem limes em fatias. Caspar se foi h muito 
e Clara tambm. Mas Clara no pode ter-se aventurado muito longe. No h lugar muito distante aonde possa ir. 
     Iris e Ruth olham uma para a outra. Ruth no gosta quando dois gatos da cozinha jogam as garras um contra o outro. Gosta menos ainda quando sua famlia briga. 
Fica sentada sobre suas ancas, anguas e saias para todos os lados, o rosto sujo de tanto choramingar, Iris prende a respirao e estende uma mo para se apoiar 
na arca escura de carvalho. 
     - Ruth - diz Iris -, no deve se preocupar. Tudo vai acabar bem. O tempo est nas mos de Deus e tambm o rumo da doena... 
     - Esto a matraqueando como duas irms gansas quando preciso de sua ajuda? - grita Margarethe, para que as garotas venham assistir a me. 
     Rebekka  deitada sobre um pano perto do calor do fogo. Iris no pode se conter: ela estuda a cena em funo da cor. O vermelho vivo do sangue vomitado h menos 
tempo, o marrom-tijolo do sangue mais antigo, salpicos mais secos, as escamas de peixe dourado da chaleira de cobre, as sombras marrons em que o Mestre trabalha 
preparando um cataplasma de alho e limes. O cheiro  feroz e at o gato parece ofendido e guarda distncia. 
     -  a peste, como diz Papai Cornelius? - pergunta Iris.
     - No sou estudante de medicina. Estou meramente tentando ajudar a mulher a respirar - diz Margarethe. - Deus nos livre, a peste finalmente em nossa prpria 
casa, para nos atingir justamente quando escapamos de todas as nossas vicissitudes. Eu devia botar esta moa numa carroa e larg-la na tempestade e deixar que Deus 
a apanhasse l, se esta fosse a Sua vontade! 
     Mas ela no faz nenhum movimento para seguir seu prprio conselho, e Iris  mandada a buscar cobertores extras num armrio do andar de cima, enquanto Rebekka 
parece inexplicavelmente enregelada, mesmo perto da lareira. 
     A cozinha  por demais assustadora para Ruth, e Clara ainda est sumida, por isso depois de um tempo Iris instala Ruth na cama de Clara e fica ao lado dela 
at que mergulhe num sono agitado. Iris cochila tambm.  tarde da noite quando o mdico  finalmente localizado... nas dunas, com outras testemunhas do desastre 
que  inevitvel... que poderia ser evitado... Esperem s... 
     A chegada do mdico acorda Iris. Embora ela se agache na escadaria para poder escutar, no consegue ouvir seu relatrio sussurrado a Margarethe. Mas, depois 
que o mdico se vai, Iris se aventura, esfregando os olhos, fingindo que acabou de acordar. 
     - Papai Cornelius ainda se atormenta na praia, onde a tempestade assumiu maior fria, segundo diz o doutor - fala Margarethe. - No sei como os cidados desta 
cidade se entregaram a estes investimentos. Tulipas, sim, a paixo louca de investir, de ganhar dinheiro com a especulao? Se este carregamento for perdido, minha 
menina, estaremos em outra dificuldade. Por isso, se a peste tomar conta desta casa, poderamos muito bem estar escapando a este triste dilema. 
     - Mame - diz Iris. Ela boceja. - So coisas adultas, e eu sou uma criana.
     - Voc  menos criana do que sua irm mais velha e preciso de algum consolo esta noite - diz Margarethe. - O Mestre voltou ao seu estdio, pois no h mais 
nada que possa fazer. Prepare-me um ch fraco enquanto continuo com este trabalho horrendo e Rebekka mais ou menos morre no meu colo.
     - Clara saiu para o viveiro. Ela j voltou? - diz Iris. 
     -  problema dela, ou pelo menos foi o que me disseram - fala Margarethe. 
     - Mame - diz Iris. - Por favor. Ela  s uma criana... 
     - V encontr-la e cuide dela voc mesma - diz Margarethe -, depois que eu tomar minha tigela de ch para me acalmar e manter alerta. Papai Cornelius no vai 
ouvir sermes de seus visitantes e eu no vou ouvir sermes de minha filha. No me importa nem se Clara pegar a peste... 
     - Mame - diz Iris. 
     - Se existe uma fortuna a ser herdada, caso o carregamento chegue a salvo - diz Margarethe -, voc se beneficiaria mais se Clara estivesse na sua sepultura. 
     - Oh, a senhora no est com o pensamento em ordem! - diz Iris. Ela no sente vergonha, mas se preocupa, pois a me tem um olhar perturbado. - Descanse, mame, 
e deixe-me passar a esponja em Rebekka. No parece coisa sua, no deve dizer tal coisa. 
     - Encontre Clara, ento, e cumpra o dever da caridade - diz Margarethe -, mas s depois do meu ch. - Ela fecha os olhos por um momento e diz num sussurro. 
- Claro que eu no sinto essas coisas terrveis que disse, Iris. Claro que no. 
     Iris faz o ch o mais rpido possvel e foge da cozinha transformada em enfermaria. 
     O galpo est escuro e frio e, no entanto, ainda quando ele range sob os aoites do vento e da chuva, h um cheiro de primavera, de solo e dos cabos midos 
das ferramentas. 
     Clara est deitada debaixo de uma mesa com bulbos de tulipa prximos do florescimento. Seus olhos rolaram para o alto da cabea e por um instante Iris acha 
que Clara sucumbiu  peste tambm. Mas  apenas um cochilo sombrio do qual Clara desperta sobressaltada ao sentir Iris se aproximando. 
     - Quem est a? - grita Clara. 
     - Sou s eu - diz Iris. - Por que est aqui fora, quando a comoo tomou conta da sua famlia l dentro? 
     Clara se deixa abraar e chora nos braos de Iris. No responde  pergunta. Diz apenas, numa voz entorpecida, como para si mesma e sem expectativa de uma resposta 
de sua meia-irm. - Oh, o que vai ser de mim?
     
     
     
     
     
     
     
     
A menina das cinzas
     
     
     
     
A
 morte de Rebekka  um estudo em contrastes com a morte, apenas seis semanas antes, de Henrika. Rebekka  enfaixada e levada de carroa imediatamente, e se h um 
culto para a coitada, ou se algum tenta informar qualquer resqucio de famlia que ela pudesse ter na Frsia, Iris nunca fica sabendo. Rebekka deixa a casa to 
quieta e annima quanto chegou. Talvez o diabrete da casa esteja enjaulado no corpo de Rebekka e tenha sido evacuado assim? 
     Talvez. A tempestade passou e, contra todas as expectativas, o navio trazendo o precioso carregamento de tulipas conseguiu subir o Saarne cheio de gelo, mas 
ainda navegvel, e encostar na atracao. O navio no afundou, no houve Leviats lanados sobre a praia: no dia seguinte as pessoas se queixam de que perderam o 
sono em funo de uma possibilidade apenas remota de desastre. Mas, Iris est percebendo, esta  a maneira que elas tm de minimizar sua prpria ansiedade. Se o 
carregamento tivesse sido arruinado, um nmero de investidores de Haarlem teria sofrido srias perdas. 
     Van den Meer se gaba de como recebeu o capito e o escoltou at uma estalagem para um rum quente e uma gratificao extra de um pequeno saco de moedas de ouro. 
Um retorno triunfal! Van den Meer passa mais tempo longe de casa do que antes. Demora-se no bar onde o colegiado dos negociantes de tulipas se rene. Discursa sobre 
arregimentar novos investidores para outro carregamento. No parece notar que Margarethe est mais estrita e possessiva em relao  casa, ou, Iris se pergunta, 
seria este um dos motivos que o fazem passar tantas horas longe? 
      medida que Margarethe passa menos tempo na cozinha e pode ser vista desfilando pelas ruas de Haarlem em roupas novas, Clara assume o posto ao lado da lareira-fogo. 
Abandonou a maneira juvenil de se vestir que Henrika preferia. Clara se veste com trajes simples, adequados a uma criada. Decidiu que no se importa em cumprir as 
tarefas, diz a Iris e Ruth. Na verdade, prefere aprender pequenos truques de culinria em vez de questes de gramtica italiana ou passagens difceis em exerccios 
de teclado. 
     -  um local privado, a cozinha - diz simplesmente, e com isso Iris suspeita que ela queira dizer: Agora que Margarethe no est mais aqui. 
     
     
     E de repente a estao da Pscoa cai sobre eles! Finalmente! Os cus clareando, o retorno do tempo quente, a hilaridade das crianas que j podem sair de casa, 
com roupas menos pesadas, com pernas mais compridas do que as que tinham na estao anterior. Iris quer correr com elas, errar pelos campos e campinas, mas, se Clara 
est se tornando uma jovem mulher, Iris tambm. Chega o dia em que  a vez de Iris de exsudar e ficar afetada como as mulheres ficam. Ruth deita-se com ela e coloca 
as mos no estmago de Iris para confort-la e Clara fica parada  porta com um ar repugnado. 
     - Seria possvel imaginar pior provao? - diz Clara, tratando Iris como um horrvel espcime numa aula prtica de medicina. - Espero que tal problema nunca 
me atinja. 
     - V embora - diz Iris, que no consegue ser gentil enquanto suas partes inferiores apertam e doem.
     
     
     As coisas se aquietam. Caspar chega com a palavra de que o Mestre espera ver Iris no seu estdio, pronta para aprender a desenhar, pelo menos, e a ajudar quando 
o aprendizado a deixar preparada. Iris no vai sequer pedir a permisso de Margarethe, pois sabe qual seria a resposta. Alm do mais, ela chegou  concluso de que 
o que sente por Caspar  amor, puro e simples... bem, agora j no  velha o suficiente para saber o que  o amor? E ela no vai agentar ficar to perto dele todo 
dia sem se declarar. E no tem coragem para isso. 
     Ruth no demonstra muito interesse quando ouve sua irm e sua meia-irm conversando. Ruth comeou a prestar mais ateno aos animais da casa - o gato, as galinhas, 
os camundongos que podem ser salvos do gato e mantidos numa pequena gaiola de arame at morrerem. Seria apenas que a famlia est ficando mais velha e existem mais 
diverses? Ou Ruth na verdade parece estar florescendo, talvez devido s ausncias crescentes de Margarethe? Margarethe se recusa a contratar outra jovem da rua 
para fazer o trabalho da casa, por medo que a peste volte e finque o p na casa como ainda no conseguiu fazer. Ento Clara faz a maior parte das tarefas e Iris 
supervisiona e se entedia e sonha com Caspar, e Ruth fica com seus animaizinhos, com o porte mais ereto, e parece ver o mundo com um olhar mais seguro do que antes. 
     
     
      Clara quem, com uma expresso um tanto oblqua, finalmente diz a Iris: 
     - S voc est infeliz agora. O que est esperando? 
     - No sei o que quer dizer - fala Iris, dobrando uma roupa lavada que tomava ar na luz revigorante de abril. 
     - No h motivo para que no v ao estdio de Mestre Schoonmaker aprender algumas coisas sobre desenho, se quiser. 
     - O qu? E deix-la para cuidar sozinha de toda a casa? - diz Iris. - Posso no gostar de supervision-la no trabalho domstico, mas mal poderia pensar em abandon-la 
aqui. 
     - No se preocupe - diz Clara. - Isso me aproxima de minha me, fazer as coisas que ela fazia. No me importa que Margarethe esteja se tornando o orgulho de 
Haarlem, fazendo amizades e gastando dinheiro. A casa fica mais quieta quando ela sai. Tenho um pouco do que quero. Por que voc no deveria ter? No deseja pintar? 
     - No sei se  o momento apropriado para pintar - diz Iris. 
     - Pode no ser comum - diz Clara -, mas certamente no  nem impossvel, nem ilegal. O Mestre no lhe diria se o fosse? E por que se preocupa com as aparncias, 
de qualquer maneira? 
     Iris respira fundo. 
     - O Mestre j tem um estudante, Caspar - diz ela. 
     - E qual  o problema? Alm do mais, no se interessa por ele? - diz Clara. Sua franqueza surpreende Iris. - Ter mais motivo ainda para passar um tempo com 
ele. Uma oportunidade de conhec-lo melhor! 
     - No seja ridcula - retruca Iris. - Voc no quer ser enjaulada na concha de algum casamento estpido, Clara, mas no se deixe enjaular por sua prpria experincia 
limitada tambm. Deve ser capaz de enxergar a minha situao difcil. No sou bonita como voc, no estimulo interesse como voc. 
     - Caspar  muito amigvel com voc - diz Clara numa voz calma, sem se ofender. - Voc no  uma pessoa enfadonha, Iris, e, apesar de toda a sua falta de graa, 
 interessante de se olhar. Por que se trancar em sua prpria jaula quando algum est lhe oferecendo uma chave? Por que no aprender um ofcio passando o tempo 
com pessoas que se importam com voc? Diga apenas o que Margarethe diria: d-me espao suficiente para lanar o meu arpo e deixe que tudo o mais acontea como acontecer. 
     Iris no preza muito esse sentimento. Ela retruca: 
     - No posso deix-la cuidando da cozinha sozinha, Clara. 
     - Ruth pode dar uma mozinha quando eu precisar de ajuda - diz Clara. - Se no pedir a permisso de sua me, Iris, eu pedirei por voc. 
     Iris lentamente coloca o rosto entre as mos. Haver algum sentido no que Clara est sugerindo? 
     - Voc devia pelo menos saber - diz Clara. - E se estiver errada e Caspar puder se sentir apaixonado por voc? O que seria se perdesse a oportunidade de saber? 
     Ouve-se um grunhido. Iris olha atravs dos seus olhos midos. Ruth chegou  porta e talvez tenha ouvido a conversa. Est acenando com a cabea para Iris e sorrindo 
de um modo encorajador. 
     - Ruth vai me ajudar quando eu precisar, no vai, Ruth? - diz Clara. 
     Ruth concorda com a cabea, coloca o gato no cho e arregaa as mangas como para comear a esfregar um assoalho. 
     - Tudo bem, ento - diz Iris. - Vou ver se posso juntar a coragem para falar com mame. 
     - Faa isso - diz Clara. Ela larga a pequena vassoura da lareira e subitamente, com um riso abafado, mergulha as mos nas cinzas. Esfrega as bochechas e a testa. 
- No sou mais nenhuma beleza, sou uma simples garota de cozinha, uma menina das cinzas, feliz com a minha fuligem e o meu carvo. 
     - No faa isso - diz Iris -, me faz estremecer. Na Inglaterra temos um jogo de crianas sobre flores e cinzas. Junte uma braada cheia de rosas, um buqu de 
flores luminosas; cinzas, cinzas, cinzas, e para baixo vamos todos.  uma canoneta simples para criancinhas brincarem, caminharem, tropearem e gritarem, mas algum 
me disse certa vez que era uma brincadeira derivada do medo da peste e que as cinzas so aquelas em que nos transformamos se a peste tomar conta de nossas vidas. 
Por isso, no seja a menina das cinzas, nem mesmo de brincadeira. Voc  muito boa.
     Iris pensa na oferta de Clara e corrige seu comentrio: 
     - Voc  boa demais.
     Clara morde o lbio. 
     - No, voc  que  boa, mas que simplria! No v que estou meramente cuidando de mim mesma, como de costume? 
     Iris no sabe se isso  estritamente verdade. Clara tem andado triste, amargamente afastada das possibilidades de sua vida, mas seria ela incapaz de bondade? 
Isso faria dela uma espcie de belo monstro. 
     Clara encolhe os ombros como se pudesse ver esses pensamentos no rosto de Iris. Ela continua: 
     - No me importo se voc  feliz ou no, de verdade. Mas, se sair de casa, fico mais segura na minha cozinha. Quanto mais necessria, mais  vontade no meu 
canto. Chame-me de Duende das Cinzas - diz Clara, ficando mais ereta por trs da sua mscara de cinzas. - Chame-me de Menina das Cinzas, Cinderela, no me importa. 
Estou a salvo na cozinha.
     
     
     
     
     
     
     
     
Garbo
     
     
     
     
?T
o rude cebola como eu pode ser levada a parecer-se com uma rosa - diz Margarethe com prazer. - Que acham de mim agora? 
     Ela desfila para cima e para baixo sobre o piso de lajes pretas e brancas em seu novo garbo. Iris aperta as mos para evitar que elas se retoram. Sua me parece 
menos uma rosa do que uma pilha de flores encalhadas num fim de feira, amontoadas sem nenhuma preocupao quanto ao efeito. Iris sempre pensou que Margarethe fosse 
dona de um bom gosto sbrio. Agora ela percebe, com um susto, que foi a pobreza que manteve Margarethe em agradveis tons marrons, pretos e brancos. Deixada a seus 
prprios critrios e provida de uma bolsa decente, Margarethe acabaria se parecendo mais com uma marafona. 
     Mas Margarethe no nota a reprovao de Iris. E Ruth bate palmas em apreciao e d risinhos abafados diante da transformao. Clara, que veio da cozinha com 
uma cesta de nabos nos braos, diz meramente: 
     - Isso me enche de uma estranha alegria - e se afasta. 
     - Eu devia imaginar que sim - diz Margarethe, sem captar a ironia no tom de Clara. 
     - As cores - diz Iris, porque no pode pensar em outro comentrio.
     - E o acabamento... eu no ousaria us-las nas ruas - diz Margarethe. Ela desenrola uma pea de tecido e tira um par de requintados sapatos brancos, num couro 
trabalhado to macio a ponto de caber nos ps como uma pele. O couro tem um brilho oleoso que faz com que paream sapatos de porcelana ou de vidro fosco. 
     - Dificilmente teis nas ruas de Haarlem - diz Iris, sem poder se conter. - Por mais que os holandeses limpem a si mesmos e aos seus cavalos. 
     - So para serem usados quando eu sair de carruagem, de uma porta a outra. Ouvi alguma reprovao em sua voz? - diz Margarethe. - Por que no deveria me mostrar 
bem apresentvel? 
     - Por favor - diz Iris -, no quis ser rude. So macios como luvas, no so? Onde vai us-los? 
     - Estes sapatos abriro portas que ainda esto fechadas para ns - diz Margarethe. 
     - Seria um espetculo e tanto - diz Iris. - Quer dizer que eles so capazes de abrir portas com um chute? 
     - Oh, os ares cmicos dos jovens - diz Margarethe, mas sem rancor. - Coloque-os no guarda-roupa e embrulhe os sapatos cuidadosamente de novo para proteg-los 
de marcas e sujeira. No sabe do que sua me  capaz em seu favor. 
     - E em seu prprio favor - diz Iris numa voz calma. 
     - Numa famlia, o bem de um membro avana o bem de todos os membros. 
     - Bem - diz Iris -, ento posso propor o bem deste membro pedindo-lhe permisso para assumir uma posio, somente por algumas semanas talvez, como associada 
no estdio do Mestre? Ele acha que eu posso aprender os rudimentos do desenho, enquanto o ajudo na preparao das cores e dos vernizes e esticando as telas e os 
linhos... 
     - Acho que no - diz Margarethe, admirando-se no espelho na extremidade do salo. - Ele est enchendo sua cabea de idias e eu desaprovo.
     - No faz mal algum a uma garota aprender um ofcio... - comea Iris.
     - No vou querer que seja assistente de ningum - diz Margarethe. - No quando podemos pagar para voc aprender as coisas que as meninas mais ricas aprendem. 
Um pouco de francs, talvez, um pouco de italiano.  to inteligente quanto Clara, embora no tenha comeado to cedo, e agora dispe de tempo para se adiantar nos 
estudos. Clara pode cuidar da nossa Ruth. 
     - Quero ir ao estdio - diz Iris - no s para assisti-lo, mas pelo que posso aprender ali. Estou sendo egosta, mame. Desejo aprender algo que me interessa. 
No quero tagarelar em francs. 
     Clara enuncia da cozinha, numa voz agradvel, uma longa frase declarativa, em francs. Talvez ela saiba o que est fazendo, pois Margarethe ruboriza - incapaz 
de entender - e fica parada ali por um momento, perdida. Finalmente, numa resposta, e igualmente alta: 
     - Se Clara est disposta a executar as tarefas domsticas que vocs duas poderiam fazer juntas, talvez eu possa liber-la. 
     - Merci - diz Clara, e todas entendem isso. E Iris v que  beneficiria do desejo de Clara de ficar em casa, tenha Clara tencionado ajud-la ou no.
     
     
     No dia seguinte Iris se embrulha numa capa e pega uma cesta de pes e um pote de conservas e segue atravs das ruas molhadas, banhadas de sol. Haarlem est 
se arrumando com o costumeiro orgulho. Peitoris de janelas so espanados, bronzes polidos, janelas lavadas, jardins cuidados, pes postos a esfriar nos peitoris. 
Iris percebe que h um propsito nos seus passos, que tem algo a ver com o seu corao, mas tambm tem algo a ver com suas prprias mos. Elas esto ansiosas e prontas 
para lidar com um pouco de giz vermelho, para tentar algumas linhas iniciais no papel. 
     O Mestre e Caspar esto ocupados ajeitando pinturas numa pilha inclinada, as pinturas menores mais perto da parede, as maiores encostadas cuidadosamente num 
ngulo sobre elas, cada uma a poucos centmetros de distncia da outra, de modo que h um intervalo de ar protetor entre elas. O rosto de Caspar se ilumina ao ver 
Iris na porta, mas o Mestre est carrancudo e mal parece notar. 
     - Se  po de presente, coloque-o na cozinha - diz ele. - Caspar, vamos pegar a Anunciao a seguir, aquela em dourados. 
     - Vim ao estdio, no  cozinha - diz Iris. 
     - Ento voc e Caspar levantem estas pinturas maiores e me deixem voltar ao retrato do Burgus Barrigudo antes de acordar por completo da cerveja da noite passada. 
Me d um n no estmago pensar no tempo que passo glorificando pessoas insignificantes e s posso suportar isso quando estou parcialmente adormecido ou parcialmente 
bbado e, no momento, estou ambas as coisas. E no falem comigo. No estou com pacincia para mexericos ociosos. 
     - Um mexerico por dia  o suficiente, no ? - diz Caspar, piscando para Iris. 
     Ela percebe que a piscada de olho, embora dirigida a ela e destinada a envolv-la na atmosfera,  uma observao sobre o Mestre. 
     - Que mexerico seria este? - diz ela, largando a capa e a cesta e seguindo Caspar at uma sala lateral onde mais pinturas esto inclinadas no escuro.
     - Um mexerico para pintores e carreiristas sociais tambm - diz Caspar. 
     - Felizmente no sou nem uma nem outra coisa, por isso posso ouvir a notcia sem excitar demais o meu corao - diz Iris, cujo corao j est bastante excitado, 
por se encontrar num espao escuro e apertado com Caspar inclinando-se com um ar de conspirao para sussurrar-lhe algo. 
     - Numa festa na noite passada correu o rumor de que Maria de Medici vai passar duas semanas em Haarlem.  a viva de Henrique IV e a rainha honorria de Frana. 
Instalou uma residncia em Amsterd recentemente, onde choca os comerciantes procurando-os diretamente e regateando os preos.  um velho touro. 
     - Imagino que at a realeza deva viajar s vezes - diz Iris. - Isso no chega a valer nenhum dissabor. 
     - Comenta-se que ela teria dois objetivos - diz Caspar. - Convocou uma exposio dos melhores pintores holandeses vivos para que possa escolher aquele que vai 
pintar o que ela considera seu ltimo retrato; ela tem 65 anos de idade e encara o sombrio espectro da morte. Por isso os pintores esto agitados para selecionar 
seus dois ou trs melhores trabalhos e submet-los aos governadores de Haarlem. Todo mundo espera ser convidado para a mostra e talvez at conhecer a rainha. Ela 
promove um certame semelhante em Amsterd e talvez de novo em Roterd ou Utrecht, embora Roterd no possua a capacidade nativa para a pintura que Haarlem possui. 
     - Da... Anunciaes? - adivinha Iris. 
     - Ela  de Florena, cidade muito catlica - diz Caspar, tentando erguer a moldura de um imenso painel e gesticulando para que Iris faa o mesmo. - No ter 
a mesma averso a temas de devoo que ns, amigveis calvinistas, temos. Mas no estaria o Mestre jogando fora suas chances de ser includo na exposio ao submeter 
um trabalho to fora de moda? Afinal, ele tem de ganhar a aprovao dos patriarcas de Haarlem em primeiro lugar.
     - Seguramente eles levam em conta o gosto da rainha tambm - diz Iris. - Como anfitries, vo querer deix-la feliz, 
     - Ao contrrio, como anfitries, os patriarcas de Haarlem se orgulham de prosperar imensamente sem precisar muito de uma famlia real - diz Caspar. - Ns, holandeses, 
apenas acenamos com a cabea para nosso Frederick Henry, o prncipe de Orange. Mas, como se propalou que a elefanta francesa estaria vindo, o Mestre se mostrou disposto 
a entrar no jogo. Deixem os juzes de Haarlem decidir. A melhor encomenda de trabalho de sua vida pode depender disso. 
     - No pensei que o Mestre fosse um arrivista social - diz Iris. 
     - Os pintores no vibram necessariamente com esse aspecto da coisa - diz Caspar. - De qualquer modo, espalhou-se que a rainha tem um objetivo secundrio. Ela 
vai oferecer um baile, ou talvez uma srie deles, para apresentar um de seus parentes ou afilhados  sociedade holandesa. Ele poder estar at em busca de uma noiva 
entre as hostes de moas reunidas. 
     - Certamente que no! - diz Iris. - Membros de famlias reais no escolhem noivas entre multides que se juntam para admir-los! 
     - Eu tambm pensava o mesmo - diz Caspar. - Mas aqueles que prestam ateno s fortunas das naes nos lembram que no existe nenhuma jovem disponvel na Casa 
de Orange-Nassau. Suponha que a Holanda tenha uma longa e frtil existncia como repblica. Para um nobre estrangeiro em ascenso, uma noiva da classe dos homens 
que governam a Holanda atravs destes anos prsperos poderia ser um curso de ao sbio. 
     - E quanto aos afetos do nobre jovem? - diz Iris. - Ele no teria alguma participao na escolha de uma noiva? 
     - Voc me pergunta como essas coisas funcionam? - diz Caspar, piscando para ela de novo. - O que sabe de rapazes e seus afetos? 
     No falam por algum tempo. Retiram oito das Anunciaes do Mestre que estavam armazenadas. Assim que as pinturas so dispostas ao redor da sala, uma semelhana 
familiar pode ser notada entre elas, no s na temtica, mas tambm na escolha das cores que o Mestre favorece. Quando ele finalmente joga longe os pincis de raiva, 
xingando a raa dos Burgueses Barrigudos, vira-se para estudar as Anunciaes. 
     - Porcaria - anuncia diante das duas primeiras. - As cores berram. Foram pintadas com merda e mijo. Leve-as embora. 
     - So pesadas para carregar - diz Caspar, ainda respirando pesadamente. 
     - Enlameiam a luz e fazem a sala cheirar mal. Levem-nas embora.
     Iris e Caspar as levam de volta para o aposento lateral. Das outras seis, o Mestre diz: 
     - Nesta aqui a Virgem aparece j grvida. No  apropriada para a Anunciao. Leve-a embora. 
     - No est grvida - diz Caspar. - S est bem alimentada. O mesmo ocorre com Maria de Medici, segundo dizem. 
     - Levem-na embora, mas tomem cuidado com a moldura no batente da porta. Esta  uma das maiores. 
     - Isso  trabalho duro - diz Iris num sussurro. - Vou conseguir desenhar ainda hoje? 
     - Parem de sussurrar! Vocs me aborrecem e perturbam meu pensamento - grita o Mestre. - Como se eu no estivesse j bastante aborrecido com minha bvia falta 
de talento. Se puderem encontrar uma faca, venham e cortem fora meus olhos, pois claramente eu no os uso muito na produo de pinturas, de qualquer maneira. No 
que estava eu pensando? 
     Existem, no fim, apenas duas telas consideradas dignas de serem levadas em conta. Iris admite que so belas pinturas e que se poderia falar to bem de uma como 
de outra. 
     - Nenhuma deciso precisa ser tomada imediatamente - diz o Mestre. - Mas se tivessem de escolher uma em meu lugar, Caspar, Iris, porque acabei de cair numa 
vala e quebrei a cabea, qual delas escolheriam, e por qu? 
     - Eu no mandaria uma Anunciao - diz Caspar, o que irrita tanto o Mestre que Caspar  obrigado a sair e se ocupar bem longe do alcance de seus punhos. 
     - Bem, diga-me voc, ento, Iris - fala o Mestre. 
     - Por um nico motivo, eu prefiro o painel mais quadrado ao mais alto - diz Iris, pensando muito, mas exigindo de si mesma que seja to sincera quanto  bondosa. 
- Neste a Virgem tem cabelos escuros e mais crespos, como imagino que sejam os cabelos das mulheres florentinas. Talvez isso fizesse Maria de Medici pensar em si 
mesma... 
     - Idia idolatra! - diz o Mestre. 
     - Como a Virgem, a rainha honorria da Frana tambm se chama Maria, lembre-se - diz Iris. 
     - ...mas que idia fascinante e pertinente, com toda a certeza - continuou ele. - Bem, vamos ver como esse pensamento se acostuma a ns por algum tempo. No 
estou seguro... 
     - Presumo que no queira pensar nos seus retratos dos deformados, dos malignos, dos decados... 
     Ele nem chega a responder. 
     - Ento existe uma outra possibilidade - diz Iris cautelosamente. - Sua melhor pintura  a Jovem com Tulipas. Por que no est pensando nela? 
     - O tema  trivial, por mais bonita que seja a modelo - diz o Mestre. 
     - A maneira como o pintou  superior, e sabe bem disso - fala Iris - At eu, que nada conheo de pintura, posso ver isso.
     - Vai ofender a rainha ver uma jovem to esplndida em pleno vio e celebrada justamente por isso. Vai faz-la perceber quanto tempo escoou em sua vida... 
     - Ela j no percebeu isso, e no  por esse motivo que est encomendando o retrato final?
     O Mestre cofia a barba e com os dedos joga ociosamente ao cho algumas migalhas do caf-da-manh. 
     - Bem, vou aceitar o conselho e pensar nele com bastante tempo. Significaria ter de pedir emprestada a tela a Van den Meer. Por outro lado, pense nas pessoas 
que poderiam admir-la! Sempre  caa de investidores como ele anda, pode se dar conta de que  a recepo mais pblica que a pintura teria. E ainda que Maria de 
Medici no me d a encomenda, muitos convidados ricos estariam presentes e veriam a pintura tambm. Coisas a serem estudadas. Hmmmm. 
     Ele pensa por algum tempo, pragueja, e ento se lembra de Iris. 
     - Agora que aquele irritante Caspar se ausentou por alguns momentos, diga-me o que a trouxe aqui. 
     - Pediu-me que fosse sua assistente, no est lembrado? - diz Iris. 
     Diante disso o Mestre se vira e olha para ela como se pela primeira vez naquele dia. 
     - Existem muitos itens de mexerico hoje, ento - diz ele com ternura. - Esta  uma notcia to importante como o rumor de que uma rainha estrangeira vem danar 
com seus ps antigos em nossos assoalhos republicanos. As primeiras coisas em primeiro lugar! Por que no me disse isso quando chegou? E no fez outra coisa seno 
carregar pinturas para l e para c!
     - O que se espera que uma assistente faa? - pergunta ela avidamente. 
     - Carregar pinturas - diz ele. - V chamar Caspar l fora e tirem essas pinturas da minha vista antes que eu sucumba  tentao de cobri-las com uma camada 
de leo lamacento e apague todas as minhas esperanas de imortalidade. O trabalho vem em primeiro lugar e o desenho depois. Mas o desenho vir, minha Iris. Antes 
de sair daqui hoje, voc vai desenhar.
     
     
     
     
     
     
     
     
Espinha e cavidade
     
     
     
     
E
 ela desenha.
Supe que a habilidade vai guiar as pontas de seus dedos, que linhas bem formadas vo sair do lpis no momento em que comear. Certamente o talento  uma coisa enrolada 
bem no fundo da pessoa, esperando para ser exercitado e, ao mais leve convite, se desdobrar, se agitar, se far conhecer? 
     O talento, ao que parece, no  to insistente. 
     Ela bica o papel com pequenos traos. Apaga-os e comea de novo. Contm-se, esperando que o papel a instrua. Bate nele com a mo. No vai atender s suas expectativas. 
Talvez no tenha nenhuma. O Mestre disse: 
     - Observe as pequenas coisas e as desenhe. 
     Ela esperava uma ma, uma castanha, um ovo. Em vez disso, ele encontrou para ela uma concha de porcelana de alguma praia da frica. 
      evasiva, ao mesmo tempo esmaltada e porosa, uma superfcie complicada por reflexos, profundezas, manchas. A concha est pousada num ngulo, como uma clava. 
Ela a odeia. No pode captar sua ponta mais humilde, muito menos o modo como sobrecarrega o seu espao com espinhos, costelas, volutas, uma haste ou espinha que 
se enrola como papel, um pequeno crculo de minsculos pontos mais ornados do que qualquer tiara que a elefanta Maria de Mediei pudesse usar num baile. 
     O Mestre no lhe presta nenhuma ateno, mas se desloca para o outro lado da sala, onde risca uma tela com amplos traos de carvo verde. Ela chora um pouco 
ao sentir o vigor do Mestre e o seu prprio medo. Quando enxerga Caspar mexendo-se na sala dos fundos, pendurando uma panela sobre a brasa para ferver alguma gua 
e esmagar alguns tubrculos e razes para transform-los em sopa, ela enxuga as faces com o dorso da mo. 
     - Olhe s - diz Caspar, chegando logo depois. - Veja como borrou bonito as mas do rosto com aquele giz vermelho. Voc tem um belo osso aqui e aqui... 
     Ele toca o seu rosto. Ela abaixa os olhos ao cho. O papel  uma selva de rabiscos indecisos, que em nada se parecem com uma concha. Parecendo apenas fracasso. 
     - E do cor ao seu rosto tambm - diz Caspar, erguendo o queixo dela. 
     - No estou aqui para pintar a mim mesma - diz ela, mais ferozmente do que pretendia. - Estou aqui para esboar um irritante acidente da natureza. Veja como 
ele brande suas pontas para mim! Eu quero mat-lo. 
     - No est vivo - diz Caspar. - Desenhe-o e vai faz-lo viver. 
     - Deixe-a em paz - diz o Mestre num tom bem-humorado e distante. 
     - Voc tem de olhar antes que possa erguer um crayon - diz Caspar. - Ele no lhe disse isso? 
     - Ela sabe olhar - diz o Mestre. 
     Caspar no lhe d ateno. Puxa uma banqueta de trs pernas e se empoleira nela. Seu ombro est poucos centmetros abaixo do de Iris e rola na direo dela. 
A qualquer momento poderia toc-la. Ela tem medo de que isso acontea, poderia recuar, no de horror, mas do simples choque fsico, assim como um invisvel percevejo 
animado s vezes salta de uma pilha de roupa lavada limpa e ensolarada e estala nas pontas dos seus dedos. Ela deseja prestar ateno a suas palavras e no ao contorno 
dolorosamente suave do seu ombro, como ele se avoluma junto s cordas do seu pescoo esguio. 
     -  uma coisa bruta para se desenhar, com certeza - Caspar diz. - Pense com o que se assemelha a concha. 
     - No se assemelha a nada que eu j tenha visto antes - diz Iris. 
     - No se assemelha a nada na natureza, ou na casa ou no celeiro do homem? 
     - No  como um gato, uma flor, uma mesa ou uma nuvem - diz Iris.
     - No  como um grande boto de flor - diz Caspar - arrancado de um caule grosso e colocado de lado? 
     - Nunca vi um boto grande e vistoso assim - diz Iris, e ento, com um corao abatido, lembra-se da aparncia da me em seu novo garbo naquela manh. 
     - No  como um carrinho de mo, ento? - diz Caspar. - Equilibra-se numa ponta nesta extremidade e o seu volume repousa assim e se voc pudesse imaginar duas 
hastes em vez de uma como os caibros no eixo... 
     - Nunca vi uma concha marinha com rodas e esta tambm no  assim - diz Iris.
     Ele tenta de novo. 
     - Ento no olhe para ela buscando uma semelhana. Eu retiro a sugesto. Olhe para ela por seu prprio conjunto de propores. Aqui. Aperte os olhos quase at 
se fecharem. De modo que possa ver apenas um borro de uma concha marinha. Consegue fazer isso? 
     Ela fecha seus olhos inteiramente e pensa em Caspar, mais rapaz do que borro, pele mais de porcelana do que uma concha marinha cabelos mais eriados, voz mais 
calmante, rapsdica... 
     - Preste ateno - diz ele, um tanto impaciente. Ela obedece 
     - No pense em particularidades - diz ele. - Pense em formas genricas. Se pudesse fazer dois gestos com sua mo atravs do papel e precisar investir esses 
movimentos nas linhas mais significativas desta forma borrada, que movimentos seriam? 
     Ela encolhe os ombros, mas consegue primeiro fechar o punho e depois abri-lo, para representar o grosso da cavidade da concha numa extremidade e a haste adelgaada 
na outra. 
     - E a voc tem a sua primeira lio - diz ele. - Agora faa estas duas marcas, sem ter medo de como se relacionam uma com a outra ou com a concha diante de 
voc. Simplesmente varra estas marcas na pgina, como se estivesse desenhando na farinha sobre a mesa de fazer po. 
     - No se esquea de dizer a ela para respirar, piscar e engolir a saliva de vez em quando - diz o Mestre, zombando de leve. 
     - Ensinou-me tudo isso - diz Caspar ao Mestre, embora seus olhos no deixem as mos de Iris sobre o papel. - Simplesmente no sabia que estava ensinando. 
     - Eu devia ter-lhe ensinado a se afogar na vala - diz o Mestre. 
     - Fique com o seu trabalho e ns ficaremos com o nosso - diz Caspar. Iris espera por uma resposta irada, mas o Mestre apenas abafa uma risada e, ela v, se 
comporta. 
     Ela tem um calombo desajeitado e uma tentativa de esboo de uma espinha na pgina. 
     - Nada mau. Conversam um com o outro. Um dom natural para o apropriado peso no esboo - divaga Caspar. - Agora  simplesmente uma questo de olhar para os detalhes 
e ver o que voc v. 
     - No sei como desenhar o outro lado da concha - diz ela.
     - No pode ser visto de onde est sentada - diz ele -, por isso no o leve em conta.
     - Mas voc pode v-lo - diz ela. - Pode me dizer. 
     - Desenhar  a nica honestidade - arrisca ele. - No interprete. Simplesmente observe. No pense sobre o que v. Simplesmente veja. 
     Ela desenha a espinha, ela desenha a cavidade. Amaldioa o papel, o giz, seus dedos, a si mesma, a concha. No pode amaldioar Caspar. Mas momentaneamente, 
de vez em quando, pode esquec-lo. Lentamente a concha marinha toma forma.  uma piada de uma concha, uma abominao de uma concha, uma maldio de uma concha. Ainda 
assim,  uma concha. 
     Ela caminha para casa no crepsculo. Muitas horas mais se escoaram alm das que pretendia passar l. As luzes esto acesas em sua casa, em seu lar. Ouve o miado 
dos gatos na cozinha. No mais travessura, nada de uma volta a... 
     Ela pra. Tentou colocar de lado sua tendncia fantasiosa. Tenta pensar em termos dos quais tenha certeza.
     Nada mais de peste, pensa Iris, apressando-se.
     Mas no  a peste.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Colapsos
     
     
     
     
?N
o fique assim, me conte o que ! - diz Iris jogando de lado a capa. 
     Papai Cornelius est afundado num banco. Um ombro ergue-se mais do que o outro; no incio, Iris acha que ele est chorando. Mas seu rosto est plido e os olhos 
aparentemente secos de lgrimas, e sua expresso parece mais vazia do que qualquer outra coisa. 
     - Estamos arruinados - diz -, a maldio da nossa cobia foi a nossa runa. 
     - No fique sentado a se lamuriando - grita Margarethe. - Existem avenidas a explorar, certamente; existem tolos crdulos alm do alcance da informao que 
voc possui! V vender suas aes enquanto pode, em vez de ficar a tremendo como um palerma! 
     - No posso tirar vantagem dos meus vizinhos e concidados assim... 
     - Claro que pode, o que mais pretendia fazer? - diz Margarethe. - Seus escrpulos no o impediram de importar um novo estoque de tulipas para bulir com o mercado! 
Por que este sbito acesso de conscincia agora? 
     - A qualquer momento podemos ser atingidos pela peste, quando no pela insolvncia - diz Van den Meer. - No vou colocar minha alma imortal em perigo... 
     - Em vez disso, vai colocar em risco os corpos mortais de sua filha e de sua nova mulher e de sua famlia adotada? Quando nada mais tivermos para comer, ns 
lhe agradeceremos por ter salvado nossas almas?
     - No blasfeme, Margarethe - diz ele -, no  bonito voc fazer isso. 
     - O que aconteceu? - diz Iris. - Pelo amor de Deus, me contem! 
     -  a cobia dela - diz Van den Meer. Ele andou bebendo a sua cerveja. - Ela  a mulher do pescador: sempre querendo mais alguma coisa, e mais depois desta, 
e ento ainda mais. 
     - Quem me ensinou a cobia? - diz Margarethe. - Quem  o meu tentador e tutor? 
     - Pare - ruge ele -, no lhe ensinei nada! 
     - Pois bem, vou lhe ensinar coragem na adversidade e voc vai marchar l para fora... 
     Mas ele no est aceitando lies da mulher. No est com nenhuma vontade de marchar. Coloca a cabea nas mos e resmunga alguma histria sobre investimentos. 
     - No posso entender isso - diz Iris, virando-se para a me, olhando rapidamente para Ruth e Clara, que esto encolhidas, uma abraando a cintura da outra, 
na porta da sala da frente. - No me poupem! No sou mais to jovem e ignorante quanto costumava ser. 
     - A primavera chegou, a idia de uma monarca visitante se espalhou - diz Margarethe, com um brilho nos olhos que mostra a coragem que nasce do desespero. - 
Nos ltimos anos o valor da variedade mais nova de tulipa aumentou e aumentou, e na rua e nos sales as mesmas quantidades de bulbos eram vendidas repetidas vezes 
a preos cada vez mais altos, onda aps onda de lucro. Todo mundo sabe disso, todo mundo investiu. S eu no vi isso, pois o que sei eu de dinheiro alm da moeda 
isolada que uma mulher esperta pode esconder no seu sapato? Mas esse  o jogo que Papai Cornelius vem jogando com o dote de Henrika, investindo em aes sobre as 
quais outros podem especular.
     - Esta no  a desgraa! - diz Van Den Meer. - Isto  meramente comrcio, suprindo o que est em demanda!
     Margarethe continua: 
     - Um homem poderia pagar uma fortuna pelo valor futuro da safra de bulbos e virar-se e vender sua parcela por duas fortunas uma hora depois. Os homens compravam 
no para possuir as tulipas, mas para vend-las de novo ao comprador mais agressivo. E o valor do lote de tulipas, com o qual nos preocupamos esses meses todos, 
aumentou oito vezes desde que chegou ao porto! Um homem que nunca investiu nelas, nunca as viu, nunca suou sobre sua possvel perda nas tempestades em alto-mar, 
nunca caminhou pelas dunas em viglia e, rezando, poderia ganhar oito vezes em uma hora o que o marido ganhou em seis meses! Por que deveramos ser privadas de uma 
renda como esta?  o nosso bero humilde que nos torna inelegveis? 
     - Nascidos na alta ou na baixa classe, estamos em baixa agora - geme ele. 
     - Ento eu lhe disse para fazer o mesmo que os seus vizinhos - diz Margarethe sombriamente -, no apenas importar os bulbos e vend-los, mas arriscar um palpite 
de que haveria compradores para gastar ainda mais no lote do que ele podia! Ento eu lhe disse para comprar de volta sua parcela e vend-la de novo pouco depois, 
e reforar nossos cofres, e fazer-nos convidados condignos ao baile! Ento eu lhe disse para se sair melhor no meu tempo do que jamais se sara no tempo de Henrika, 
por mais baixa que eu seja! 
     - E o que aconteceu com as tulipas? Elas queimaram? Esto infestadas por vermes? - diz Iris, comeando a entender. 
     - As tulipas so as mesmas tulipas que sempre foram - diz Margarethe -, nem mais, nem menos bonitas. Simplesmente menos desejveis. Quem sabe por qu. Justamente 
quando ele se preparava, tendo pagado a maior quantia j oferecida, para negociar a sua venda por uma quantia ainda maior, notcias sobre doena no lado mais remoto 
da cidade comearam a ser filtradas. Um dos compradores, que tem uma fazenda naquela regio, pediu desculpas, deixou o leilo e foi verificar a sorte dos seus parentes. 
Outro comerciante afagou o queixo e disse que no podia se dar ao luxo de fazer um lance. E subitamente a atmosfera mudou e um a um os burgueses e os comerciantes 
comearam a oferecer seus prprios lotes  venda. Os bulbos haviam, por um instante, se tornado menos valiosos, embora ainda sejam os mesmos bulbos, ainda prontos 
para o plantio, ainda oferecendo a mesma quantidade de beleza. E o valor futuro, evaporado como fumaa. As tulipas no oferecem a mesma quantia de retorno e, como 
um vento subitamente soprando do leste quando mal acabou de soprar do oeste, o apetite para investir em bulbos de tulipa se tornou, em uma tarde, um desejo frentico 
de se livrar deles, de vend-los a qualquer preo que possam alcanar. Os preos caram precipitosamente o dia inteiro. 
     - Certamente iro subir de novo amanh - diz Iris, embora com dvida. 
     - J as vendi por trinta vezes menos do que havia pagado - diz Van den Meer. - Fui obrigado. Amanh podem estar valendo noventa vezes menos do que paguei por 
elas. 
     - Ento foram vendidas - diz Iris. - O que significa isso para ns? 
     - Significa - diz Van den Meer friamente - que eu devo em dinheiro e em instrumentos financeiros muitas, muitas vezes mais do que vale o meu patrimnio. Estou 
falido e no tenho recursos. Significa que vamos mergulhar na pobreza. 
     - Significa que vamos encontrar para ns uma oportunidade de ser ousados, de resgatar a ns mesmos e a nossa fortuna - diz Margarethe. 
     - No temos um ponto de apoio - diz Van den Meer. 
     - Temos um convite para um dos bailes - diz Margarethe. Ela retira da sua manga um pedao dobrado de papel creme. - Talvez voc tivesse vendido com uma falta 
de esperteza pouco caracterstica, Cornelius. Mas a chegada a salvo do seu carregamento no ms passado deve ter sido levada aos ouvidos da casa de Maria de Medici. 
Damas de destaque na corte do seu filho, dizem, usam arranjos de tulipas em seus peitos. Quanto mais rara a flor, mais deliciosa a mulher. O velho cavalo de batalha 
pode estar rompido com o filho, mas ela no  insensvel a questes de estilo;  uma rainha-me. Sua notoriedade como um importador de relevo chamou ateno para 
voc junto aos Pruyns, ou seja l quem for que est preparando a lista de convidados. Ningum vai voltar atrs neste convite. Vamos comparecer ao grande salo e 
vamos nos encontrar com a rainha honorria da Frana e com o seu afilhado. Vamos simplesmente oferecer nossas mercadorias numa praa diferente. Agora, vamos, tire 
o seu queixo salgado das mos e pare com as suas lamrias. H muita coisa a ser feita e pouqussimo tempo para faz-la! Dem-me espao para lanar o meu arpo e 
vejam s o que vai acontecer. 
     
     
     
     
     
     
     
     
4
A GALERIA DOS ERROS DE DEUS





Campanhas
     
     
     
     
P
apai Cornelius virou um boneco flcido, um ttere de trapo sem uma mo por dentro que o manipule. Est cado num banco debaixo de uma manta. No mostra nenhum interesse 
em voltar  taverna onde o colegiado que supervisiona a compra e venda de futuras tulipas se reunia, bebia e prosperava. Margarethe se ocupa dele com tisanas confiveis. 
Suas habilidades fracassam. Ela chama o mdico.
     - Um caso crtico de humores, nada mais - define o sujeito depois de um exame mecnico. - Tenho horror a doentes fingidos. Desperdiam o meu tempo. Esta  uma 
casa que teve mais do que a sua cota de infortnio este ano. Daria quase para imaginar que estaria assombrada. 
     - E o que est sugerindo? - diz Margarethe num tom glido.
     Ele sacode a cabea e muda de assunto. 
     - A molstia seguir o seu prprio curso. No h nada a ser feito. Pelo menos, no  a peste, nem - o mdico tranqiliza Margarethe -  contagioso.
     Enquanto Van den Meer mergulha cada vez mais na lassitude - s vezes no chega sequer a abrir os olhos e a responder s perguntas feitas por sua mulher -, Margarethe 
fica decidida a no se deixar dobrar sob presso. 
     - Vou organizar esta casa e vou recuperar nossas fortunas - diz ela a Iris. - Ele me culpa, mas foi ele quem aprontou a confuso. Tivesse comprado de volta 
o lote de tulipas uma semana antes, quando lhe propus, ele o teria vendido muito anteriormente ao craque. No assumo responsabilidade por sua covardia. Assumo responsabilidade 
apenas pelo futuro, no pelo passado. O passado no consegue machucar a gente da maneira como o futuro pode. 
     - No se voc sobreviveu at aqui - diz Iris sombriamente. 
     
     
     Margarethe e Iris caminham de volta do poo no Grotemarkt com bacias d'gua. 
     - Seja justa comigo e escute - diz Margarethe. - O colapso do mercado de tulipas parece ter acontecido em vrios lugares ao mesmo tempo. Se Papai Cornelius 
estivesse menos mergulhado na cerveja, ele poderia ter ouvido as notcias, aparentemente uma queda no mercado das tulipas havia ocorrido em Amsterd poucos dias 
antes. 
     Como so terrveis estes tempos, pensa Iris. Ela v muitos cidados sbrios arruinados. Algumas famlias desaparecem sob o manto da escurido, deixando suas 
casas inteiras e muito do mobilirio pesado como pagamento dos seus dbitos. Inevitavelmente,  apenas uma pequena parcela do que os desafortunados investidores 
estariam devendo. Correm rumores de suicdios. Vergonha! Escndalo! Governadores e regentes se renem para ver se haveria uma maneira de impor uma escala de pagamentos, 
uma maneira de conter a mar que se avoluma. Margarethe relata o que ouve na rua para Iris. Embora Iris acompanhe pouco daquilo, ela ouve to atentamente quanto 
pode. 
     
* * *

     Quando Iris havia passado apenas duas semanas no estdio, Margarethe a chamou na saleta usada antigamente por Henrika para gerir os afazeres domsticos. Um 
livro contbil est aberto. Uma vela derreteu quase toda. Moscas mortas em bandos compactos salpicam o peitoril da janela. 
     - Esta no  a ocasio para hobbies requintados - diz sua me. - Seu padrasto est adoentado, sua irm  um estorvo e sua me exaurida est tentando vestir 
a si mesma e a suas filhas adequadamente para o baile de Maria de Medici e do seu afilhado casadouro que se aproxima. Sua meia-irm se refugiou na cozinha e se recusa 
a atender quando batem  porta. Coisa fraca. Nada posso fazer com ela. Preciso de voc, para falar com os credores quando baterem  porta, para ser ao mesmo tempo 
aduladora e dissimulada. Est  altura da tarefa? 
     - No - diz Iris claramente. 
     E no est mesmo. Vem tentando, com um lpis, ser honesta e desembaraada. Alm do mais, seu tempo com Caspar est se tornando, pelo menos temporariamente, 
adorvel. Ele  cheio de uma espcie de vasta alegria caseira, do tipo abundante nas uvas maduras, nos alades bojudos. Pela manh, quando ela se aproxima do estdio 
do Mestre, Caspar a ouve chegando  porta e corre, ansioso como um cozinho filhote, para encontr-la vrios metros diante do prdio, como se quisesse fazer seus 
primeiros cumprimentos longe dos ouvidos do Mestre. Caspar  o tipo de homem simples - seria verdade dizer isso? Simples, sim, e tambm firme e slido. Simples no 
quer dizer superficial. 
     - No posso deixar o estdio - diz Iris. - Mame, como eu poderia? Agora? 
     - Que eu tenha feito a frase como uma interrogao  apenas mera cortesia - diz Margarethe. - Se tudo correr bem, voc ter tempo suficiente para desenhar pelo 
resto dos seus dias. Deve obedecer-me agora. No tenho tempo para discutir. 
     - Tudo  uma campanha com a senhora - diz Iris amargamente. - J amou alguma coisa sem a necessidade de subjug-la? 
     - Nunca - diz Margarethe, com uma medida de orgulho. 
     - Vou obedecer, naturalmente - diz Iris, um tanto envergonhada. - Mas no posso imaginar, depois de apenas estes poucos dias, como conseguirei viver sem a tentativa 
de desenhar. E ainda no ergui sequer um pincel! 
     - Deve erguer antes um esfrego - diz Margarethe. - Quero que o salo da frente brilhe como ouro. Vou ter uma entrevista com o fornecedor de roupas esta tarde, 
Van Antum, que confeccionou meu vestido de casamento. Ns, as Van den Meer, devemos parecer adequadas, como se recheadas de moedas escondidas. Devemos ter tulipas, 
at mesmo em casa, como se elas no nos dessem engulhos - Margarethe aponta para o vaso de tulipas de Henrika, um pilar de porcelana que se eleva a sessenta centmetros 
e se afunila como um modelo de flecha de igreja. - Cada bico deve conter um boto perfeito. Somos orgulhosas, Iris, e o orgulho nos far sair deste labirinto do 
Diabo. Voc me entende? 
     Ento Iris parte para o trabalho. Enche o vaso de tulipas com flores de botes alaranjados. Passa uma vassoura no cho em vez de um basto de carvo atravs 
de um rolo de papel. Esfrega gua com flocos de sabo atravs dos tijolos e observa como a lixvia cinzenta vai secando segundo certas padronagens. Ela admira essas 
imagens antes de enxagu-las.  o melhor que pode esperar.
     Mas de repente no consegue reconstituir a forma de Caspar na sua cabea, no consegue lembrar como ele . Lgrimas intensas caem como gotas de ch recm-preparado; 
surpreende-se com o calor delas.
     
     
     Clara s vezes se recusa a subir o degrau da cozinha. Iris tem de mudar os baldes d'gua de tempos em tempos e encontrar outros suprimentos. Ao entrar na cozinha, 
Iris observa Clara virar um ombro para ela.
     - Certamente voc no se proibiu de olhar para mim tambm - diz Iris, zangada. 
     - Estou ocupada com o cozido - diz Clara, embora nada mais haja alm de gua sendo submetida a uma portentosa fervura. 
     - Estou trabalhando duro para ajudar mame a restaurar nossas fortunas - diz Iris. 
     - Ela fez o bastante para arruin-las - diz Clara. - Pode realmente consider-la capaz de algo alm de uma incapacidade to colossal que beira a maldade? - 
Clara agita um colhero no ar, imitando uma bruxa trabalhando sobre uma poo maligna. 
     Iris fica horrorizada. 
     - Acha que ela foi maldosa no conselho que deu a seu pai? 
     - Acho - diz Clara - que a sua ganncia a cega. 
     - Ela tornou-se sua me - diz Iris -, quando voc no tinha nenhuma. 
     - Certa vez eu tive uma me - diz Clara. - Agora no tenho me, nem mesmo uma madrasta. Tenho um grande e embaraoso corvo que fala ingls e holands e que, 
como um corvo, arrebata toda coisa brilhante  sua frente, uma aps a outra. At que a acumulao do brilho engraada, na melhor das hipteses, e um escndalo horrendo, 
na pior. 
     - Vamos deixar este tpico. Voc est perturbada e eu estou exausta - diz Iris. - O negociante de roupas estar aqui em breve e preciso terminar a limpeza do 
salo. Mame est tentando tomar vestidos emprestados para que todas ns possamos ir ao baile. 
     - Eu - diz Clara - no estou indo a nenhum baile. 
     Embora Iris no conhea realmente os planos de sua me, ela diz com firmeza: 
     - O convite  dirigido a toda a famlia Van den Meer. Se ela disser que voc tem de ir, voc ir. 
     - Bobagem! - diz Clara. - Olhe s para mim! Meus cabelos esto cados, minhas costas doendo e meus joelhos em carne viva. Minhas mos esto rachadas e feias. 
Tenho um pai para cuidar e uma cozinha para limpar.  tudo o que quero. Nada do lado de fora, por favor. Especialmente no me exibir como uma rameira. 
     - Voc no pode ser to perversa assim - diz Iris. - At eu estou disposta a me vexar, a me mortificar com roupas requintadas e me abalar indo a um evento horroroso, 
se isso pudesse melhorar a nossa condio aqui. Eu, a monstruosamente feia dentre ns... 
     - Oh - diz Clara -, por favor, no h nada monstruosamente feio em voc. Ruth pode ser desagradvel, mas voc  meramente sem graa. Se existe algo em tudo 
isso,  a minha beleza que  monstruosa, pois ela varre para longe qualquer outro aspecto do meu carter. E por que est to segura de que Margarethe quer que eu 
comparea? Oua, agora, uma batida  porta. 
     - Faa-o entrar enquanto eu termino o tapete do corredor! - murmura Iris.
     Clara fala asperamente, ainda que meio sussurrado: 
     - Eu no vou. No vou atender  porta, no vou entrar no salo, no vou me mostrar a ningum, nunca mais, nem mesmo na privacidade desta casa. 
     No na privacidade de minha prpria casa, nota Iris, mas nesta casa.
      como se Clara no morasse mais aqui. 
     - Voc  to egosta!, recusar meu pedido de ajuda! - replica Iris e abandona o seu trabalho para correr at a porta.
     Van Antum, o negociante de roupas, entra, um homem que Iris reconhece da rua. Conforme planejado, Margarethe est sentada numa sala dos fundos, fazendo-o esperar. 
     - Por favor, fique a vontade - diz Iris. - Tem tabaco, se desejar fumar, e posso trazer um copo de alguma bebida para refresc-lo. 
     - No gostaria de nada, no, por favor - diz Van Antum.  gorducho e agitado e cheira a limes e cerveja derramada. 
     Margarethe entra desfilando no salo. Tomou emprestado um conjunto do guarda-roupa de Henrika.  mais encorpada do que Henrika era e o olho detalhista de Iris 
v o tecido da saia esticado nas costuras em torno da cintura. Mas Margarethe desenvolveu um jeito alvoroado de coquete que desvia os olhos de tais mincias. 
     - Que bom o senhor ter vindo - diz Margarethe num ar afetado, quase como se tivesse um duque em sua sala de estar, em vez de um negociante. - No devia receb-lo 
sozinha, pois no  adequado, mas meu marido est... - ela faz uma pausa bonita, teatral - indisposto, Iris, antes de sair para cuidar de sua irm, queira, por favor...? 
     Faz um gesto com a mo. Iris obedece, embora isso a faa sentir-se tola. Vira-se como uma criana sendo submetida a uma inspeo de limpeza. Faz ento uma mesura 
para o velho senhor panudo e sai da sala com tanta dignidade quanto consegue juntar. 
     -  o tamanho padro para uma jovem menina. Talvez um pouco mais como um varapau do que a maioria - Margarethe est dizendo. - E sua irm  o oposto, um verdadeiro 
boi. Um adorvel boi, mas um boi de qualquer maneira. Pode ajudar-nos? - Sua voz se eleva provocantemente no final, quase numa maneira francesa. Iris tem de se agarrar 
 beira da parede saindo da sala para se impedir de chorar de revolta. Palavres que ouviu pronunciados pelo Mestre e por Caspar sobem-lhe aos lbios;  um esforo 
no bot-los para fora. - Estou certa de que o senhor vai saber adornar duas belas jovens. A recompensa - sua me est dizendo - poderia vir a ser considervel.
     Que recompensa  essa? No h moedas suficientes na casa para cobrir o fundo de uma panela. 
     - Clara? - chama Margarethe. - Pode vir por um momento  porta? 
     No incio Iris pensa que Margarethe quer que Van Antum tome as medidas, mentalmente, da bela forma de Clara, a fim de preparar uma roupa para o baile a que 
Clara se declina com firmeza a comparecer. Mas quando, depois de vrios pedidos de Margarethe, Clara finalmente aparece, soturna e coberta de cinzas, Iris coloca 
a mo sobre a boca, percebendo um pensamento to horroroso que sente vergonha dele. 
     - Ela no  realmente um tesouro? - diz Margarethe. 
     A boca de Van Antum manifesta sua aprovao em slabas de beb sem palavras. Passa uma mo sobre a outra como se as estivesse lavando. 
     - Estou seguro de que posso fazer algo que a agrade, algo que lhe d satisfao - ele consegue, finalmente, dizer. 
     - Algo muito melhor do que aquilo que estou vestindo agora - diz Margarethe. - Algo muito imponente se faz necessrio. 
     - Algo muito imponente de fato - diz o negociante de roupas, os olhos colados em Clara at que ela desliza de volta para as sombras. Seu queixo comea a tremer. 
- Acho que a coisa mais imponente de que eu for capaz.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
A galeria dos erros de Deus
     
     
     
     
T
odo dia Margarethe volta do mercado com mais histrias sobre a rainha honorria de Frana, Maria de Medici. Parece que a maioria do Haarlem alivia sua preocupao 
com o pnico financeiro atravs de mexericos sobre a grande elefanta. Iris se apega a cada retalho de opinio e notcia. 
     A rainha honorria  velha, talvez tenha 65 anos de idade.  pastosa, rubicunda e estpida, bem como altamente interessada pelas coisas e dotada de estilo. 
As pessoas sussurram que o seu marido, Henrique IV, tinha uma concubina diferente reservada para cada dia do ano. 
     - Eu o teria envenenado por isso - diz Margarethe brandamente. - Mas no admira que ela se dedique aos negcios de Estado. 
     A grande Maria exerceu anos de servio como regente durante a infncia do seu filho. Ento, quando o pequeno Lus XIII ficou grande o bastante para abraar 
sua me com uma faca na mo, Maria ergueu exrcitos contra ele. O cardeal Richelieu - a quem ela considerava no mais do que um domestique promovido - falou publicamente 
contra ela. Com frustrante regularidade ele conseguiu escapar s tentativas de assassinato empreendidas pela rainha. 
     - Quo aborrecido para ela - diz Margarethe. Agora Maria est na sua senilidade, exilada em segurana nos Pases Baixos espanhis, embora a reputem como gozando 
de uma espcie de doce reconciliao com o filho. 
     Como se as intrigas da corte fossem to comuns s lnguas de Haarlem como arenques, as velhas comadres sussurram que nos seus ltimos anos ela se cansou dos 
afazeres do governo. Comeou a se afeioar, em vez disso, aos trabalhos de cortesos, primos e sicofantas. O Fim a est olhando de frente e ela tenciona mexer com 
o mundo tanto quanto possvel antes que a Morte tenha a ousadia de a estrangular. Mexer com o mundo e deixar um registro disso. 
     - Por que os gansos caminham descalos? Porque o fazem;  por isso que os gansos caminham descalos - dizem as comadres de Haarlem sabiamente. Por que a rainha 
honorria de Frana se mete nos afazeres do seu afilhado? Ora, para que mais servem os afilhados? O que mais existe de bom na vida? 
     Os orgulhosos esticos da Holanda acham as histrias dos feitos de Maria tolas e fascinantes. Embora riam dela como se fosse uma tola, ainda assim  uma tola 
poderosa e cativante. Os holandeses podem ser carrancudamente tolerantes para com sua prpria Casa de Orange em Haia, mas realeza de uma diferente ndole, seja a 
dos Stuart, a dos Bourbon ou a dos Habsburgo, goza de um prestgio diferente. Rubens j no fixou a memria de Maria de Medici no Palcio de Luxemburgo como uma 
figura da Histria, algum grandioso como Carlos Magno ou Joana d'Arc? E ainda assim a rainha-me persiste no palco do mundo, estridente, conivente, orquestrando 
seus passatempos, bulindo com o material disponvel. 
     - Ela no  diferente do seu Schoonmaker - diz Margarethe a certa altura para Iris, cujos olhos se arregalam diante dos relatos de tais intrigas. - Ela pinta 
com vidas de verdade em vez de pintar com pincis e cores vividas. No vamos viver para ver outra igual. 
     - Conte sobre o prncipe - diz Iris. - Aquele que ela espera encaminhar para o casamento. 
     -  um primo distante, ou o filho de um primo distante - diz Margarethe, vagamente. -  isso mesmo, um afilhado. No consegui saber muito a seu respeito, pois 
 parte regular da corte e pouco se sabe dele. Chama-se Philippe de Marsillac. Talvez seja um dos ltimos elos que a rainha tenha com seu filho, pois se comenta 
que Philippe se movimenta livremente entre a corte de Lus XIII e a corte no exlio da rainha honorria. Talvez ela queira casar seu afilhado com algum que acintosamente 
no pertena a qualquer famlia real da Europa para impedir qualquer possvel uso dele como um agente contra si mesma. Quem pode saber como as cabeas coroadas administram 
suas vidas domsticas? Mas seu objetivo  claro. Ela no  nem mais nem menos uma agente matrimonial para este jovem, do mesmo modo que qualquer tia conivente ou 
comadre faladeira ao lado da lareira. 
     - Ela parece no ter corao - diz Iris. - Sem corao e monstruosa. 
     - Aprecio o seu zelo - diz Margarethe suavemente. - Por que no deveria organizar o mundo para o seu contentamento? No  o que todos ns faramos, se pudssemos? 
     - O que a senhora no faria para o seu contentamento? - diz Iris. 
     - Muito pouca coisa - diz Margarethe, erguendo o queixo.
      o que eu receio, diz Iris, mas para si mesma. 
     
     
     Seus receios se confirmam uma tarde quando Margarethe vai at o estdio do Mestre. Insiste em que Iris a acompanhe; talvez Margarethe queira se certificar de 
que nenhuma impropriedade seja relatada por vizinhos curiosos. Ela pretende abordar o Mestre em busca de um emprstimo. 
     - Aquela pintura da Jovem com Tulipas restaurou suas fortunas - raciocina com Iris enquanto caminham apressadamente Cornelius e Henrika reativaram a carreira 
de Schoonmaker. Ele lhes deve algo. Deve algo a mim. 
     - No lhe devo nada - diz o Mestre, quando perguntado. - Alm do mais, no faria diferena se eu devesse. Vocs no so os nicos em dificuldades no momento. 
     - Voc investiu em futuros de tulipas? - grita Margarethe. 
     - Oh, eu, no - responde ele. - Quando  que tenho tempo de deixar meu estdio? Embora outros pintores o tenham, e sofreram com isso. Caspar, meu espio em 
todas as reas, contou-me que Franz Hals perdeu uma fortuna e que o jovem Rembrandt em Amsterd, de quem todo mundo fala sem parar, tambm est em m situao. 
     Ele sufoca um risinho maldoso. 
     - Eu teria perdido o dinheiro se pudesse ter-me concentrado em faz-lo. Mas do jeito que as coisas vo, j que todos os meus patronos esto mergulhados em dvidas, 
terei sorte se for pago pelas encomendas j existentes, sem pensar em garantir novas encomendas de trabalho para breve. Por isso  de extrema importncia que eu 
exponha meu trabalho para a grande Maria. 
     - Mas eu queria tomar algum dinheiro seu emprestado - diz Margarethe de novo, mal acreditando. 
     - No tenho o mundo nas minhas mos. Simplesmente querer no vai lev-la a lugar algum.
     Ele est  procura de um esboo enquanto fala, colocando de lado velhas pinturas. O lugar tem andado uma grande confuso desde que Margarethe saiu para a casa 
dos Van den Meer. Por fora do hbito, Iris vai ajud-lo e at Margarethe lhe d uma mo, como se a sua generosidade levasse o Mestre a se lembrar de alguma pilha 
escondida de florins. 
     - No sabe como estamos habituadas a sofrer - diz ela. 
     - O sofrimento fortalece as pessoas - diz o Mestre. - Vejam o que fez por mim. 
     - No pode vender algo daqui que ainda no tenha vendido? - Margarethe cerra os lbios diante das trs Fugas para o Egito, onde a santa me Maria est alternadamente 
recatada, corajosa e sonolenta, mas sempre um modelo da forma humana perfeita. Margarethe olhando para Maria  como uma cegonha olhando carrancuda para um cisne, 
pensa Iris. 
     - Sabe que o mercado para pintura religiosa est em baixa - diz o Mestre. 
     - Pode vender a Menina Feia com Flores Silvestres e nos dar metade do preo? 
     - Eu pintei em cima da tela - diz o Mestre -, uma vez que ela deixava Iris triste. 
     - E quanto a estas outras? - Margarethe nunca demonstrou interesse pelo catlogo de aberraes do Mestre, mas est desesperada. - Os temperamentos andam sombrios! 
Talvez tenha at uma avalanche de ofertas... 
     - Quer ver estas? - As sobrancelhas do Mestre se levantam. - Julgue por si mesma se vo atrair os compradores potenciais. Vou mostrar-lhe se quiser. Mas voc, 
Iris? Depois de todo esse tempo? 
     - Eu vi a peste levar embora Rebekka - diz Iris -, foi mais horrvel do que se possa imaginar. 
     Mas Iris quer ver se ele pintou o diabrete da casa de Van den Meer. No tem certeza de acreditar em tal coisa agora, mas ela a reconheceria se a visse. No 
reconheceria?
     Com uma chave pesada o Mestre descerra a porta da galeria dos erros de Deus.  outro aposento de p-direito alto, originalmente talvez um galpo para armazenar 
ferramentas agrcolas. Uma parede  de pedra e trs foram emboadas com reboco de lama e caiadas. O Mestre puxa a ponta esfarrapada de uma cortina que cobre uma 
janela alta. A luz jorra para dentro do espao mofado. Das pinturas penduradas bem no alto perto dos caibros do telhado, das pinturas pousadas  altura da cintura 
sobre estrados de madeira bruta que as protegem do cho mido, rostos piscam ou parecem piscar. Elas voltam  luz de novo. 
     Relutantes, fazendo caretas, patticas e bestiais. 
     - Misericrdia! - diz Margarethe, a mo sobre o corao.
     Iris enfia os dedos nos cordes do avental. 
     - Eu penso neles como amigos - diz o Mestre -, pois no somos todos machucados assim?
     O ano que Iris conheceu, l est ele, capturado na tela. O Mestre o havia pintado, afinal, ou ela o teria inventado? 
     - Deus criou esses erros - diz o Mestre, como se lendo seus pensamentos. - Eu simplesmente fiz o Seu ditado. 
     Apesar de toda a bravata que o ano demonstrara, ele parece desconfiado de ser visto. Mantm uma mo bem aberta sobre o sexo, embora sua outra mo erga de lado 
a tnica para mostrar uma cicatriz misteriosa pintada no seu torso, uma mancha vermelha no formato de uma ncora de navio. 
     - Um drago! - diz Margarethe, olhando mais adiante. 
     - Uma ovelha com um ventre expelido - diz o Mestre. - Olhe mais cuidadosamente. J estava morta quando a vi. 
     - Seguramente isto  um drago! 
     - Se voc tem certeza - diz o Mestre. 
     Uma criana com o rosto de um papagaio. Outro ano, e um terceiro ano - toda uma srie familiar deles. H a Menina-Menino de Roterd, pintada nua, todos os 
seus revoltantes castigos  mostra. Um cachorro com uma papeira que parece um po. Um par de irms sentadas to prximas que s uma pele  necessria para cobrir 
a ambas, uma aflio do tipo que Iris e Ruth imitaram quando da brincadeira da Menina-Veado da Campina. 
     As irms grudadas olham para Iris e pedem desculpas. A Menina-Menino olha para Iris e diz: no sei por que sou assim, mas me perdoe. A criana com cara de papagaio 
 jovem demais para falar, mas guincha e berra pedindo piedade. 
     - A Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo - diz Iris, encontrando-a. 
     - A Velha Senhora Goos se chamava assim? - diz o Mestre, divertido. - Para voc? s vezes ela diz que  to velha que  Bertha, a me de Carlos Magno. Ela  
a Rainha de Sab.  capaz at de se gabar, blasfemando, de que  a prpria av de Deus. 
     A Rainha das Ciganas de Queixo Barbudo fixa o seu olhar sobre Iris. Seu ar no  nem de remorso, nem de raiva. Ela  mais feia do que Ruth ou Iris jamais poderiam 
ser, enrugada e pustulenta, com mos calosas e dentes marrons. Apia-se sobre suas bengalas como se estivesse caminhando pela mesma rua nesses ltimos mil anos. 
Ela diz para Iris: e o que vai fazer de si mesma? 
     Mas, antes que Iris possa responder, Margarethe interrompe seus pensamentos. Margarethe j se fartou. Est recuando, afastando-se dos patas-de-rs, das bestas 
e dos amaldioados. 
     - Voc  um demnio, Luykas, para estudar estes pecadores assim - diz ela. - Olhe para o seu trabalho! Numa sala, a santidade to perfeitamente retratada que 
beira a idolatria, na outra, a maldade venenosa reencarnada e caminhando entre ns. Voc pinta o belo e o feio, mas e quanto ao que est no meio deles? 
     Ela est se procurando numa pintura, como todos fazemos, pensa Iris. Margarethe est tentando se localizar no mundo. Ela ficou terrivelmente apavorada. 
     - A Jovem com Tulipas est no meio - diz o Mestre -, o aqui, o agora. Clara, uma menina real da Holanda, retratada com fidelidade. 
     - Qual  o uso da beleza? Qual  a conseqncia disso? - diz Margarethe. 
     Iris pensa: uma vez na vida, Margarethe esqueceu-se da sua meta. Ela veio olhar essas pinturas para observar o seu interesse para os compradores. Mas foi enredada 
pelas idias contidas nas pinturas. 
     Margarethe prossegue com mpeto. 
     - A beleza das flores, a beleza das meninas, at mesmo a beleza da pintura, este  o tema do seu trabalho. E quanto  beleza da bondade? Quanto ao ato esplndido? 
A questo de Parsifal, o gesto do samaritano na estrada? E quanto  viva que d o seu nico vintm? 
     O Mestre diz, em voz baixa e em tom de desafio: 
     - E o que saberia voc dessas coisas? 
     No tribunal dos demnios, na galeria dos erros de Deus, Margarethe endireita os ombros e responde a ele. 
     - S aquele com o p defeituoso conhece plenamente a beleza de correr. S aquele com o ouvido prejudicado pode apreender como deve soar a msica mais suave. 
Nossos males nos completam. Que ns, em nossas almas pecadoras, possamos sequer imaginar a caridade... - Ela no consegue prosseguir, por um momento. - Podemos nem 
sempre ter condies de praticar a caridade, mas que neste mundo ns a consigamos sequer imaginar! Aquele ato de ousadia requer o maior talento, maior do que o Mestre 
possa possuir... 
     O Mestre se sente humilde diante da estridente Margarethe. 
     - Como queira - diz ele - Que seja assim. Todos ns fazemos o que podemos. Meu trabalho  ver e testemunhar. 
     A umidade da sala se torna aparente. No h nenhum diabrete aqui, por mais que Iris procure. 
     - O que pode t-lo levado a uma obsesso to perversa como tudo isto que vemos aqui! - diz Margarethe. 
     - Eu olho com arrependimento, no com lubricidade - diz o Mestre acaloradamente. - E no sou o primeiro a faz-lo.
     Ele remexe num guarda-roupa descado encostado num canto e tira um pequeno painel. 
     - Este  o ponto de partida. No  meu, apresso-me em dizer. Estranho painel de mistrios e misrias, no ? Feito por um dos artistas flamengos. Eu o comprei 
do estdio de Arentsz quando era aprendiz em Amsterd. Um dos Bosch, eu acho. Um estudo, incompleto na parte superior esquerda. Leve-o para a luz se quiser dar uma 
olhada. 
     - No creio que queira - diz Margarethe. - Quem desejaria? 
     -  fabuloso e inquietador. Um retrato de um mundo mgico. Evito olhar para ele s vezes durante anos, e ento, de vez em quando, eu o examino como se nunca 
o tivesse visto antes. 
     - Faz meus olhos doerem - diz Margarethe. 
     Mas ela e Iris arrastam o painel at uma mesa e o colocam  luz da primavera. 
     - No tenho certeza de que essas coisas sejam adequadas para voc ver - diz Margarethe numa voz aptica, mas est to curiosa em relao  pintura que se esquece 
de empurrar Iris para longe, e ento as duas examinam o painel. Se isto  o mundo mgico!, ou se  um sonho, ou uma profecia de algum tipo? A paisagem  rosa e azul, 
entrecortada por estranhas montanhas no formato de torres. Mas cada parte da paisagem est igualmente prxima, e cada parte abriga criaturas, pssaros, flores e 
seres humanos, numa conjuno ridcula e chocante. 
     Uma mulher nua com a cabea de um pssaro est aprisionada numa bolha de vidro. Dois homens sem roupas sopram trombetas cujas campanas desaparecem nos seus 
respectivos traseiros macios. Uma menina olha para fora dos lbios de um imenso girassol, presa nele. Um homem defeca moedas de ouro numa fatia de po que uma mulher 
est ocupada tentando enfiar na boca. Um beb com uma mitra de bispo empurra um homem de costas para dentro de um poo. Demnios cabriolam carnalmente com homens, 
mulheres, filhotes de ursos e plantas. Uma doce menina apoiada nas mos e nos joelhos parece ter uma vinha nascendo do meio de suas pernas e da vinha pendem uma 
pra, uma ma e um violino.
     - Isto  uma pintura feita pelo prprio Diabo - diz Margarethe. 
     - Olhe, mame - diz Iris. - Aqui em cima neste canto. 
     H um homem morto flutuando num amplo campo d'gua. Est nu, cinzento como a pele de peixe velho. Acima dele um pssaro negro paira de asas abertas. O pssaro 
arrancou os olhos do cadver. Podem-se ver os dois olhos no bico do pssaro, um ao lado do outro, olhando do insignificante canto da tela diretamente para o espectador. 
Entre todas as dzias de criaturas em situaes de desgraa ou talvez de deleite desenfreado -  difcil dizer -, estes so os nicos olhos que espiam o espectador. 
     - No posso olhar mais para isso, meus olhos doem - diz Margarethe. - Eles fervem com pequenos fantasmas. O que no mundo estamos ns fazendo aqui, afinal? 
     - Voc veio para entender que eu no tenho dinheiro para emprestar - diz o Mestre. - E nada desta galeria interessaria ao chefe de famlia de Haarlem. - Ele 
no parece feliz em recusar o pedido dela, nem parece desolado. - Ponha a pintura de volta onde a encontrou. 
     - No vou tocar nesta coisa vil - diz Margarethe. - Sou uma boa crist. 
     - Oh, estou vendo - diz o Mestre. - Pois bem, deixe-a a ento. Caspar a devolver ao devido lugar quando voltar. 
     - Caspar - diz Margarethe. - Suponho que lhe deu todo o dinheiro que poderia ter dado a mim. 
     - Ele  meu aprendiz, no o meu banqueiro - diz o Mestre. - Vai tentar me perturbar para que eu lhe empreste dinheiro? No h nenhum para ser emprestado. Tenho 
os meus prprios problemas. Talvez devesse ir embora. 
     Ele comea a acenar para que saiam, como arrependido de ter baixado a guarda. 
     - Pensei que poderia aprender alguma simpatia. Mas  aquela velha histria: os desafortunados do mundo existem apenas para nos levar a aumentar a nossa prpria 
auto-estima. 
     - Seu tolo pomposo, deixe o julgamento de Deus cair sobre ns dois para ver como  que nos samos! - grita Margarethe. - Iris, venha. 
     A caminho de casa Margarethe esfrega os olhos. 
     - Desgraa! Estes olhos esto enfeitiados. Caspar, e pinturas como aquelas na casa! Deviam ser queimadas. Arruinar um jovem desta maneira. Que provavelmente 
merece ser arruinado. Oh, eu vejo como Caspar olhou para voc. No se deixe enganar. Suas atenes so todas para nos desviar de suas verdadeiras preferncias. No 
sou nenhuma boba neste mundo, acha que no sei? 
     Ainda mais do que o catlogo dos erros de Deus feito pelo Mestre, a velha e arranhada pintura de pessoas num mundo mgico alarmou Margarethe. 
     - Mame, esta  uma ocasio difcil para a senhora - diz Iris -, no quero falar sobre Caspar. Vamos apenas nos preocupar com o baile, se  que realmente vamos 
comparecer. J no h o bastante nas nossas cabeas sem termos de censurar as outras pessoas? 
     - A beleza no tem nenhuma utilidade - diz Margarethe, seguindo seus prprios pensamentos. - Ela no tem conseqncia. No oferece nada ao mundo. Voc est 
muito melhor sem ela, minha pobre filha.
     
     
     
     
     
     
     
     
Cinderela
     
     
     
     
A
t mesmo no seu aconchegante canto, Clara est se voltando cada vez mais para dentro de si. Vira sempre a cabea para longe das salas da frente, desvia o olhar quando 
Margarethe chega  porta para se queixar, exigir ou, de vez em quando, manifestar apreciao, Iris observa, primeiro com o olho de um artista, e ento com o corao 
ressentido de uma irm. Poderia uma beleza como Clara ser, apesar de tudo, um dos erros de Deus? 
     - Clara - diz ela um dia -, voc est se tornando uma freira diante de meus olhos. 
     Clara ergue o olhar da sua batedeira de manteiga. Seu rosto est branco e vidrado com o esforo, mas ela no cede a tarefa para que Iris possa ajud-la. 
     - Pode me chamar de irm Cinderela - diz. - Ficaria feliz em fazer os votos e viver sob a promessa de silncio, se me fosse permitida a solido. 
     - Ainda no comeamos a passar fome, no h necessidade disso - diz Iris com um horror adequado. 
     - Que escolhas temos ns, com papai em seu colapso e uma louca no leme da casa? - diz Clara. 
     - No fale tais coisas - diz Iris, e ento, a contragosto,  forada a esclarecer, acrescentando: - Estou segura de que Papai Cornelius vai se restabelecer. 
     - Ento voc no contesta a loucura de sua me - diz Clara. Seu tom cido contradiz a posio suplicante dos ombros e a cabea abaixada sobre a batedeira. 
     - No me pea semelhante traio - diz Iris. - Por favor! 
     - Ela est louca - diz Clara. - Pequenos passos em direo ao asilo de loucos ainda nos faro chegar l. 
     - Asilo de loucos ou asilo de pobres, qual  a sua escolha? - diz Iris, mas no  capaz de colocar a cabea na discusso e no sabe por que est defendendo 
a me. 
     Clara apenas ergue os olhos. 
     - No estou sugerindo que o caminho de uma pessoa nesta vida seja fcil - diz ela. - Por que discutimos, Iris? Voc e Ruth so tudo o que restou de minha antiga 
vida, a vida que aparentemente s viria a ser complicada por um excesso de felicidade. 
     - Seu pai vai se recuperar - diz Iris, com um pouco mais de bondade. Ela procura farinha na despensa para que possa preparar alguma massa de po, mas s h 
alguns vestgios de p de farinha no pote de cermica. Ela volta e pergunta a Clara onde foi parar a farinha do dia, se a massa do po j foi colocada para crescer, 
mas esquece a tarefa quando v os ombros de Clara sacudindo. - Oh, querida irm - diz Iris, atravessando o aposento at ela -, seu pai vai se recuperar! 
     - Ele mal me reconhece! - diz Clara. - Toda a sua vida foi varrida para longe.  como se os seus olhos tivessem sangrado suas memrias e olhassem sem ver! 
     - Eu sei como  - diz Iris. Ela se esfora para escolher o que vai dizer a seguir. - Sofrimento e preocupao assumem muitas formas.  simplesmente uma espcie 
de doena, mas ao contrrio da peste ou da pstula, no  fatal. Ele vai se recuperar. Vai mesmo! Voc vai ver! E deve fazer o que puder para ajud-lo. 
     Clara pestaneja para ela. Em sua vida nunca lhe pediram muito para ajudar.  uma proposta que parece no compreender. Vai alm dela. Enxuga os olhos. 
     - Ele est ali mas parece que se foi. Seu corpo est quente e guarda o seu cheiro, mas no mais do que uma pilha de vestimentas retm o aroma e o calor do corpo 
quando se afasta delas para se banhar. Ele no lhe deu muita ateno ou muito tempo, ento como poderia saber, mas eu sei: ele no  o homem que era. Dificilmente 
chega a ser um homem,  apenas uma coleo de hbitos corporais, alimentao, respirao, necessidades fisiolgicas, gemidos durante o sono. No v como foi reduzido 
a nada? 
     - Isso  uma indulgncia, essa piedade e horror - diz Iris friamente. - Voc sabe o que tem de ser feito e ele vai voltar para voc.  um bom homem e est alquebrado 
pela preocupao, mas no est morto, Clara. No do modo como meu pai morreu. 
     Iris pra, o pensamento do homem flutuando na gua, seus olhos no bico do pssaro...
     ...e continua. 
     - D-lhe tempo para repousar e tudo ficar bem. 
     - Voc  mais velha do que eu, Iris, e viu tristeza no seu tempo, mas no sabe tudo a respeito do mundo. Deixe-me com a minha dor. 
     - Vou encontrar a maior chave que puder e tranc-la no seu claustro, se quiser - diz Iris. - Enquanto voc se lamria, pelo menos a louca est trabalhando, 
arduamente como sempre, para resolver o dilema em que todos nos encontramos! Se fosse menos crtica, poderia ajudar mais!
     Clara perde a pacincia finalmente e grita: 
     - Ruth? Voc est a, Ruth? Venha cantar para mim como sabe cantar to bonito? Ruth? Tem um mosquito borrachudo irritante na cozinha dizendo coisas que no 
entendo. Preciso de distrao. Ruth, venha cantar para mim. 
     Ruth aparece de alguma tarefa no jardim que lhe foi dada,  altura da sua ateno e de suas habilidades manuais. Sorri para Iris e ajoelha-se diante da batedeira 
de manteiga. Cantarola uma srie de slabas sem sentido, longos sons ocenicos livres dos estalidos e baques com que as palavras de verdade comeam e terminam. Apesar 
disso, o som desfocado , de uma certa maneira vaga, musical, e Clara comea a bater a manteiga de novo, ritmadamente. 
     Iris tenta dizer: 
     - E quanto a mim, quanto quilo que estou sacrificando, agora que recebi a ordem de abandonar o estdio? 
     Mas o incio de sua frase se perde entre os rudos de Ruth e ela no pode acab-la, pois seu pensamento  to cheio de autocomiserao quanto qualquer dos pensamentos 
expressados por Clara, e Iris sente vergonha. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Van Stolk e Van Antum
     
     
     
     
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arreguem-nos! Carreguem o lote todo! Que bons ventos os levem!
Credores chegam e levam em carroas todo o estoque de bulbos de tulipas, sacos e sacos de bulbos, cada bulbo farfalhando como se dentro de seu prprio invlucro 
de papel. Os credores tambm levam aquelas flores plantadas em fileiras de uma dzia e de vinte em cada cuba. Margarethe queixa-se de feridas nos olhos - "Desde 
que vi aquela pintura do mundo mgico feita pelo Diabo, todas aquelas bestas e flores imorais!" - e leva as mos aos olhos em frustrao como para limp-los de uma 
pelcula, de uma crosta. Ainda assim, supervisiona os procedimentos. Observa com uma boca amarga e ordena a Iris que faa um registro de cada negcio no papel. A 
linguagem em que se faz o comrcio  salgada ou obsequiosa, mas Margarethe nunca abaixa o queixo ou a voz. Seguramente Papai Cornelius, lentamente calcificando em 
seu estupor na cama, consegue ouvir atravs das cortinas como Margarethe est desmantelando a sua propriedade. Se entende o que est ouvindo , naturalmente, outra 
questo. Ele fala pouco ou quase nem fala. 
     Mas um dia ele emerge, vestido pela metade e com um ar desmazelado, ao som da voz rouca de Nicolaes van Stolk.  o homem que abordou Clara no enterro da sua 
me, o cidado com peito de barril que berrou as ms notcias na noite em que a tempestade ameaava o carregamento dos bulbos de tulipa. Van Stolk chegou com quatro 
rapazes espadados para passear pela casa de Van den Meer e vistoriar o mobilirio. Parece que Van Stolk pagou o emprstimo feito pelos cervejeiros aos Van den Meer 
e agora estes esto em dbito com ele. Tenciona fazer uma proposta a Margarethe relativa ao que poderia levar em troca do que lhe  devido. 
     - Tiraria at mesmo os ossos de nossa pele, no ? - silva Margarethe.
     - No me adiantariam muito, pois no poderia revend-los com lucro - diz Van Stolk jovialmente. - Bom-dia, Van den Meer. Momentos difceis chegam para todos 
ns. 
     No demonstra nenhuma aparncia de que momentos difceis tenham chegado para ele nos ltimos tempos. 
     - No precisa se incomodar com este visitante cansativo - diz Margarethe ao marido, no que passa por caridade, mas  realmente uma tentativa de apressar sua 
negociao sem interferncia. - Volte  sua cama e mandarei Ruth ou Iris levar algo quente para voc beber. 
     As meninas tentam fazer com que Van den Meer se afaste. 
     - Por que est passeando dentro da minha casa? - diz Van den Meer a Van Stolk. 
     - Gostaria de algumas das pinturas - diz Van Stolk. - No so todas do mais alto calibre, e as pinturas perderam o seu valor nesta poca em que o mercado foi 
inundado por elas. Mas vou oferecer-lhe um preo justo por poucos itens adorveis e deduzir a soma da quantia que me deve. 
     - Pinturas - diz Margarethe, interrompendo o que poderiam ser as objees do seu marido -, elas vo e vm to rapidamente quanto os estilos das roupas e o gosto 
por pregadores.  melhor abrirmos espao para trabalho de melhor qualidade, que em breve poderemos adquirir. Por que no nos desfazermos de bens de menor qualidade 
enquanto podemos... 
     - Silncio, sua harpia - diz o marido. - Saia da minha casa, Van Stolk, antes que tenha de for-lo com meus prprios punhos! 
     - Vou dar uma olhada na pintura da Jovem com Tulipas - diz Van Stolk calmamente, ignorando-o. - Na minha opinio,  a nica pea boa aqui. 
     - No vai sequer olhar para ela! - Van den Meer d um passo  frente e o passo se transforma em corrida. At Margarethe se encolhe diante do choque esperado 
de dois corpos masculinos bem crescidos. Mas os quatro rapazes usam seus braos e retm Van den Meer para trs enquanto Van Stolk atravessa o vestbulo e abre a 
porta como se fosse o dono do edifcio. 
     - Aqui est, uma obra maior por um artista menor - grita. - Esplndida como eu me lembrava dela. O tema inspirou o artista a pncaros de realizao que ele 
nunca mais atingir.  difcil distinguir o que  mais magnfico, a beleza da garota ou a sensvel habilidade do trabalho, mas suponho que isso no tenha importncia. 
Isto  o que a arte faz, confunde os sentidos para magnificar a apreciao do corao. - Ele examina a tela, carinhosa e avaramente. - Aquelas jias que a menina 
est usando no so de Henrika? Alcanariam um belo preo. 
     - Creio que foi enterrada com elas - diz Margarethe. - No pense que eu no revistei as gavetas e os armrios. Se quiser se dar ao trabalho de desenterrar o 
seu corpo, ser bem-vindo, contanto que nossas contas ganhem o devido crdito. 
     Van Stolk ri, quase admiravelmente. 
     - Voc  diablica. Vamos, rapazes, subam nesta mesa e retirem o quadro da parede. 
     -  a pea mais valiosa na casa - diz Margarethe estridentemente, repetindo pela qinquagsima vez a frase com que conduziu todos os visitantes recentes atravs 
da casa. 
     - Como a casa foi desnudada da maioria dos objetos mais preciosos do seu marido, no est dizendo muito quando fala isso - observa Van Stolk. 
     - No vou aceitar isto! - ruge Van den Meer. 
     Clara vem da cozinha por causa de todo o barulho. Aperta as mos nas faces. Sua primeira reao  de alegria, ao ver seu pai dirigir-se a um visitante, mas 
quando v quem  o visitante, e como seu pai ficou agitado, ela arremete contra ele. 
     - Deixe a pintura ir embora desta casa, papai - murmura Clara. - Deixe-o lev-la, ele  apenas um abutre. Alm do mais, detestei o quadro.  uma pintura de 
esperanas vs e no faz justia a mim. 
     - Voc j mudou em relao  menina na pintura - grita o pai. - Olhe s para voc! Uma garota de cozinha! Margarethe, o que est fazendo com minha filha? 
     - Venha comigo - diz Clara -, venha embora, papai, quase nem est vestido. 
     - Minha Clara - diz o pai, mas quando estende as mos  para a menina bonita e sorridente na pintura, no para a verso mais plida da mesma filha que agora 
o envolve com os seus braos. - Clara, no me deixe como Henrika o fez! 
     Ele comea a soluar. 
     - J tenho um comprador potencial para esta pea - diz Van Stolk ao orientar o deslocamento da pintura porta afora para o sol da primavera. 
     Mas Van den Meer recuperou suas foras. D um passo diante da tela e diz: 
     - Vou decidir se a vendo para voc dentro de poucas semanas, se eu precisar. Criticou-me por me entregar  especulao e vejo que  um dos primeiros a lucrar 
neste declnio. No me considere tolo a ponto de no notar isso. Mas a pintura no  minha para que possa dar a voc neste exato momento. Se a tirar de minha casa 
sem a devida permisso, a lei o acusar de roubo. Eu o estou informando disso em alto e bom som na presena de testemunhas. 
     - Do que est falando? - diz Van Stolk. 
      Luykas Schoonmaker, o pintor, procurou-me na semana passada e pediu-me permisso para levar emprestada a pintura a fim de mostr-la na exposio para a rainha 
visitante. 
     - Nunca me contou isso! - diz Margarethe. 
     - Voc tinha sado atrs de algum esquema. Ele bateu  porta e Clara o levou ao meu quarto - diz Van den Meer. -  minha casa, Margarethe, e minha filha, e 
minha pintura, e concordei com os termos do emprstimo. 
     - Que termos so esses? O que ele est pagando? - diz Margarethe. - Iris, anote a. 
     - No est pagando nada. Estes so os termos - diz Van den Meer. - A caridade no exige menos e, quando desistimos da caridade, desistimos de nossas almas. 
Acha que no aprendi nada neste ano difcil? Pronto, j disse o que tinha a dizer. Retire a pintura  fora destes aposentos, Van Stolk, e estar violando a lei. 
Mandarei o xerife e seus suplentes atrs de voc imediatamente. 
     Van den Meer no fica para ver o que acontece, mas se vira e sobe as escadas. Clara o segue, dando-lhe uma mo de apoio. Van Stolk resmunga para Margarethe. 
     - Eu poderia requisitar o prdio inteiro se quisesse. No me provoque, senhora Van den Meer, pois no h nada em sua maneira que suscite uma reao calorosa, 
at mesmo no peito mais generoso da cidade, que visivelmente no  o meu. 
     
     
     No faz uma hora que Van Stolk saiu e outra batida na porta convoca Margarethe.  o negociante de roupas de novo, Gerard van Antum, com algumas amostras de 
rendas e o primeiro corte de anguas e saias para provar nos quadris ossudos de Margarethe. Iris o encaminha at o salo que d para a rua. 
     - Eu aceitaria um sherry - admite ele enquanto se ocupa ao redor de Margarethe com alfinetes e olhares tcnicos, tomando flego. Sua obesidade no o ajuda na 
profisso.  como uma imensa almofada de alfinetes ambulante, superacolchoado. 
     - Creio que estamos sem sherry - diz Margarethe. Ela inventa um acesso de tosse para omitir a informao seguinte, de que no h nada no guarda-loua para substituir 
o sherry. Dentro de alguns dias, neste ritmo, no haver mais nem guarda-loua. 
     - Deixe-me dar uma olhada na bela menina, ento - diz Gerard van Antum. 
     - No at que eu tenha uma roupa terminada - diz Margarethe. 
     - A senhora se esquece - diz o negociante de roupas -, eu ainda estou com os alfinetes nas minhas mos. 
     - E quando os colocar em mim, ter sacrificado suas armas e ento ser a minha vez - diz Margarethe com uma risada alegre forada. - Em vez de sherry vou oferecer-lhe 
uma taa de chocolate e refor-la com um sabor capaz de faz-lo arrotar o fgado pela goela. 
     Ele deixa cair as mos; seus alfinetes esparramam-se pelo cho. 
     - Aprenda comigo, Iris, sei conduzir uma conversa espirituosa, no? - diz Margarethe. - Estou praticando para quando me encontrar com a rainha honorria de 
Frana. 
     - O tecido que escolheu cai muito bem - diz Van Antum numa voz humilde. 
     - Fico deleitada ao saber que aprecia meu gosto - diz Margarethe. Lana um olhar severo atravs da janela. - A gente ouve o mexerico que cada lngua de mulher 
faz nas melhores ruas da cidade. Por que realmente veio Maria de Medici exibir o seu afilhado aqui? 
     - Ele tem a reputao de possuir um bom olho para a pintura - diz Van Antum. - Ela conta com o seu gosto na seleo do seu ltimo retratista. E existem outras 
razes. 
     - Por favor, diga. 
     Mas Van Antum cerra a boca afetadamente na direo de Iris. Margarethe suspira e tenta outra abordagem. 
     - Clara? - chama.
     Ruth atravanca a porta da cozinha. 
     - Eu queria Clara - diz Margarethe. 
     - Menina das Cinzas - diz Ruth. 
     Margarethe assusta-se ao ouvir slabas compreensveis da boca de Ruth. 
     - Menina das Cinzas? - diz ela. No est tanto questionando as palavras de Ruth, como o fato de que puderam ser pronunciadas. Sua voz sobe de registro, como 
se enraivecida. - Menina das Cinzas? 
     Clara aparece ento, empurrando Ruth para trs, para dentro da cozinha, a fim de aplacar a mar de aparente reprovao de Margarethe. 
     - O que foi? - diz ela com cansao. 
     - Desde quando Ruth consegue cham-la de Menina das Cinzas? - diz Margarethe. 
     - Ela aprendeu a cantar algumas palavras - diz Clara. - No tenho a menor idia de como conseguiu. 
     - No sabe como, Menina das Cinzas? - diz Margarethe. - Menina da Fuligem, P de Cinza, voc no tem a menor idia?
     - Passamos muito tempo na cozinha - diz Clara -, cantando e contando histrias. Ela est ficando com mais idade tambm e ouve bem. 
     O negociante de roupas no se interessa pela melhora na fala de Ruth. Suas mos caram at a barra da saia de Margarethe e ele a agarra como para se impedir 
de vacilar nos joelhos diretamente para o cho. S viu Clara uma vez antes, e daquela vez ela desaparecera sem uma palavra. 
     - Apresente-me - murmura ele a Margarethe e a toca de leve no tornozelo para chamar sua ateno. - Apresente-me, por favor? 
     - Ora, muito bem - diz Margarethe. - J nos decidimos quanto ao tamanho do rufo, e sobre o senhor me arranjar um par de gotas de prolas para pendurar em minhas 
orelhas? No consigo localizar os brincos de diamante de Henrika. Vou desenterrar o seu caixo, se for preciso... 
     Van Antum est paralisado demais para responder a essa cmica fanfarronada. 
     - Al - murmura -, al, al. 
     - Estamos de acordo, ento - continua Margarethe. - Sim, pois bem, vou lhe dizer: esta  a minha enteada, Clara van den Meer. No ligue para a sua sujeira. 
No h nada que lhe agrade mais do que fingir que  uma empregada. Ns a chamamos de Cinderela de brincadeira. Cinderela - diz Margarethe, como que para comprovar 
-, Cinderela, no fique parada a to sorumbtica. Cumprimente o nosso bom Gerard van Antum e ento, se puder fazer a gentileza, prepare para ele uma bela caneca 
de chocolate quente. Iris, v ajud-la. E ento, meu caro senhor, pode me contar mais a respeito de Philippe de Marsillac e por que ele precisa de ajuda para encontrar 
uma noiva.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
A noite antes do baile
     
     
     
     
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ai ser o acontecimento mais elegante realizado em toda a Holanda Protestante este ano! E tanto excesso e tantos gastos pecaminosos! 
     Existem muitas ocasies para que os cidados de Haarlem reprovem, Iris observa, mas no muitas pessoas que recebem os preciosos convites chegam a recus-los. 
Melhor observar em primeira mo, toda a famlia vai querer saber sobre os excessos.  a atitude da maioria das pessoas. E elas mantm os sapateiros ocupados com 
as novas encomendas inspiradas nos ltimos modelos importados de Paris. 
     Muitos consideram uma boa ocasio para um baile. A maioria daqueles que sofreram no colapso do mercado das tulipas vendeu tudo o que tinha e foi embora, ou 
ento, como Margarethe, est tentando corajosamente continuar como se as melhores perspectivas estivessem  sua frente. E quem pode dizer que isso no  verdade? 
Na famlia das naes, a Holanda ainda  uma ave recm-nascida no ninho... Nascido de uma algaravia de pequenos fazendeiros e pescadores, um punhado de provncias 
se tornou uma nao de comerciantes internacionais que compartilham um sentimento crescente de destino. A brava conversa de mercado confirma justamente isso. 
     "Aqueles que caram vo se levantar."
     "A Holanda no recebe o melhor ar do oceano todo dia e respira os pensamentos mais novos? No  o prprio oceano nossa grande estrada a ser galopada em corcis 
de madeira e velas de pano?"
     Quem se importa que as velhas e os pregadores, usando vocabulrio diferente uns dos outros, murmurem jeremiadas de que otimismo em excesso faz mal  alma e 
atrai talvez mais ateno de Deus do que, estritamente falando,  desejvel? 
     Mas Maria de Medici est singrando a cidade como um galeo, com seu afilhado, dotado de uma beleza profunda e de uma bela posio social, Philippe de Marsillac. 
Dizem que tem um bom olho para a pintura e que sua madrinha confia na sua opinio. Mas como  possvel que ele no esteja equipado para selecionar uma esposa para 
si mesmo? Um olho para a pintura tambm sugere um olho para a beleza feminina, certamente? Ou ser um retardado? 
     Apesar de tudo, ele foi visto, e ela tambm; Haarlem no  to grande que uma pessoa possa se esconder facilmente, ou esconder o seu sobrinho. E ela  grosseira 
e inconveniente, e ele o oposto dela em todos os sentidos. 
     
     
      medida que o grande dia se aproxima, Iris e Ruth sucumbem s vrias provas que o modista insiste ser necessrias. Iris pode ver que Van Antum est abalado 
diante do esplendor de Clara van den Meer, e que Margarethe limita o aparecimento de Clara a uns poucos momentos depois de cada sesso. Mesmo com seus olhos continuando 
a doer e a falhar, Margarethe dirige tais ocasies com fineza. Ela chama "Cinderela!" e ento faz Clara parar quando se aproxima, dizendo: 
     - No se mexa, deixei cair um alfinete e voc vai pisar nele. 
     E assim Clara, iluminada por trs pela luz do sol que penetra na porta da cozinha e se reflete nos azulejos recm-lavados, paira como um anjo catlico, seus 
cabelos louros escapando da touca num nimbo, sua prpria curvatura imobilizada para evitar alfinetes cados, dando-lhe um ar de algum que acabou de ter descido 
do cu. 
     Margarethe manipula Clara ainda mais tortuosamente quando Nicolaes van Stolk visita a casa. Ficou claro que o seu interesse pela pintura da Jovem com Tulipas 
 simplesmente uma mscara para o seu interesse pela modelo. Primeiro Margarethe manda Ruth subir para sentar-se ao lado de Papai Cornelius e garantir que ele no 
saia da cama. Ento Iris  chamada em funo do recato. Margarethe fecha as portas do salo da frente para que Papai Cornelius no possa ouvir. 
     - Nossa Duende das Cinzas? A coitadinha foi derrubada por um resfriado. No pode ouvi-la espirrando no canto da lareira? 
     - No posso - diz Van Stolk irritado. 
     -  a coisa mais estranha.  medida que meus olhos falham, minha audio melhora - diz Margarethe. - Posso ouvi-la at enxugando os olhos, pois ela gostaria 
de vir e apresentar-se pessoalmente ao senhor, mas se encontra num estado deplorvel e no gostaria que a visse to trmula e vulnervel. 
     Van Stolk tosse e se ajeita na cadeira. 
     - Eu seria capaz de tolerar isso - concede ele. 
     - Bobagem - diz Margarethe. - Eu no ousaria. A teoria do contgio tem alguma validade e eu jamais me perdoaria se o senhor fosse assolado ainda que por uma 
simples coriza logo antes do baile. 
     - No tenho nenhuma inteno de prestar homenagem  rainha honorria de Frana! - diz Van Stolk, aprumando o corpo. 
     - No, claro que no - diz Margarethe em tom apaziguador. - O senhor no tem uma filha disponvel para desfilar diante do cobivel Philippe de Marsillac, nem 
tem uma esposa que o obrigue a ir para que possa comparecer levada pelo seu brao. Deve ser muito solitrio s vezes. 
     Ela sorri, mas, Iris nota, sem a sua velha habilidade de flertar.  medida que sua viso deteriora, o mesmo ocorre com seu status de coquete; sua atrao existe 
agora somente nas filhas que est criando. 
     - Mais cerveja para o cavalheiro - diz Margarethe para Iris, que se adianta e serve. - Eu bem que poderia arranjar algum dinheiro para comprar um novo par de 
sapatos - Margarethe continua. - Os maravilhosos sapatos de pelica que mandei fazer para mim vo ser inadequados, receio. Com meu passo vacilante, tenho a tendncia 
de bater no cho e nas quinas de paredes ou de mveis e as marcas no couro branco so ofensivas. Mas o sapateiro no quer me dar mais nenhum crdito. Poderia aborrec-lo 
com o pedido de um pequeno emprstimo? 
     - Eu esperaria alguma cauo - diz Van Stolk. 
     - Ouvi nossa Cinderela envolvendo o seu peito com o xale - diz Margarethe suavemente. - Sente frio e precisa se aquecer. Que coisa desgastante para ela. Nem 
a cozinha com o calor de suas chamas consegue satisfaz-la. Eu a colocaria na cama num instante se achasse que ela concordaria com isso. Na cama ela ficaria aquecida. 
     Van Stolk cede diante das campanhas de Margarethe e lhe d algumas moedas para um novo par de sapatos. O sapateiro  convocado na hora e Margarethe exige um 
par de sapatos escuros elegantes com a fivela mais brilhante e maior que o p de uma senhora possa sensatamente suportar. Ou talvez rosetas de sapatos? 
     - Voc ou Ruth podem ficar com os sapatos brancos - diz Margarethe. 
     Mas os ps enormes e espalmados de Ruth so grandes demais e os ps de Iris estreitos demais. Os belos sapatos brancos, quase sapatilhas de bal, tm um corte 
muito baixo. Mesmo que Iris coloque um bocado de enchimento, no vai poder impedir os sapatos de escorregarem fora dos seus ps e de matraquearem os saltos no cho 
enquanto caminha. 
     - Quando minha vista melhorar - diz Margarethe -, vou conseguir manobrar naquelas sapatilhas de novo. Guarde-as, Iris, e vamos pensar na questo dos seus cabelos. 
     Estudam os cabelos de Iris. Esto flcidos e sem brilho. Margarethe os lava com ovos e estende mechas sob a luz. 
     - Minha vista est ficando pior - grasna - ou os seus cabelos ficaram com uma cor ainda menos agradvel do que a de costume? 
     - No posso mudar a cor dos meus cabelos  vontade - diz Iris. 
     - De que adianta ser uma pintora se no  capaz de pintar a si mesma? - diz Margarethe. 
     Ruth  ainda mais difcil de lidar. Seus cabelos tm toda a energia e abundncia que falta a Iris. O problema  domar aquela exuberncia. Mesmo presos com laos 
e toucas, os cabelos de Ruth parecem ter poderes miraculosos de escape. A nica soluo  cortar uma boa parte deles e esperar que Ruth possa manter sua touca na 
cabea. Mas e se o estilo francs exigir que as mulheres retirem suas toucas num baile? Este  o tipo de detalhe que atormenta Margarethe e que aborrece Iris. Quanto 
a Ruth, ela corre de volta  cozinha assim que lhe permitem. Roupas esplndidas, sapatos novos e inovaes no seu escalpo! Iris pode ver que o baile vai aterrorizar 
a sua irm. Estar Clara l para acalmar Ruth? Iris ainda no est segura. 
     
     
     A casa foi despojada pela metade do seu mobilirio. Todos os luxos de Henrika se foram, mas algumas cadeiras, mesas e guarda-roupas permanecem. Involuntariamente, 
Iris v como a luz cai diferentemente em aposentos mais vazios.  uma luz de primavera, h um toque de verde nela, que chega quando o sol se filtra atravs das folhas 
tenras das tlias. Iris nunca esperou viver num prdio to bonito, por isso a idia de deix-lo em breve parece apenas um retorno ao modo normal de vida difcil. 
Mas ela sabe que ser um tormento para Clara, que a esta altura evita at se aproximar de uma janela ou parar diante de uma porta aberta, caso Van Stolk esteja do 
outro lado. 
     
     
     Iris est na cozinha, tentando ajudar Clara a preparar uma refeio com o que lhes sobrou na despensa, quando Margarethe chega estrepitosamente, para revistar 
os armrios de novo na esperana de achar colheres de prata ou jias sumidas que ela possa penhorar.  uma tarefa infrutfera, mas Margarethe est obcecada com a 
idia de que a riqueza de Henrika era ilimitada. 
     - No nos resta muito para comer - Clara diz a Margarethe. - Estamos reduzidos a quase nada. Vamos pedir ajuda aos regentes do orfanato do Esprito Santo em 
breve. 
     - Falaram-me que no aceitam mais crianas acima dos sete anos de idade - diz Margarethe. - Mas no se preocupem. 
     - Van Stolk vem reclamar a posse da casa no dia seguinte ao do baile! - diz Clara. - O que vai fazer? Quer dizer que papai ficou to arruinado por esta crise 
que se qualifica para o asilo dos velhos, onde pode tomar sol no ptio com os outros indigentes desdentados? 
     - Voc se preocupa  toa - diz Margarethe. - Passei pelo Oudemannenhuis muitas vezes. Os regentes o administram bem. Todo mundo  mantido limpo e quieto. 
     - E o resto de ns - indaga Clara, com desprezo. - Suas filhas e eu nos qualificamos como solteironas para sermos acolhidas numa das hofies? 
     - Pena que nunca tenha aprendido a ser uma costureira - diz Margarethe. - Ainda h tempo. 
     - E voc vai escapar sob o manto da noite e voar na sua vassoura para destruir a felicidade de outra famlia? 
     Clara falou com ardor e desdm, mas Iris se assusta e derruba a chaleira no cho de tijolos. Margarethe espia de uma para a outra o melhor que pode. 
     - Ento Iris est inventando histrias, no ? - diz Margarethe friamente. 
     - Eu, nunca...! - grita Iris. 
     - No, estou segura de que nunca o fez - diz Margarethe. - Clara, a enraizada, faminta de sol, simplesmente inventa uma histria destas da sua prpria cabea. 
Maravilhoso, Iris. Obrigada. Agora vamos lembrar as tarefas centrais do dia e abandonar o interesse por tais mexericos? Precisamos comer. Ns j passamos fome antes, 
Cinderela, embora talvez a fome seja uma novidade para voc. 
     - A fome nos emagrece, mas a peste pode nos fazer inchar e vicejar, durante uma hora antes de morrermos... - diz Iris. 
     - No zombe de sua velha me cega - diz Margarethe, brandindo uma bengala. - Colocarei comida em suas bocas antes que se passem trs dias, anotem o que estou 
dizendo. Vocs me consideram uma tola como meu marido incoerente, mas no entreguei os pontos ainda. Philippe de Marsillac vai ter voc como sua noiva, Iris. Espere 
para ver. 
     - A senhora est louca - diz Iris. - Sua cegueira est escoando dos seus olhos para o seu crebro. Esquece a aparncia de sua filha e a aparncia das outras 
ao nosso lado. No somos dignas de ficar atrs de um canteiro de flores. No somos aceitveis para levar os patos at o aude. O que eu posso oferecer a um prncipe 
que qualquer outra mulher de Haarlem no possa? 
     - Voc tem resistncia - diz Margarethe duramente. - Voc a herdou de mim. 
     - Toda a Holanda tem resistncia, esta  a qualidade essencial da Holanda - grita Iris. - Est mentindo para si mesma porque no consegue encontrar outra sada! 
     - Posso encontrar outras sadas e posso enxergar mais do que voc pensa - diz Margarethe. - Talvez a nuvem de escurido nos meus olhos tenha amortecido o aspecto 
anguloso do mundo para mim, mas vejo outras coisas que no conseguia ver antes. Vejo como as pessoas se preocupam e como suas vidas esto limitadas e presas ao longo 
desta linha. 
     Ela estende a mo para uma faca; talvez v tentar podar um pouco dos cabelos incrveis de Ruth. Meio cega como est. 
     - No sei disso por mim mesma, com meu prprio terror da pobreza e da fome me corroendo noite e dia? Mas sou mais astuta do que a lua, minhas meninas, porque 
estou cega agora s aparncias. Este jovem casadouro tem um olho para a pintura,  por isso que est aqui. Voc  uma das nicas jovens mulheres de Haarlem a tentar 
a mo na pintura... 
     - Fiz esboos uma ou duas vezes! Est enfeitiada pela preocupao e infla minhas habilidades como uma bolha de sabo - diz Iris. - E todas as bolhas estouram. 
     - Sempre temos Cinderela para leiloar a quem oferecer o maior lance - diz Margarethe. 
     No h nada de imprprio na sua observao.  direito e dever de uma me amplificar as fortunas da famlia. Mas Margarethe no disse isso com esta franqueza 
antes e a sala fica em silncio. 
     - No pretendo ir ao baile - diz Clara em voz baixa. 
     - Eu diria que no - fala Margarethe. - Uma vez pelo menos concordamos. Mas vou lhe dizer por qu. Por mais agradvel que seja a sua aparncia, voc no  uma 
garota inteligente como Iris. E nada possui no seu rosto em matria de bondade humana. Mas se fosse ao baile teria uma boa oportunidade de atrair a ateno de Philippe 
de Marsillac. Colocaria minhas filhas nas sombras. Se ele a achasse digna de conquista, voc permitiria que isso acontecesse e nos largaria a todas. Desapareceria 
dentro de outra vida, e ns no ficaramos em melhor situao do que antes. Na verdade ficaramos pior, pois tambm tenho o seu pai para alimentar at que ele volte 
ao seu estado normal. 
     - Eu no abandonaria meu prprio pai! - diz Clara. 
     - No, talvez no - concorda Margarethe com sagacidade -, mas no se ofereceu para apoiar sua madrasta e suas meias-irms com a mesma paixo. Se seu pai morrer, 
como bem poderia ocorrer, de um esprito partido ou de uma bolsa partida, seus laos com sua famlia madrasta estaro partidos tambm. No tem nenhum sentimento 
de obrigao em relao a ns, e por que deveria ter? 
     - Mas voc me casaria com o negociante de roupas ou com Van Stolk? - diz Clara. 
     - So homens locais, e em funo do seu trabalho um homem precisa mostrar-se generoso com os parentes de sua esposa - diz Margarethe. - Se voc se casar com 
Van Stolk, poderamos todas ficar nesta casa. 
     - Eu preferiria morrer - diz Clara. - Ele  uma ave de rapina, um corvo. 
     - Mas que escolha tem voc? No quer nem sair de casa, e se Nicolaes van Stolk se tornar o dono desta casa e vier a possu-la e morar aqui, ele ter de possuir 
voc tambm... 
     - Irei para o mato. Seguirei a trilha de cavalo para Amsterd ou Leiden. Encontrarei meu moinho e me enterrarei na sala da criana-duende. Me afogarei no Haarlemsmeer. 
     - Conversa, conversa. Voc que  tmida em cada soleira de porta. 
     Margarethe parte ofegante, e a faca que ela empunha parece fazer vrios comentrios prprios ao retalhar o ar. 
     - Voc no deseja ir ao baile? - diz Iris suavemente. 
     - Esta casa est para vir abaixo com todas as manobras dela - diz Clara. - Dentro de uma semana estaremos arruinados. Ela est vivendo na sua mente enlouquecida. 
Mas no vou me casar com Van Stolk, no depois de como ele tratou meu pai. Preferiria matar meu pai e a mim mesma.
     - Voc deveria ir - diz Iris. - Vamos ao baile! 
     - Pare com isso - diz Clara. - Estou levando este barrilete de gua quente e mel l em cima para papai. Ele se acalma ao me ver quando a tarde cai. Sem isso, 
fica agitado. Breve chegar o dia em que no poderei fazer mais isso. 
     
     
     Iris segue Clara pelas escadas dos fundos e ao longo do corredor at o quarto da frente. Van den Meer deixou a cama mas est sentado vestido pela metade, com 
um olhar vtreo. 
     - Papai, ajeite suas roupas, tem uma mulher de visita - diz Clara na porta, e Van den Meer fecha o roupo. 
     -  um jogo de verkeer-spel, no ? - resmunga. - O jogo das alternativas. Tudo pode acontecer.
     Clara lhe oferece a mistura, que ele bebe sem aparente alvio. 
     - Todas as coisas mudam, papai. O senhor sabe. 
     - E voc tambm, minha criana-duende. 
     - Como assim? - diz Iris. No pode se conter. Clara parece mais velha, atravs de todo esse desastre; ela deveria ser capaz de responder agora. - Onde estava 
voc antes de se tornar uma criana-duende? 
     Clara senta-se pesadamente numa banqueta e corre as mos pelos azulejos pintados da parede, como se os seus desenhos azuis mostrassem imagens do seu passado, 
em vez de Caim e Abel, No e o dilvio, Moiss com as tbuas da lei. 
     - Eu era uma criana boba e feia - diz Clara -, uma criana m que no gostava de minha me. Escapei da barra do seu avental e encontraram-me e me transformaram 
numa boa menina. Fizeram-me bonita e obediente e me deram beleza e dons musicais e de linguagem. 
     - Fizeram isso no moinho? - diz Iris. - Colocaram-na num buraco no moinho e lhe ensinaram msica? 
     Clara encolhe os ombros e acena com a cabea. Um fantasma daquele velho olhar, uma verso mais fina, transparente, flutua-lhe no rosto. 
     - Quem fez isso com voc? - diz Iris. No pode se conter. Vira-se para Van den Meer e pergunta: - Foi o senhor? 
     - No fui eu - ele no fica sequer ofendido com a acusao. - Nunca soubemos quem foi. 
     - Foram os pssaros-espritos que se juntam em bandos nas margens do Haarlemsmeer - diz Clara.
     Van den Meer sacode o queixo com agrado e diz: 
     - Foram provavelmente malfeitores da Anturpia passando pela cidade. Ou, quem sabe, as Ciganas de Queixo Barbudo. 
     - Papai! - diz Clara com rispidez. 
     - Conte-me - diz Iris, colocando seu ombro entre os rostos de Clara e do seu pai. 
     Um hbito de reticncia de uma dcada abandona Van den Meer to facilmente quanto o seu entusiasmo pelos negcios. Ele conta a Iris, enquanto Clara aspira o 
ar em pequenos goles, um-dois-trs, um-dois-trs. 
     - Henrika havia ido ao mercado trazer lagostas e limes. Clara tinha trs ou quatro anos, uma criana vida e ambiciosa, cheia de energia nas pernas e vento 
nos pulmes. Era difcil de cuidar e Henrika a perdeu de vista na multido. Acho que foi no entardecer da vspera de um feriado. Clara era bem conhecida nas ruas 
na poca, afvel e despreocupada, e ficamos apavorados. Espervamos que alguma alma boa a encontrasse e trouxesse para casa. 
     - Foram os espritos que me acharam! - sussurrou Clara. - O pssaro. 
     - Mas veio a noite ainda sem nenhuma notcia. Henrika me fez chamar os guardas cvicos e o schout, o xerife, e seus homens tambm participaram da busca. Haarlem 
adora suas crianas. E adorava mais ainda Clara van den Meer, filha de Cornelius van den Meer e, mais importante ainda, filha de sua rica e importante esposa, Henrika 
Vinckboons! Cidados e milcia tambm se juntaram  busca, mas era aterrorizador, pois quanto mais lugares pensvamos em procurar, mais desolados ficvamos ao verificar 
que no estava l. Recevamos que tivesse tropeado e cado num canal e se afogado. Ou pior. 
     - No foi nada assim - diz Clara. - Nada assim, nem remotamente. A longa viagem de barco ao outro mundo, onde eu seria modificada. Minha pequenina casa debaixo 
do assoalho. Era quente. Havia um cobertor. Havia doces gostosos e frutas e o esprito com voz de serrote cantava para mim quando eu chorava. - Clara balana um 
pouco, como se tivesse um beb nos braos. 
     - Uma carta foi encontrada enfiada numa das venezianas da frente de nossa casa. Devolveriam Clara se Henrika lhes desse uma quantidade de florins dentro de 
uma arca. Era metade da fortuna dos Vinckboons. Rapidamente tivemos de nos organizar para vender as fazendas nos arredores da cidade que rendiam aluguel. No sobrou 
muito alm desta casa e o que havia dentro dela. Mas Henrika, me extremada, no queria saber de mais nada a no ser fornecer o que era pedido e ter Clara de volta. 
     - No tinham uso para florins - diz Clara. - Queriam me transformar numa boa menina, era tudo. Consolaram-me e me mantiveram aquecida. 
     - Durante trs dias - diz Van den Meer - aodei o schout e seus homens para se lanarem em buscas cada vez mais furiosas, oferecendo recompensas quase iguais 
 quantia pela qual Clara estava sendo resgatada. Alguns suspeitavam de uma manobra dos espanhis, infiltrando-se em Haarlem e desmoralizando a cidade antes de um 
ataque. Alguns adivinharam que eram as bruxas querendo o sangue da criana para o seu sacrlego sab. 
     - Eram bonitos - diz Clara. - Eram bondosos. Os espritos da gua. 
     - E Henrika ficou louca de medo. Ento pagamos o dinheiro do resgate, deixando-o  noite no meio da floresta conforme nos orientaram. Nos escondemos e observamos 
durante muitas horas, at que uma carta chegou  nossa casa dizendo que o dinheiro no seria recolhido, nem Clara devolvida, enquanto no desistssemos da nossa 
viglia. No fim, estvamos muito perturbados para fazer outra coisa alm de ficar em casa e esperar. Uma carta foi entregue ento na cervejaria onde eu estava habituado 
a almoar, dizendo que Clara estava escondida num moinho ao sul da cidade. 
     - Quando fui transformada, eles me deixaram. Deram-me o moinho de brinquedo para me lembrar deles - diz Clara. - Aquele que Ruth tirou de mim e que mastigou 
em pedaos. 
     - Clara foi machucada? - diz Iris. Ela cai de joelhos e envolve os ombros de Clara por trs com seus braos. - Eles a machucaram? 
     - Nada fizeram do pior que se poderia imaginar - diz Van den Meer. - No nos asseguramos disso imediatamente? Era dinheiro que queriam, no praticar alguma 
maldade. 
     - Sou uma criana-duende - diz Clara. 
     - Henrika lhe permitia dizer isso - fala Van den Meer -, e desde ento Clara foi mantida em casa, at que com o tempo ela mesma escolheu ficar dentro destas 
paredes.  uma verso to boa quanto outra qualquer, a da criana-duende. Quem sabe, talvez seja verdade. Mas os espritos que a mudaram tinham grande apetite por 
dinheiro vivo. 
     Clara faz meia-volta na banqueta. Seu rosto est relaxado mas aberto. Os olhos perderam aquela aparncia penetrante. Uma mo agarra o polegar da outra por um 
momento e depois cai, como extremamente exausta. 
     - E ento, at Henrika morrer, voc raramente voltou a sair de casa? - diz Iris. 
     - Minha me ficava apavorada por minha causa e aprendi o terror com ela. Mas ouvi falar de outras crianas-duendes, queria encontrar-me com elas - diz Clara. 
- Mas nunca consegui encontrar uma. As pessoas falam muitas coisas sobre crianas-duendes, mas so difceis de encontrar. Quando a vi pela primeira vez, achei que 
Ruth fosse uma delas...
     H um rudo na porta. Ruth estava parada ali escutando e perdeu o equilbrio.
     
     
     
     
     
     
A criana-duende
     
     
     
     
A
 casa toda dorme, com exceo de Clara e Iris.
 Esto sentadas  luz bruxuleante das brasas, de mos dadas.
     - No percebe? - diz Iris. -  uma maneira de evitar ter de se casar com Van Stolk e  uma maneira de salvar o seu pai. Voc pode no ser capaz de salvar esta 
casa, mas no precisa dela. Voc muda de novo, volta  pessoa que era quando tinha trs ou quatro anos de idade.  forte e tem msculos bons e flego amplo. E um 
bom corao, Clara, um bom corao! Voc  capaz deste ato de caridade!
     - No entendo o que est dizendo - fala Clara. Sua voz  baixa, mas no fraca. 
     - Veja o retrato que estou desenhando para voc - diz Iris com firmeza. - Quer dizer, feche os olhos e veja. Eu o estou pintando para voc. L est a pequena 
Clara no escuro. No est assustada, no est ferida, est apenas tendo uma aventura, e os pssaros-espritos esto sendo bons para ela, mas agora o teto est se 
abrindo. A luz est descendo. Ela estende os braos para cima e  levantada para o alto. E sua me.  Henrika. Ela est dizendo: "Venha, agora, Clara, venha,  tempo 
de crescer." E voc sobe. No  uma criana-duende. Ainda  voc mesma. O buraco escuro agora  pequeno demais para voc. Pode deixar seu pequeno cubculo, pode 
sair dele. Completamente. 
     - Mas eu sou uma criana-duende - diz Clara. 
     - Veja no que voc pode se transformar ento - diz Iris cautelosamente. Mal sabe se est em conluio com a me, para salvar as fortunas da famlia fazendo uma 
delas se casar com o prncipe, de qualquer modo, a mais vivel, ou se est simplesmente tentando trazer a pobre Clara esquecida de volta ao mundo... a qualquer mundo, 
menos o da sua tristeza. Acha que nunca mais estar segura do motivo que a leva a fazer algo, mas parece a nica coisa a fazer. Iris continua: - Clara, ningum discute 
que voc  a mais esplndida beleza da cidade. Uma jovem bonita e corajosa. Voc pode sair s ruas. Ningum a apanhar, seqestrar ou esconder. Comparea ao baile, 
Clara; venha  festa. Pelo menos, vamos ver como . 
     - No estou preparada para ser vista - diz Clara. 
     - No - diz Iris -, mas, como eu, est pronta para olhar. Olhe para si mesma.
     Clara fecha os olhos por um momento e curva a cabea. Ao luar seus cabelos so da cor do alabastro. Quando ergue o olhar para Iris de novo, diz numa voz sbria, 
no entravada por idias. 
     - A verdade do que eu soube hoje no tem a ver com crianasduendes.  que as dificuldades financeiras de minha famlia so em parte por minha culpa. Talvez 
totalmente por minha culpa. Se eu no tivesse me afastado de minha me, aqueles malfeitores no me teriam raptado. Minha famlia perdeu metade da sua riqueza para 
preservar minha vida e aquilo criou as condies para sua rigorosa privao dos seus recursos. 
     - Voc no os fez prsperos, nem os fez cobiosos - diz Iris com firmeza. 
     - No - diz Clara -, mas eu os deixei pobres. Embora sem inteno e sem malcia. Portanto, talvez seja a hora de fazer a minha parte. No vou me casar com Van 
Stolk, nem por todos os escrnios de prolas que se possam importar do oceano Indico. Mas se puder ir disfarada, coberta por uma capa como uma freira ou uma velha, 
eu me permitirei um encontro com esse prncipe. Uma coisa de cada vez. Vou deixar o buraco negro e sair, pelo menos, para dar uma olhada nele, como voc diz. E ento 
veremos o que vai acontecer. 
     Iris aperta as mos de Clara de novo e ento vai  procura de uma pena, um tinteiro, uma folha de papel, e sua capa.
     
     
Um pouco de mgica
     
     
     
     
N
o dia seguinte, quando h tanto para ser feito, Margarethe aparece com uma vermelhido nas orlas dos olhos. Ela mesma conhece curas - a despensa se encheu de pequeno 
potes, frascos e saquinhos de ervas e de ps desde as primeiras semanas da sua chegada nesta casa estrita -, mas ela no tem nenhum blsamo para olhos irritados. 
Decide correr at alguma enfermeira ervanria em busca de um ungento. No ousando pisar sozinha nas ruas, leva Ruth como forte brao de apoio. Quando sai, latindo 
por cima do ombro instrues sobre o caf-da-manh de Papai Cornelius para Iris e Clara, as meninas vo  cozinha. L, numa pequena pilha debaixo de um pires virado, 
h um trao vermelho de pimenta moda picante. 
     - Ruth trouxe para Margarethe sua poo matutina - observa Clara. - E Margarethe exige que seus olhos sejam enxugados por panos limpos toda manh, pois a crosta 
da noite torna as coisas ainda piores... Voc no acha que...?
     - Ruth  a tola - diz Iris vivamente -, voc no notou? Est sugerindo que Ruth irritou os olhos de minha me com pimenta-vermelha? Por que faria isso? No 
pode consider-la capaz de tamanha maldade. 
     - Sem dvida as lgrimas de Margarethe acabaro tendo propriedades curativas - diz Clara. - Isto , se Margarethe fosse capaz um dia de derramar uma lgrima 
por alguma coisa. Mas isso  intrigante. Voc e Ruth esto tramando alguma coisa? 
     - Mame  a ervanria de talento - diz Iris. - Embora eu imagine que suas filhas tenham aprendido com ela alguma coisa sobre as propriedades das plantas. Mas 
no posso me preocupar com isso. H muitas coisas mais para fazer, minha querida. - Ela sorri para Clara com a fora da sua idia secreta.
     Elas preparam uma bandeja - uma fatia de po duro amolecida ao ser colocada sobre uma chaleira fervente, uma xcara de ch -, e Clara leva ao seu pai no quarto 
dele. Enquanto Iris est revistando os guarda-roupas para ver se h algo que possa ser elegante o suficiente para servir de vestido para Clara, ela ouve uma voz 
na cozinha. Grita "S um momento" e vai encontrar Caspar estirado num banco, as pernas estendidas em direo do fogo. 
     - Achou minha carta na porta - diz ela. 
     - Devia estar acordada muito cedo para entreg-la antes que tivssemos acordado. 
     - E voc foi bom o bastante para atender ao meu pedido de ajuda e aqui est, confortavelmente instalado. 
     - Por que no? - diz ele. - Sinto pelo cheiro que a bruxa est fora de casa. 
     - Oh, no seja cruel - diz Iris. - Ela  minha me, afinal. 
     - No ligue para mim - diz ele. - Pelo que soube, vocs esto pobres agora? 
     - No temos uma migalha de sobra - diz Iris, mas olhando para ele sente vontade de rir com todo o seu ser, como se pudesse rir no s com a boca, mas tambm 
com os olhos, o corao e os seus prprios membros. 
     - Sua me deveria ter-se casado com o Mestre quando ele a pediu - diz Caspar. - Ele no perdeu uma fortuna no grande colapso das tulipas. 
     - Foi o que nos contou, mas disse tambm que seus fregueses perderam, e isso significa que menos pessoas viro a ele para ter os seus retratos pintados. 
     - Tem razo - admite Caspar. - O que torna ainda mais desejvel ganhar a encomenda da rainha honorria. Mas ele ainda tem muitas encomendas para terminar e, 
embora a comida  mesa seja simples,  farta. 
     - Bem, Margarethe pode ter-se casado com o homem errado - diz Iris -, mas no h como mudar isso agora. Ela vai fazer o que precisar fazer, na hora que precisar. 
     - Espero que voc no se case com o homem errado - diz Caspar. 
     -  uma suposio agradvel que voc faz, a de que vou chegar a me casar! - diz Iris. 
     - No sei se  agradvel ou no - diz Caspar. - Depende da expectativa que voc faz do casamento, eu acho. Mas simplesmente espero, se voc se casar, que o 
faa por motivos outros que os de Margarethe. 
     - Margarethe casou-se para garantir a alimentao das filhas - diz Iris. - No que seja da sua conta, mas por que no deveria ela fazer isto? No  a sua responsabilidade 
como me? 
     - No quero discutir - diz Caspar. Ele ri e ergue as mos. - Fiquei contente em encontrar sua carta! Tive de sair do estdio do Mestre hoje. Est me deixando 
louco. Vive numa preocupao frentica com esse baile. Aparando a barba! Escovando o casaco! Polindo as fivelas! Passando a ferro a faixa da cintura! Voc nunca 
viu tanta agitao. Fico feliz em ser um pequeno verme desprezvel e no estar envolvido nessa histria. 
     - O que  isso agora - diz Iris, lanando um olhar divertido para ele -, acho que detecto que voc gostaria de ir ao baile tambm. 
     - Qualquer coisa menos isso - grita ele. - Eu pisaria na cauda do vestido da rainha honorria de Frana e a arrastaria no cho, levando Lus o ltimo a conspirar 
com a Espanha e levantar armas contra os Pases Baixos. Eu diria as coisas erradas s pessoas erradas e ofenderia todo mundo. Seria jogado na rua de costas ao cho 
e cairia numa poa de lama. Isso no  algo que desejasse. 
     - Bom - diz Iris -, pois existe apenas um milagre a ser feito num determinado dia e eu tenho meu trabalho delineado. Vai me ajudar? 
     Ele ergue uma sobrancelha. 
     Ela se senta numa banqueta e a aproxima dele. No precisa falar to baixo, pois apenas Clara e Papai Cornelius esto na casa e no andar de cima. Mas ela gosta 
de falar baixo, pois isso exige que fique mais perto. E ento pode sentir o cheiro esplndido dele, o odor vegetal de resina levemente mido e algodoado. Ela conta 
o seu plano. 
     - Vai introduzir Clara num baile para o qual ela no tem convite? - diz ele.
     - Temos convites para quatro pessoas - diz Iris -, mas Papai Cornelius est doente demais para comparecer. Vou dizer simplesmente ao porteiro que a quarta pessoa 
do nosso grupo vir depois. 
     - Mas sem a aprovao de sua me? Aquela megera astuta vai contra-atacar como uma vbora e abater Clara... 
     - No acredito - diz Iris. - Voc no tem estado por aqui o bastante para saber a que ponto a viso de Margarethe deteriorou. Acho possvel que ela nem chegue 
a reconhecer Clara se no a espera ver por l. Alm do mais, se pudermos encontrar uma cobertura de cabea com um vu no estilo espanhol, haver mistrio. Clara 
pode ocultar-se por trs do seu vu e ningum a identificar, nem ver sua beleza a no ser que ela queira. Ela pode ficar pelos cantos e observar um pouco. 
     - Achei que ela no queria ir ao baile. O que a fez mudar de idia? - diz Caspar, inclinando-se para a frente. 
     - No perca seu tempo com isso. - Iris ainda est perplexa de que a sua conversa  meia-noite com Clara tenha surtido efeito. - Atenha-se aos assuntos imediatos. 
     - E espera encontrar um vestido adequado para ela... hoje? - diz Caspar. - Est assumindo este milagre de transformao para si mesma? 
     - Eu poderia contar com alguma ajuda - diz Iris. 
     - Voc poderia contar com um pouco de mgica - diz Caspar -, mas no existe tal coisa na Holanda. 
     - Foi o que ouvi dizer - fala Iris, suspirando. - Na Inglaterra os pequeninos duendes vivem sob o solo e enfiados nos arbustos e saem para ajudar aqueles que 
merecem, para lanar sortilgios e recompensar os pobres. 
     - Clara  bonita - admite Caspar -, mas seria merecedora?
     Com uma firmeza que oculta sua dvida, Iris diz: 
     - Pelo menos, Clara deu alguma ateno a Ruth, e vem atendendo s necessidades do seu pai. Tem sido uma amiga para mim e lembra a me em suas oraes toda noite. 
No acha que ela merece a ajuda do mundo dos espritos?
     - Um pouco de mgica e tanto - diz Caspar. - No me disse certa vez que havia um diabrete na residncia? No podia pedir ajuda a ele? 
     - Bobagem... a bobagem da minha tola juventude - diz Iris, enrubescendo. - Quando comecei a ver o mundo como ele ... Bem, o mundo invisvel da minha fantasia 
parece menos divertido, ainda menos possvel. 
     - Talvez seja, mas somos pintores, Iris. Devamos ser capazes de alguma mgica juntos. 
     - Acho que sim! - diz Iris. - No transformei Ruth e a mim na Menina-Veado da Campina? Posso fazer minha prpria mgica! E voc tambm. Pelo menos, mgica suficiente 
para encontrar um vestido, um par de sapatos, um acompanhante at a porta? Posso ajeitar Clara, beliscar suas faces para ficarem rosadas. Posso ficar de olho nela 
quando estivermos l. Mas como vamos conseguir um vestido para ela? 
     - Posso pintar um vestido, mas no sou capaz de costurar um - diz Caspar. 
     Iris pensa na pintura do Mestre, com pinceladas amorosas, no vestido usado pela Jovem com Tulipas. Pintar tal vestido de novo... Incorpor-lo num golpe de mgica... 
     Numa voz baixa ela diz: 
     - Venho pensando nisso h algum tempo. Lembra-se das jias que Clara usou para a Jovem com Tulipas? 
     - Sim. Eram gemas preciosas de Henrika, diamantes de Anturpia, eu acho. E algumas fileiras de prolas, no? 
     - E o Mestre no as levou de volta ao seu estdio para que as pudesse estudar em busca de detalhes? 
     Caspar inclina a cabea para um lado, encolhe os ombros e ento assente com a cabea. 
     - Nunca as coloquei na lista de nossos bens a serem vendidos. Margarethe presumiu que Henrika foi enterrada com elas. Mas eu acho que ainda podem estar no estdio 
do Mestre, jogadas debaixo de alguma pilha de trapos de pintura ou de roupa de cama que precisa ser arejada. O lugar est to desarrumado! Se ainda esto l, se 
voc puder encontr-las, poderia us-las para permutar por um vestido adequado? Pelo menos, como um cauo para o emprstimo de um vestido? 
     - Voc  ousada! - diz Caspar. - Foi uma boa medida que no a tenhamos deixado arrumar a casa quando veio para desenhar, ou provavelmente as teria desencavado. 
Escute, se as jias estiverem l, vou encontr-las. E ento? H maneiras de se fazerem tais coisas. Deixe a meu cargo. O Mestre tem tido acesso a uma quantidade 
dos lares mais ricos nas semanas recentes. Conheo empregadas e cavalarios por toda a cidade. Mas preciso dar uma olhada em Clara antes. 
     - Voc sabe como ela  - diz Iris. - Conhece a sua colorao. 
     - Preciso olhar com os olhos de um pintor - diz ele. - Preciso v-la para medir suas formas, para que possa encontrar um vestido que caia bem nela e tambm 
combine com ela. 
     Iris diz, com um peso no corao que a surpreende: 
     - Bem, espero que seja capaz, pois a vem ela.
     Clara chega apressadamente  cozinha. 
     - Oh, o homem tolo est aqui - diz ela. 
     - Fique parada a e deixe-me olhar para voc - diz Caspar. 
     - No gosto de ser olhada por pintores - diz Clara.
     - Estou olhando para voc para vesti-la em ouro - diz ele. - No pense que no sou capaz de faz-lo, Clara van den Meer. 
     Sua boca faz um beicinho desajeitado e seus olhos piscam primeiro para ele e depois para Iris, que encolhe os ombros. Clara ergue seus braos e a forma do seu 
corpo se delineia contra as paredes caiadas do canto da lareira. 
     Ela  uma viso maravilhosa. Iris se surpreende prendendo a respirao e Caspar aproxima-se mais um pouco. Seus olhos julgam as propores. Ergue uma mo rapidamente 
para emoldurar as propores. Memoriza sua forma. Caspar no  indecente e no se aproxima demais de Clara. Quando terminou, virou-se e disse s duas:
     - Vou encontrar um vestido dourado para voc at esta noite. Vou cuidar desta parte, podem ficar seguras. Gastem seu tempo resolvendo seus outros problemas. 
     No sabem o que dizer. Ele corre para a porta e diz de novo: 
     - Confio em que no se casar com o homem errado.
     Mas desta vez no fica claro com qual das duas est falando.
     
     
     
     
     
     
Tulipa e nabos
     
     
     
     
M
argarethe est de volta antes que o sol tenha alcanado o seu ponto mediano. Seus olhos esto inchados das lavagens da enfermeira. Est com um humor do co. Bate 
a porta com fora atrs de si ao entrar em casa. Ruth esconde-se da me debaixo das escadas, num espao de brincadeira que ela forrou com um cobertor extra, trapos 
velhos e algumas bonecas. 
     - O que eu tenho de aturar - ralha Margarethe -, o que  cobrado de mim! Que fiz para merecer indignidade aps indignidade? 
     Iris e Clara trocam olhares. Clara desvia a cabea para a panela, embora haja ali pouco alm de gua, um naco de manteiga, uma ltima cenoura, um punhado de 
velhas ervas poeirentas e aquela pimenta vermelha. 
     Iris toma flego, aperta os cordes do avental e sai apressadamente para o vestbulo. 
     Margarethe est caminhando para l e para c sobre o piso de lajes pretas e brancas, estendendo as mos para os lados para evitar bater nas paredes. 
     - Aqui pelo menos eu poderia abrir meu passo e no temer a risada e a zombaria dos meus vizinhos! - grita ela, batendo contra uma cmoda e golpeando-a com a 
palma da mo. - E existe uma argumentao plausvel, ento, para que a peste ataque os pobres, que no merecem viver e prosperar? Se  assim, que venha a mim, e 
imploro o privilgio das nguas e das pstulas. 
     - Do que est falando? - diz Iris. 
     - Oh,  voc, minha filha mais moa - diz Margarethe virando-se para Iris e erguendo o dorso da mo como para golpe-la. - Aquela que tece intrigas e esquemas 
pelas minhas costas! 
     - No fao tal coisa! - grita Iris. - O que est fazendo, batendo as asas a como um corvo? 
     - Como um corvo cego - ameaa Margarethe -, mas no surdo. Eu ouo o que ouo, mesmo sendo conduzida pelas ruas de Haarlem como um porco para o matadouro. 
     - E o que ouviu? - diz Iris. 
     - Que foi voc quem sugeriu que Luykas Schoonmaker mandasse a pintura da Jovem com Tulipas para o salo de exposies da casa dos Pruyns - diz Margarethe. 
     -  tudo? Claro que o fiz. Por que no?  o seu melhor trabalho diz Iris. -  melhor do que as Madonas afveis e os anjos de olhos turvos... 
     - Voc vai minar toda a estratgia que eu empreender em seu favor, no vai? - ruge Margarethe. - Aproxime-se de mim, garota, para que eu possa bater em voc 
 vontade! 
     - No vai bater em mim - diz Iris. - O mundo no lhe pertence para mold-lo segundo o seu capricho! 
     - No me pertence, no me pertence - diz Margarethe rodopiando no meio do salo, como se em sua raiva no possa mais dizer de onde est vindo a voz de Iris. 
- Eu direi que no me pertence. Tudo e todo mundo se pe no meu caminho, eu que nada tenho a no ser as intenes mais humildes. Quem foi que me chamou de a mulher 
do pescador, cobiosa para ser dona de casa, duquesa, rainha, imperatriz e deus? Uma mulher deseja as menores coisas na vida: um homem para cuidar de suas filhas, 
comida para suas bocas, um pouco de segurana, no mais do que um xale e um naco de po, e tudo o que ela faz  visto como um escndalo, um testamento  avareza, 
um emblema da cobia. E o mundo conspira contra ela para exibi-la, para agredi-la em cada esquina, para arranh-la com as garras da sua opinio, at que o simples 
ar que ela respira  de ressentimento. 
     - A senhora precisa de um ch - diz Iris. 
     - Eu... vou... querer... algo... mais... do que... ch - acentua Margarethe. Avana para Iris e faz meno de a fuzilar com os seus olhos avermelhados. - Vou 
fazer o que eu quero, embora gente do meu prprio sangue tenha escolhido conspirar contra mim como um demnio barato de uma aldeiazinha dos arredores do inferno. 
Os diabretes que me apoquentam, os pequenos demnios como esquilos que se precipitam em fuga no meu caminho! Seu crebro devia doer, sua rproba, sua vira-casaca, 
por ousar se meter em coisas que esto alm do seu alcance! No tem nenhuma idia do fardo que  uma filha ingrata? 
     Iris recua at a porta. Apesar de sua raiva, o arrependimento a deixa tmida. 
     - No tive nenhuma inteno ao dizer aquilo... de que vale a opinio de uma menina boba para um homem como o Mestre Schoonmaker? 
     - Voc  a maior tola desta terra - diz Margarethe. - No posso mais ter esperanas de me casar com um homem mais forte do que Van den Meer... 
     - ...mesmo porque ainda est casada com ele - replica Iris. 
     - ...mas voc, a tola das tolas, no tem idia do seu prprio valor. Vai ser apresentada a um nobre menor e, no entanto, por sua prpria sugesto, a pintura 
de uma beleza rival vai estar pendurada na mesma casa! No tem nenhum juzo? 
     - A senhora est claramente perturbada - diz Iris. - Sou jovem e estpida, pois manteve-me assim, mal me ensinando a escrever, e vou ao baile para pasmar diante 
dos bem-nascidos, nada mais... 
     - Me alguma, por mais que se esforce, conseguir convencer seus filhos do seu prprio valor - diz Margarethe. - Os filhos se voltam para duendes do mal em 
torno dos joelhos da prpria me. No vou tolerar isso. Vou cedo  casa dos Pruyns e vou exigir que a pintura seja retirada. Clara  a beldade mais esplndida que 
a cidade tem a oferecer e qualquer tolo que vale o po que come a buscaria baseado naquela pintura, ainda que fosse para saber a que distncia da verdade deve ter-se 
aventurado o libidinoso pintor. Qualquer um que veja Clara em pessoa sabe que o velho Schoonmaker no chegou  altura da tarefa, ela  mais deslumbrante do que ele 
poderia captar. Voc vai me boicotar em cada passo, mas quando se trata de um combate entre me e filha, minha pequena, lembre-se - aproxima-se de Iris e arreganha 
os dentes para ela -, as mes tm a vantagem de saber no s como e por que elas prprias se comportam assim, mas tambm como e por que as filhas se comportam assim. 
Pois as mes j foram filhas uma vez, mas as filhas levam tempo para aprender a ser mes... 
     Sua mo varre o ar e derruba uma tigela do aparador. Estilhaos se espalham. Um gemido vem do espao debaixo das escadas: Ruth em aflio. 
     - Desculpe-nos por nossa invaso - diz Margarethe -, e saia do nosso caminho. 
     
     
     H um banho, e uma pequena quantidade de p a aplicar, e espartilhos a ser apertados, e saias a ser vestidas, e toucas a ser ajustadas. Clara ajuda Margarethe 
primeiro, que chama numa voz rouca a carruagem alugada para que se aproxime da frente da casa. Ela vai mand-la de volta para apanhar Iris e Ruth dentro de uma ou 
duas horas. Parte praguejando, zurrando e se contorcendo, sem a ajuda de uma assistente. 
     - Para o que preciso fazer eu tenho vista suficiente - resmunga. O bafejo de aprovao s se dissipa lentamente depois da sua partida. 
     - Ela  uma bruxa - diz Iris, mas no  bem o que ela pensa verdadeiramente;  apenas uma idia para lanar ao ar e observar como tal frase soa. Ser que falar 
uma coisa dbia a torna mais verdadeira? Como as palavras so rasas, realmente. Ela  uma bruxa. Poderia muito bem ser dito: Ela  uma me, pensa Iris; isso cobre 
mais ou menos o mesmo terreno, no cobre?
     
* * *
     
      quase o final da tarde quando Caspar volta. Carrega um tecido escuro sobre o brao, uma espcie de longa capa, mas na luz oblqua da sala de jantar ele a 
abre com cuidado. Dentro repousa um vestido de tamanha suntuosidade que Iris, Ruth e Clara ficam todas boquiabertas. 
     - Isto no  um vestido - diz Iris -,  uma cascata de moedas de ouro! 
     - Tolo! Eu no posso vestir tal coisa e esperar esconder meu rosto! - diz Clara. - Quero um manto de invisibilidade e voc me trouxe uma fonte de luz! 
     - Mmmm - murmura Ruth, e acaricia a coisa como se fosse um imenso gato adormecido.
     O rosto de Caspar est rubro de prazer.
     - No esperem me frustrar o prazer nesta questo - diz ele. - Passei o dia correndo de um lado para o outro, fazendo minhas barganhas, pagando os preos que 
precisavam ser pagos, a fim de conseguir isto para voc, e agora me dizem que  fantstico demais para ser vestido! Exijo que o vista neste momento. Experimente-o, 
de qualquer maneira, e veja. Olhe s o rufo que escolhi. Vai destacar o seu queixo e suas faces sutis do mesmo modo como uma moldura dourada exibe uma obra-prima. 
     Iris v o deleite de Caspar, v como seu olho cai sobre Clara. Iris se torna no mais do que o manto marrom lanado de lado, que escorregou at o cho, uma 
poa de sombra, um espectro. 
     - Experimente - murmura Iris. No tem a inteno de falar to baixo. Precisa diz-lo de novo e ergue a voz acima de um sussurro. - Vamos, Clara, pelo menos 
nos d este algo novo para pensarmos. 
     - Vou sair da sala. Faam os ajustes que precisam ser feitos - diz Caspar. Est quase dando cambalhotas de satisfao. - Agora, pela primeira vez, eu gostaria 
de ter infernizado o Mestre para me conseguir um convite para o baile! No posso suportar a idia da expresso no rosto das pessoas. Talvez eu consiga encontrar 
alguma indumentria garbosa para penetrar na festa. 
     - Vamos - diz Iris -, desempenhe o papel. Voc chegou at este ponto, Clara.         Deve-lhe isso pelo menos.
     Caspar sai num passo empertigado. Clara rola os olhos e diz:
     - Isso est se tornando um terrvel erro. No vou chamar ateno sobre mim mesma. Mesmo Caspar, que pensei que entenderia, vai me transformar num joguete para 
os olhos. 
     -  um artista, o que poderia esperar dele? - diz Iris, contrariada. - V lavar bem as mos para que no suje a coisa quando a colocarmos por sobre a sua cabea. 
     - Voc est aborrecida - diz Clara. 
     - Fiquei perplexa com o que est fazendo - diz Iris. 
     - No - diz Clara -, voc est aborrecida. No gosta do jeito como Caspar olha para mim. 
     No h nada que Iris possa dizer. Ela vai e acaricia o queixo de Ruth e pensa nos tempos em que s tinha uma irm, e uma irm feia e silenciosa. Por um momento, 
deseja que aqueles tempos pudessem voltar. 
     Um olhar de amor e devoo brota nos olhos de Ruth enquanto Clara comea a se transformar da menina das cinzas na dama dourada. Como numa revelao, as faces 
rosadas de Clara emergem depois de uma esfregada com sabo. Ali esto as pernas graciosas, as pernas de uma jovem mulher, embora tenham freqentemente parecido os 
cambitos resistentes de uma menina. A cabea de Clara se vira e, embora seus olhos sejam melanclicos, a luz neles  real e urgente. Claro que Ruth tem de sorrir. 
 um sorriso de irm. Ela faz isso melhor do que eu, pensa Iris, e, movida pela culpa, corre para o lado de Clara, para ajud-la a ajeitar-se dentro do admirvel 
vestido. 
     - No vou usar um rufo - diz Clara. - Deixe-o de lado. Vou cobrir minha cabea com renda  maneira espanhola e deixar que pensem que sou uma espi de Castela 
ou Arago, se quiserem. No posso exibir minha cabea como um pernil de veado numa bandeja, para ser admirada e devorada. Vou esconder-me nas dobras de rendas com 
uma trama bem cerrada. 
     Clara aproxima-se da luz na janela. A cintura cai justa como se houvesse sido esculpida exatamente para ela. A abertura simples no colo, cortada com a expectativa 
de um rufo, abre-se com uma generosidade que beira o censurvel. A saia  cheia e cai em cascatas at o cho numa seqncia de listras: ouro, bronze, preto, com 
um debrum de um vermelho-cobre ao longo das costuras de cada painel. 
     - No h um artista na Holanda capaz de captar voc - murmura Iris. 
     - Ningum vai me captar - diz Clara num tom de desafio. 
     - Eu a peguei - diz Iris subitamente e bate onde seu corao est palpitando em seu peito. - Ocorre apenas que, admirando sua beleza, as lgrimas em meus olhos 
confundem minha memria e no vou conseguir ret-la. Mas pelo momento eu a peguei. 
     Sua voz vacila. 
     - No tenha vergonha - diz Clara. - E no se alarme. No vou tirar Caspar de voc.
     - Caspar no  meu - diz Iris ousadamente -,  do Mestre, pelo que sei. 
     Clara ergue uma sobrancelha. Iris no explica o que ouviu de Margarethe. Antes que Clara possa perguntar, Ruth est subitamente de joelhos diante da cmoda, 
remexendo em meio  roupa de cama e de mesa dobrada. D um grunhido de satisfao e retira da cmoda o par de sapatilhas brancas de pelica que Margarethe abandonou. 
     - Nunca iro caber em mim - diz Clara. Mas ela os experimenta e caem em seus ps como um sonho. 
     Vira-se e coloca um vu preto sobre a cabea. Ajeita as dobras para se fecharem sobre seu rosto. Na luz do cair da tarde primaveril, os sapatos refulgem, parecendo 
de cristal, como deixando transparecer a pele de puro branco dos seus ps.
     Sapatos brancos, vestido dourado, vu de renda negra e as feies perfeitas de Clara ainda mais admirveis por trs do vu do que expostas a nu. Embora a esta 
altura Iris prefira omitir a observao, pois o vu  o dispositivo que permitir a Clara deslocar-se de sua casa at o lar dos Pruyns em que as festividades comearo 
em breve. 
     - Voc parece serena, distante e misteriosa - diz Iris. - Faz-nos parecer dois nabos, mas isso no  diferente. Somos nabos, e voc  uma tulipa. 
     - No sou reconhecvel como Clara van den Meer? - diz ela.
     - Aqueles que a viram mais recentemente a conhecem como Cinderela e voc no  sequer Clara van den Meer. Voc  Clarissa de Beaumont, eu diria. 
     - De Beaumont no  um nome espanhol. Eu sou Clarissa Santiago. Clarissa Santiago de Arago. 
     Ela fica de p, ela rodopia. Clarissa Santiago em seu vu escuro.  a primeira vez que Iris viu sua meia-irm parecer, apenas por um momento, como se no se 
importasse de ser bonita. 
     - Posso ver? - grita Caspar do vestbulo. - Voc est decente? 
     No lhe respondem diretamente. Tudo que cerca este momento paira, treme, todas as suas esperanas doces e irracionais  vista antes que algo corra o risco de 
sair errado. Uma meia-irm rodopia sobre um piso de lajes pretas e brancas em sapatinhos de cristal e num vestido dourado, e duas meias-irms observam com admirao 
absoluta. A luz jorra para dentro da casa, reavivando seu tom dourado enquanto o sol mergulha e a noite se aproxima. Clara  to sobrenatural quanto a Mulher-Jumento, 
a Menina-Menino. A beleza extrema  uma aflio...
     
     
     

5
O BAILE





O baile dos Medici
     
     
     
     
A
 grande noite chega finalmente. As meninas na porta da casa, apanhadas numa corrente de ar ascendente que faz as sedas farfalharem. Ruth est ofegante de pnico 
antes mesmo que se tenha instalado na carruagem e fica enfiando o rosto entre as mos e fungando. 
     - Coragem, e, se no coragem, ento boas maneiras, Ruth! - diz Iris rispidamente. Mas ela no conhece as regras para se andar de carruagem, menos ainda as orientaes. 
Fica feliz porque o cocheiro j fez vrias excurses  opulenta propriedade da famlia Pruyn, onde o baile est para comear. 
     O vento que varre as folhas do ltimo outono das sarjetas e das sebes vivas  um vento quente. As estrelas cintilam no seu grilho e uma lua despeja um banho 
rosado sobre o mundo. As casas parecem deslizar pela carruagem  medida que ela passa, como se agachando por trs de suas janelas de venezianas fechadas. As ruas 
de Haarlem esto curiosamente vazias. Os cidados ou foram convidados para o baile e esto a caminho, ou no foram e por isso ficaram em casa desapontados ou at 
mesmo envergonhados. 
     Iris espia por trs da cortina. Como ser que Margarethe pretende pagar por esta carruagem, por estas roupas? Est hipotecando o futuro delas, apostando to 
ousadamente como levara Cornelius van den Meer a apostar, s que agora numa mercadoria diferente. Iris recosta-se contra o espaldar. Margarethe  louca ao pensar 
que Iris pudesse ter a esperana de atrair a ateno do prncipe francs visitante. Seria esta a manobra de algum que foi levada ao abismo por preocupao? Ou existem 
ainda correntes mais profundas de estratgia trabalhando em Margarethe? De qualquer maneira, um baile  algo que Iris pode estudar friamente, sem medo de ser notada 
ou esperana de ser assediada.
     Iris se d conta de que ela nota o jeito como as coisas parecem por fora - a silhueta dos telhados, os galhos trmulos das rvores -, em vez de notar a si mesma 
e a sua irm dentro desta carruagem, nesta que  uma das mais estranhas noites. Ela se obriga a prestar ateno. Como voc v aquela garota chamada Ruth, como voc 
v aquela garota chamada Iris? Olhe para elas como se fosse desenhar estas jovens meninas. No aquilo que voc sabe delas, como pensa que vo, e sim como elas aparecem. 
Caspar ensinou-lhe a lio do Mestre. No aborde uma coisa para desenh-la como se soubesse o que ela ; aborde-a como se nunca a tivesse experimentado antes. Apreenda-a 
pela surpresa. Surpreenda-a para que adquira vida. 
     Iris olha para Ruth e ento, rapidamente, desvia o olhar. O que foi que ela viu? Um rosto slido com uma expresso emaranhada. No, no suponha que  uma expresso 
de estupidez. E se fosse um olhar de esforo genuno? A testa se vinca. Se o seu nariz  um pouco fraco, o maxilar  forte. A paixo nos olhos que ainda reluzem 
com as ltimas de suas lgrimas nervosas , mesmo assim, paixo. Entre os obstinados holandeses a paixo  geralmente atribuda a um excesso de cerveja. Mas existem 
uns poucos que acham ser ela um elemento essencial nos humores de uma pessoa. 
     A pele de Ruth  macia, como se esticada ao mximo para cobrir a rea que seus ossos grandes exigem. Veste as roupas desajeitadamente e seus cabelos so, usando 
meias palavras, rebeldes. Suas mos se apertam sem muito conforto. 
     Ainda assim, suas roupas no deixam de ser um sucesso, um vestido generoso de dobras azuis, embalonado para ocultar a forma levemente arqueada de suas pernas, 
e uma blusa e um colete combinando com a saia. 
     E a prpria Iris? Ah, o olho interior pisca e o esprito treme, sob o perigoso custo da pessoa ver a si mesma como ela . 
     Ela s pode olhar por um minuto, com os olhos fechados, para Iris Fisher van den Meer. Ela se v como numa lembrana, uma figura distante e imutvel.
     
A garota estava sentada num canto da carruagem. Usava uma touca de linho engomado, branca com uma sugesto de azul, bem-aprumada e justa. Por baixo das bordas dobradas 
da touca seus cabelos apareciam em brevssimos festes, trs ou quatro cachos franjados num marrom de rato silvestre cados contra as faces como as escamas papirceas 
de um peixe. Embora seu nariz fosse comprido e incorrigvel e os lbios finos, franzidos como a boca de um ministro, sua cor era boa. Suas bochechas estavam coradas... 
Bem, no estava ela a caminho do seu primeiro baile? Seus olhos estavam abaixados, talvez at fechados, e os clios que os selavam eram finos demais para serem notados, 
e as sobrancelhas que se arqueavam sobre eles se voltavam para dentro, um gesto de contemplao. Portanto, talvez ela fosse uma coisa inteligente, apesar da falta 
de instruo.
   Era magra e esguia, mais do que cheia; parecia-se mais com um menino do que com uma viosa donzela holandesa. No entanto, suas roupas no eram inadequadas: um 
vestido em rutilante lavanda entrecortado com renda da cor de ovos batidos. Suas mos no remexiam nas pregas que se juntavam na cintura do seu vestido. Parecia, 
se no em paz consigo mesma, pelo menos interessada em se aperfeioar, quem quer que fosse ela.
     
     Isso  a coisa principal que interessa a pintores de retratos? A pessoa prestes a se tornar uma outra personalidade? Mudar no  apenas a provncia dos jovens, 
pensa Iris, imaginando Margarethe com o seu olho maluco - Papai Cornelius em seu estupor -, at mesmo Caspar, iluminado por uma beleza mais fervorosa do que Ruth 
ou ela possuem. 
     Ou Clara, que se tornou Cinderela, que se tornou Clarissa Santiago de Arago, tornando-se algum novo por turnos, escapando de algo, ou em direo a algo diferente. 
     Antes que Iris se afaste de si mesma, ela tem um ltimo vislumbre e pensa: se eu fosse pintar a mim mesma, seria isso o que eu tentaria captar: uma pessoa interessada 
em ver, mesmo que aquilo que h para ser visto ainda no esteja plenamente compreendido.
     
     
     A carruagem atravessa o porto da cidade e segue para o campo. A imponente residncia dos Pruyn  considerada a nica propriedade que rivaliza com os edifcios 
cvicos de Haarlem. Enquanto a carruagem roda ao longo de uma ampla avenida de olmos e as edificaes comeam a aparecer, Iris s  capaz de ficar boquiaberta. Nada 
igual a qualquer estrutura que tenha visto antes, no os toscos prdios de tijolos e madeira das terras baixas da Inglaterra, com suas pesadas sobrancelhas de sap, 
nem como as residncias mais retilneas das ruas de Haarlem. Nada igual  casa dos Van den Meer, esvaziada do diabrete, de espaldar amplo e severa. Houve alguma 
escaramua entre as famlias Pruyn, Coeyman e Beverwijck para saber qual delas seria a anfitri da rainha honorria e de seu afilhado, mas os Pruyn venceram e ficaram 
com a honra, porque sua propriedade  a mais ampla e buclica. 
     E l est ela, enquanto a carruagem encosta numa entrada de coches sombreada por faias cor de cobre de cada lado. A carruagem passa por parede cobertas de heras 
e encimadas por urnas de pedra e entra num ptio atravs de um elegante porto. 
     - Veneziano e de calcrio - murmura Iris para Ruth, papagueando o que ela ouviu. Mas ela gosta do tringulo acentuado do telhado do porto de entrada e do espao 
amplo e plano da fachada. 
     Elas descem do coche com tanta graciosidade quanto so capazes de demonstrar. 
     - Conhece suas instrues - diz Iris firmemente ao cocheiro, que rola os olhos mas acena com a cabea. 
     Ele est voltando  casa dos Van den Meer em Haarlem uma terceira vez, agora para apanhar Clarissa de Arago. Em circunstncias normais, dificilmente se poderia 
confiar nele, pensa Iris, por isso Margarethe deve ter sonhado com uma recompensa suficiente para que aceitasse o acrscimo em seus deveres. Ele estala as rdeas 
e parte rpido com a carruagem - h uma fila atrs dele -, e Iris e Ruth se viram para examinar de perto a manso dos Pruyns. 
     A pedra  de um rosa dourado, iluminada por vrias tochas bemaparadas que oferecem uma iluminao regular e ampla. Empregados vestidos num estilo francs esto 
postados de p em duas fileiras, uma de cada lado da porta. Ruth tropea nos degraus e late uma praga sem palavras, mas um empregado se adianta e a segura pelo ombro. 
Quando Ruth ergue a cabea e sorri, ela j teve tempo para recolher as lgrimas da vergonha. 
     Como o ar est agradvel e a multido j considervel, as portas duplas da manso Pruyn esto totalmente abertas. As melodias de uma pequena orquestra no conseguem 
embelezar a atmosfera tanto quanto Iris poderia ter esperado, pois a tagarelice nervosa que se esparrama do interior da casa abafa muito da msica. 
     Iris e Ruth passam para o saguo e vem que as mulheres esto entregando suas capas numa saleta que d para o trio. Tendo chegado sem capas, as meninas ficam 
de lado at que algumas pessoas da cidade com ar mais confiante se prepararam para entrar no salo de baile principal. Iris  tmida demais para anunciar seus nomes, 
por isso apenas cutuca Ruth nas costelas e elas navegam no rastro de um proeminente proprietrio de terras da margem leste da cidade. 
     - Heer Ochtervelt e famlia - anuncia um empregado, e Iris e Ruth desempenham o papel de primas do campo dos Ochtervelt, seguindo-os como uma sombra nos trs 
degraus que descem at o amplo salo de baile. Os Ochtervelt parecem to aterrorizados como Ruth e nunca chegam a notar que o seu grupo foi acrescido de duas pessoas. 
     Iris procura Margarethe, mas ela no est  vista. Em vez disso, um jardim do diabo de flores: mulheres em cores vivas, faces flamejantes e vestidos, fantsticas 
combinaes que brigam umas com as outras como os piores canteiros de ervas daninhas estivais. Todos os regentes da cidade: homens imponentes de preto com faixas 
coloridas e espadas cerimoniais e peitos cheios de fitas, medalhes e rendas. Os rufos so to altos e engomados que os cavanhaques parecem prontos para a tosa. 
     O salo  o mais alto que Iris j viu, excetuando a Grotekerk de So Bavo. Estende-se por dois andares e meio com um balco no nvel superior sustentado por 
pilastras de mrmore ao redor de todo o permetro. Muitos dos convidados se refugiaram no relativo anonimato ao longo das margens do salo, debaixo do balco. Amontoam-se 
como sardinhas em lata. 
     De cada lado do salo principal, portas conduzem a outros sales, nos quais a comida est arranjada sobre vrias mesas. Paves cozidos em crostas. Caranguejos 
aninhados nos braos uns dos outros. Camares, perus, ostras e castanhas. Tortas, limes dourados, presuntos espetados com cravos. Feijes, cidra, cerveja. Toda 
uma mesa de queijos, marrons, brancos, amarelos. Peixe, veado, coelhos, bem como po fermentado e po sem fermento e potes de manteiga. Nenhum convidado ousou ainda 
se aproximar das mesas, embora crianas das reas rurais estejam a postos com olhares vidrados e descrentes espantando as moscas. 
     Iris leva Ruth pela mo e elas abrem caminho entre a multido, observando os convidados, que so to coloridos como as comidas e quase to deliciosos. 
     - Mestre Schoonmaker - diz Iris com sua voz mais cordial, e o Mestre se vira. Seu rosto se abre e se ilumina. 
     - Que surpresa, encontrar pessoas de verdade por aqui - diz o Mestre. - Pode adivinhar quantas pessoas perguntaram meus preos para pintar um retrato e depois 
foram contratar meus competidores? 
     - Sempre trabalhando - diz Iris. - Como vai ser esta noite, o senhor sabe? 
     - Nunca vi um dcimo desse esplendor e espero nunca mais v-lo de novo. Acho que temos cerca de uma hora de espera para que a grande elefanta chegue - diz o 
Mestre. - Sua majestade real est numa sala de recepes no andar de cima com os Pruyns e o outro convidado de honra, seu afilhado. Daqui a pouco algum vir nos 
dizer que  hora de comermos e bebermos at cairmos num estupor. Ento a msica nos excitar num frenesi de antecipao at que ela se digne a nos dar a graa de 
sua presena. Quando se aproximar a meia-noite, a rainha honorria e seu afilhado sero escoltados ao salo seguinte, onde existem dezoito pinturas  mostra. Acredito 
que esperam que ns os acompanhemos em silncio devocional e observemos as pinturas ns mesmos. Ela vai bocejar e escapar por uma porta lateral e acho que haver 
um sinal para que todos ns sigamos em frente, afrouxando nossos cintos e arrotando confortavelmente de novo. 
     - S dezoito? - diz ris. - Pensei que fossem quarenta! 
     - A rainha honorria pediu aos Pruyn que fizessem uma seleo mais estreita. Ela  uma velha simplria e tem um apego romntico ao luar. Quer olhar as pinturas 
como aparecem sob a penumbra das lmpadas.  a atmosfera em que apreciar mais seu retrato, pois alega muitas horas de insnia a seu crdito. Mas  tambm uma velha 
excntrica e disse que se cansaria de pinturas se houvesse demais. Ento, depois de toda aquela agitao, esta tarde sete pintores foram eliminados inteiramente 
e, dos que restaram, apenas uma pintura por artista foi permitida. 
     Ele est fluente e animado demais para ter sido rejeitado, adivinha Iris, embora mal ouse sugerir isso. 
     - A Jovem com Tulipas est na mostra, no est? - diz ela. 
     - Est - admite ele. - Voc me ajudou a ser selecionado por seu sbio conselho, minha pequena.
     Ele parece satisfeito, culpado e soturno, tudo ao mesmo tempo. 
     -  a pintura mais bonita do ano - diz ela. 
     - Hah! - replica ele. - Que sabe voc de pinturas? 
     - O bastante - diz ela. 
     - No o bastante - responde ele. - S conhece a minha pintura. Pode ser o meu trabalho mais perfeito, mas no  necessariamente a melhor pintura do ano ou da 
exposio. 
     - Tenho confiana no senhor - diz Iris. Sorri para ele e ele ruboriza levemente e, naquele momento, ela percebe que est muito perto de se tornar uma adulta, 
pois ele precisa da sua aprovao tanto quanto ela precisa da aprovao dele. 
     - Meu amigo - diz ela, e estende a mo e segura a dele. -  uma noite importante para o senhor. 
     -  um acontecimento social, nada mais, e detesto acontecimentos sociais - diz ele. 
     - Est embaraado, por isso evita o que estou dizendo. Sua pintura da Jovem com Tulipas vai ser vista por todo mundo esta noite. Se uma pequena agitao local 
no lhe  suficiente, quando a noite tiver terminado ser reconhecido como um pintor importante por convidados da Holanda, de Utrecht, de locais to remotos como 
a Gelderlndia. 
     -  verdade, todo mundo vai ver - geme ele, zombando levemente de si mesmo, mas de certo modo acreditando no que disse. - E ento, o qu? Ou eu ganho a encomenda, 
ou no ganho. Se no ganhar, me tornarei ainda mais um fracasso pblico. Se ganhar, posso no ser capaz de superar a Jovem com Tulipas. Pode ser que o meu melhor 
trabalho tenha ficado j para trs. De certo modo, desejaria jamais t-lo feito. Desejaria t-lo arruinado e ainda acreditar que era capaz de fazer melhor. Agora 
no estou seguro de que possa fazer melhor algum dia. Olho para a pintura na parede e desejo que ela desaparea. 
     -  bobagem. 
     Ruth estende a mo e toca no ombro do Mestre. Ela nunca o tocou antes; na verdade, raramente toca em qualquer pessoa, s em animais. Iris diz: 
     - Veja, at Ruth sabe como o senhor est sendo tolo. 
     - No espero que vocs me entendam - diz ele. - Se  uma espcie de loucura, ela cabe no trabalho da pintura. Gostaria que Caspar estivesse aqui. 
     Iris no fala de Caspar com o Mestre. Ela meramente diz: 
     - Viu Margarethe? 
     - No. Vocs chegaram juntas? - diz o Mestre. Parece que est se controlando para no fazer uma outra observao e no consegue, pois continua: - Talvez Margarethe 
esteja se aliviando no lavatrio externo. Ela no  mais a pessoa com quem eu gostaria de conversar numa noite de frivolidades. 
     - Ela  minha me - diz Iris com dignidade. 
     - De fato , e bem-vinda seja - diz o Mestre. 
     - Est aborrecido porque ela no quis se casar com o senhor - diz Iris. 
     - Estou aliviado que no tenha querido se casar comigo - diz o Mestre. - Estou aborrecido porque acho que levou o seu marido  runa. 
     - Ela no  responsvel pelo colapso nos preos das tulipas - diz Iris. 
     - Por que a est defendendo? - diz o Mestre. - Porque  sua me? - Olha para ela como se a visse pela primeira vez e ento abranda. - Ora, deixe estar, eu me 
esqueo. Voc ainda  jovem. Venha, vamos falar de outra coisa. Que belezinha vai arrebatar o corao de Philippe de Marsillac? 
     - A mais rica, seja qual for a sua aparncia.
     Ele riu. 
     - Ento voc no  to jovem assim, para ver o mundo em tais termos! - diz ele. - Ento, se voc fosse um homem, que mulher a atrairia em toda esta opulncia 
e elegncia? 
     - Como pode comparar uma beldade com outra? - diz Iris, a Feia. 
     - Boa pergunta. Se existe um valor relativo da beleza?  a evanescncia, a fugacidade, um elemento necessrio  coisa que mais nos comove? Uma estrela cadente 
comove mais que o sol. Uma criana cativa como um elfo, mas cresce e se torna uma gorda, um ogro, uma harpia. Uma flor desabrocha em cores, os lrios do campo!, 
mais valorizada do que qualquer pintura de uma flor. Mas de todas estas coisas, a graa da mulher, as estrelas cadentes, as flores e as pinturas, somente uma pintura 
permanece. 
     - Mas as palavras permanecem tambm - diz Iris. - O senhor cita os textos da Bblia sobre os lrios do campo. Aqueles lrios sobre os quais o Cristo ensinou 
esto mortos h sculos, mas Suas palavras vivem. E quanto ao ato de generosidade, como minha me falou? Minha me o caranguejo, o irritante na ostra, o que julgar 
do que ela falou? O pequeno gesto de caridade? No  aquele tipo de beleza mais belo do que qualquer outro? 
     - E igualmente evanescente - diz o Mestre -, pois pequenas caridades no podem emendar este mundo perverso. Mas talvez a caridade seja o tipo de beleza que 
entendemos melhor porque  do que mais sentimos falta. 
     Olham para o jardim ondulante de beldades, farfalhando suas sedas, pisando com seus sapatinhos, reluzindo com suas jias, suando finamente no aperto da multido. 
Procuram por caridade, coisa difcil de ver; encontram beleza em vez disso. 
     
* * *

     A msica deixou de ser uma novidade para se tornar levemente repetitiva quando subitamente as cordas e as madeiras so aumentadas pelas notas altissonantes 
de algumas cometas douradas. O rudo dos convidados se eleva por um momento e ento se reduz a um murmrio, quando as portas da outra extremidade do salo so totalmente 
abertas e lacaios de libr marcham para o aposento e depois ficam flanqueando a passagem. 
     A rainha honorria de Frana entra no brao do seu anfitrio, heer Pruyn. Parece entediada pela cerimnia e acena mal-humorada com a cabea  esquerda e  direita. 
Heer Pruyn a escolta at uma cadeira - simples, porm apropriadamente ampla - e instala a convidada de honra nela. H o som da madeira acolhendo algum peso, bem 
como mais do que um resmungo de queixa humana. 
     - Nunca ouviram falar em almofadas, ser que imaginam que eu seja provida o suficiente com minhas prprias almofadas naturais? - ouvem-na zurrar. - Depois de 
todas estas dcadas elas tendem a se desgastar, devem saber. 
     Almofadas so encontradas. Ela  elevada por vrios dos empregados, almofadas so inseridas debaixo dela e  ento recolocada na cadeira. Sorri palidamente, 
como se um pouco de conforto humano para o seu traseiro seja o melhor que pode esperar em sua idade provecta. S quando  suprida com um leque oriental e uma mesinha 
suportando uma taa de cristal com vinho do Porto - do qual nunca tomar um gole a noite inteira -  que ela olha ao seu redor e diz "Philippe!" e se torna aparente 
que seu sobrinho ou afilhado ou seja o que for vinha se portando por trs dela com tato e discrio. 
     - O prncipe de Marsillac! - grita a rainha honorria de Frana, e levanta a taa. A boa gente de Haarlem fica congelada, pois desconhece o protocolo. 
     - Ao prncipe! - exorta Maria de Medici, agitando o brao direito num gesto entusistico. 
     - Ao prncipe - replicam fracamente aqueles mais perto delas enquanto outros mais distantes dizem impetuosamente: - Ao prncipe! 
     Ele se adianta uns poucos centmetros, faz uma pequena mesura, que podia passar por uma estirada para ajudar a digesto de algum bocado mais pesado de empado 
de porco. Todas as cabeas se esticam, inclusive a de Iris, para ver o prato do dia. 
     Possui uma aparncia bastante forte, um pouco esguio na coxa, mas talvez seja devido ao esquisito corte francs das calas ou  tonalidade pouco masculina do 
tecido - ou ser aquele verde uma espcie de cor real? Seu nariz tem o empinado e a consistncia gauleses, como o leme de um barco. Seu lbio superior carnudo franze 
de um modo que provocar horas de discusso - alguns o consideram fraco, outros, encantador. Mas seus olhos compensam quaisquer outras deficincias; as Iris so 
de um cinza ptreo e brilhante, como papel marmoreado iluminado por trs. 
     Heer Pruyn e sua esposa quietamente organizam uma amostra de feminilidade para Philippe de Marsillac. A senhora Pruyn seleciona uma jovem, como se estivesse 
selecionando uma ma rubra ou um peixe odoroso na feira, e traz a pea escolhida  sua presena, quando heer Pruyn assume e faz as apresentaes. O prncipe se 
posta como um verdadeiro cavalheiro, com uma mo virada elegantemente s suas costas com a palma para fora. A outra mo ele estende para tomar a mo da donzela apresentada, 
erguendo-a aos seus lbios para beijar e ento devolvendo-a  dona. A multido ao redor do prncipe est em silncio, ouvindo os dilogos polidos e afetados, at 
que a rainha honorria arrota sem pedir desculpas e comea a tagarelar com aqueles ao seu redor, com o que os convidados reaprendem a conversar, a tagarelar e a 
mexericar, e deixam o prncipe e seu colar de possveis noivas a ss. 
     - Estou preocupada com Margarethe - diz Iris depois de algum tempo. - Vamos sair  sua procura? 
     - V voc - diz o Mestre. - Eu no quero encontr-la. 
     - Venha, Ruth - diz Iris -, vamos dar um passeio e ver o que podemos fazer. 
     Coloca o brao entrelaado com o de Ruth, o que conforta a menina mais velha imensamente. Comeam a caminhar por trs da pequena orquestra, espiando por cima 
de ombros e alm de penteados,  procura de sua me. 
     Mas, antes de a terem encontrado, a senhora Pruyn est subitamente do seu lado. 
     - Preciso de vocs duas - diz meio sem graa. - Sero perfeitas a seguir... 
     - Ns realmente no queremos conhec-lo - diz Iris. - No h necessidade. Estamos aqui s para observar... 
     - Oh,  o preo do ingresso, no sabiam? - diz a senhora Pruyn. - Estou fazendo o meu trabalho como anfitri, por isso deixem-me agir, no paream to alarmadas! 
Sei quem voc , a jovem que arruma o estdio do Mestre Schoonmaker! Alguma pretenso de talento, dizem? Bem, eu sei ver cor e forma e a arranjo como num bal, e 
o contraste de voc e de sua irm  justamente o que eu preciso neste instante. Podem vir como um par, se quiserem, se sua irm  to desajeitada assim, mas devem 
vir, pois no aceito uma recusa. 
     - Por favor - diz Iris -, estamos procurando nossa me... 
     - A nova senhora Van den Meer, sim - diz a senhora Pruyn secamente. - Estava resmungando algo sobre seus olhos, e vendo diabretes e animaizinhos do inferno 
por toda parte onde olhasse. Mandei uma criada com ela ao andar de cima para colocar uma compressa fria na sua testa. Est descansando seus olhos doentes e, pelo 
que sei, est roncando pelo resto da festa. No sou eu quem vai acord-la. H tempo de sobra para isso.
     A senhora Pruyn no quer deixar Iris embromar, nem Ruth se afastar. No h nada a ser feito a no ser seguir a anfitri atravs do salo at onde Philippe de 
Marsillac est com um ar fatigado e a rainha honorria, atrs dele, est pegando nozes de uma bandeja. 
     - Endireitem a espinha, olhem-no nos olhos, falem quando se dirigir a vocs e faam uma mesura quando ele lhes der boa-noite - murmura a senhora Pruyn. - O 
resto depende de vocs. Aposto que uma nica frase  o que vo ganhar. Ele no  do tipo falastro. 
     O alvoroo de sedas rosadas e de risadas flautadas  sua frente some e o salo se abre. Philippe de Marsillac tem a boa educao de no deixar cair o queixo 
ou recuar diante da viso de Iris ou Ruth, embora haja apenas uma leve contrao num lado do seu rosto, um bocejo abafado  a noo mais generosa, mas talvez seja 
um riso contido. 
     - E, Sua Alteza, permita apresentar-lhe as irms Van den Meer - diz heer Pruyn. - Residindo h pouco na Holanda depois de terem passado a infncia nas terras 
baixas da Inglaterra. 
     - Irms - diz o prncipe, como se nunca tivesse encontrado o conceito antes. 
     Iris acena brevemente com a cabea, sem saber se ele est se dirigindo a Ruth e a ela ou se as est avaliando. 
     - No ouvi seus nomes, senhoritas Van den Meer? - diz ele. 
     - Esta  minha irm Ruth, senhor, e eu sou Iris.
     Em ingls ele diz: 
     - E vocs duas, meninas inglesas, esto aqui num baile na Holanda para conhecer a rainha honorria de Frana?
     Em ingls, Iris responde: 
     - Somos parte holandesas, senhor, e estamos aqui para conhecer o afilhado casadouro da rainha, quer queiramos ou no. 
     Ele joga a cabea para trs e ri - uma risada curta e abafada, mas uma risada mesmo assim -, e a conversa num raio de dois metros silencia. 
     - Deve ser to agradecida de falar um pouco de ingls comigo quanto o sou de falar com a senhorita - diz ele. - Sou capaz de dobrar minha lngua em francs, 
espanhol, latim e ingls, mas todas estas slabas contundentes do holands do  minha lngua uma dor de cabea. 
     - No pretendo ser grosseira - diz Iris, ruborizando. - o senhor tem uma tosca jovem inglesa do campo  sua frente; por favor, perdoe-me. Eu no conheo os 
costumes desta terra. 
     - Est aqui h to pouco tempo para achar os costumes holandeses peculiares? 
     - Sou jovem o bastante para achar a vida peculiar - responde ela. 
     - E sua irm? Fala por ela? 
     - Ela no fala. 
     - Ela  muito esperta, ento, pois a mulher que no abre a boca para falar no pode ser reconhecida como uma megera, uma bruxa, uma mexeriqueira ou uma resmungona. 
     - So estas as nicas carreiras abertas para ns? - diz Iris. - Se forem, eu deveria encerrar a conversa agora mesmo e seguir em frente. Um voto de silncio 
no faz mal a ningum. 
     - At que a barra de sua saia pegue fogo e voc precise chamar algum para trazer um balde - diz ele, achando-se divertido. 
     - Minha barra de saia no tem se aproximado do fogo ultimamente - diz Iris com sinceridade. - Minhas irms cuidam da cozinha. 
     - Suas irms? Voc tem mais alm desta? 
     - Tenho outra, uma meia-irm... 
     - Onde est ela? Faa-a se aproximar... 
     - No pde vir. Algum precisava ficar e cuidar do dono da casa, que est adoentado.
     - Ah - diz o prncipe. - E no que se ocupa enquanto suas irms trabalham tanto? 
     - Oh, senhor, venho tentando aprender a desenhar, com a esperana de ser aprendiz num estdio... 
     O prncipe ergue uma sobrancelha. Vistos assim de perto, seus olhos so cor de avel e cinza, com uma coroa de verde na borda exterior da ris. Com interesse 
ele comenta: 
     - Ento o que dizem dos holandeses  verdade! Cada peixeiro e fazendeiro deve ter pinturas em suas paredes e at o sexo frgil deve tentar sua mo com o pincel! 
Voc  sem dvida talentosa... 
     - Ainda no talentosa, mas talvez um pouco corajosa. - Ela se sente corajosa em dizer isso. 
     - Gosto de estudar pinturas tambm - diz o prncipe. - Os mundos que elas mostram, os mundos interiores e exteriores.  o que me liga a minha ilustre madrinha. 
Eu no esperava conhecer uma jovem de mrito... 
     - O senhor provavelmente no conheceu tal jovem ainda - diz Iris, e se corrige -, isto , eu sou uma nova inexperiente. Mas adoro olhar e ver o que  mostrado. 
     - O que  mostrado e o que  ocultado. 
     Iris no sabe como ver o que est oculto. Faz um gesto de incerteza. O prncipe comea avidamente: 
     -  minha crena, e no sei se a senhorita concordaria, que toda pintura de interesse encerra um reservatrio escuro, uma sombra, uma poa, um recesso, e aquela 
poro de sombra representa... 
     A voz grasnante de Maria de Medici ergue-se atrs dele numa tosse. Ele suspira e se recompe. 
     - Acho que estou sendo encorajado a continuar meu exame das mais belas mulheres do pas. Espero que no fuja da festa cedo demais. Vai haver dana, depois que 
eu tenha resistido s apresentaes. A senhorita  encantadora e eu gostaria de ter a oportunidade de continuar praticando meu ingls.
     - O senhor deveria praticar a sua arte de mentir, pois no sou encantadora e o seu ingls  mais elegante do que o meu. Mas seja como quiser - diz Iris, mentindo 
para si mesma, pois a ltima coisa que vai querer fazer nesta vida  danar com um prncipe numa reunio pblica. - Existem mulheres muito mais bonitas do que eu 
esperando a sua inspeo, acredito, por isso vou me despedir agora. 
     - Mais bonitas, talvez - diz o prncipe -, mas muito holandesas. 
     - Algumas delas falam francs - diz Iris. - Deve ter aprendido isto. 
     - O francs me lembra de minha prpria casa - diz ele. - No quero estar nem em casa nem aqui, mas em algum outro lugar. O ingls  uma lngua que tem um ar 
diferente nela. E eu gosto da Inglaterra. 
     - Conhece a Inglaterra, minha Inglaterra? - diz Iris. 
     Ela estava para se afastar levando consigo Ruth, que est fortemente corada, mas subitamente a idia de que o prncipe conhece algo sobre aquele espao alm 
da sua memria em branco  arrebatadora, dolorosa, e exige um prosseguimento. A sombra escura que ele v nas pinturas... 
     - Campos verdes, colinas que voc pode escalar; as florestas, os pntanos; conheo a Inglaterra quase to bem quanto conheo a Frana, eu acho... 
     - Colinas! - diz Iris. - Oh, poder subir uma colina de novo...! 
     O senhor Pruyn est cutucando as costas de Iris. Ela faz a sua mesura. 
     - As chapadas gredosas, conhece-as? Conto em continuar nossa conversa... - diz o prncipe. 
     - Minha filha, Gabriela Pruyn - comea heer Pruyn. E Iris v que ela e Ruth, com sua feira foram exibidas primeiro para proporcionar o mximo contraste possvel 
com a prpria filha dos Pruyn, que veio a seguir. Heer Pruyn empurra para a frente uma jovem atarracada, maquiada para se parecer com um cisne recheado.
     O msculo da face do prncipe se contrai de novo, mas ele mal formulou uma palavra de cumprimento quando h um ligeiro mas palpvel silncio na multido e sua 
cabea gira com a dos outros para ver. 
     - Oh - diz Iris, segura e annima uma vez mais nos cantos cheios de gente, agarrando a mo de Ruth -, ela chegou!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Clarissa de Arago
     
     
     
     
O
 silncio momentneo cede a uma pequena excitao de sussurros quando Clarissa Santiago de Arago - Cinderela, sua prpria Clara van den Meer - d dois passos salo 
adentro. 
     Ela disse a Iris que espera chegar sem ser notada, mas no h nada que Clara possa fazer sem ser notada, mesmo estando to disfarada por um vu como est. 
A luz de velas de todos os lados do salo proporciona um fundo dourado incandescente enquanto ela d uma parada. Tenta deslizar para trs das fileiras dos cidados, 
mas eles se postam sempre de lado, como se tivessem um dever de revelar esta estranha aos seus honrados convidados estrangeiros. 
     No final seus passos vacilam e, embora fique imvel com a cabea abaixada, to longe no interior da alcova quanto consegue chegar, nem por isso  menos radiante. 
     Mesmo antes que Iris possa sussurrar a Ruth "Lembre, ns no vamos falar uma palavra com ela!", o burburinho comea. Clara  de longe a criatura mais bonita 
na sala. Heer Pruyn endireita suas costas e joga os ombros em alinhamento e, ao atravessar o aposento, sua esposa segue atrs dele com as mos apertadas respeitosamente. 
Suas palavras de apresentao so quietas e se perdem no zumbido dos mexericos, sem dvida porque ele est tentando esconder o fato de que no reconhece a mais encantadora 
das convidadas. Mas  um homem do mundo e, parece, de honra. Se determinou que Clara est presente sem ter sido convidada, no o revela. Toma sua pequenina mo branca 
na dele e a conduz atravs da pista at onde a rainha honorria de Frana e o prncipe de Marsillac esto  espera. 
     - Clarissa de Arago - diz ele. 
     - No conheo nenhuma Clarissa de Arago! - diz a rainha-me, seu rosto cado subitamente parecendo avivado com o prazer de ser desconfiada.
     Iris observa Clara se esforar para ganhar o controle de sua voz. Finalmente, diz: 
     - Eu a conheo, Sua Alteza. - Faz uma mesura com um gesto deliberadamente lento. - A minha  uma famlia pequena e agonizante, e fui criada nos Pases Baixos 
depois das lutas. 
     - Voc parece loura como uma dinamarquesa por trs desse vu ou o vinho do Porto teria me deixado tonta? - indaga a rainha-me. 
     - Minha me era do Norte - diz Clara. - Sinto-me mais  vontade aqui na Holanda, onde posso falar a lngua dela. 
     Iris se movimenta para poder ver Philippe de Marsillac. O prncipe parece que foi fulminado por um raio. Toda a descontrao e facilidade que demonstrou em 
sua conversa com Iris h pouco - o dilogo mais longo que manteve desde que entrou no salo - o abandonaram agora. No est corado, ou plido, mas ostenta um ar 
dourado. Seu rosto parece refletir os arcos no rgio tecido do vestido de Clara. 
     - Enfeitiou o meu sobrinho - diz a rainha-me. - Retire seu vu, minha boa senhorita, e vamos ter um convite prprio. 
     - No posso - diz Clara. 
     - Por favor, conte-nos - diz a rainha-me. Ela inclina o queixo para Clara, o que parece um sinal de que deseja que a sua espinha acompanhe o queixo, mas, como 
a sua espinha  fraca, valetes se adiantam logo e gentilmente seguram seus cotovelos e a impulsionam para a frente. - Estou muito interessada. 
     Iris no consegue ouvir a resposta que Clara d, mas sabe que deve ser "Estou pagando uma penitncia" ou palavras parecidas. Uma desculpa aceitvel para usar 
um vu numa sala quente e uma mensagem de que Clarissa de Arago  catlica. Clara van den Meer, naturalmente,  calvinista de nascimento, e isso tira da sua pista 
os concidados curiosos, caso algum suspeite de que ela  uma mulher local... 
     - Um rosto to jovem e bonito, mesmo escondido como est, no pode ser a mscara da iniqidade - diz a rainha-me. -  preciso ser velha e retorcida como um 
pernil de carneiro cozido, como eu, para merecer tal penitncia. Posso ver que seus cabelos so maduros como o ouro de Creso mesmo por baixo do seu vu.  uma Diana 
diante de ns. Por favor, deixe cair o vu! 
     - No queria discutir mais esta questo - diz Clara. 
     - Ento, vamos a uma dana? Vamos v-la danar! J que o rapaz est com a lngua presa pela primeira vez esta noite! - grita a rainha-me e eleva sua mo rechonchuda. 
     Heer Pruyn faz um gesto para o primeiro violino da pequena orquestra e uma vivida giga se inicia. 
     - Por favor - diz o prncipe -, queira me dar a honra. 
     - Nada me agradaria mais - diz Clara -, mas eu no posso. 
     - Mais penitncia? - murmura a rainha. - Que fascinante. Eu mesma sou bastante chegada ao pecado. Mantm ocupado meu confessor, negociando com o cu em meu 
favor. 
     - Um... tornozelo torcido - diz Clara. - Eu ca quando descia da minha carruagem. Ainda estou me recuperando. Eu deveria sentar-me, peo licena para me retirar 
agora... - Sua voz est comeando a acelerar; ela no est  altura desta charada. 
     Iris no consegue acompanhar mais a conversa, pois um toque no seu ombro a faz virar-se. Caspar est ali, em roupas amassadas mas decentes, mal distinguveis 
do garbo dos empregados. 
     - Como foi que entrou aqui? - diz Iris, to alarmada quanto satisfeita. 
     - Eu me fiz passar pelo valete da princesa. Espere at lhe contar! 
     - Conte, conte...
     - O odioso Nicolaes van Stolk chegou em casa no momento em que Clara subia na carruagem. Conseguiu ver a barra de sua saia dourada enquanto ela fechava a porta. 
Chamou-a familiarmente: "Clara!" Ele gritou: "Clara!" Em sua voz gutural, todo como um marido, possessivo e terno. Mandei o cocheiro seguir em frente e subi no banco 
traseiro para cuidar de Clara. Mas eu a podia ouvir, ofegante, murmurando baixinho uma nica frase, repetidamente... - Ele se curva sobre Iris. - Ela dizia: " o 
corvo!  o corvo!"
     Iris no entende, inicialmente, e Caspar no pode explicar. Mas subitamente, ao ver Van Stolk na porta do salo chegando sem convite, o malcriado!, ela fica 
sabendo o que Clara pensa: que ele  o esprito-pssaro, aquele que a raptou e transformou num duende. 
      o que Clara pensa. Pode estar enganada. Aconteceu h dez anos ou mais; como pode se lembrar de uma voz durante dez anos? E, embora prepotente e presunoso, 
Van Stolk  um slido burgus na sbria Haarlem. Como poderia ser ele? 
     Acusando Van den Meer de especulao e depois colhendo os esplios ele mesmo... 
     Clara pode estar enganada, pensa Iris, mas deve estar apavorada, de qualquer maneira. Iris vira-se e d uma olhada atravs do salo. Clara est tentando afastar-se 
do prncipe, faz mesura uma segunda vez, e uma terceira, puxando o vu mais para perto do rosto. O prncipe v aquilo como um jogo e a est provocando com cortesia 
e respeito. Iris se aproxima o quanto pode e passa por ela sem a encarar, mas consegue sussurrar em seu ouvido: 
     - Cara e brava irm, Van Stolk chegou, mas voc no deve se apavorar... 
     Clara gira e faz o impensvel: apanha a mo do prncipe e murmura algo para ele. Sem uma palavra, o prncipe de Marsillac escolta Clara at um lado do aposento. 
Abre as portas de um outro salo e a conduz para dentro dele. A porta se fecha firmemente atrs dos dois. 
     Iris procura Caspar de novo. Van Stolk estava esquadrinhando o salo de baile. Com toda aquela multido,  capaz de no ter visto Clara e o prncipe. Mas ele 
avista Caspar e comea a abrir caminho atravs da aglomerao at ele. Iris chega l primeiro. 
     - Est vindo no seu encalo - diz ela. - Ele vai inferniz-lo para descobrir se aquela era Clara! No deve saber.  melhor voc sair. 
     - No posso deix-la aqui sozinha - diz ele. - Rpido, vamos danar, a orquestra vai comear. 
     - No sei danar - diz ela. 
     - Claro que sabe,  a coisa mais fcil do mundo. Tenho pernas como pinos de boliche e consigo danar ento simplesmente me siga e faa o que eu disser. 
     - Caspar! - grita, mas ele a rebocou at o centro da pista e eles caem em seus lugares nas fileiras paralelas, homens e mulheres diante uns dos outros. Van 
Stolk fica para trs, sem parceira,  espera. 
     Rodopiando, Iris v que a rainha honorria foi removida para um canto distante do salo e o senhor e a senhora Pruyn se postaram de p um de cada lado dela, 
segurando elegantes velas de cera de abelha em castiais de prata que combinam. Os Pruyn parecem um par de candelabros humanos. A rainha honorria crocita: 
     - Um baralho, uma mesa e um parceiro! - e tudo  encontrado para ela em questo de minutos. 
     A introduo musical chega ao fim e os instrumentistas esperam o movimento da batuta para dar incio a um novo compasso. A dana ento comea e exige toda a 
concentrao de Iris para acompanhar os movimentos da mulher ao seu lado. 
     Iris v o Mestre na extremidade mais escura do salo, rodando com a pobre Ruth nas sombras debaixo da escadaria. Ruth no tem nenhuma noo de ritmo ou graa, 
mas seu rosto est aberto de jbilo e ela parece a danarina mais natural no salo. 
     Os passos so difceis de aprender, mas eles se repetem e, embora Iris no tenha queda para proezas atlticas, pelo menos consegue acompanhar a dana. Quando 
se acostuma aos passos, v que pode observar os outros danarmos. Com vexame percebe que eles so principalmente convidados de Haia ou de outros lugares. A maioria 
do aptico povo de Haarlem fica nas laterais, exibindo a carranca com dignidade. 
     Iris tambm consegue observar Caspar, que est sorrindo para ela sempre que seus olhos se encontram. No tem muita certeza do teor exato da sua campanha, mas 
pelo menos sabe que esto trabalhando juntos. Ela lembra a observao dele, talvez para Clara: "Confio que no vai casar com o homem errado." Que homem  aquele? 
Ele quis possivelmente se referir a si mesmo? Mas, a acreditar em Margarethe, ele no est interessado em casar com nenhuma mulher. Ento por que estaria sequer 
danando com ris? Porque ela tem um aspecto to comum que se parece mais com um menino do que com qualquer outra coisa? 
     Quo odiosos os pensamentos que podem nascer no seu corao, mesmo num salo iluminado por velas, com msica e dana! Iris no consegue nem olhar para Caspar 
agora, no tanto por raiva ou remorso, mas por vergonha do seu prprio cime inflamado. 
     Ela pensa em vez disso em Clara, seqestrada numa sala lateral com o prncipe visitante Philippe de Marsillac. E Iris est aturdida. Sente a surpresa e o deleite 
diante da competncia de Clara. Henrika, abenoada seja, havia feito muito pela filha, mesmo conservando-a em recluso como uma flor de estufa! Mas Iris tambm sente 
um aguilho de outra espcie, pois no havia esperado nem se encontrar com o prncipe, nem gostar dele. Ela apreciou realmente a sua companhia, ou foi falar em ingls, 
ou simplesmente falar de pintura, ou o sbito surto de nostalgia da terra natal que irrompeu nela quando ele mencionou os pntanos? Os pntanos inundados, o homem 
morto flutuando, sem ser enterrado, sem ter prestado confisso... 
     Os gritos na noite, as batidas  porta, as palavras no escuro... 
     Fugindo na chata sobre campos pretos vtreos, Margarethe encapuzada e sem rosto sob o luar...
     Ela no pode, ela no pode. No vai se permitir estas lembranas. Pensa com sbita fria em Clara. Que mudana! A to alardeada timidez de Clara no a impediu 
de ser levada at o prncipe, nem a impediu de se dirigir  rainha honorria com esperteza e cortesia. E ento Clara desaparece como uma cortes atrs de portas 
pintadas de branco e realadas em dourado. 
     Fui enganada, pensa Iris. Sim, tropecei numa pequena oportunidade de alcanar a felicidade e numa nica noite preparei uma armadilha para mim mesma e fiquei 
presa nela. Quem poderia ter adivinhado que o prncipe me acharia divertida? Mas Clara  capaz de caridade apenas para consigo mesma, como sempre foi o caso. 
     A msica no termina um pouco antes do previsto. Iris se desvencilha da mo de Caspar e se perde num ajuntamento de vizinhos s gargalhadas. Deixa Caspar lidar 
com Van Stolk como quiser. Iris nunca pensou que chegaria sequer a conversar com o prncipe, mas tinha conversado, e ele gostou dela - gostou dela! -, e ela est 
perdendo o prncipe, assim como est perdendo Caspar, para a jovem mais bonita da Holanda. 
     Diz para si mesma: Oh, cuide-se, para que a prpria Margarethe no surja no seu peito! E subitamente a ausncia de sua me este tempo todo parece mais do que 
peculiar;  perturbadora. 
     Ela v que o Mestre ainda est cuidando de Ruth. Este lado ento est coberto. Com ousadia Iris sobe as escadas at a galeria e pergunta onde poderia encontrar 
Margarethe, que est repousando seus olhos. A empregada diz que Margarethe havia realmente mergulhado num sono profundo, agitado por contraes e espasmos. Mas ela 
acabou de acordar e desceu pela escada dos empregados, no fim deste corredor, para dar uma olhada na sala de exposio, embora ningum devesse entrar ali antes que 
a rainha-me de Frana abrisse as portas principais e entrasse no aposento. 
     Iris explica que sua me est adoentada e precisa de cuidados, ento ela vai descer pelas escadas dos fundos e levar sua me em segurana a um local apropriado. 
     A sala de exposio  estreita, mas comprida, e as longas paredes opostas so rompidas em cada lado por trs janeles cortinados com veludo. H velas fixadas 
em castiais dispostos em intervalos, mas ainda no foram acesas, por isso a maioria das pinturas, nas paredes e em cavaletes, e algumas pousadas sobre mesas baixas, 
so meramente retalhos de sombras desfocadas. Mas na extremidade da direita uma pintura refulge numa mancha de luz mbar. 
     L est Margarethe, parada diante da pintura da Jovem com Tulipas, segurando uma vela diante dela, espiando atravs de olhos turvos. 
     - Est tentando colocar fogo na coisa? - pergunta Iris.
     Margarethe se vira. 
     - Oh,  a rainha de Frana em pessoa - diz ela, ressentida. 
     - Mame - diz Iris. - O que est fazendo? 
     - Estou olhando para entender qual  a verdade desta pintura - diz Margarethe. - Ser possvel que meus olhos tenham ficado to incrustados com a feira a que 
foram expostos que no sei apreciar a beleza que todo mundo me diz encontrar aqui? 
     - Fala com sinceridade? - diz Iris. 
     - No sei o que poderia ser maravilhoso nesta pintura - diz Margarethe. 
     - A senhora tomou partido contra Clara, ento como poderia amar o seu retrato? - diz Iris. 
     - No entende o que estou dizendo - fala sua me. - Estou tentando lhe explicar. O que me perturba, nos poucos momentos calmos em que no estou me preocupando 
em alimentar a mim mesma e a minhas filhas feias,  que a vida arrancou de mim qualquer capacidade de reagir  beleza do mundo. No tenho certeza de que cheguei 
a possuir algum dia esta capacidade, mesmo quando criana. Seja a Jovem com Tulipas - continua - ou este retrato de um burgus, ou aquele estudo de uma criada adormecida, 
ou at mesmo a luz que derrama sua fria luz neste assoalho. No derivo nenhum prazer de qualquer destes efeitos. Olho para eles friamente e sem interesse. Sero 
meus olhos, me pergunto, ou ser minha alma que est machucada? 
     - Mame - diz Iris. 
     - No lhe ocorre s vezes a idia de se matar? - diz Margarethe. - Se voc perdeu a capacidade de reagir ao que deixa as outras pessoas tontas e apalermadas, 
voc  mais forte, por causa disso, ou mais fraca? Eu pude durante muitos meses, at anos, erguer a minha espinha porque a vida era contra mim, e eu me recusava 
a ser vencida por ela. Mas qual  o sentido se at as prprias filhas que estou tentando proteger se insurgem contra mim e o prprio marido que lutei tanto para 
desposar se tornou um idiota que s fala sandices? O mundo gira ao meu redor e o seu barulho  cada vez maior  medida que a viso que tenho dele deteriora. E vejo 
pequenos demnios nos cantos da sala. 
     - Mame - diz Iris. - No estamos em guerra contra a senhora... 
     - E aqui - diz Margarethe, voltando-se para a pintura -, aqui est a tola Clara, e qualquer rainha honorria que enxergar este feixe de esplendor fsico ir 
perguntar sobre a modelo. Teremos emissrios do louco prncipe Philippe  nossa porta em pouco tempo para convid-la a comparecer e ir para a cama com o prncipe 
antes que ele morra de tuberculose, ou seja, l o que ele tiver... 
     - Que bobagem  essa? - diz Iris. 
     - Acha que um almofadinha to bem nascido precisa ir  caa de noivas entre as filhas de comerciantes da Holanda? - diz Margarethe. - Apesar de todo o seu amor 
 aparncia das coisas, voc  realmente to cega que nunca pensa? No h uma mulher do seu nvel que se casaria com o homem, por mais bonita que seja sua testa 
ou por mais satisfatria que seja sua tcnica no quarto de dormir! A rainha honorria est jogando um jogo com almas desesperadas como ns, sabendo que pode acenar 
com certa quantidade de riqueza e privilgio para conseguir uma noiva capaz de conceber um filho antes que o pobre prncipe obscuro caia de suas pernas podres e 
expire! Ver um marido morrer antes de voc mesma no  uma coisa to ruim, Iris, supondo que ele esteja bem situado para mant-la sustentada para... 
     Jack Fischer no era um homem pobre exatamente, e a famlia tinha o seu chal, mas ainda assim teve de fugir... 
     - ... o status de um prncipe que tem o bom senso de morrer cedo que poderia ser o mais glorioso casamento que uma donzela determinada e sem recursos poderia 
esperar! 
     Margarethe sorri. 
     - A senhora est realmente louca - diz Iris. - Est mentindo. Ningum seria to insensvel. 
     - Olhe para mim - diz Margarethe, segurando a vela diante do seu rosto - e pinte o que voc v aqui, minha querida. Como a me, tambm o mundo. Ai de mim! 
     - Est aqui para queimar a pintura - diz Iris - e est parada a juntando a coragem para fazer isso. D-me esta vela. Fiz o que me mandou. Falei com o prncipe. 
Ele no  maluco. Chegamos a falar at da Inglaterra. Eu at que gostei dele.  a senhora que est maluca, inventando histrias de esquemas to fantasiosos. Afaste-se 
dessa pintura. D-me a vela, eu disse. 
     - Ele  um rapaz bastante bonito, concordo - diz Margarethe. Com um suspiro ela entrega a vela para a filha. - Seria difcil fazer melhor, minha querida. Voc 
poderia ter um filho dele e cuidar do seu beb, de sua irm deficiente, de sua me, de seu padrasto aturdido, at mesmo de sua meia-irm reclusa. Podia fazer tudo 
isso. Eu lhe dei a luz. Use-a para ver da melhor maneira possvel. 
     Afastando-se da pintura, Margarethe diz: 
     - Fiquei aqui e olhei para ela tanto tempo quanto pude agentar. Nada posso saber a respeito dela. Sero meus olhos ou ser minha alma que est machucada, eu 
lhe pergunto de novo. Eu mataria a menina se isso nos fizesse algum bem. Eu me mataria pelas mesmas razes. Estou cansada demais desta vida difcil. E os miserveis 
dos gnomos que se retorcem debaixo de meus ps a cada passo!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
Meia-noite
     
     
     
     
E
 ento o relgio bate, marcando a hora em que a rainha honorria de Frana ir examinar o trabalho dos melhores artistas de Haarlem e talvez selecionar o homem que 
a retratar no seu leito de morte.
     Iris apagou a vela e deixou-a sobre uma mesa lateral perto das portas da sala de exposies. Ento seguiu a me at o salo de baile. 
     Numa sala lateral com as portas ligeiramente entreabertas, a rainha honorria refugiou-se com os Pruyns. Ela tagarela de um modo desconexo e belisca um prato 
de amndoas. 
     Nicolaes van Stolk se foi e Caspar parece ter desaparecido tambm. 
     Da sala em que o prncipe se recolheu com Clara, as portas permanecem fechadas, exceto uma vez, quando um lacaio se aproxima com uma bandeja trazendo duas taas 
de cristal e um decantador com algo dourado. Iris no consegue ver sobre os ombros das pessoas que espiam pela porta, mas se passam apenas alguns momentos antes 
que oua o comentrio de que o prncipe retirou uma das sapatilhas brancas da donzela. Ele foi visto de joelhos diante dela, acariciando o belo tornozelo que sofrer 
a tal luxao. As notcias de tal indecncia empolgam os cidados de Haarlem, j que a donzela culpada de tal licenciosidade no  uma donzela local e portanto no 
pode impugnar a celebrada moralidade de Haarlem. 
     
     
     Iris sai  procura do Mestre e de Ruth. Esto sentados do lado de fora no ar quente, observando as estrelas. 
     - Encontrei mame, pode acreditar nisso? - diz Iris. - Estava olhando a Jovem com Tulipas  luz de uma vela.
     - Espero que coloque fogo nela - diz o Mestre. - Embora aqui existam ninhos de cegonhas no telhado para proteger contra raios, incndio criminoso e o acidente 
avulso de cozinha, portanto imagino que o fogo no pegaria.
     A boca de Ruth cai de alarme e cuspe rola por seu rotundo lbio inferior. Iris ataca: 
     - Pare de dizer isso, o senhor me aborrece! No quer ver sua pintura destruda! 
     - Talvez queira. Ah, quem sabe o que queremos? Somos todos mistrios, at para ns mesmos. Vai acabar aprendendo isso, minha menina. Vai aprender, vai mesmo. 
     E Iris sente que aprendeu, que o mistrio est em si mesma. O diabrete do episdio  ela mesma. Afinal, foi ela quem instou Clara a sair da sua priso e vir 
ao baile, para atrair o prncipe e salvar a famlia, ainda que admitisse isso a Clara ou no. Foi ela quem serviu como o agente bem-intencionado da esperana. E 
agora  ela quem est sendo punida, por conhecimento de si mesma e pela perda do prncipe. 
     - O que voc quer, minha querida? Notei sua conversa amistosa com nosso convidado de honra. Voc estava marcada para ser a garota mais amaldioada de Haarlem 
at que a estranha de Arago entrou na sala. Agora ela parece ter capturado o prmio. Espero que no esteja desapontada demais, Iris. 
     - Desapontada? - Iris esperava que o sentimento no aparecesse.
     - Est desapontada? 
     - Ele foi modestamente divertido - diz ela, encolhendo os ombros. 
     - Veja como todo mundo ainda est olhando para voc. 
     - Certamente que no! - Ela est horrorizada. 
     - Por que certamente que no? - replica ele. - Olhe s o que eles vem. A jovem menos suscetvel de interessar algum, sendo apenas parcialmente holandesa, 
e tendo apenas recentemente chegado a esta cidadezinha fechada e tacanha. No entanto, voc ergueu bem o queixo, respondeu a ele numa lngua que poucos de seus vizinhos 
podem entender. Voc  misteriosa e atraente. Alm disso, faz o que poucas outras jovens fizeram:  uma aprendiz ocasional do pintor que poder ser o ltimo retratista 
de Maria de Medici, rainha honorria de Frana.  ainda to jovem que no consegue ver algum mrito em si mesma? 
     - Eu com o meu nariz como uma cenoura de primavera, eu com os meus braos como palitos e meu peito pequeno e indistinto... 
     - Voc, voc, voc - diz ele - no  apenas o que aparenta. No  pintora suficiente para perceber isso ainda? At Caspar parece cado por voc. 
     - Oh, Caspar - diz ela sem dar muita ateno. - Quem  capaz de saber a respeito dele! 
     - O que h a saber a respeito dele? - diz o Mestre, severamente.
     Iris sente-se fora de si, ela se sente irada, sente que  a filha de sua me. 
     - Dizem que ele no se interessa por meninas, por exemplo - diz ela, as palavras correndo juntas. 
     - Quem publica tal bobagem sobre o meu Caspar? - diz o Mestre. - Isso faria de mim um patife ainda mais interessante do que a verdade permite. 
     - Quem liga para quem falou?  do conhecimento comum - diz Iris. 
     - No comum para mim, e o rapaz morou na minha casa todos esses anos - diz o Mestre -, e o sangue do jovem sendo o que , duvido que eu teria passado por cima 
de tal questo. Agora me responda. Quem conta tais histrias? 
     - Margarethe, por exemplo - murmura Iris. 
     - Margarethe, e apenas Margarethe, tenho a certeza - diz o Mestre, e, refletindo, Iris tem de admitir que  verdade. 
     - Ento voc vem se apaixonando por Caspar? - pergunta o Mestre. - Eu devia ter visto. E nossa eterna conspiradora Margarethe no considera que tal unio atenda 
aos seus melhores interesses, uma vez que Caspar  apenas um rapaz pobre, um aprendiz de pintor, encardido como estreo. Acha que ela a quer ver ligada a algum 
com perspectivas to desoladoras? No  uma razo mais do que suficiente para ela espalhar escndalo e rumores sobre um rapaz inocente demais para se defender? 
     - O senhor  um pintor - diz Iris, estranhamente furiosa com ele. - No sabe ver como as coisas so, s sabe ver o que elas aparentam. 
     - E no  verdade que est zangada com ele por admirar a beleza da donzela de cabelos louros de Arago? - diz o Mestre. Empina o queixo para ela e sua barba 
amarelo-avermelhada tambm se empina. - Pense bem sobre as coisas, Iris. Se realmente acredita que ele esteja interessado por rapazes, por que deveria aborrec-la 
que ele, como todo mundo mais no salo, tenha seguido com os olhos a misteriosa beldade? Foi por isso que se desvencilhou dele no final da dana? Correu atrs de 
voc e no conseguiu ach-la de novo. Foi embora desalentado e, eu poderia acrescentar, com uma quantia nada pequena de desapontamento em voc. Receia que a tenha 
perdido para o prncipe. 
     - Ele no me perdeu, pois nunca me teve - diz Iris. - Alm do mais, o prncipe parece enfeitiado por Clarissa, como o senhor diz. 
     - Ah, Clarissa,  este o seu nome? - diz o Mestre. Olha para Iris. - Clarissa, a meia-irm loura de Iris van den Meer? 
     Ruth, sentada perto, coloca as mos sobre a boca, admitindo toda a histria. 
     - Sua boba, Ruth - grita Iris. - Agora, nem uma palavra, Mestre Schoonmaker, ou tudo sair errado para o senhor! 
     Ruth fica desolada com a bronca que levou, levanta-se e vai embora. Uma vez na vida, Iris no a acompanha para cuidar dela. Deixe que se arranje sozinha. 
     - A quem eu contaria e por qu? - diz ele. - Vai transpirar mais cedo ou mais tarde. Como os cidados vo mexericar, quando vierem a saber que foi sua prpria 
meia-irm quem atraiu o prncipe Philippe de Marsillac justamente quando ele havia comeado a se interessar por voc. 
     - Eu j lhe disse que o odeio? - diz ela. - Apesar de todo o esplendor com que realiza as coisas com tinta e na tela,  um homem frio. S quer ver e capturar, 
no dispensa nenhuma ateno a tornar as coisas melhores para ningum. Margarethe est certa. O senhor persegue a beleza errada. Descobri que eu tinha alguma chance 
de interessar quele prncipe por mim mesma e o senhor ri e zomba de mim por isso. 
     - Voc tem alguma chance de interessar Caspar o aprendiz e no presta nenhuma ateno a isso - diz o Mestre. - No vou ser acusado por voc, Iris. Voc  jovem 
demais para que suas crticas me atinjam. Deixe a histria acontecer do jeito que vai acontecer. 
     - No sei o que vai acontecer. As histrias no nos contam como as coisas se desenrolam realmente - diz Iris. - Pinturas e histrias so diferentes. Pinturas 
so estveis, imutveis, histrias convulsionam-se e mudam de rumo em suas revelaes. 
     - Nunca sabemos o que vai acontecer. Talvez o prncipe fique mesmo perdidamente apaixonado por Clara, sua prpria Cinderela!, e talvez a rainha honorria nesta 
mesma noite veja a pintura da Jovem com Tulipas e me escolha para fazer o trabalho mais significativo da minha carreira. Se eu for capaz de pintar algo melhor do 
que a Jovem com Tulipas, farei um trabalho digno de todas as eras. Estvel, imutvel e perfeito. Eu poderia morrer como um homem feliz. 
     - A pintura de Clara  uma pedra no seu caminho - diz Iris. - No vai ser capaz de pintar melhor do que ela. 
     - Agora est sendo ainda mais cruel do que de costume - diz o Mestre, complacente. 
     - Do que de costume? - diz ela. 
     - Voc  a filha de sua me, eu digo - ele prossegue -, embora tente em vo e de um modo notvel e honrado escapar a esta sorte. 
     - No h como escapar a isso - diz Iris. 
     - No h como escapar ao tormento de ter pintado a Jovem com Tulipas e t-la me perseguindo pelo resto da minha vida - diz o Mestre. - Mesmo assim, devemos 
tentar.
     Iris se pe de p e se vira. 
     - No sou cruel - diz ela. 
     - E eu - responde ele - no sou cego.
     
     
     Os relgios do salo batem o terceiro quarto da undcima hora. As mesas de comidas foram atacadas. Os destroos parecem o saque de Roma. Maria de Mediei parece 
ter quase pegado no sono e os convivas, intrigados, esto inseguros.  mais educado sair silenciosamente ou devem ficar at que ela acorde e possa se despedir deles? 
Os comerciantes que trabalham duro no esto acostumados a horas to tardias e mais de uma esposa de plpebra cada d um puxo no casaco do marido implorando que 
a leve para casa e para a cama. Mas esta noite nunca acontecer de novo e a maioria das famlias trouxe filhas ou sobrinhas solteiras a reboque. Ningum quer sair 
sem assistir ao espetculo at o fim. 
     Alm do mais, o prncipe e a misteriosa donzela de Arago ainda no emergiram do salo particular. Existem rumores de que uma escadaria secreta deve conduzir 
a um quarto de dormir no andar de cima. Do que os franceses so capazes! O escndalo  mais delicioso do que a comida. 
     Portanto,  uma espcie de alvio quando a rainha honorria emerge do seu cochilo e ordena que a ajudem a ficar de p. A orquestra embarca numa sarabanda, mas 
a rainha honorria faz uma carranca e o primeiro violinista corta a msica com um golpe de mo. Maria de Medici se apruma segurando nas costas de uma cadeira, ergue 
suas papadas rotundas e fala num holands pincelado afetadamente por um sotaque francs. 
     - Meu afilhado e eu estamos em dvida - diz ela -, pois a hospitalidade de Haarlem, representada pela famlia Pruyn,  digna de nota. Os afazeres de Estado 
e os afazeres do santurio e os afazeres do corao, acredito, esto todos entrelaados. Vocs me deram muito para pensar em minha senilidade. Mas agora sou uma 
velha mulher e deveria me recolher aos meus aposentos, para rezar e dormir, passando primeiro diante das pinturas reunidas no longo salo aqui ao lado. No me aborream 
com despedidas. Deixem-me dizer-lhes au revoir a todos vocs e agradecer-lhes por terem vindo. To cedo no esquecerei esta noite. 
     Os convidados acenam levemente com as cabeas e as mulheres mais jovens que se encontram mais perto da rainha honorria tm a presena de esprito de fazer 
uma mesura. Ela no lhes d ateno, mas se vira e caminha pesadamente ao longo do salo. Ela entrou nele com Philippe de Marsillac, mas o est deixando nos braos 
de heer e da senhora Pruyn. A implicao no escapa a ningum e o sentimento  exaltado. Certamente o prncipe deveria reaparecer e escoltar sua famosa madrinha 
na visita  galeria? Seria toda a movimentao desta noitada a troco de nada, para que uma donzela velada chegasse e arrebatasse o cavalheiro casadouro debaixo do 
nariz de todas as demais? 
     Mas, antes que a surpresa possa evoluir para murmrios de reprovao, as portas da galeria so abertas. A rainha honorria fica imvel, subitamente parecendo 
mais desperta, e  sua voz que diz a palavra na cabea de todos: 
     - Fumaa. 
     Imediatamente a sala mergulha no caos. Muitos dos homens se lanam  frente e passam pela rainha-me, para transpor a porta e avaliar o problema; as mulheres 
recuam, algumas delas correndo para a noite, deixando para trs suas capas e seus xales. Iris olha ao seu redor e, atravs da multido, v Ruth emboscada maciamente 
atrs de uma pilastra, roendo as unhas. Iris corre at a irm e diz: 
     - Venha, Ruth, no perca tempo. Mexa estes ps preguiosos.
     Ruth geme o som que, nos meses recentes, significou mame. Ela repete com urgncia: mame! 
     - Ela deve estar l fora, com certeza. Deve ter ido para casa - diz Iris, inventando coisas -, no devemos nos preocupar com ela. Rpido! Se h fogo e pegar 
nas madeiras do teto de assoalho, isto poderia se tornar um inferno em minutos. Os leos das tintas vo se inflamar... 
     Mame, diz Ruth, e ento o som que significa Clara!
     Iris d um tapa em sua mo e diz com rudeza: 
     - Calma, agora, vamos! Vamos agora! 
     Mas Ruth dispara atravs do salo para as portas fechadas da saleta privada. O empregado que cuidava da porta saiu para ajudar uma brigada de baldes que se 
est organizando. Ruth no espera que respondam, coloca seu amplo ombro contra a porta e empurra. Quando Iris chegou ao lado de Ruth, a irm mais velha forou a 
fechadura, fez em lascas o alizar e arrombou a porta. 
     - No! - diz Iris. 
     O prncipe est de p, parecendo um tanto amarfanhado e com os olhos embaciados, mas toma um p da situao imediatamente. Olha de Ruth para Iris e de novo, 
alm delas, para o amplo salo, v os convidados em pnico amontoados, caando membros da famlia, reclamando suas capas, pedindo ajuda. O prncipe atravessa o aposento 
como um dardo e coloca-se ao lado de sua tia. A rainha-me desabou numa cadeira e est sendo abanada pela senhora Pruyn, que grita um tanto desesperadamente: "Madame! 
Madame Maria!"
     - Exatamente o que eu preciso. A rainha honorria vai expirar esta noite antes que eu possa fazer seu retrato de morte - diz o Mestre, subitamente ao lado de 
Iris. - Vamos, saiam daqui enquanto podem, meninas. 
     Clara aparece na porta, ajeitando seu vu em pregas cuidadosas sobre o rosto e olhando de um lado para o outro. 
     - Vamos, vamos, saiam daqui todas vocs - diz o Mestre. - Como podem salvar as pinturas quando h todas essas pessoas com que se preocupar primeiro? 
     Ele as empurra em direo  porta, mas Clara parece relutante em se deixar na vaga dos convidados. Ela vira-se e desaparece de volta  saleta. Ruth geme de 
preocupao e a acompanha, e Iris, praguejando, faz o mesmo. Elas chegam a tempo de ver as barras do vestido dourado de Clara desaparecerem por sobre um peitoril 
de janela. 
     - Ela saiu pelo jardim - diz Iris. - Vamos segui-la? 
     Parece no haver muito mais a fazer. O Mestre virou-se e se juntou aos outros homens se acotovelando no longo corredor. Antfonas de alarme e instruo. O cheiro 
do fogo  rico, ranoso, e j o rugido das chamas  mais alto do que a msica que soava. 
     No final do jardim um porto de ferro leva para o ptio da frente e a entrada das carruagens. L Iris e Ruth juntam-se a outros convidados da festa, a uma distncia 
segura da manso dos Pruyn. Galgos esguios saltam, tropeam e atacam os calcanhares uns dos outros, e os cavalos atrelados s carruagens esto ariscos e precisam 
ser retirados do ptio imediatamente. Margarethe van den Meer est caminhando  margem da multido, tropeando sobre si mesma, tateando as sombras, gritando por 
Ruth e Iris. O brilho alaranjado crescente das chamas, j comeando a devorar a telhado de uma das alas, ilumina os homens carregando pinturas atravs das amplas 
janelas. 
     Subitamente Caspar est do lado delas. 
     - A obra do Mestre? - pergunta. - A Jovem com Tulipas? 
     - Onde foi parar? - diz Iris, agarrando-o pela manga. 
     - Suspeito que a pintura se foi - murmura Margarethe, olhando para as sombras. - Suspeito que se foi.
     Ruth irrompe em lgrimas, como se tivessem acabado de dizer que a prpria Clara havia desaparecido de uma vez por todas. 
     - Uma noite medonha - diz Caspar. Seu rosto est tenso, seus olhos indecifrveis. Corre para saber do pior e para ajudar onde possa. 
     Sem falar, Margarethe e suas filhas comeam a caminhar ao longo da passagem, procurando a sua carruagem para lev-las de volta a Haarlem. Iris e Ruth ficam 
de cada lado da me e juntam seus braos com os dela para que no tropece. Pela primeira vez em muito tempo, Iris sente o diabrete de novo, mais perto do que nunca. 
Mas agora ela sabe que no precisa espiar nos arbustos. Talvez - alm de um amontoado de galhos e folhas agitadas - ela pudesse ver a Rainha das Ciganas de Queixo 
Barbudo. Ou poderia ser apenas um arbusto sacudindo numa risada ao ver como as vidas humanas so to facilmente arruinadas. 
     Qualquer diabrete a ser encontrado est aninhado bem no fundo do seu corao.
     E  um lugar frio, o mundo, especialmente quando aquecido por um incndio criminoso.
     
     
     
     
     
     
Uma noite medonha
     
     
     
     
I
ris no pode se impedir de imaginar o som do fogo enquanto tenta dormir. A propriedade dos Pruyn est a quilmetros de distncia de Haarlem. Mas Iris  envolvida 
pelos sons sibilantes e pelos estalidos que vm das brasas na lareira da cozinha; em sua cabea tais rudos se transformam na runa das obras de arte e das casas. 
Ao lado dela, Ruth geme, infortnios em sonhos e talvez dores do gs provocados por toda aquela comida rica. 
     E Clara no voltou, embora Margarethe, por sorte, no pense em olhar para a garota no seu ninho de cobertas ao lado da lareira da cozinha. 
     Aonde ela pode ter ido, uma jovem criana num vestido adequado para qualquer corte da Europa? Todos aqueles quilmetros fora da cidade? E fora de casa, sozinha, 
ela que mal sabe aonde vai o fim da rua? Vrias vezes Iris se ergue sobre os cotovelos, saindo de sonhos, porque acredita ter ouvido uma fechadura abrir, um assoalho 
ranger. Mas sempre no  nada, e ela mergulha em suas confusas ansiedades, de novo e de novo. 
     Finalmente ela cai numa espcie de sonho acordado, um sonho estranho que se desdobra ainda quando ela pode sentir a moldura da fria cozinha ao seu redor. A 
gua longa e achatada, a noite enluarada, Ruth com tremores, Iris impulsionando a chata com o varapau e Margarethe com um xale escuro sobre a cabea... E o eco das 
acusaes que os aldees faziam quando batiam  porta. Bruxa, gritavam, Bruxa.
     Bruxa!
     Iris tem um novo sobressalto e se d conta de que foi despertada por um som real, no apenas um pnico de sonho. Ouve um passo no vestbulo, o farfalhar de 
um tecido. 
     - Clara - ela sibila, e enfia um atiador na lareira para reavivar o fogo para que a menina possa encontrar o caminho. 
     A luz que aumenta de intensidade revela Clara entrando em casa em seu vestido, arruinado alm de qualquer conserto, e Margarethe aproximando-se do corredor 
oposto, de camisola e xale, esfregando seus olhos doentes e espiando num estupor de sonmbula. 
     Iris pensa por um momento que  meramente outra onda de um sonho. Se ela a tratar suavemente, pode se transformar em algo mais suave do que ameaa. 
     - Venha para a cama, irm - murmura para Clara, cujo rosto, agora v, est escoriado de tanto chorar. 
     - Sou um fantasma em minha prpria casa - resmunga Margarethe. - Quem  esta que paira aqui? Algum inquilino que comprou a propriedade quando ns a vendemos 
para pagar nossas dvidas e nos dirigimos ao asilo dos pobres para morrer? Isso se passa anos  frente? Quem  voc, em sua indumentria dourada, gotejando gua 
da chuva no assoalho limpo? 
     - Mame - diz Iris, agora sentando-se aprumada na cama. Poderia a situao ser salva? -  um sonho. A senhora s est tendo um sonho. Volte para a cama. 
     - Podia ser Clara? - diz Margarethe, mas sua voz  abafada e vacilante, como se pensasse que poderia realmente ser um sonho. - Clara transformada num anjo? 
Ou  Henrika? Que voltou para me perseguir por meus pecados? 
     - Henrika, ento - diz Iris, adiantando-se, como se Margarethe fosse uma besta selvagem a ser apanhada... a raposa na armadilha... 
     - Henrika de volta do tmulo para me assolar com histrias das minhas maldades,  isso? - diz Margarethe. Seus olhos esto se apertando contra o pouco de luz 
que existe. - Ou seria a filha triste e bonita que ela deixou para trs e que est empenhada em arruinar as nossas vidas? 
     - Deixem-me em paz - diz Clara -, deixem-me sair destas roupas terrveis, deixem-me voltar para as cinzas s quais perteno... 
     - Mas as roupas so como um garbo de anjo - diz Margarethe, e s ento Iris se d conta de que Margarethe, de todos os convidados do baile dos Medici, no viu 
a chegada ou a partida de Clarissa Santiago de Arago. Margarethe resmunga: - Ento Henrika volta  cena do seu crime, para acusar uma pobre dona de casa de t-la 
envenenado, mas por que deveria se queixar? Olhem s o vale de lgrimas do qual eu a liberei! Eu a soltei da sua armadilha, eu assumi o seu fardo, uma pequena colherada 
na medida certa da tintura certa na ocasio certa e sua escritura junto a este embate mortal  paga e seus grilhes retirados! Se ela veio me acusar, deixem-na que 
concorde em trocar de lugar comigo! Pois se sua morada agora  o inferno, ela se colocou ali por suas prprias aes, e se as minhas sero as mesmas, deixem-me chegar 
l na primeira oportunidade e reclamar um local confortvel entre as cinzas e as brasas da grande lareira de Lcifer! J existem muitos de seus esbirros me atormentando 
nos meus calcanhares e em meus olhos... 
     - Mame - diz Iris -, a senhora est delirando no seu sono, no deve dizer tais coisas... 
     - Chegou o dia do fogo e do enxofre? Chegou o dia em que chovem brasas ardentes. Eu vi o rosto da Jovem com Tulipas coroado de chamas! - grita Margarethe no 
apenas com triunfo, mas com terror. - Henrika, eu a levei ao seu tmulo, mas no destinei sua filha s chamas. Outra mo que no a minha incendiou aquela beleza. 
     - Eu no sou Henrika - diz Clara, desvencilhando-se de sua mantilha. Ela cai, uma pilha franjada de rendas molhadas. Ela luta com os botes do seu vestido e 
rosna com Iris: - Vai me ajudar ou preciso dormir de p esta noite? 
     - Esta no pode ser Clara, ela desapareceu nas chamas - diz Margarethe.
     - Ela escapou por uma noite - diz Clara. - Deixou seu lugar junto ao fogo e veja onde  que ela foi parar! Meus pais estavam certos ao me manterem fechada 
em casa, pois  para isso que fui feita! 
     Iris est do seu lado ento, ajudando com os botes, beijando o pescoo molhado de Clara, acalmando-a, antes que mais seja dito que no possa ser retirado. 
     - Clara no teria desobedecido a meus desejos e escapado para o baile? - diz Margarethe. - Isso no pode ser possvel. 
     - Clara foi olhar para o mundo uma vez mais e uma vez mais ela paga o preo - diz Clara friamente. 
     - Parece ser a garota mesma, emergindo com pernas midas de um vestido de esplendor impossvel - diz Margarethe. Est cantarolando para si mesma como divagando 
num sonho opiceo. Logo Ruth acordar e ficar aterrorizada com o som do murmrio antimusical de Margarethe. - Onde poderia ter conseguido tal vestido, eu me pergunto? 
     - Rezei para o esprito de minha me morta - diz Clara -, e ela saiu da tlia na forma de um tentilho verde e derrubou o pacote. 
     - Para se vingar de mim - diz Margarethe, olhos fechados. - Um tentilho verde. Um pssaro com o rosto de uma mulher. Na prtica da distribuio de arenques, 
eu deveria ter sido mais generosa com os gatos. 
     Clara sai do vestido, que desaba numa massa ensopada. Com um grito sbito ela faz uma trouxa com ele e o joga na lareira, mas em vez de queimar, ele apaga o 
que restava do fogo. O aposento cai na escurido. 
     - E como podia uma Cinderela ir at um baile desses? - pergunta Margarethe com slabas temperadas. 
     - O esprito de minha morta me me mandou apanhar uma abbora da horta e, com a mgica que vem do alm-tmulo, ela o transformou numa carruagem - diz Clara. 
     -  um esprito capaz aquele que pode treinar uma abbora de outono de um jardim ainda no plantado com sementes da primavera - diz Margarethe. - E suponho 
que transformou em cocheiros os ratos que roem o resto de nossos bulbos de tulipas.
     Clara no responde. Fica de p com um sapatinho branco e um amontoado de roupas de baixo em desordem. 
     - Voc perdeu um sapato - diz Margarethe -, e vejo uma mancha vermelha em seu calo. No  uma marca de tinta a leo, acredito. 
     Clara chuta o sapato que restou. 
     - Existem algumas paredes que, uma vez quebradas, nunca mais podem ser reconstrudas - diz Margarethe. - Um sapatinho de cristal, uma vez quebrado, no pode 
ser consertado. Uma mo, uma vez envenenada, no pode ser ressuscitada. O clice da virgindade, uma vez esvaziado, no pode ser novamente cheio. Ah, prender um tentilho 
numa armadilha numa tlia e arrancar suas asas, ainda que o seu rosto humano continue a gritar! 
     Iris v que est mordendo as juntas dos dedos. No pode estar ouvindo isso. Os gritos que acusavam sua me de bruxa se encontram to perto da verdade. Nas sombras 
Iris estende uma mo para trs na parede a fim de se apoiar. 
     - Eu no sou nada - diz Clara, como falando consigo mesma. - Deixem-me em paz. 
     Tira o resto das suas roupas e fica de p tremendo no escuro, nua como uma criana, mas no mais uma criana. 
     - No quero ser tocada, nem segura, nem censurada, nem lembrada. S quero que as cinzas me escondam. No quero nada de prncipes e do pblico, no quero nada 
de domesticidade e cozinha. Deixem-me em paz. Deixem-me perecer com alguma dignidade. 
     - Ela j pereceu - diz Margarethe afastando-se da cozinha. - Eu mesma a coloquei na sepultura. Por que os mortos no aprendem a segurar suas lnguas?
     
     
     
     
     
     
O segundo sapatinho
     
     
     
     
A
s irms dormem juntas, quando conseguem dormir finalmente, e os sonhos que anteriormente assolaram Iris seguem por meandros e ento param. Todos os seus pesadelos 
se tornaram realidade. Nenhuma palavra  dita sobre o prncipe ou sobre o odor sussurrante de lcool que Iris pde sentir no hlito de Clara. Nem uma palavra sobre 
o que aconteceu na saleta ou sobre as horas desde que Clara fugiu da casa dos Pruyn pela janela lateral. 
     A nica observao que Clara faz  que a velha senhora de bengalas a conduziu em segurana at sua casa. 
     Quando a luz da manh comea finalmente a surgir atravs das frestas da veneziana, projetando listras finas no cho, Iris, remexendo-se na cama, decide que 
para cada alma humana deve seguramente existir uma infncia possvel que valha a pena ser vivida, mas assim que ela se foi, no h meio de recuper-la ou de corrigi-la. 
Mesmo atravs do ato de pintar, ela pensa. Mesmo transformando-a num conto de fadas para desnortear uma velha me estonteada pelo sono, no h como corrigir as mais 
tristes das verdades que nos cumprimentam todo dia quando acordamos. 
     Aqui est Iris e o dia sobre ela de novo. Ruth se agita e geme, faminta pelo contato animal da pele quente que Iris h muito tempo superou. No andar de cima, 
Cornelius van den Meer est gritando para que esvaziem o urinol. Clara j est diante da lareira. Apanhou o vestido e o pendurou num cabide de gancho, mas existe 
meia dzia de manchas chamuscadas na saia, para no falar de fuligem e lama. 
     - S nos restam umas ltimas batatas tenras - diz Clara numa voz sem emoo. - Mas o ltimo punhado de farinha para um po matutino foi deixado intocado pelos 
camundongos, pois eles j abandonaram a casa em busca de melhores perspectivas. 
     -  uma manh maravilhosa - diz Iris. - Admita isso. 
     - Oh, ningum vai tirar a maravilha de uma manh - diz Clara. - A beleza do dia  a nica coisa que no fenece com o tempo. Dia aps dia, esta beleza revive 
a si mesma.
     Antes que Margarethe desa, para comear qualquer campanha destinada  sua sobrevivncia que ela possa inventar a seguir, Clara esconde o vestido dourado num 
guarda-roupa e chuta o sapatinho branco para debaixo de uma arca. As prolas e os brincos que Caspar penhorou para o emprstimo de tal vestido agora so irrecuperveis. 
Sem uma palavra entre elas, Clara e Iris comportam-se como se a noite anterior nunca tivesse acontecido, nem a incrvel visita de Clara ao baile, nem a entrevista 
de uma Margarethe entorpecida pelo sono com as duas. 
     Todas tomam um pequeno caf-da-manh juntas. Margarethe parece novamente a mesma de sempre, embora cheia de observaes custicas. As quatro mulheres bebem 
gua quente misturada com um modesto bocado de mel, e Margarethe diz finalmente: 
     - S temos um pequeno tempo at que nossos credores venham sobre ns  cata de pagamento. Se voc aceitar Van Stolk em casamento, Clara, deve estar preparada. 
Ou se tivermos de ir para o asilo dos pobres, devemos ir como pessoas decentes. Clara, quero que se lave e vista uma saia decente. No, no discuta comigo. Chegou 
a hora de pagarmos o que devemos. Iris, faa com que Ruth se limpe bem e guarde seus pertences pessoais embrulhados num cachecol. Eu vou ficar no banco na frente 
de casa, pois no quero que digam que enfrentei a adversidade com menos coragem do que enfrentei o sucesso. 
     Iris no consegue olhar para Clara. H Gerard van Antum, o negociante de roupas, que precisa ser pago, e, pior ainda, o terrvel Nicolaes van Stolk, a quem 
a casa ser entregue. Margarethe deixou implcito que cada um foi escolhido como possvel pretendente a Clara. E Iris dever ser oferecida ao perdedor, seja quem 
for? No importa a disposio de Clara. Ela estaria em condies de se casar agora? Se deixou de ser virgem, isso far alguma diferena? Margarethe pretende atormentar 
Clara com perguntas sobre a noite passada? 
     Mal acenaram com a cabea para a sombria aceitao de suas tarefas quando se ouvem batidas  porta. Margarethe endireita a espinha e ajusta a touca na cabea. 
     - Iris - diz ela. - A porta, por favor. 
     - Ainda no tive tempo de colocar roupas de manh adequadas... 
     - Cubra-se com uma capa e, rapidamente, faa entrar o visitante, 
     Iris faz o que  mandado, fechando o rosto para no trair nenhum interesse pela chegada triunfal de Van Stolk. Quando destranca a porta, pisca para a luz do 
sol. S depois de um momento percebe que  Caspar de p na entrada.  difcil reconhec-lo de incio, no por causa do sol, mas porque ele no est sorrindo para 
ela. Seu rosto tem a dureza de um carvalho. Iris sente um calafrio percorrer seus ombros e pousar dedos espectrais na sua nuca. 
     - Bom-dia - diz Caspar e posta-se de lado. Atrs dele esta Philippe de Marsillac, numa capa de um vermelho cortante, as bochechas coradas de uma caminhada vigorosa. 
- Vamos entrando - diz Caspar, quase rudemente, e ele atravessa a porta. Iris fica reduzida a segurar a porta e, apertada contra a parede, consegue apenas fazer 
uma pequena e ineficaz mesura. 
     - No estvamos esperando visitantes esta manh - diz Iris, em correntes cruzadas de sentimento ao ver Caspar e o prncipe juntos. 
     - Encantado de estar aqui - diz o prncipe. - Encantado de aceitar a sua hospitalidade. 
     No h nada a oferecer em matria de hospitalidade, nada de nada. At a ltima batata tostada foi amassada e comida. 
     - Vou chamar minha me - diz Iris. - Por favor, queira esperar no salo... - e ela escapa para a cozinha. Sua me nunca chegou a deitar os olhos no pretendente 
potencial na noite anterior, Iris  capaz de derivar algum pequeno prazer em dizer para ela: 
     -  apenas o prncipe.
     Margarethe se pe de p imediatamente, rodopiando. 
     - Clara! Corra ao vizinho e pea uma cesta de po e queijo! Traga tambm um garrafo de cerveja e o que mais ele puder emprestar! Ele veio, ele veio, e nem 
tudo est perdido! Corra!
     Uma vez na vida Clara no se insurge contra a madrasta. Tropea pelas lajes do piso da cozinha e zarpa atravs da porta sem olhar para trs. 
     - Meninas - diz Margarethe -, venham agora, venham rapidamente comigo at o salo. 
     - Mal estamos vestidas para receber a realeza - tartamudeia Iris. 
     - Cada segundo conta. Faam o que eu digo. 
     Margarethe  como um navio cujas velas recebem o vento de novo depois de um ms de calmaria. Corre para a frente da casa com os ombros para trs e o queixo 
empinado. Ruth enfia as mos atrs das costas e choraminga levemente. Iris no tem tempo de ser gentil. Simplesmente agarra o cotovelo de Ruth e a puxa consigo. 
     - No existe surpresa como uma surpresa completa - est dizendo Margarethe, numa conversa ftil. - Estamos honradas alm da nossa capacidade de nos expressar. 
Com que propsito o senhor nos visita to cedo numa manh de primavera? 
     Oferece uma cadeira ao prncipe, mas ele no a aceita. Em vez disso, caminha pela sala num estado de excitao, enquanto Margarethe se apia contra um aparador 
e repousa as mos atrs de si para que parem de tremer. 
     Iris observa os dois homens da sua vida: o prncipe que se dignou a falar com ela como uma pessoa e o aprendiz de pintor que danou com ela apesar dos olhares 
de reprovao dos seus concidados. Ela se v perdida em meio a desejos conflitantes, mas a presena de cada homem tende a calcular uma contra a outra. No fim, parece 
apenas cansativo que estejam os dois aqui ao mesmo tempo, no emocionante. E Caspar est com um rosto to fechado hoje, um olhar extremamente brutal e cauteloso. 
     - Existem segredos nesta casa - diz o prncipe. - Estas paredes encerram as respostas ocultas a muitas perguntas. Isso foi o que meu jovem amigo aqui me prometeu. 
Mas no tenho nenhum talento para investigao, por isso devo perguntar-lhe sem mais delongas: tem algum conhecimento da proprietria deste sapatinho? 
     Ele acena com a cabea para Caspar, que tira de um saco de couro a sapatilha que Clara deixou para trs na sua fuga. 
     - Meus olhos j no so o que eram antigamente - diz Margarethe. - Deixe-me peg-lo para que possa entender.
     Ela apanha o sapato, olha atentamente para ele e diz: 
     - Mas, claro,  meu. Como o encontrou?
     O prncipe no lhe responde.
     - Algum em sua casa costuma cal-lo de vez em quando? - pergunta ele.
     -  possvel - diz Margarethe -, se ela o fizesse para agradar a um prncipe. Deseja que a minha Iris o calce para o senhor? Iris, coloque seu p no sapatinho 
e mostre ao prncipe o tornozelo delicado que voc tem. 
     - No h necessidade - diz Iris. 
     - Faa o que eu digo - fala Margarethe. 
     Iris apanha o sapato com um gesto muito abrupto e coloca seu p nele, mas embora ele caiba da ponta dos dedos at o calcanhar,  estreito demais. No d forma 
ao sapato nem cabe nele de modo aconchegante. - Est vendo? No cabe direito, mame - diz Iris. - Tal exerccio! No fui feita para sapatilhas delicadas como esta. 
     - Ento Ruth vai experimentar, se  uma dona do sapato que procura - diz Margarethe. 
     Ruth tem grande dificuldade para obedecer, mas finalmente se agacha no cho e aceita o sapato. O prncipe est observando com olhos atentos e uma expresso 
inescrutvel. Os ps de Ruth so imensos, e todo o exerccio  sem sentido e insultuoso. Mas Ruth tenta enfiar o sapato no seu p, fazendo caretas com o esforo, 
no porque o sapato no entra, mas porque seus dedos esto feridos. 
     - Ah - diz o prncipe. - Olhem para as mos da donzela. 
     Ruth coloca as mos atrs das costas e o sapato que no lhe coube cai ao cho. 
     - Deixe-me ver - diz o prncipe. - O que eu preciso ver, deixe me ver.
     Ruth no obedece. 
     - Que tipo de malcriao  esta? - grita Margarethe. - Ruth, mostre ao bom senhor seus belos dedos ou vou dar-lhe uma coa daquelas! 
     Chorando subitamente, Ruth estende as mos  sua frente. Dois dedos da mo direita esto inchados com bolhas brancas. 
     - Onde arranjou essa queimadura? - pergunta o prncipe. 
     - Ela no pode responder ao senhor - diz Margarethe. - Ela  tmida. 
     - Ela  principalmente muda - diz Iris. - Sua lngua  torcida no fundo da garganta onde se liga com a sua mente. 
     - Um acidente de cozinha? - pergunta o prncipe. 
     - Precisamente - diz Margarethe. - As bolhas cicatrizaro rapidamente. 
     - Ou uma vela acesa deixou cair sua mecha mal aparada sobre voc quando estava queimando a pintura de Mestre Schoonmaker? - diz Caspar. 
     Margarethe fica de queixo cado e Iris sente seu corao desabar dentro de um abismo. Tudo agora est perdido, ainda mais, parece, do que na noite anterior. 
Cada criatura com sangue em suas veias  um traidor,  um dos erros de Deus. Margarethe deu veneno  sua empregadora? Ruth, Ruth, colocou fogo na obra-prima de Schoonmaker? 
Caspar lanou suspeita e o peso da lei sobre suas amigas aterrorizadas? E a prpria Iris tambm colaborou, encorajando Clara a comparecer ao baile sem permisso. 
     No sobra ningum para se apresentar e agir em contraste  traio, para dar a ajuda que se faz to necessria. Ningum. 
     Ruth deixa cair o rosto nas mos e chora com ruidosos bufos animalescos entremeados de catarro. 
     - Eu lhe disse que a sua iniqidade  profunda - fala Caspar. - Esto embriagadas com estranhas histrias de malcia, todas elas. Por seu cime arruinaram a 
maior obra do meu Mestre e provavelmente sua carreira tambm. Para no falar do seu corao partido. 
     - Vocs sero chamadas a prestar contas, pagaro por isso e sofrero - diz o prncipe. - Alertei o schout de Haarlem sobre a suspeita que cerca esta casa e 
vou testemunhar aos governadores da priso em relao ao pranto confessional desta jovem. O prejuzo causado! No s  sua prpria famlia,  honra dos Pruyn e aos 
nervos da rainha honorria de Frana, mas tambm  pintura em si, que, segundo todos os relatos, era uma obra-prima. Eu s queria saber - continua ele - como se 
pode ter cimes de uma pintura. Quem poderia ter plantado raiva to severa em seu peito?
     Ningum fala.
     Atrs deles, ouvem-se passos no cho da cozinha e ento Clara entra no salo com uma cesta de po. 
     - O que a senhora pediu a senhora recebeu - diz Clara, colocando a cesta sobre a mesa. - Po, um pote pequeno de manteiga, algumas conservas e um pouco de queijo. 
     - Outra donzela da casa - diz o Prncipe, e ento, olhando para Iris, lembrando -, sua meia-irm, aquela que cuida da cozinha.
     Iris assente com a cabea. 
     - Vamos faz-la experimentar o sapatinho - diz Margarethe agitada, talvez para desviar a ateno do prncipe das fungadas de Ruth. 
     - No h necessidade: o sapato era apenas uma artimanha para que me abrissem a porta - diz o prncipe. - Uma artimanha, eu vejo, que nem precisei encenar.
     Mas Clara adiantou-se e apanhou a sapatilha do cho onde havia cado. Ela a coloca e fica de p com o queixo erguido.
     Iris adivinha que Caspar, em sua raiva diante da destruio da pintura do Mestre, e possivelmente da sua carreira, no se deu ao trabalho de contar ao prncipe 
que Clarissa de Arago  realmente Clara van den Meer. Iris v o prncipe olhar para Clara com surpresa. Mais de uma histria se junta a. 
     Do lado de fora, um banco de nuvens passa lateralmente e mais luz da primavera penetra na sala. A luz cai sobre Clara, como sempre, como se tivesse viajado 
milhares de quilmetros do sol apenas com a finalidade de iluminar sua beleza. Ela est despenteada, com os olhos avermelhados, quase desmazelada em seu roupo, 
e mais esplndida de ver do que qualquer pintura. O prncipe diz dubiamente "Clarissa!", e d um passo  frente. 
     Clara recua meio passo, mas s meio passo. Suas mos se levantam para bloquear o dedo acusatrio do prncipe que aponta para a forma encolhida de Ruth. O gesto 
de Clara  um gesto de caridade, a nica beleza que tem conseqncia.  o bulbo em forma de cebola finalmente abrindo o seu boto perfeito. 
     - Proteja minha famlia do mal - diz ela -, e deixe tudo o mais correr  vontade. 
     
     
     
     
     
     
     
EPLOGO
     

Histrias escritas em leos
     
     
     
     
E
 assim as crianas brincam com a vergonha da nossa famlia como um jogo de rua. E Clara, nossa Cinderela, ou Menina das Cinzas, morreu, e todos estes velhos dilemas 
despertam em minha mente como se tivessem acontecido ontem. O que ningum diz aos jovens  para cuidarem bem das suas infncias. As memrias daqueles dias so as 
pinturas que mais ficam em nossa mente, s quais, com nostalgia ou pavor, devemos sempre voltar. 
     Caspar ouviu a histria e a contou para mim, e do modo como a conta eu desempenho um papel pequeno e tolo, e  assim que deveria ser. Mas eu no era to insensvel 
como ele me retrata. Eu era silenciosa, mas no sem graa. Era lenta, mas no vazia. Na noite do baile no fiquei roncando ao lado da lareira, e sim chorando silenciosamente 
da dor em minhas mos queimadas. Foi assim que entreouvi a conversa entre Margarethe, Clara e Iris, na qual Margarethe se traiu. 
     
     
     Clara veio ao meu socorro, justamente quando minha traio estava para derrubar nossa famlia. Eu no imaginava que ela fosse fazer aquilo. No acredito que 
teria posto o seu retrato em chamas se soubesse o rumo que os acontecimentos tomariam. Cinderela, Menina das Cinzas! Nunca vi a tela arruinada depois que lhe pus 
fogo; virei-me e fugi; eu nunca vi a menina mais bonita do mundo se tornar carvo, cinzas. Uma menina das cinzas de verdade. 
     Talvez, com a destruio daquela imagem perfeita dela, Clara tenha sido liberada de um dos muitos sortilgios que a tolhiam. L estava ela, diante de todos 
ns, grvida do filho do prncipe, talvez apaixonada por ele ou no - quem podia dizer o que aquilo significava, quando ramos to jovens e tolas? -, certamente 
ansiosa por escapar de uma casa em que soubera, na noite anterior, que a morte de sua me fora um assassinato. As noes que Clara tinha do mundo, nunca fceis de 
avaliar, ficaram ainda mais veladas a partir daquele dia. Mas ela foi levada  proteo dos Pruyn ao final do dia, prometendo, com lgrimas frias, cuidar de mim 
e de Iris a distncia. Como escolheramos cuidar de nossa prpria me, a pobre e m Margarethe, era problema nosso, e ela nunca mais perguntou por ela, em carta 
ou pessoalmente. 
     Se me perguntarem por que coloquei fogo na pintura, no estou segura de que possa responder com honestidade. Acho que eu sabia que o Mestre estava aterrorizado 
com sua obra-prima. E eu tinha minha parcela de orgulho e cime. Meus ouvidos funcionavam! Podia ouvir Margarethe me chamando de boi! E l estava Clara, preservada 
para a eternidade como um anjo. No fim, eu provavelmente desprezava a gloriosa tela, mas, dem-me crdito, eu tambm podia ver que Clara a detestava. Detestava e 
tambm temia que fosse um emblema com o qual o horrendo Van Stolk poderia possu-la. O estranho  que podemos nos lembrar do que fizemos, mas nem sempre de por que 
o fizemos. 
     Caspar sempre esteve apaixonado por Iris, desde o primeiro dia em que nos conheceu. Vingou-se de nossa famlia somente depois que soube pelo Mestre o que Margarethe 
vinha dizendo sobre ele. O perdo de Clara para mim fez muito para aplacar a raiva de Caspar em defesa do Mestre. E Caspar agiu certo ao ser paciente consigo mesmo. 
Com o tempo ele se tornou um bom marido para Iris, enquanto ela pintava ao seu lado, e s vezes sob o seu nome. 
     Agora Caspar cuida devidamente de sua cunhada feia. Continua a me levar  capela quando eu peo,  campina quando eu preciso, ao estdio quando quer minha companhia 
para que possa se impedir de mergulhar na melancolia, sentindo a falta de Iris. 
     
     
     Ela est na minha mente, alvoradas cinzentas e crepsculos enevoados; ela  s vezes Iris, a criana fantasiosa, e outras vezes Iris, a filha-de-sua-me combativa, 
arrogante, raivosa, que podia se mostrar em sua vida adulta. E a mais forte tambm, eu acrescentaria, em funo da vida mais rica que queria viver. 
     Iris era sobrecarregada por suas fantasias. Durante anos ela insistiu que podia se lembrar da noite em que deixamos a Inglaterra. Os aldees tinham vindo em 
bandos de saqueadores ao nosso chal, na extremidade da cidade, onde vivamos melhor do que ordenhando vacas. Haviam batido na porta e acusado Margarethe de bruxaria 
selvagem. Disseram que ela havia invocado a lua cheia, que havia chamado as mars altas, que havia rompido os diques com sua malignidade. Era uma bruxa, e no estava 
isso claro? Vejam s a filha feia que ps no mundo, grande como uma placa de granito, sem graa e muda. Iris demorou a perceber que, quando Margarethe mencionava 
que nossa famlia era assolada por um diabrete, ela se referia a mim - a sua maldio, o seu fardo. Iris tinha uma natureza bondosa demais para assimilar isso. Ela 
inventou um diabrete de fora, um primo distante, quando j tinha uma irm. 
     Ela gostava de olhar, mas no para o lado mais duro das coisas. Raramente prestou ateno no meu papel na histria de nossa famlia. Eu havia prejudicado os 
olhos de Margarethe com pimenta vermelha, eu havia queimado a pintura, eu havia me recolhido para dentro de mim mesma mal-humorada, me fingindo de idiota como a 
besta que me julgavam. No, eu no era m, mas eu tinha cime de tudo: da incrvel aparncia de Clara, do talento de Iris, das atenes de Caspar para com ambas. 
Iris nunca viu que, de certo modo, eu pertencia  galeria dos erros de Deus. 
     Iris alegava lembrar-se de como fugimos daqueles campos inundados de nossa infncia, voltando para a Holanda, onde a famlia de Margarethe poderia nos acolher. 
Mas como Iris podia se lembrar disso? Era noite, e ns estvamos adormecidas, e os sonhos atormentam as crianas. 
     - Quer descobrir com toda a certeza? - Iris disse para mim certa vez. - Aborde nossa velha me antes que ela morra. Faa a ela uma pergunta. Pergunte a ela 
como sabia que Jack Fisher estava morto. Ela s ouviu os aldees se gabando disso. Nunca esperou para procurar o seu corpo. No se deu ao trabalho de enterr-lo 
se preciso fosse, ou de traz-lo de volta  sade se pudesse. Ela deixou a Inglaterra sem um nico momento de hesitao. Pelo que sabemos, ele no flutuou l, um 
corpo inchado nos pntanos inundados. Pelo que sabemos, ainda est vivo e ela se nomeou viva por medo e desespero. No lhe pergunte se era uma bruxa, ou se  uma 
bruxa agora, ou se tem lembrana de que envenenou Henrika para que pudesse se casar com Van den Meer. Pergunte apenas como ela sabe com certeza que Jack Fisher estava 
morto na noite em que fugimos para salvar nossas vidas. 
     
     
     Nunca perguntei isso a Margarethe e nunca vou perguntar. A coisa velha tem mil anos de idade e se recusa a morrer, embora seus prprios diabretes ainda se contoram 
a seus ps e mastiguem seus calos. Sei que Margarethe confessou ter matado Henrika, mas naquela noite famosa Margarethe estava parcialmente adormecida, num estado 
de agitao em meio a um sonho. Margarethe seria realmente capaz de tal crime? No tenho dvida. Chegou realmente a comet-lo? No sei, e no quero saber. Provavelmente 
ela o fez, mas de que nos adiantaria saber com certeza? Nem ris nem eu mencionamos sua confisso noturna a Papai Cornelius, e o casamento de negcios entre ele 
e Margarethe conheceu tempos quietos a partir de ento. 
     No vou perguntar a Margarethe sobre aqueles tempos antigos. Nem vai ris fazer perguntas sujas como essas. ris morreu h muito tempo. Morreu relativamente 
jovem, mas no sem algum destaque. Com o dinheiro fornecido por Clara, ris pagou o aprendizado no estdio de Pieter van Laer. Teria gostado de ser aprendiz com 
Judith Leyster, a brava pintora de Haarlem, mas Judith se casou com Molenaer e se mudaram para Amsterd. O talento de Iris talvez no estivesse na pintura, como 
ela sempre pensou. Mas ela adorava olhar - isso nunca mudou - e falava muito, e contava histrias. No posso pensar numa nica pintura dela que eu admire. Admiro 
apenas o fato de que pintou todas elas. 
     Margarethe nem admirava, nem desprezava o trabalho de Iris, sendo cega. 
     
     
     O Mestre no se recuperou do seu choque. No final, com a perda da sua Jovem com Tulipas, sua reputao ficou de fato diminuda. Ainda  mais conhecido como 
o Mestre do Retbulo de Dordrecht do que como Schoonmaker, pintor de gnero. Quando morreu, Caspar assumiu o aluguel da sua casa e do seu estdio. Creio que as pinturas 
na Galeria dos Erros de Deus foram todas jogadas numa fogueira. De face para baixo, para que ningum pudesse presenciar a viso daquelas miserveis criaturas torturadas 
pelas chamas, como suas vidas deviam ter muitas vezes parecido. Que possam descansar em algum canto annimo do jardim do Paraso!
     
     
     A rainha honorria de Frana, para alvio da senhora Pruyn, recuperou-se do seu ataque de nervos e seguiu em frente para viver mais alguns bons anos.
     
* * *

     Para nossa surpresa, Papai Cornelius tambm se recuperou, na mesma proporo da recuperao da sua renda. Vale dizer, Clara manteve sua palavra e encontrou 
meios de canalizar dinheiro da Frana para restaurar pelo menos um pouco do dinheiro que seu pai devia. Tambm os astutos holandeses aprenderam a regular a indstria 
das tulipas e a proteger os poucos ativos que haviam restado para aqueles cujas finanas corriam perigo. Com o tempo, o mercado melhorou e Papai Cornelius de novo 
prosperou, mas no desenfreadamente, estando sujeito s restries do governo ao comrcio da tulipa. 
     
     
     O prncipe de Marsillac sucumbiu a uma sfilis ou tuberculose, conforme Margarethe havia previsto - o exemplo solitrio de um mexerico passado adiante por ela, 
em vez de invent-lo para os seus prprios fins. Deixou Clara com dois filhos e uma renda slida de propriedades na Frana. Clara sobreviveu a sua beleza magnfica, 
como as mulheres devem, e em outro de seus acessos sbitos de angstia partiu para Nova Amsterd, do outro lado do cinzento Atlntico. Quem sabe que abelhes, corvos 
ou elefantas estavam  espreita para atorment-la! Foi de Nova Amsterd que veio a carta, de um pregador da colnia, para informar aos seus parentes que ela havia 
morrido e fora enterrada no cemitrio da igreja, com vista para uma baa substancial que abrigava navios da Holanda e de toda a Europa. Morreu de uma doena do corao. 
     
     
     E Van Stolk? A memria aqui se ofusca. Nunca chegou a possuir a casa dos Van den Meer, naturalmente. Imagino que envelheceu e foi morar com parentes. E nunca 
ficou claro para mim se foi o raptor da jovem Clara, ou se isso era apenas uma fantasia dela, uma cristalizao de seus terrores em relao ao mundo perigoso. Independentemente 
do resultado, seria aquele seqestro um ato premeditado, afinal, arranjado por causa da riqueza da sua famlia? Ou foi a inspirao de um momento, porque a criana 
era conhecida e adorada, e havia se perdido da sua famlia? E porque, com dinheiro ou no, ela devia ser esplndida de se ver, como as crianas podem ser.  idade 
de trs ou quatro anos, um tesouro de sorrisos, uma coroa danante de luz. Toda aquela ateno mercurial para o mundo! As crianas, como os artistas, gostam de olhar. 
     
     
     Corvos e abutres no ltimo andar, tentilhes no topo da tlia. Deus e Sat rosnando um para o outro como ces. Diabretes e fadas madrinhas tentando desfazer 
o mundo um do outro. Voc podia nascer como a senhora Handelaers de queixo de jumento ou a deslumbrante Clara van den Meer, a Jovem com Tulipas. Como tentamos imobilizar 
o mundo entre extremos opostos! E num mundo destes, como Margarethe costumava perguntar, qual  a utilidade da beleza? Passei minha vida cercada por pintores e ainda 
no sei a resposta. Mas suspeito, em alguns dias, que a beleza ajuda a proteger o esprito da humanidade, envolve-a em ataduras e a socorre, para que possamos sobreviver. 
A beleza no  um fim em si mesma, mas torna nossas vidas menos infelizes para que possamos ser mais generosos... Bem, ento, vamos ter a beleza, pintada em nossas 
porcelanas, pendurada em nossas paredes, soando atravs de nossas histrias. Somos uma triste tribo de bestas. Precisamos de toda a ajuda que possam nos dar. 
     
     
     Antes de partir para o novo mundo - um outro novo mundo! -, Clara voltou a Haarlem, para ver seu pai pela ltima vez. Margarethe no quis descer do seu quarto, 
alegando que a presena de Clara poderia restaurar sua viso, e na sua velhice preferia a cegueira. Papai Cornelius, no entanto, sentiu grande prazer com a posio 
elevada de Clara. Deleitou-se com seus netos e cobriu-os de beijos. 
     As crianas adoraram correr pelos galpes onde as novas tulipas estavam sendo cultivadas. Lembro-me de v-las uma manh. Brincavam de esconder. Estavam alheias 
a quaisquer diabretes das sombras, ou aranhas de queixos barbudos nos caibros do telhado. As crianas corriam pelos longos corredores formados pelas mesas toscas 
que suportavam grandes canteiros artificiais de flores. As novas plantas eram abundantes, fileiras de caules se eriando atravs do solo. Mal se podiam ver as cabeas 
louras das crianas num borro enquanto corriam. 
      Teria sido uma bela pintura, fosse algum escolher algo to prosaico para fazer um esboo. Outra histria, uma histria escrita em leos em vez de uma histria 
pintada em porcelana. Mas, para ser mais efetivo, os rostos das crianas precisariam ser pintados num borro, do jeito que todos os rostos de criana so na verdade. 
Pois ficam borrados enquanto elas correm; borram enquanto elas crescem e mudam to rapidamente; e borram para nos impedir de am-las profundamente demais, para sua 
proteo, e tambm para a nossa.
     
     
     
     
     
     
     
     
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